O Gir leiteiro “Made in Brazil”

Publicado: 18/03/2013
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INTRODUÇÃO

Se a natureza nos deu raças para produzir leite em clima temperado, também criou uma para os trópicos. Esse gado, o Gir, estava na Índia, mas ao ser introduzido a Brasil junto com os outros Zebus, um grave engano fez com que fosse considerado uma raça de carne como as demais de sua subespécie.

No entanto, este erro foi corrigido e hoje o Brasil, além de possuir os melhores Zebuínos do mundo para a produção de carne nos trópicos, também conta com o Gir Leiteiro, raça pura naturalizada brasileira, capaz de levar adiante uma pecuária leiteira moderna e descolonizada, de acordo com nossa realidade tropical.

Isto só foi possível porque os criadores de Gir Leiteiro se reuniram e realizaram o necessário trabalho de melhoramento na raça Gir e conseguiram, com objetivo e determinação, resgatar seus atributos naturais e consolidar as características desejáveis para um Zebu de alta qualidade em produção de leite nos trópicos.

A raça Gir, por suas qualidades próprias e especiais, oferece opções para seleção com funções bem definidas e distintas. A seleção segundo a função zootécnica da raça —leite ou carne— não formou variedades diferentes na raça, mas sim aptidões de produção desiguais, com biótipos próximos ao que se estava melhorando, carne ou leite. Assim, é importante que existam mecanismos para certificação dos produtos que dêem garantia e credibilidade para distinguir os animais da raça Gir.

O Gir Leiteiro conta com dados de provas zootécnicas que permitem validar sua capacidade produtiva; esse é o grande diferencial com outras raças ou linhagens cuja informação é inconsistente e carece de respaldo. O fato de que a Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ) tenha separado nos julgamentos o Gir Leiteiro do Gir de Duplo Propósito é um reconhecimento das diferenças morfológicas quanto ao tipo de ambos, todavia enquadrados os dois no padrão racial exigido para registro.

Naturalmente, o padrão racial pode também ser questão de beleza, principalmente para aqueles que por longo tempo vieram criando e admirando a raça por esse atributo, mas tal refinamento por si só é demasiado subjetivo. A insistência nessa antiga tradição, em realidade, é prejudicial porque vai a detrimento da seleção segundo os pontos economicamente importantes.

 

HISTÓRIA

A raça Gir criada em Brasil corresponde à raça do mesmo nome da Índia, que é incluída no Grupo III da classificação de Joshi e Phillips (1953). É originária das regiões de Gir na península de Kathiawar. Juntamente com as raças do tipo Misore, ao sul, e as raças das regiões montanhosas, ao norte, é considerada de criação mais antiga.

Os primeiros exemplares da raça Gir introduzidos a Brasil chegaram provavelmente ao redor de 1906, numa das importações efetuadas por Teófilo de Godoy. No entanto, o senhor Wirmondes Machado Borges, criador do Triângulo Mineiro, assegurava ter sido ele o introdutor da raça, em 1919.

Outras três importações da Índia foram sumamente importantes para a formação do Gir brasileiro. Em 1955, o criador Joaquim Machado Borges importou, via Bolívia, 114 cabeças. Posteriormente, em 1960, Celso Garcia Cid, da província de Paraná, conseguiu licença do governo federal para introduzir, depois de uma quarentena realizada em Paranaguá, 102 animais, 70 deles da raça Gir. Depois da libertação de importações entrou no território brasileiro, em 1962, grande número de animais Zebu, entre os quais 153 Gir, principalmente para os criadores Celso Garcia Cid, Torres Homem Rodrigues da Cunha, Rubens de Carvalho e Jacinto Honório da Silva.

Ainda que o maior interesse pela raça Gir tenha surgido depois do auge da formação do Indubrasil, sua difusão no Brasil foi bastante rápida e atingiu todo o País, onde é criado na maioria dos estados.

A hegemonia do Gir se manteve até o final dos anos sessenta. Até essa época a raça teve grande importância no cenário econômico e foi inclusive a base para a formação do Indubrasil, mas a partir de então perdeu espaço ante os outros Zebus, que demonstraram excelente aptidão para a produção de carne nas mais diferentes condições de manejo extensivo.

