Engormix/Suinocultura/Artigos técnicos

Sistema de Produção de Leitões baseado em Planejamento, Gestão e Padrões Operacionais (Parte V)

Publicado: 25/10/2013
Autor/s. : Jean Carlos Portos Vilas Boas Souza, Armando Lopes do Amaral, Nelson Morés, Sandro Luiz Treméa, Marcelo Miele e Jonas Irineu dos Santos Filho, Embrapa Suínos e Aves, SC.
Gerenciamento nas unidades de produção de suínos
A suinocultura é uma importante atividade para a economia brasileira. Além de fornecer proteína animal de qualidade para a população, ela é responsável pela geração de empregos, renda e divisas para o país. Até os anos 90, a suinocultura se desenvolveu impulsionada por diversos fatores. Existia, principalmente na região Sul, uma grande disponibilidade de milho e soja, insumos fundamentais para a alimentação animal. De forma semelhante, existia a disponibilidade de mão de obra já acostumada a criar pequenos animais, que juntamente com o capital empresarial do migrante da Itália e Alemanha disponibilizaram o capital humano e empresarial necessário para a atividade. Por fim existia o papel do estado que fornecia capital financeiro de baixo custo, assistência técnica e pesquisa. A junção de todos estes fatores permitiram desenvolver uma cadeia produtiva altamente competitiva no Brasil e no mundo.
Os custos de produção de suínos do Brasil foram durante muitos anos os menores do mundo. Mesmo com alta proteção dada aos produtores dos Estados Unidos e da Europa, o baixo custo da mão de obra, baixo nível de investimento em equipamentos e instalações, baixo custo da energia elétrica, carvão e gás e disponibilidade de milho e farelo de soja garantiam a competitividade da produção nacional. Este fato foi alterado neste século devido ao aumento no custo da mão de obra, necessidade de maior investimento em instalações, elevação do custo da energia, lenha e gás, déficit de milho nas regiões tradicionais de produção e elevação dos custos de logística e nível de preços dos insumos. Nos anos atuais, o Brasil ainda é um pais altamente competitivo na produção primária, entretanto, estudos efetuados pela Rede Interpig têm demonstrado que o custo de produção do Brasil já é semelhante e até mesmo superior ao que ocorre nos Estados Unidos e Canadá, primeiro e segundo maiores exportadores mundiais.
A manutenção da nossa competitividade no cenário internacional dependerá da capacidade de melhorar a nossa logística, propor sistemas tecnológicos que aumentem a produtividade da mão de obra, melhorar a politica tributária e creditícia, melhorar o relacionamento entre produtor e agroindústria, melhorar a estrutura de armazenagem de milho no produtor e criar alternativas para o milho nas regiões deficitárias.
 
Gerenciamento da unidade de produção de suínos
Fazer a gestão da propriedade rural é fundamental para a sustentabilidade econômica da propriedade rural. A suinocultura tem evoluído sistematicamente nos últimos 20 anos. De uma suinocultura de pequena escala e baixos coeficientes tecnológicos passarou-se a executar uma suinocultura de alta e média escala, altamente tecnificada. A globalização abriu as fronteiras da competividade e do acesso a novas tecnologias.
Atualmente, a produção nacional utiliza genética, sanidade e aditivos para nutrição semelhante a verificada no resto do mundo. Enquanto que nos anos 90 era comum se falar em terminação com 150 animais no Sul do Brasil, hoje já existem terminações com até 4 mil animais e é comum se falar em terminação com mil animais.
A parte reprodutiva da atividade também apresentou grandes mudanças na escala de produção e seus efeitos são vistos não somente no aumento de produtividade dos rebanhos como na inexistência de sazonalidade na produção. Enquanto até os anos 90 era fácil detectar sazonalidade temporal na produção, atualmente a produção se distribui de forma uniforme durante todo o ano. A produção dentro da propriedade passa a ser organizada na forma de lotes, com garantia de periodicidade e volumes.
Nesta nova suinocultura existe uma grande oferta de diferentes tecnologias e técnicas de produção e a gestão eficiente da propriedade permite não somente aferir os resultados econômicos como também monitorar a eficiência destas tecnologias.
Para fazer a gestão da propriedade torna-se necessário entender a diferença entre eficiência técnica da propriedade e eficiência econômica. A eficiência técnica é obtida através da busca de indicadores como conversão alimentar, mortalidade nas diferentes fases, nascidos, desmamados e vendidos por fêmea, dias não produtivos, etc. Já a eficiência econômica busca a maior lucratividade da propriedade.
 
