Poder de compra e consumo de lácteos no Brasil

Publicado: 08/08/2013
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Sumário

As transformações ocorridas nas classes de renda no Brasil no período recente foram significativas. As classes D e E, que em 2005 respondiam por 51% da população, recuaram para 35% em 2009, conforme pesquisa divulgada pela Cetelem. Porém, a elevação da renda nominal e uma melhor distribuição da mesma, que possibilita muitas pessoas migrarem para classes superiores, deve ser analisada em consonância com a inflação, pois o que realmente influencia no aumento do consumo das famílias é o seu poder de compra. Tomando por base o salário mínimo e a cesta básica calculada pelo Dieese para São Paulo e Belo Horizonte, verifica-se que entre 2000 e 2009 houve aumento no poder de compra de 68% e 56%, respectivamente.

O consumo de leite no Brasil, assim como a oferta, vem evoluindo rapidamente nos últimos anos. Analisando os dados de consumo aparente (produção mais importação menos exportação), verificase que o consumo aparente per capita aumentou cerca de 18% de 2000 até 2009, passando de 124 litros/habitante para 146,8 litros/habitante. Apesar da crise que prejudicou o mundo no ano de 2009, praticamente todos os derivados lácteos registraram aumento de vendas em 2009 segundo levantamento da Nielsen. O consumo de lácteos no início de 2010 também se mostrou bastante aquecido, com aumento de vendas para todos os produtos os produtos com exceção do creme de leite.

Palavras-chave: Consumo; Lácteos; Poder de compra.

INTRODUÇÃO

A renda da população é um fator determinante para o crescimento do consumo de lácteos de um país (Carvalho et al, 2009). No Brasil, particularmente, onde existe grande parcela da população com dieta alimentar carente de proteínas, pequenas melhorias na renda das classes mais baixas permitem alterar a composição de sua alimentação e impulsionar o consumo de lácteos. Entre 2005 e 2009, 31,5 milhões de pessoas migraram das classes D/E para a classe C devido à uma melhor distribuição da renda, novos empregos, entre outros, o que impactou de forma significativa no poder de compra da população. Em 2000, um cidadão que ganhava um salário mínimo em São Paulo comprava 1,3 cestas básicas, já em 2010 ele passa a comprar 2,2 cestas, ilustrando os ganhos reais de renda. Este aumento na renda real tem possibilitado que o consumo de alimentos, em especial leite e derivados, se mantenha aquecido nos anos pós crise, e os valores de consumo de lácteos nos anos 2009/2010 mostram que o aumento na demanda tem sido em praticamente todos os derivados lácteos.

 

METODOLOGIA

Os dados referentes à parcela da população em cada classe de renda foram obtidos através de uma pesquisa divulgada pelo grupo financeiro Cetelem, juntamente com o instituto de pesquisa Ipsos. Para analisar o poder de compra da população, os preços das cestas básicas e os valores de salário mínimo são disponibilizados pelo DIEESE (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos). Dividindo o salário pela cesta básica, é possível verificar quantas cestas uma pessoa consegue comprar com um salário mínimo, o que possibilita identificar se o poder de compra da mesma está aumentando ou diminuindo ao longo do tempo.

Os valores de consumo aparente são calculados da mesma forma que Martins (2005), sendo da soma da produção nacional com as importações, subtraída as exportações. A produção nacional utilizada é a divulgada pelo IBGE na Pesquisa Pecuária Municipal, e os dados de transações internacionais são do Ministério do Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio Exterior ( MDIC), em seu sistema Aliceweb. Por fim, os valores referentes às vendas de produtos lácteos na comércio varejista foram calculados pela Nielsen, bem como o crescimento em relação ao mesmo período do ano anterior.