Muitos países de América Latina importaram do Brasil animais desta raça. Através do México e posteriormente por importações oficiais, o Gir brasileiro teve grande influência na formação do Brahman americano, principalmente da variedade Vermelha.

 

O Gir mocho

Como os demais Zebu mochos, o Gir sem chifres deve de ter-se originado a partir de cruzamentos de animais da raça com aqueles da raça Mocha Nacional existentes no estado de Goiás, que por sua vez tem seus antecedentes nos primeiros animais ‘Bos taurus taurus’ introduzidos ao país pelos colonizadores ibéricos. Na década de 1940, o criador Gérson Prata adquiriu 12 vacas mochas ‘agiradas’ do senhor Adolfo Prata e começou a acasalar com seus melhores touros Gir com chifre. Hoje são variadas as fazendas que se dedicam à criação da nova variedade, selecionada principalmente para produção de carne e, em alguns casos, para leite.

 

O Gir Leiteiro

Na década de 1930, quando a raça Gir teve grande valorização em Brasil, alguns criadores vasculharam pacientemente as fazendas desta raça dispersas por todo o país e selecionaram muitos dos exemplares que se distinguiam pela capacidade leiteira.

O Gir Leiteiro é resultado da seleção efetuada tanto por entidades governamentais (Estação Experimental de Umbuzeiro, no estado de Paraíba, e Fazenda Experimental Getúlio Vargas em Uberaba, Minas Gerais) e por criadores dos estados de São Paulo (João Batista Figueiredo Costa, de Casa Branca; Francisco Figueiredo Barreto, de Mococa; Continentino Jacinto, de Franca; José Fernandes de Carvalho, de Caçapava, e José Francisco Junqueira Reis, de Lins), Minas Gerais (Rubens Resende Peres, de São Pedro dois Ferros; Gabriel Donato de Andrade, de Arcos; Randolpho de Melo Resende, de Uberaba, e Arthur Souto Maior Filizola, de Jequitibá) e Rio de Janeiro (Manoel e José João Salgado dois Reis, de Rio das Flores). Eles começaram seus rebanhos Gir Leiteiro a partir desse gado Gir comprado, originários das importações efetuadas da Índia em 1906, 1919, 1955, 1960 e 1962.

O mérito destas pessoas é equivalente ao daqueles que realizaram as históricas importações das raças Zebus para o Brasil, porque não permitiram que a aptidão leiteira da raça se perdesse totalmente. Eles são a história viva do Gir Leiteiro, porque formaram rebanhos tradicionais que adquiriram identidade própria. Alguns desses rebanhos são hoje manejados por seus herdeiros; outros já não existem, mas mantém sua influência nos rebanhos de criadores atuais.

As vacas de fundação desses criadores pioneiros do Gir Leiteiro eram oriundas dos rebanhos de gado Gir selecionados para carne dos produtores mais tradicionais da época e que não se mostravam adequadas ao sistema de produção extensivo. Eram vacas ‘descarnadas’, com úberes grandes e que exigiam a presença de vaqueiro, porque o excesso de leite dificultava a criação do bezerro e elas tinham que ser ordenhadas para evitar mamite ou diarréia das crias, além de que não apresentassem o mesmo desempenho ponderal exigido para animais de corte, que desviam todo o metabolismo para produção de carne.

A maioria desses rebanhos Gir Leiteiros, formados na década de 30-40, sempre foram acompanhados quanto ao registro genealógico pela ABCZ, com pedigrees avaliados, bem como serviram de estudo para teses de mestrado e doutorado desde sua formação, não cabendo nenhuma dúvida quanto sua origem Gir ‘indiana’.

O Controle Leiteiro Oficial foi implantado já em 1960, depois de uma reunião de criadores que já queriam aferir a produção de seus animais.

Outras linhagens poderiam ter surgido se não tivesse existido um processo seletivo antagônico à produção de leite em muitos rebanhos de Gir, nos quais se procurou o melhoramento orientado à produção de carne. O Gir melhorado para leite tem estado durante várias gerações em processo contínuo de aperfeiçoamento, com produções leiteiras aferidas que permitem distinguir os animais pelo desempenho e não por indicativos subjetivos do que poderão ser ou produzir.