A visão do gerente
O segredo do sucesso é o processo de gerenciamento do presente com olhos voltados para o futuro. Numa Unidade de Produção de Suínos (UPS), um gerente vitorioso é aquele que não tenta adivinhar o futuro, mais sim aquele que o constrói no dia a dia. Gerenciar não é se adequar às mudanças, mas fazer as mudanças acontecerem. O sucesso na atividade não vem por acaso: é um continuo de observação do macroambiente que, com ajuda de conceitos e ferramentas técnicas, deverá resultar em ação planejada no microambiente.
Desta forma, pode-se dizer que o gerente bem sucedido sabe o que quer, aonde quer ir e porque quer ir, pensa sobre o seu trabalho, sobre as atividades diárias e nos próprios problemas, procurando distribuir o seu tempo adequadamente. A ambição, o esforço, o entusiasmo, competência, honestidade e ética são características inerentes a ele. Sendo assim, prevê problemas e oportunidades com antecedência, precavendo-se ante as ameaças.
Para a gestão eficiente da Unidade de Produção de Suínos o gerente deve ter uma visão completa do macroambiente onde a sua atividade está inserida. Desta forma é necessário ter informações sobre o mercado dos insumos e do mercado da sua produção. A visão do macroambiente é importante para poder-se planejar o futuro da atividade (ter noção do objetivo futuro desejado). Para isso, é importante responder a essas perguntas: aonde se quer chegar?; quais os caminhos a serem seguidos para alcançar os objetivos estabelecidos?; o que fazer para alcançar os objetivos estabelecidos?; como fazer?; quais os recursos humanos, materiais e financeiros necessários?; com quem?.
Gerenciar é pensar. Desta forma, o bom gerente deve ter em mente que, entre outras coisas:
a) é necessário dedicar tempo para esta atividade - observe a atividade e veja possibilidades de melhoria;
b) buscar sempre aprender coisas novas - a confiança excessiva na experi ência é fator de insucesso na atividade;
c) não perder tempo com coisas sem importância - delegar atividades e não gastar muito tempo com serviços braçais;
d) tomar as decisões baseado em dados e fatos;
e) capacitar a mão de obra da UPS; e, por fim,
f) tratar a suinocultura como negócio – é preciso entender para aonde está se movendo o seu negócio, tanto na tecnologia como na forma de organização.
 
Conhecendo a unidade de produção de suínos
Para gerenciar uma Unidade de Produção de Suínos é necessário conhecê-la. Para tanto se torna necessário que o produtor/gerente tenha um minucioso controle dos acontecimentos técnicos e econômicos que ocorrem dentro da UPS. Para alcançar este objetivo, o gestor deve ter um protocolo definido e sistemático para anotação das informações. Este sistema pode ou não ser informatizado, entretanto a exatidão e amplitude das informações são imprescindíveis para a correta tomada de decisão sobre os rumos que a unidade de produção deve tomar.
 
Cálculos de custo de produção
O custo de produção é calculado levando-se em consideração todos os gastos/despesas monetários ou não que ocorrem na Unidade de Produção de Suínos. Ele pode ser agrupado de diversas formas (SOLDATELLI et al. 1992). Os autores apresentam um conjunto de termos técnicos utilizados no custo e na analise de rentabilidade da atividade. Sobre a suinocultura uma metodologia muito utilizada e adotada nos custos de produção de suínos da Embrapa e Conab pode ser encontrado em Santos Filho et al., 2013. Aqui os custos serão agrupados em custos variáveis e custos fixos.
 
