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Suplementação para bovinos de corte na estação chuvosa

Publicado: 25/05/2022
Autor/s. : Anna Carolina de Carvalho Ribeiro, Rondineli Pavezzi Barbero
1 INTRODUÇÃO
As propriedades rurais do Brasil em sua maioria apresentam a forragem como principal e mais econômica fonte de alimentação para bovinos de corte (SOCREPPA et al., 2015). As regiões tropicais apresentam temperaturas elevadas e alto teor de umidade, com estações secas e chuvosas bastante definidas ao longo do ano. Em função destas condições, as forrageiras tropicais possuem produção sazonal, com alta qualidade da forragem disponível no período das águas e baixo durante a estação seca, resultando em variação de recursos nutricionais para o rebanho conforme as condições climáticas (SILVA et al., 2015).
Embora no período chuvoso a composição bromatológica da forragem tende a ser superior, o manejo inadequado pode implicar na redução da quantidade e qualidade da forragem disponível, com maior proporção de colmos, baixa densidade de folhas e elevação das frações fibrosas. Quando a pastagem é bem manejada, com oferta de forragem em quantidade e qualidade para o rebanho, ainda é possível que a quantidade de forragem limite elevada taxa de lotação na área, ou a composição química da forrageira não atenda o requerimento nutricional do animal para o seu máximo potencial de ganho de peso.
A suplementação concentrada para animais em pastejo é uma estratégia de produção, que por meio do atendimento da demanda dos nutrientes, possibilita eficiência de utilização do pasto e incrementos no desempenho (CABRAL et al., 2011). Nas águas os suplementos podem ser utilizados para otimizar o uso das forragens, aumentar a taxa de lotação, aumentar o ganho de peso dos animais e reduzir o ciclo produtivo. Porém, existem muitas dúvidas quanto ao tipo e quantidade de suplemento a ser utilizado (BARBERO et al., 2015). Mediante o exposto, o objetivo deste material foi construir um referencial teórico sobre a suplementação de bovinos de corte em pastagens durante a estação chuvosa.
2 SUPLEMENTAÇÃO PARA BOVINOS EM PASTEJO
Características da forragem
Os sistemas de produção a pasto predominam no país em função da disponibilidade de forragem e as condições climáticas, para isso, cuidados no manejo da forrageira são necessários com o objetivo de reduzir as perdas na produtividade das pastagens, impactos na eficiência dos recursos naturais e redução no desempenho animal (SANTOS et al., 2018). As características estruturais das pastagens tropicais determinam o potencial de produção da forragem, pode ser atribuída de maneira genética e através de manejos adequados, para que não haja incapacidade produtiva.
Segundo Sbrissia et al. (2009) quando a Urochloa brizantha cv. Marandu é submetida a alta intensidade de pastejo limita as condições de crescimento, mesmo durante a estação chuvosa, onde pastos mantidos a 10 cm reduziram a densidade de perfilhos, padrões demográficos de perfilhamento e população de perfilhos perdendo o potencial produtivo. O estudo comprova que apesar das condições ambientais favoráveis, durante o desenvolvimento da planta é fundamental o manejo adequado das pastagens, compreendendo cada estado fenológico e suas necessidades.
A maior eficiência no aproveitamento da forragem ocorre com a compreensão na variação das características morfológicas e na composição química que sofrem mudanças conforme a idade das pastagens (CARVALHO et al., 2019). Paciollo et al. (2010) estudando a Brachiaria decumbens no sistema silvopastoril observaram que as estações do ano afetam diretamente o crescimento da parte aérea e sistema radicular, assim como a luminosidade, pois na estação chuvosa favoreceu o desenvolvimento da biomassa e a densidade radicular devido a redução da capacidade fotossintética.
