A importância do bem-estar no pré-abate de ovinos e caprinos

Publicado: 22/01/2014
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O manejo que antecede o abate dos animais de produção tem sido atualmente muito questionado por pesquisadores da área de bem-estar. Porém, há muito pouca informação e discussão acerca do deste assunto para pequenos ruminantes, o que leva muitos produtores a realizarem manejos pré-abate inadequados.

 

A criação de ovinos e caprinos de corte tem grande importância para a população rural de vários países do mundo, pois o elevado valor nutritivo da carne e a grande adaptabilidade desses animais fazem desse produto uma alternativa muito viável para a alimentação humana.

 

No mundo, abate-se em média 8,6 milhões de toneladas de ovinos. O Brasil contribui com 1,6% da produção, abatendo em média 400 mil cabeças por ano. Em se tratando de caprinos, o efetivo mundial é de 715,3 milhões de cabeças, abatendo-se 3,7 milhões de toneladas. O Brasil possui o 10º maior rebanho do mundo, com cerca de 8 milhões de cabeças, estando o Nordeste com 94% dessa quantidade.

 

A produção de carne ovina e caprina tem maior relevância nas regiões áridas e semiáridas, por conta da capacidade de adaptação dos animais, especialmente os caprinos. Por isso, esta produção ocupa um espaço no mercado não só no aspecto quantitativo e/ou qualitativo, mas também no aspecto social.

 

O fato de os animais se adaptarem bem a ambientes de clima quente e seco faz com que alguns produtores negligenciem os aspectos de bem-estar, não levando em consideração as necessidades de conforto térmico, de ambiência e de estresse causado por manejo impróprio e condições precárias de condução destes animais até o abate. Porém, a variedade de cortes comerciais e de outros produtos oriundos da produção (embutidos, couro e pratos típicos) provoca, aos poucos, um aumento na produção e no consumo, tornando o consumidor cada vez mais exigente e atento ao modo de criação destes animais.

 

Com esse panorama, os criadores se sentirão pressionados a serem mais criteriosos na seleção dos animais para o abate, na estocagem dos produtos e insumos utilizados na criação, na higiene das operações de abate, na comercialização e apresentação dos produtos e no abate propriamente dito.

 

O pré-abate e a insensibilização são momentos importantes no processo de produção, tendo em vista que são as etapas mais estressantes aos animais. Tal estresse pode comprometer, de forma significativa, a qualidade da carne. A seguir, serão comentadas as etapas do pré-abate para pequenos ruminantes, bem como seus principias pontos críticos.

 

O manejo pré-abate

Inicia-se com a escolha, separação e embarque dos animais na fazenda. É importante mencionar que um adequado treinamento dos manejadores é fundamental para que todo o processo ocorra tranquilamente, pois as consequências de um manejo agressivo podem ser vistos na carcaça em forma de hematomas e acabamento ruim, o que prejudica o aspecto visual da carne, levando a uma baixa aceitação por parte dos consumidores.

Nesse momento deve-se evitar gritaria, correria, utilização de cachorros e instrumentos que possam feri-los, como paus e estimuladores elétricos.

 

Seleção dos Animais

Deve-se escolher animais com bom Escore de Condição Corporal (o ideal é 3) e livres de enfermidades. Neste quesito, avalia-se a vivacidade, o aspecto do pelo (se brilhoso ou opaco), a mucosa ocular (indicativo de anemia) e indícios de diarreia. Assim, os produtores devem realizar um rígido controle sanitário do rebanho, fazendo-o por meio de calendários de vacinação, vermifugação, monitoramento, entre outros, orientados por um técnico.

Animais criados extensivamente tendem a ser mais estressados ao serem manejados. Isto ocorre por não estarem acostumados com a presença humana, sendo necessários contatos prévios com os manejadores para que, no momento da seleção e nas outras etapas que precedem o abate, os manejos possam ocorrer sem provocar estresse desnecessário aos animais.

É de grande importância mantê-los dentro de seus grupos sociais, para evitar competições por alimento, lesões por brigas (o que afeta a qualidade da carcaça) e outras injúrias. O produtor deverá, preferencialmente, separá-los por idade, categorias e raças.

 

Transporte

O transporte até o abatedouro deve ocorrer, preferencialmente, no período da manhã ou no final da tarde, buscando melhores condições de conforto térmico para os animais. O transporte mais utilizado para esse fim é o rodoviário. Para garantir o bem-estar deve-se evitar superlotação, caminhos muito longos e estradas mal conservadas. O motorista deve ser treinado para dirigir com cuidado, evitando causar contusões e lesões traumáticas aos animais. Ressalta-se que o veículo deve estar em boas condições, livre de estruturas pontiagudas e ásperas, o que poderá provocar arranhões e depreciar o couro.

Transportes mal sucedidos, geralmente, causam estresse aos animais, fazendo-os perder peso e ficarem mais susceptíveis a doenças. Ressalta-se que o desembarque deve ser feito de forma rápida e calma.

 

Jejum pré-abate e descanso

Recomenda-se o jejum hídrico e alimentar de 16h e 24h, respectivamente, em um local de descanso calmo e ventilado. Esta prática evita a contaminação da carcaça pelo conteúdo do trato gastrointestinal e facilita a evisceração.

O descanso está relacionado à recuperação das condições de estresse as quais os animais são submetidos antes do abate, pois qualquer reação decorrente do estado de tensão pode comprometer a qualidade da carne, reduzindo seu valor. Em viagens com mais de 36h, para que o bem-estar não seja comprometido, o jejum deve ocorrer na sala de espera do abatedouro, que deve ser arejada e coberta.

O aumento na busca por alimentos de origem animal de boa qualidade torna os consumidores cada vez mais exigentes na escolha dos produtos que consomem, fazendo com que pesquisadores e técnicos estudem meios para garantir a qualidade desejada. Assim, o bem-estar animal no pré-abate tem importância fundamental neste processo, sendo um tema diretamente relacionado às questões de redução de perdas e otimização de processos no meio rural.



***Texto originalmente publicado pelo site Portal Dia de Campo, na Coluna “Construções Rurais e Ambiência” em janeiro de 2012.

 
Autor/s.
Possui graduação em Engenharia Agrícola (2002) pela Universidade Federal de Lavras (UFLA/MG), mestrado (2005) e doutorado (2008) em Agronomia (Física do Ambiente Agrícola) pela Universidade de São Paulo (ESALQ/USP). Coordenador do NEAMBE - Núcleo de Estudos em Ambiência Agrícola e Bem-estar Animal e Pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Ambiência (NUPEA). É professor do Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal do Ceará (UFC), CE. Tem experiência na área de Bioclimatologia Animal.
 
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