Custos variáveis
São aqueles que variam de acordo com a quantidade produzida e cuja duração é igual ou menor que o ciclo de produção (curto prazo). Entende-se por curto prazo o período de tempo mínimo necessário para que um ciclo produtivo se complete, e por longo prazo o período de tempo que envolve dois ou mais ciclos produtivos.
Custos variáveis são itens que se incorporam totalmente ao produto no curto prazo, não sendo reaproveitados em outros ciclos produtivos. Exemplos: mão de obra, despesas com alimentação do rebanho, reprodutores, medicamentos, alguns impostos (IRPJ, PIS, CONFINS, etc.) e despesas gerais.
Enfim, os custos variáveis são aqueles que deixam de existir se o processo de produção for interrompido.
 
Custos fixos
Os custos são denominados fixos porque não são alterados em função da quantidade de suínos produzida. Sua renovação acontece a longo prazo. Exemplos: a depreciação (benfeitorias, animais destinados a reprodução e serviços, máquinas, implementos e equipamentos), alguns impostos (ITR e IPVA), seguro, remuneração do capital fixo, etc.
Em geral, por já terem sido pagos ao longo dos anos, deixam de fazer parte da visão do agricultor. Este é um grande erro, pois as instalações e equipamentos devem sofrer manutenção e ao final da vida útil devem ser repostos. O capital necessário para a reposição das instalações e equipamentos deve vir da própria rentabilidade da atividade.
Desta forma, o custo fixo deve ser pensado como sendo uma poupança que o produtor faz ao longo da vida útil do equipamento para que o mesmo possa ser reposto ao final da sua vida útil.
De forma semelhante, ainda temos o custo sobre o capital investido. Este item dificilmente é percebido pelo produtor, entretanto, ele é um item importante na análise de rentabilidade da atividade. O CSCI representa a remuneração mínima desejada pelo produtor para se manter na atividade. Ela também pode ser entendida como a remuneração mínima que o produtor poderia estar obtendo em outro tipo de investimento produtivo ou financeiro. Ela parte do pressuposto de que o capital tem um valor. Ele não gera riqueza por si só, mas pode ser utilizado por outro empresário em uma atividade produtiva. E este empresário poderia estar disposto a pagar um prêmio por utilizar este capital (juros).
 
Análise de rentabilidade
De forma similar aos itens de custos, a renda possibilita desagregação em níveis de classificação hierárquicos análogos: renda total, margem operacional, margem bruta, lucro ou renda líquida.
 
Renda total
Representa o resultado da atividade em valores monetários. Na atividade suinícola, as receitas são provenientes principalmente pela venda de animais para abate ou para engorda e descarte de animais de reprodução. Em alguns casos, o esterco produzido pode ser uma fonte de renda quanto existir mercado efetivo para o mesmo, ou em casos em que a transferência interna do mesmo como fertilizante represente uma economia na compra de insumos (custo de distribuição menor que o valor do fertilizante).
 
Lucro ou prejuízo
O resultado financeiro da propriedade é o determinante da sua sustentabilidade econômica. Ele depende da relação entre a receita e o custo e o resultado é expresso em renda líquida, margem líquida e margem bruta.
No longo prazo, para que a empresa possa se manter, é necessário que a renda líquida apresente resultado positivo. Por outro lado, no curto prazo a empresa pode operar mesmo com este indicador apresentado sinal negativo, desde que a margem bruta tenha sinal positivo.
 
Sistema de Produção de Leitões baseado em Planejamento, Gestão e Padrões Operacionais (Parte V) - Image 1
 
Indicadores para medir a eficiência da suinocultura
Ao longo dos anos, diversos indicadores são utilizados para mensurar a eficiência técnica dos sistemas de produção de suínos. Muitas vezes, os produtores e técnicos, ao buscar maximizar estes indicadores, esquecem que produtividade é um bom indicador, porém, não é sinônimo de lucro. A produtividade somente terá correlação direta com lucro se o custo unitário se mantiver constante. De forma geral, pode-se adotar a seguintes máximas:
a) A tecnologia somente deverá ser adotada se os custos decorrentes da sua implementação forem inferior aos retornos incrementais que ela irá fornecer.
Lucro da tecnologia = incremento de renda - custo incremental
Assim, por exemplo, se a adoção de uma prática for levar a um incremento de 10% no custo de produção, a sua efetividade econômica somente ocorrerá se a receita incremental for superior a este custo, em termos monetários.
 