 

RESULTADOS

As transformações ocorridas nas classes de renda no Brasil no período recente foram significativas. As classes D e E, que em 2005 respondiam por 51% da população, recuaram para 35% dos brasileiros em 2009, conforme pesquisa divulgada pela Cetelem (financeira do grupo francês BNP Paribas) e pelo instituto de pesquisas Ipsos. Isso porque boa parte desse contingente migrou para a classe C, que em 2005 respondia por 34% da população brasileira e agora está em 49%, ou um total equivalente a 92,85 milhões de pessoas (pouco mais que toda a população da Alemanha, de 82 milhões de habitantes). As classes A/B também aumentaram a representação nacional, mas em menor intensidade, conforme Figura 1. O principal ponto a destacar destas informações refere-se a migração da população das classes D/E para a classe C, devido principalmente aos aumentos reais do salário mínimo e às políticas de transferência de renda, assistência social e segurança alimentar implementadas pelo Governo Federal. Em termos absolutos isto representa um aumento de 30,1 milhões de pessoas pertencentes a classe C entre 2005 e 2009, enquanto a população brasileira aumentou em 7,9 milhões de pessoas. Vale destacar ainda que esse contingente é constituído de uma parcela da população com elevada elasticidade-renda por alimentos em geral e por lácteos em particular (Oliveira e Carvalho, 2006). O total da população que saiu das classes D/E foi de aproximadamente 26 milhões de habitantes.

Porém, a elevação da renda nominal e uma melhor distribuição da mesma, que possibilita muitas pessoas migrarem para classes superiores, deve ser analisada em consonância com a inflação, pois o que realmente influencia no aumento do consumo das famílias é o seu poder de compra. Tomando por base o salário mínimo (SM) e a cesta básica (CB) calculada pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos) para São Paulo e Belo Horizonte, verifica-se que entre 2000 e 2009 houve aumento no poder de compra de 68% e 56%, respectivamente (Figura 2). Em São Paulo, por exemplo, um SM comprava em 2000 cerca de 1,28 CBs. Já em 2009 o SM foi suficiente para adquirir 2,14 CBs. Em Belo Horizonte, essa quantidade passou de 1,36 CB para 2,37 CBs (Figura 2).

Nos cinco primeiros meses de 2010 em relação ao mesmo período de 2009, verificou-se também aumento no poder de compra das famílias, com elevação de 5,6% e 8,2% para São Paulo e Belo Horizonte, respectivamente. Todavia, uma inflação mais alta é esperada para 2010 e tende a reduzir o patamar recorde do poder de compra ao longo do ano. Ainda assim, o desempenho do consumo de lácteos tende a ser positivo, já que o cenário para o PIB brasileiro indica algo próximo de 7%, conforme levantamento do Banco Central do Brasil em final de junho.

O consumo de leite no Brasil, assim como a oferta, vem evoluindo rapidamente nos últimos anos. Analisando os dados de consumo aparente per capita, verifica-se que houve um aumento de aproximadamente 18% de 2000 até 2009, passando de 124 litros/habitante para 146,8 litros/habitante (Figura 3). Isso equivale a uma taxa média anual de 1,9%. Neste mesmo período, a produção brasileira total de leite aumentou 39% ante um avanço de 32% no consumo aparente total, ou seja, apesar do bom desempenho do consumo interno, a oferta aumentou em quantidade suficiente para reduzir o déficit doméstico de produção em relação ao consumo e ainda gerar um excedente para exportação. A evolução do consumo no período analisado foi impactada positivamente pela melhoria de renda e de sua distribuição.

O ano de 2009 foi bastante difícil para maioria dos países, devido à maior recessão econômica mundial desde 1929, que assolou o mundo no final de 2008 e gerou os maiores impactos negativos no ano posterior. A escassez de crédito em grande parte dos países fez com que os investimentos e o consumo diminuíssem drasticamente, gerando desemprego e queda do PIB em boa parte do mundo. O Brasil foi um dos países menos afetados pela crise, e mesmo assim registrou um decréscimo de 0,2 % no PIB de 2009, comparando com 2008 (IBGE, 2010), e isto porque a crise diminuiu os investimentos que estavam programados para o país. O que diferenciou o Brasil de outros países foi o consumo, já que ele se manteve aquecido durante todo o ano, e foi responsável pela volta do crescimento do PIB brasileiro já no terceiro trimestre de 2009. No caso dos lácteos, as vendas no varejo também se mantiveram aquecidas. Segundo levantamento da Nielsen, praticamente todos os derivados lácteos registraram aumento de vendas em 2009. As maiores altas ocorreram no leite fermentado (17,9% em relação a 2008), leite em pó (11,4%), iogurte (6,8%), requeijão cremoso (5,4%), petit suisse (5,4%) e queijos (3,7%). O desempenho negativo foi verificado no leite UHT, que teve suas vendas penalizadas pelo aumento real dos preços ao consumidor (Figura 4).