As forrageiras tropicais no período chuvoso apresentam teores de proteína bruta (PB) maior que 80-100 gramas / kg de matéria seca, que representa alta qualidade, com maior teor de PB e serem mais digeríveis que as forrageiras no período seco, quando normalmente este é o principal nutriente limitante nas regiões tropicais (REIS et al., 2020). Na época das águas apresentam teores de proteína próximos a 10%, no entanto, esses componentes nitrogenados podem estar ligados a fração fibrosa de lenta taxa de degradação ou indigestíveis (ACEDO et al., 2011). A composição química das forragens, com o avanço na idade fisiológica das plantas, resulta na redução nos teores de PB e digestibilidade in vitro da matéria seca e aumento nos teores de fibra em detergente neutro (FDN) e fibra em detergente ácido (FDA) (LIMA et al., 2012).
Barbero et al. (2015) determinando o efeito da altura pastejo combinada com níveis de suplementação para bovinos de corte na época das águas, verificaram que ocorre redução do valor nutritivo da dieta dos animais com o aumento na altura de pastejo. O capim Marandu manejado a 35 cm, apresentou PB de 137 (g/kg MS) e mesmo sem o uso de suplementos os animais tiveram ganhos de 1,2 kg/dia, com lotação de 1,0 UA/ha, pois a disponibilidade de forragem adequada viabiliza o alto desempenho. Canesin et al. (2007) avaliando o ganho de peso de bovinos em pastagem de Brachiaria brizantha suplementados ao longo do ano, com altura de pastejo de 25 cm com pastejo contínuo e suplementação diária, obtiveram ganhos de 0,760 kg/dia, com lotação de 1,0 UA/há. As mudanças na composição morfológica da forragem podem determinar as modificações na sua composição química.
Suplementação a pasto no período das águas
A utilização de suplementos contribui para estimular o consumo de forragem, melhorar a digestibilidade da dieta, a síntese de proteína microbiana através da utilização da amônia produzida no rúmen e fornecer os nutrientes necessários aos animais (MORETTI et al., 2011). A escolha dos suplementos relaciona-se ao desempenho esperado, os proteicos são utilizados quando aumento na massa de forragem e no conteúdo de fibra e redução no teor proteico, os energéticos quando o cenário é o inverso, redução na massa de forragem e no conteúdo de fibra e aumento no teor proteico (REIS et al., 2009). Os proteicos energéticos promovem a inclusão de compostos nitrogenados no rúmen e maior eficiência de utilização da forragem (SILVA et al., 2019). A utilização de suplementos é uma estratégica eficiente quando a forragem é manejada adequadamente. Segundo Stahlhöfer et al. (2021) a utilização de suplementos energéticos para bovinos em pastejo no período das águas aumenta a eficiência na utilização da amônia no rúmen, quando há proteína em quantidade adequada na forragem como normalmente observado em pastos bem manejados na estação chuvosa (REIS et al., 2009).
As modificações nutricionais resultantes da inclusão de suplemento a dieta provocam mudanças na atividade microbiana ruminal, e o aumento na proporção de concentrado geralmente resulta na redução de ruminação, na produção de saliva e alteração pH do ruminal. Goes et al. (2015) avaliando metabolismo nitrogenado em bovinos a pasto suplementados com níveis crescentes de proteína bruta em suplementos utilizados na transição da estação chuvosa para a estação seca (mistura mineral; 20; 40 e 60% PB), observaram valores de pH ruminal de 6,92; 6,72; 6,67; 6,62 mg/dL em função do aumento de PB nos suplementos. Os valores para concentração de N-NH3 foram de 8,42; 20,64; 25,42; 19,21 mmol/L para mistura mineral; 20; 40 e 60% PB respectivamente.
A adição de concentrado na alimentação de bovinos em pastejo possibilita maximizar a utilização dos recursos forrageiro, resultado dos efeitos nutricionais interativos entre consumo de suplemento e forragem (DETMANN et al., 2014a). Barbero et al. (2020) avaliaram a redução dos níveis de suplementação a medida que a altura de pastejo aumentou: 1) pasto baixo (15 cm) e alta suplementação (0,6% PC: 142 g/kg PB e 18,9 MJ/kg energia bruta); 2) pasto moderado (25 cm) e moderada suplementação (0,3% PC: 161 g/kg PB e 20,1 MJ/kg energia bruta) ou 3) pasto alto (35 cm) sem suplementação (somente mistura mineral). Os autores observaram que a quantidade de suplemento fornecido pode afetar o consumo de matéria seca da forragem (Figura 1), onde o fornecimento de maior quantidade de suplemento proporcionou redução no consumo de forragem e maior taxa de lotação sem impactar o ganho de peso, resultando em maior produtividade por área.