Quilos de leitões desmamados por porca por ano
Este indicador mede a eficiência técnica da granja e repercute diretamente sobre a eficiência econômica da Unidade de Produção de Suínos (UPS). Ele é obtido pela divisão da quantidade de leitões, na saída da maternidade, vendidos ou produzidos, expresso em quilos, pelo total de matrizes alojadas na UPS.
Exemplo: Considere uma UPS com 250 matrizes, e que cada matriz tenha produzido em média no ano 26 leitões na saída de maternidade, com peso médio de 6,5 kg. O indicador é calculado multiplicando 26 leitões por 6,5 kg que é igual a 169. Quanto maior este índice, melhor a UPS.
 
Conversão alimentar
Este é um indicador amplamente utilizado na zootécnica para determinar eficiência técnica da UPS. Ele mostra quanto em média foi necessário de ração para produzir um kg de suíno. Este indicador, ainda que importante na avaliação técnica da UPS, apresenta a limitação de ter pouca ou nenhuma relação com a eficiência econômica da mesma. Assim, é possível possuir uma alta eficiência técnica em termos de conversão alimentar e por outro lado apresentar uma baixa rentabilidade do sistema.
O ideal é calcular o retorno econômico obtido pela ração consumida, que é a junção do indicador técnico com variáveis econômicas. O indicador é obtido pela fórmula: consumo total de ração no ano × custo médio do kg de ração / total, em kg, de suínos vendidos × valor médio recebido pelo kg de suíno vendido.
 
Terminado porca por ano
Este é também um indicador amplamente aceito na literatura para medir a eficiência técnica de uma UPS. Ainda que importante, ele também deve ser analisado com cautela pelo produtor, pois é necessário ter em mente o segundo paradigma: o que é melhor, produzir muito com alto custo ou produzir pouco com baixo custo? O ideal é produzir uma síntese entre este indicador: o de quilos de suíno produzidos porca ano ao retorno econômico da ração consumida nas diversas fases.
 
Taxa de remuneração do capital imobilizado
É o percentual resultado da divisão da margem líquida pelo capital investido, sem ou com terra. Indica quando a UPS ganha para cada real de capital investido.
Exemplo: A margem líquida anual (diferença entre receita bruta e custo operacional) foi de R$ 42.000,00 e o ativo imobilizado (soma de todos os investimentos) é de R$ 600.000,00, multiplicando o seu resultado por 100 (R$ 42.000 ÷ R$ 600.000 × 100 = 7%). Significa que a taxa de remuneração anual do capital imobilizado foi de 7%, portanto, superior ao valor pago pela caderneta de poupança.
 
Sanidade do rebanho
A sanidade animal não apresenta um indicador para mensurar a sua eficiência. De forma geral, ela é parte de todos os indicadores técnicos existentes, pois interfere diretamente sobre a produtividade do rebanho. Este item tem grande relação com o manejo do rebanho e, portanto, também está relacionado com a qualidade das instalações e ao dia a dia da UPS.
O monitoramento do seu custo permite detectar problemas de manejo existente, antever problemas sanitários graves e caminhar de forma estratégica em direção aos interesses e objetivos dos consumidores atuais na busca de um alimento mais seguro. A visão de alimento seguro diverge do conceito clássico do passado de segurança alimentar.
 
