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Parâmetros elétricos para a insensibilização de frangos: Qual a corrente elétrica que atinge o cérebro?

Publicado: 10/07/2018
Autor/s. : Dr. Gerson Neudi Scheuermann 1, E Xavier Costa 2, L Caron 1, Arlei Coldebella 1, SP Alves 3, Leonardo Vega 4 e PS Rosa 1. 1Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa; 2Departamento de Ciências Básicas – USP/FZEA; 3BRF, São Paulo-SP; 4F&S Animal Origin Food Consulting, Dubling, Irlanda.
Sumário

Exportar frango aos membros da União Eu­ropeia implica em atender o Regulamento CE 1099/2009 que versa sobre os parâmetros elétricos a serem aplicados na insensibiliza­ção quando do abate das aves. Considerando os relatos de que o uso destes parâmetros implica em impacto negativo na qualidade da carcaça dos frangos, parâmetros alternativos, notadamente baixa amperagem com maio­res frequências estão sendo avaliados. Para melhor avaliar a eficiência dos métodos alter­nativos quanto ao bem estar, ou seja, se de fato insensibilizam as aves, este ensaio é o pri­meiro relato mensurando a corrente elétrica que atinge o cérebro da ave no momento da insensibilização. O resultado indicou que a in­sensibilização elétrica de frangos com corren­te aproximada de 100 mA e frequência de 600 Hz possibilita passagem de corrente no cére­bro da ave em magnitude que não permite a manutenção da capacidade de transmissão da dor, mostrando-se eficiente, portanto. Su­gere-se que esta metodologia seja considera­da para a avaliação de propostas alternativas a serem submetidas ao grupo de inteligência científica do Mercado Comum Europeu.