No primeiro bimestre de 2010, o volume de vendas também foi positivo para os produtos lácteos (Figura 5). Comparando janeiro-abril de 2010 com o mesmo período de 2009, novamente o leite fermentado registrou a maior variação nas vendas, com alta de 23,3%, seguido do queijo (14,4%), petit suisse (12,2%), requeijão cremoso (7,4%) e leite UHT (6,6%) . O único produto que registrou decréscimo nas vendas no varejo foi o creme de leite, com recuo de 3,1 %. Portanto, o ano de 2010 se inicia de forma favorável para o setor lácteo brasileiro, com incremento da captação, aumento de preços ao produtor e crescimento do consumo interno.

 

DISCUSSÃO E CONCLUSÕES

A renda real da população brasileira aumentou substancialmente nos anos recentes, devido ao bom momento que a economia viveu no início do século XXI e às políticas governamentais de distribuição de renda. Ao mesmo tempo, a inflação vem sendo controlada, fazendo com que as pessoas tenham ganhos de renda reais e um poder de compra maior. Segundo Oliveira e Carvalho (2006) a elasticidades-renda dos produtos lácteos e maior que a média dos alimentos. Além disso, verificou-se que a elasticidade-renda da população menos favorecida é a maior, ou seja, elas consomem mais lácteos se obtiverem um aumento de poder aquisitivo. No Brasil, nota-se que as maiores mudanças de classes sociais ocorreram da classe a D/E para a C, o que impulsionou de uma forma ainda mais relevante o consumo de lácteos no país. O aumento considerável do consumo aparente de lácteos é um indicador de que as pessoas realmente estão tendo maior acesso à alimentos essenciais à saúde humana, e mesmo em um cenário desfavorável de crise, o consumo de leite e derivados no país se manteve crescente, favorecendo o mercado interno e o setor lácteo em geral.

 

Agradecimentos: ao CNPq, pela bolsa de Iniciação Científica concedida aos estudantes.

 

REFERÊNCIAS

BANCO DE DADOS, Embrapa Gado de Leite, Juiz de Fora, 2010

CESTA BÁSICA NACIONAL, Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos. Disponível em: www.dieese.org.br. Acesso em 21 de junho de 2010.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2010. Dosponível em <www.ibge.gov.br>. Acesso em 14 de junho de 2010.

CARVALHO, G.R. LEITE, J. L. B.; SIQUEIRA K. B. Perspectivas para o mercado mundial de lácteos. In: LEITE, J. L. B. et al. (Ed.). Comércio Internacional de Lácteos. 2. ed. rev. e ampl. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2009.

MARTINS, P. C. Oportunidades e desafios para a cadeia produtiva do leite. In: A Inserção do Brasil no mercado internacional de lácteos. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2005.

OBSERVADOR 2010, Cetelem (BNP Paridas). Disponível em: http://www.cetelem.com.br/portal/Sobre_Cetelem/Observador.shtml. Acesso em 16 de junho de 2010.

OLIVEIRA, A. F. , CARVALHO, G. R. Evolução das elasticidades-renda dos dispêndios de leite e derivados no Brasil. Anais do XLIV Congresso da SOBER,2006.

SECEX/MDIC. Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Sistema AliceWeb, Disponível em: < http://aliceweb.desenvolvimento.gov.br>. Acesso em: 21 jun. 2010.

 

ANEXOS

Figura 1. Evolução da população brasileira por classe de renda (%).

Figura 2 – Poder de compra em São Paulo e Belo Horizonte: número de cestas básicas compradas com um salário mínimo.

Figura 3. Consumo aparente per capita de lácteos, em litros/habitante.

Figura 4. Variação no volume de vendas no varejo dos derivados lácteos: 2009 em relação a 2008, em %.

Figura 5. Variação no volume de vendas no varejo dos derivados lácteos: janeiro-abril de 2010 em relação ao mesmo período de 2009, em %.

 

***O trabalho foi originalmente publicado pela Embrapa Gado de Leite, coordenado pelo Centro de Inteligência do Leite (CILeite) / Apresentado no 8º Congresso Internacional do Leite - Julho,2010 * Juiz de Fora-MG

 
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