Pontos importantes para a gestão econômica da UPS
Em primeiro lugar, um item importante de custo que é sempre esquecido pelos produtores é o custo fixo. Em geral, por já ter sido pago ao longo dos anos, deixa de fazer parte da visão do agricultor. Este é um grande erro, pois as instalações e equipamentos devem sofre manutenção e ao final da vida útil devem ser repostos. O capital necessário para a reposição das instalações e equipamentos deve vir da própria rentabilidade da atividade.
Desta forma, o custo fixo deve ser pensado como sendo uma poupança que o produtor faz ao longo da vida útil do equipamento para que o mesmo possa ser reposto ao final da sua vida útil.
De forma semelhante, ainda temos o custo sobre o capital investido. Este item dificilmente é percebido pelo produtor, entretanto, ele é um item importante na análise de rentabilidade da atividade. O CSCI representa a remuneração mínima desejada pelo produtor para se manter na atividade. Ela também pode ser entendida como a remuneração mínima que o produtor poderia estar obtendo em outro tipo de investimento produtivo ou financeiro.
A atenção com o custo fixo não pode servir para que o produtor busque a sua minimização. A qualidade dos equipamentos e instalações afeta diretamente o desempenho dos animais e pode prejudicar/potencializar os resultados zootécnicos da UPS.
Como pode ser observado no parágrafo acima, o investimento em custo fixo, desde que afete itens de custo (como nutrição, mão de obra, sanidade) ou de receita (no caso do desempenho zootécnico), pode apresentar retorno econômico positivo. A decisão do produtor em investir em novos equipamentos/instalações, desta forma, dependerá da intensidade do aumento do custo e da intensidade da diminuição de custos ou do aumento de receitas.
Para os sistemas de produção ditos independentes (produtores que utilizam o mercado spot nas suas relações de compra e venda), o item de produção que mais compromete a renda é a alimentação, que sozinha responde por mais de 75% do custo total de produção (Figura 2). Ainda assim, na gestão da UPS, é importante ter em mente que os outros itens do custo de produção (mão de obra, genética, sanidade e ambiência) afetam diretamente a nutrição e, portanto, não podem ser colocados em segundo plano quando do planejamento técnico da granja.
Para os sistemas de produção ditos integrados, conhecido pelos produtores como comodato, o custo de produção do produtor é bastante alterado. Neste caso, os itens de maior importância no custo passam a ser a mão de obra e o custo fixo. Para a UPS inexiste o custo da alimentação, sanidade, animais e muitos itens do transporte (Figura 1).
Figura 1. Participação percentual dos itens de custo para a produção de suínos em sistemas de produção dito independente em ciclo completo e em comodato na UT, UPL e UPD
Sistema de Produção de Leitões baseado em Planejamento, Gestão e Padrões Operacionais (Parte V) - Image 2
 