Figura 1. Consumo de matéria seca de forragem em porcentagem do peso corporal de tourinhos em diferentes alturas de pastejo (cm), quantidades de suplemento (% do peso corporal) ou mistura mineral.
Suplementação para bovinos de corte na estação chuvosa - Image 1
Dias et al. (2015) trabalhando com capim Marandu no período chuvoso e avaliando o fornecimento de 0,4% peso corporal (PC)/dia de suplemento proteico energético e suplemento mineral ad libitum na fase de recria, observaram que há disponibilidade de matéria seca e dos componentes morfológicos da forragem aos animais, evidenciando a importância do manejo nas águas, que pode interferir no valor nutritivo da forragem. A alta qualidade da forragem possibilita a maximização do consumo de matéria seca, tempo de pastejo, no qual, a oferta de pasto não seja o fator limitante o consumo pelo animal. O ganho médio diário (kg/dia) foi de 0,97 e 0,70 para animais com e sem suplementação, respectivamente.
Estudando os efeitos da suplementação de bovinos corte no período das águas, fornecidos 0,6% do peso corporal em pastagens de Brachiaria brizantha Fernandes et al. (2010) encontraram diferenças entre os animais com e sem suplementação que obtiveram ganho médio diário (kg/dia) de 0,77 e 1,06 respectivamente. A elevada disponibilidade de forragem e a suplementação no período das águas resulta no incremento no ganho de peso e aumento da eficiência no desempenho animal (Tabela 1).
Tabela 1. Ganho de peso na recria de bovinos em função da altura do pasto do gênero Urochloa (sin. Brachiaria) e suplementação na estação chuvosa.
Suplementação para bovinos de corte na estação chuvosa - Image 2
O fornecimento de proteína e energia podem ter efeitos distintos, a associação de fontes energéticas e proteicas pode aumentar o desempenho animal, por ofertar energia e proteína rapidamente degradável (CARDOSO et al., 2013). A disponibilidade de proteína da forragem na época das chuvas diminui o tempo de retenção ruminal e aumenta as taxas de compostos nitrogenados no rúmem, o que causa diminuição na síntese de proteína microbiana (COSTA et al., 2011). O desequilíbrio de nutrientes nas águas, com relativo excesso de energia pode ser corrigido com a suplementação proteica (DETMANN et al., 2014b).
Avaliando o desempenho de animais em pastejo de Brachiaria brizantha na fase de terminação no período das águas Souza et al. (2012) comparando suplemento mineral e suplemento mineral proteico de baixo consumo observaram que os animais do tratamento suplemento mineral, apresentaram ganho médio diário de 0,65kg/animal/dia, ganho de peso total de 73,25kg e os do suplemento proteico de 0,59kg/dia e 66,22kg, respectivamente, indicando que suplementação não promoveu melhorias no desempenho animal, podendo ser desnecessária quando a qualidade e oferta da forragem for alta e a taxa de lotação baixa.
Barros et al. (2015) trabalhando com suplementos múltiplos com diferentes teores de proteína bruta encontraram redução no consumo de matéria seca de forragem quando se aumentou o nível de PB no suplemento, indicando efeito substitutivo, que resultou na variação nas taxas de digestão, afetando o consumo. Já Miorin et al. (2016) observaram que a regulação do consumo ocorreu por efeitos fisiológicos, onde ao atingir os requerimentos de manutenção e produção, os animais pararam de ingerir antes de atingirem o nível físico saciedade, evidenciando que a suplementação deve ser específica e fornecida em quantidade suficiente para produzir o efeito desejado.