Introdução
Como país exportador de carne de frango à União Europeia, o Brasil deve sujeitar-se às exigências daquele bloco, principalmente as relacionadas ao bem estar animal no período de pré-abate e abate. É o caso dos parâme­tros elétricos que constam no regulamento CE 1099/2009 (EUROPE, 2009). A não utili­zação destes parâmetros implica na neces­sária apresentação de método que atenda requisitos de equivalência.
Embora o regulamento EC 1099/2009 pos­sibilite variada combinação entre frequên­cias e corrente, ele caracteriza-se pelo uso de elevada corrente exceto se concomitante com baixa frequência. Sabe-se que a aplica­ção de parâmetros elétricos desta natureza afeta negativamente a qualidade da carca­ça ocasionando lesões hemorrágicas e fra­turas nos cortes de valor econômico (Ali et al., 2007), implicando em perdas e impacto econômico negativo. A justificativa da União Europeia para não permitir o uso de eletro­narcose com baixa intensidade e elevada frequência baseia-se no suposto compro­metimento do bem-estar, uma vez que a ave não estaria devidamente insensibilizada para as etapas posteriores à cuba de insensibiliza­ção ou que estaria susceptível ao sofrimento durante o próprio processo de insensibiliza­ção. O objetivo deste estudo foi avaliar se a insensibilização baseada em alta frequência (600 Hz) e baixa corrente elétrica (110 V) propicia a passagem de corrente elétrica no cérebro do frango suficiente para assegurar efetiva insensibilização.
Material e métodos
Para acessar a corrente elétrica que flui no cérebro durante o processo de insensibiliza­ção foram avaliados oito frangos com peso médio igual a 3273 g e erro padrão de 78 g. Após abatidos individualmente por eletro­narcose, dois eletrodos de prata foram in­troduzidos no cérebro de cada ave através de incisão dorsal na pele na região crânio­-cervical, adentrando o forame magno via fossa atlanto-occipital. Os eletrodos foram posicionados dentro dos limites das menin­ges, um na porção frontal e outro na caudal do cérebro, mantendo-se distância de 15 mm entre eles. Os cabos dos eletrodos fo­ram colados na superfície da musculatura da região dorsal da cervical, sendo a incisão cirúrgica também colada. O posicionamento dos eletrodos foi conferido através de raio X. O ensaio foi realizado com acesso individual em cada ave morta, a qual foi dependurada em gancho simulando a nória de abatedouro, com a cabeça imersa em água eletrificada.
Todos os frangos foram submetidos indi­vidualmente, em duplicata, à sequência de quatro frequências (200, 400, 600 e 1500 Hz) associadas a diferentes voltagens (Tabe­la 1), utilizando onda quadrada em corrente alternada (com 50% duty cycle). Avaliou-se a tensão na cabeça usando multímetro com resolução de milésimos de volts (mV). Fez­-se também leitura da impedância entre os eletrodos através de ponte LCR à frequência de 1 KHz (Seoane et al., 2004), antes e após a passagem da corrente elétrica para verificar a variação pela possível interação do tecido com a corrente elétrica e também usar estas medidas para calcular a corrente elétrica na área de cérebro compreendida pelos eletro­dos através da Lei de Ohm generalizada. Foi realizada a análise da variância para o modelo considerando os efeitos de frango e de tra­tamento, seguida pelo teste de Tukey. O sof­tware SAS (2012) foi utilizado para realização das análises.
Resultados e discussão
O teste F da análise da variância mostrou ha­ ver efeito significativo dos tratamentos para a corrente estimada no cérebro, conforme Tabela 1. Os dados foram gerados imediata­mente após a morte das aves, considerando que não há diferença significativa nos valores de resistividade do cérebro nesta condição se comparado com aves vivas anestesiadas (Woolley et al., 1986). Observou-se que a fre­quência 1500 Hz associada à Corrente Elétri­ca de 213 mA propiciou a passagem da maior corrente elétrica na cabeça, sendo este trata­mento diferente dos demais. A frequência de 600 Hz, associada à corrente elétrica de 102 mA possibilitou corrente no cérebro similar ao tratamento controle (200 Hz; 99 mA), o qual segue o regulamento europeu. Já a frequên­cia de 400 Hz associada à corrente elétrica de 158 mA apresentou resultados intermediá­rios em relação aos outros três tratamentos.
O processamento da informação no cérebro, como dor e consciência, depende do nível da atividade elétrica complexa e global dos neurônios. Já a atividade bioelétrica cerebral é regulada pela dinâmica das polarizações e de­polarizações dos neurônios no cérebro, a qual ocorre com tensões da ordem de mV, sendo 70mV o potencial de repouso dos neurônios (EFSA, 2004). A hipótese que motivou este trabalho é de que, a submissão da ave a in­sensibilização com parâmetros elétricos al­ternativos ao do Regulamento CE 1099/2009 possibilite a passagem de corrente no cérebro alta o suficiente para impedir a manutenção do equilíbrio de gibbs-Donnan nas membra­nas dos neurônios.
Em determinado nível de tensão elétrica os neurônios conseguem controlar a fluidez da membrana em função de diferentes tipos de neurotransmissores e outras moléculas, como é o caso das bombas de Na+ e K- que respondem à presença de campo elétrico nos meios intra- e extra-celular, visando manter o equilíbrio Gibbs-Donnan (DREIER et al., 2013). Elevação da tensão elétrica pode romper esta funcionalidade. Por exemplo, em humanos, correntes da ordem de 43μA/cm2 parecem ser suficientes para alterar o comportamento dos neurônios (Ruffini et al., 2013). Conside­rando a dinâmica metabólica, possivelmente uma corrente elétrica elevada como a obser­vada no presente estudo, superior a 420 μA/ cm2, faz com que não se mantenha a dinâmi­ca de depolarização, o que reduziria a capa­cidade do cérebro de processar informações como a dor.
Conclusão
A insensibilização elétrica de frangos com corrente aproximada de 100 mA e frequência de 600 Hz, utilizando onda quadrada em cor­rente alternada (com 50% duty cycle) possibi­lita a passagem de corrente no cérebro da ave em magnitude maior do que a corrente nor­malmente utilizada para a atividade neuroló­gica. Presume-se que nesta condição não se mantenha a capacidade de transmissão da dor, condição essencial para a insensibilização das aves.
Tabela 1. Valores médios e erros padrão em função dos tratamentos aplicados1
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Referências bibliográficas

 
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