Neste caso, as tecnologias de construções e instalações que impactem na mortalidade, terminados/porca/ano, conversão alimentar, etc, terão maior impacto sobre a agroindústria integradora. O produtor será beneficiado de forma indireta pela melhoria da bonificação. Quando a tecnologia for também poupadora de mão de obra, o impacto sobre a renda do produtor rural será maior e, portanto, o mesmo terá maiores estímulos para adotá-la. De qualquer forma, é necessário que se faça a avaliação do investimento para poder detectar a sua viabilidade para o produtor. De forma semelhante, a agroindústria deve perceber que, em muitos casos, a não utilização das técnicas modernas promovem mais malefícios para a mesma e, portanto, deve ajustar as suas fórmulas de pagamento visando dar viabilidade para o produtor rural.
O item transporte tem também uma contribuição expressiva no custo de produção, principalmente no produtor integrado. Os dejetos de suínos, até a década de 70, não constituíam fator preocupante, pois a concentração de animais, mesmo nas áreas de pequena propriedade rural, era diminuta e o solo das propriedades tinha capacidade para absorvê-los, como adubo orgânico. O desenvolvimento da suinocultura intensiva e o crescente aumento na escala resultaram na produção de uma grande quantidade de efluentes que são lançados ao solo, em certas situações, sem critério e sem tratamento prévio.
Assim, como os dejetos não podem ser jogados nos cursos d'água ou distribuídos sem critério no solo, existem diversos custos relacionados a ele. Na aplicação direta no solo, a experiência recente do Oeste Catarinense mostra que os custos podem variar entre R$ 3,16/m³ e 5,83 naquelas situações em que há a ocorrência de subsídio; e R$ 4,62/m³ e 12,08 para situações em que não há a ocorrência de subsídios (SANDI et al., 2011). Desta forma, caso ele seja somente aplicado na área agrícola, em localidades próximas da unidade de produção e com o relevo plano ou levemente acidentado, o custo de distribuição torna-se mínimo. Por outro lado, caso o dejeto seja aplicado em áreas distantes da unidade de produção e com relevo desfavorável, durante o deslocamento este custo pode ser elevado, o que pode tornar necessária a utilização de outra tecnologia para a solução do problema.
A mão de obra tem tendência histórica de escassez em todos os países do mundo. Assim sendo ,é de se esperar que, seguindo o que já ocorreu no passado, a mão de obra rural fique cada vez mais escassa e, assim sendo, devido à famosa lei da oferta e demanda, o salário real tende a subir, o que irá induzir à compra de equipamentos automatizados e mudanças na forma de organizar o trabalho, visando diminuir a demanda por este fator de produção. Este fato já está ocorrendo nos dias atuais na maioria das regiões produtoras brasileiras.
Outro importante insumo para o custo de produção de suínos é a energia elétrica. Na suinocultura, o seu custo pode ser minimizado através da cogeração de energia elétrica através da utilização de biogás. O biogás é composto por gás metano e é proveniente da fermentação de resíduos orgânicos. A produção de suínos tem como resíduo um grande volume de resíduos orgânicos líquidos (dejetos + água de limpeza + urina). Estes resíduos podem ser utilizados para produzir metano em um biodigestor. Este metano, por sua vez, pode ser utilizado para alimentar um gerador a gás. Segundo Martins, et.al. (2011), a viabilidade deste processo depende da eficiência na produção de biogás e do valor pago pela energia elétrica. Segundo os autores, valores acima de R$ 0,18/Kwh podem tornar viável o empreendimento, desde que exista uma escala de produção acima de 4 mil suínos em terminação. O valor do Kw/h rural no Brasil varia entre R$ 0,23 e R$ 0,30 e, assim sendo, desde que o produtor tenha a possibilidade de utilizar toda a energia gerada na sua propriedade (ou pelo menos grande parte), esta técnica é economicamente rentável. O subproduto desde processo pode ser utilizado em fertirrigação ou ser tratado para depósito nos cursos d'água (esta prática incorre em custos sem contrapartida de receita).
No custo total de produção de suínos a ração é o item mais importante, representando mais de 70% do total. O preço do suíno pago ao produtor tem correlação direta com o preço do milho e do farelo de soja, o que era esperado em um mercado de livre concorrência. Quando se fala de um produtor independente, estes valores refletem o seu custo de produção e os preços destes insumos afetam a sua lucratividade. Entretanto, para os produtores integrados, o modelo de remuneração baseado no preço base do produtor independente causa viés na rentabilidade do produtor rural. Diferentemente do produtor independente ou daqueles que tenham relação de compra e venda com as agroindústrias, os produtores integrados têm somente as instalações e a mão de obra como principais itens no seu custo.
Desta forma, para o produtor independente de suínos, a manutenção de estoques de milho, que tem nos últimos anos uma grande variabilidade nos preços e é utilizado em grande intensidade na produção de frangos, ovos e suínos, é uma forma eficiente de minimizar o risco. Em geral, existe uma relação inversa entre preço do milho e rentabilidade da atividade, pois os aumentos no custo da ração, decorrente do aumento do milho e do farelo de soja, não são transferidas integralmente para o preço dos produtos de aves e suínos. Assim, crises de oferta na produção de milho são acompanhadas por perda de rentabilidade do produtor de suínos independente.
Além da possibilidade de ganho na armazenagem de milho, está prática proporciona diminuição do risco do produtor, além de garantir maior qualidade da matéria-prima que tem efeito direto nos coeficientes técnicos de produção.
Dentro de um mesmo custo ou com um menor custo, o aumento na produtividade do rebanho é garantia de maior rentabilidade do produtor. Na suinocultura, para um produtor de leitões, o aumento do número de nascidos em intensidade maior que a possível queda de peso médio dos leitões (aumento dos quilos de leitões produzidos) é garantia de aumento da sustentabilidade econômica do negócio.
Como dito por um grande líder empresarial, custo é igual à unha, está sempre crescendo. Desta forma, a busca por estratégias que minimizem o custo de produção deve ser constante dentro da propriedade. Atualmente, tem-se observado o aumento no custo da mão de obra. Para o produtor integrado verticalmente, este é um dos maiores itens do custo de produção. A sua minimização decorrerá de estratégias de reorganizar a produção, aumentar a escala de produção e o grau de automação das unidades de produção.
No caso da escala de produção, estudo efetuado em Santa Catarina mostrou que, na avicultura de corte, um sistema de produção com maior escala e maior grau de automação apresenta um custo de produção para o produtor integrado de aproximadamente 20% menor do que o sistema tradicional (Miele et al. 2010). Para a suinocultura, a escala de produção também produz economia devido ao potencial de se utilizar tecnologias modernas de ambiência, climatização e automação.
 