Estudando o desempenho de bovinos em pastejo durante o período de transição seca águas recebendo suplementação proteica, Figueiras et al. (2015) concluíram que a suplementação não alterou o consumo da forragem, logo, não teve efeito substitutivo da forragem pelo suplemento, apenas estimulou o consumo voluntário total. A suplementação causou efeitos na concentração de no balanço de compostos nitrogenados e eficiência de uso, resultando em melhorias na utilização dos nutrientes e no desempenho dos animais. É válido destacar que, em pastos bem manejados na estação chuvosa, normalmente a concentração de proteína não é limitante ao desempenho animal. Nestas situações, o fornecimento de suplemento energético pode ser mais efetivo para incrementos no desempenho animal (REIS et al., 2009).
Trabalhando com diferentes níveis de suplemento energético na recria de novilhos no período das águas, Costa et al. (2019) verificaram que o uso de 6 g de suplemento/kg PC resultou em melhorias no ganho médio diário (GMD) de bovinos de corte, que chegou a 0,445 kg de PC resultando em animais 65 kg mais pesados do que os não suplementados. Sales et al. (2008) observaram que ganhos adicionais de 20 a 30% por bovinos em pastejo podem ser obtidos com o fornecimento de suplementos com quantidades crescentes de energia durante o período de transição águas-seca
Nascimento et al. (2010) avaliando o desempenho de novilhos a pasto no período das águas, compararam fontes de energia em suplementos múltiplos: mistura mineral ad libitum, grão de sorgo moído, grão de milho moído, casca de soja, farelo de trigo, formulados com 33% de PB e as fontes energéticas foram adicionadas: mistura mineral, farelo de algodão e ureia. Com o fornecimento de 1 kg de suplemento animal/dia, os ganhos de peso médios diários dos tratamentos foram de 0,448; 0,700; 0,543; 0,529 e 0,614 respectivamente, encontrando desempenho semelhante para os suplementos estudados.
A quantidade de fornecimento do suplemento e a qualidade da forragem afetam diretamente no desempenho dos animais. Koscheck et al. (2020) avaliaram combinações de três alturas (15, 25 e 35 cm) do pasto de Urochloa brizantha cv. de Marandu e diferentes quantidades de suplemento (0,1; 0,3; e 0,6% PC) e mistura mineral na época das águas. Foram encontradas diferenças significativas para o ganho médio diário, com incrementos conforme aumento da quantidade de suplemento fornecido. Revisando dados da literatura, Cardoso et al. (2020) compilaram o efeito da suplementação em diferentes trabalhos reportados na literatura (Tabela 2). Nesse contexto, é importante ressaltar os fatores como categoria, raça, peso, oferta de forragem, desempenho almejado, fatores comerciais e econômicos devem ser considerados para o planejamento produtivo, tipo e quantidade de suplemento a ser fornecido.
Tabela 2. Ganho de peso médio diário (kg/dia) de bovinos de corte na fase de recria em diferentes experimentos durante a estação chuvosa.
Suplementação para bovinos de corte na estação chuvosa - Image 3
3 CONCLUSÕES
A literatura aponta que bovinos mantidos a pasto recebendo suplementação no período das águas apresentam incremento no ganho de peso mesmo quando elevadas taxas de lotação são utilizadas. A suplementação deve ser ajustada, em formulação e quantidade, em função das características da forragem e requerimento nutricional para o desempenho almejado. Ainda, o contexto econômico e comercial deve ser considerado no planejamento da atividade.
Esse artigo foi originalmente publicado em Brazilian Journal of Animal and Environmental ResearchISSN: 2595-573X625Brazilian Journal of Animal and Environmental Research, Curitiba, v.5, n.1, p.625-636, jan./mar. 2022.DOI: 10.34188/bjaerv5n1-048 | https://www.brazilianjournals.com/index.php/BJAER/article/view/43946/32972. Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.

Referências bibliográficas

 
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