Considerações finais
A suinocultura atual exige que o produtor tenha absoluto controle sobre a produção para que os bons resultados apareçam. Conquistar o controle sobre a produção depende, basicamente, de três providências, conforme deixa claro a presente publicação: planejamento e organização da produção, gestão dos índices da produção e aplicação de padrões operacionais. Essas três providências se interligam e se completam. O planejamento e organização da produção faz com que o produtor consiga o máximo resultado das instalações disponíveis, além de manter as condições ideais para o desenvolvimento dos suínos. A gestão dos índices permite que o suinocultor monitore o desenvolvimento dos animais, intervindo sempre que as metas não forem atingidas ainda durante a produção. Os padrões entram em cena sempre que for preciso rever algum ponto do manejo devido a dificuldades apontadas pela gestão dos índices de produção.
Tal forma de conduzir uma granja de suínos pode parecer complexa, mas na verdade é apenas a sistematização de experiências práticas observadas durante do Projeto Leitão Ideal. O programa foi implantado de forma piloto em 12 produtores de leitão da Aurora, sendo oito em Santa Catarina e quatro no Rio Grande do Sul, no decorrer de 2011. O fechamento do primeiro ciclo de produção mostrou que todos os produtores envolvidos conseguiram atingir ou superar a produtividade mínima de 24 leitões/porca/ano. A diferença entre a produtividade anterior ao projeto e a registrada ao final do primeiro semestre de 2011 proporcionou um acréscimo de R$ 240 mil na renda dos 12 produtores envolvidos. O Projeto Leitão Ideal mostrou que somente ajustes no planejamento, gestão e manejo podem trazer a rentabilidade que o produtor espera.
 
Referências
ABIPECS. Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína. Relatório ABIPECS 2008. Disponível em: <http://www.abipecs.org.br>. Acesso em: 17 jul. 2009.
CARNE suína: a conquista do mercado interno. Brasília: ABCS, 2009. 34 p.
CUSTOS de produção de suínos. Concórdia: Embrapa Suínos e Aves, 2009 Disponível em: <http://www.cnpsa.embrapa.br>. Acesso em: 10 jul. 2009.
EMBRAPA SUÍNOS E AVES. Cias - Central de Inteligência de Aves e Suínos. [home page]. Disponível em: <http://www.cnpsa.embrapa.br/cias/>. Acesso em: 15 dez. 2011.
FAO. FAOSTAT. Disponível em: <http://faostat.fao.org/>. Acesso em 14 dez. 2010.
GOMES, M. F. M.; GIROTTO, A. F.; TALAMINI, D. J. D. Análise prospectiva do complexo agroindustrial de suínos no Brasil. Concórdia: EMBRAPA–CNPSA, 1992. 108 p. (EMBRAPA-CNPSA. Documentos, 26).
HEIDEN, F. et al. Indicadores da evolução do setor agrícola catarinense - dados preliminares. Grupo de limpeza do LAC, agroindicadores. Disponível em: <http://cepa.epagri.sc.gov.br/>. Acesso em: 30 mar. 2006.
IBGE. Estimativas populacionais para os municípios brasileiros. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br>. Acesso em: 09 set. 2009.
IBGE. Pesquisa de Orçamentos Familiares 2002-2003: perfil das despesas no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2007. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br>. Acesso em: 23 out. 2009.
IBGE. Pesquisa Pecuária Municipal. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br>. Acesso em: 09 set. 2009.
IBGE. Pesquisa Trimestral do Abate dos Animais. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br>. Acesso em: 09 out. 2009.
INDICADORES Rurais. Brasília: Confederação Nacional da Agricultura: Brasília, [2009] Disponível em: <http://www.cna.org.br>. Acesso em: 16 jul. 2009.
LIMA, R. C. A.; CUNHA FILHO, J. H. da C.; GALLI, F. O impacto das barreiras sanitárias nas exportações brasileiras de carne in natura. São Paulo: ICONE, 2004. 19 p. (Documentos ICONE).
MAPA. SIGSIF - Sistema de Informações Gerencias do Serviço de Inspeção Federal. Quantidade de Abate Estadual por Ano/Espécie: Suíno/2009. Disponível em:<http://www.agricultura.gov.br>. Acesso em 28 out. 2009.
MARTINS, F. M.; MIELE, M.; SANTOS FILHO, J. I. DOS; SANDI, A. J. Consolidação dos Custos do Produtor na Produção de Leitões no Sistema de Parceria em Comodato no Estado do Paraná, 2011. Concórdia: Embrapa Suínos e Aves, 2011. 4 p. (Embrapa Suínos e Aves. Comunicado Técnico, 436).
MIELE, M.; MACHADO, J. S. Panorama da carne suína brasileira. Agroanalysis, v. 30, n. 1, p. 34-42, 2010.
MIELE, M.; MARTINS, F. M.; SANTOS FILHO, J. I. dos; SANDI, A. J. Metodologia para o cálculo do custo de produção de frango de corte - Versão 2. Concórdia: Embrapa Suínos e Aves, 2010. 10 p. (Embrapa Suínos e Aves. Documentos, 140).
SANDI, A. J.; SANTOS FILHO, J. I. dos; MIELE, M.;MARTINS, F. M. Levantamento do custo de transporte e distribuição de dejetos de suínos: um estudo de caso das associações de produtores dos municípios do Alto Uruguai Catarinense. In: REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 48., 2011, Belém. Anais... Belém: UFRA, 2011. 1 CD-ROM.
SANTOS FILHO, J. I. dos; MIELE, M.; MARTINS, F. M.; SANDI, A. J.; BOFF, J. Metodologia para o cálculo do custo de produção de suínos. Concórdia: Embrapa Suínos e Aves, 2013. 14 p. (Embrapa Suínos e Aves. Documentos, no prelo).
SOLDATELLI, D.; HOLZ, E.; TREVISAN, I.; ECHEVERRIA, L. C. R.; SANTOS, O. V. dos; NADAL, R. de; PINHEIRO, S. L. G. Glossário de termos de administração rural. In: SEMINARIO DE ADMINISTRACAO RURAL, 2., 1992, Concordia. Anais... Florianopolis: EPAGRI, 1993. p. 75-106.
STOCK, L. A.; CARNEIRO, A. V.; TEIXEIRA, S. R. Gerenciamento da atividade leiteira. In: STOCK, L. A.; CARNEIRO, A. V.; TEIXEIRA, S. R. Manual de bovinocultura de leite. Belo Horizonte: LK, 2010. v. 1, p. 15-47.
USDA. Foreign Agricultural Service. Disponível em: <http://www.fas.usda.gov>. Acesso em: 17 jul. 2009.
***O trabalho foi originalmente publicado por Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária /Embrapa Suínos e Aves/ Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - ISSN 1678- 8850, Versão Eletrônica - Junho, 2013.
 
Autor/s. :
 
Visualizações857Comentários 0EstatísticasCompartilhar