Hoje, no entanto, a raça Gir voltou ao mercado brasileiro e contribui com a pecuária nacional, sobretudo por sua aptidão leiteira, que a faz preferida para cruzamento com gado europeu para a obtenção de híbridos com boa produção de leite e rusticidade. Estima-se que há sangue Gir em mais de 80% das explorações leiteiras brasileiras.

Assim, muitos dos outros criadores de Gir ‘padrão’ estão adequando-se agora ao processo de pecuária leiteira, porque o mercado e a pecuária só querem o Gir para sua função leiteira.

Gado de carne Zebu sõa os Gir chamados de Dupla aptidão ou Padrão, cujos criadores insistem como colecionadores de beleza estética, sem nenhuma informação zootécnica, assim também as outras raças, principalmente o Nelore, Indubrasil, Tabapuã e Brahman. O Gir é na realidade uma raça ‘Bos taurus indicus’ especializada para leite, assim como as raças ‘Bos taurus taurus’ européias, só que adaptada às nossas condições tropicais e melhorada no Brasil. Ninguém seleciona raça especializada para outra função que não aquele objeto de melhoramento – gado de corte é para produção de carne e gado de leite para LEITE.

Dessa forma, se não fossem os criadores de Gir Leiteiro, provavelmente o Gir estaria predestinado à extinção em Brasil, como se verifica nos dados apresentados no Gráfico 1, nos anos de 1997 até 2001. Esses criadores souberam com perseverança e ideais melhorar os úberes, com tetas de tamanhos médios e bem colocados, aprumos perfeitos e estrutura óssea vigorosa, boa resposta de ovulação nos processos de TE e FIV e reduzir a idade ao primeiro parto e intervalo de partos, etc.

Gráfico 1 – Dados de Registro Genealógico Definitivo do Gir ao longo dos anos

 

O Gir deve ser mantido como Gir dentro da visão de raça “pura” em termos de inventários de pedigree. Temos Gir com o “adjetivo leiteiro” como recurso genético dinâmico que evoluiu no tempo conforme as necessidades circunstanciais do mundo tropical. A aplicação do conhecimento aconteceu e o melhoramento ocorreu.

Faz muitos anos que estamos dando “Olé!” com a seleção e melhoramento do Gir para produção de leite. Esse é o único destino do Gir, produzir leite, como ‘O Milagre Zootécnico da Pecuária Leiteira Tropical do Século XX’.

 

Efetivo do rebanho Gir

As raças Zebu leiteiras (Gir, Guzerá e Sindi) constituem a menor fração do rebanho Zebu registrado na ABCZ (Tabela 1). Em 2011 foram elaborados 29.963 Registros Genealógicos de Nascimento (RGN) da raça Gir na ABCZ, que corresponde a 6,42% do total de RGN de todas as raças Zebuínas (no RGD representam 6,73%).

Tabela 1 - Número de animais zebu com Registro Genealógico de Nascimento (RGN e Definitivo (RGD) na ABCZ em 2009

O mais impressionante foi o número embriões de Gir Leiteiro implantados de coleta por TE e FIV comunicados na ABCZ (Gráfico 2). Houve aumento de 1.646 embriões em 2003 para a impressionante quantidade de 48.267 embriões implantados em 2010 (crescimento de 2.832%).

Gráfico 2 – Número de embriões de Gir implantados no Brasil 

Um dos fatores desse aumento é a necessidade de multiplicar intensivamente vacas de VG genético superior para atender à demanda do mercado.

NOTA: Considerando o número dos RGN de animais Gir (29.963 animales en la Tabla 1) e se descontar 14.480 partos advindos de FIV e TE, como se fossem 30% de gestações das 48.267 implantações de embriões no ano de 2010 (Gráfico 1), conclui-se que houve 15.483 vacas paridas em 2011.

Considerando que esses 15.483 partos representam 65% de natalidade das vacas em reprodução, então o rebanho de fêmeas seria de 23.820, as quais representam 33% na composição total do rebanho Gir. Desse modo, o efetivo estimado de Gir registrado seria de 72.181 animais. 


A ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CRIADORES DE GIR LEITEIRO (ABCGIL)

A ABCGIL foi fundada em 1980 por um grupo de 10 criadores e tem sua sede própria em Uberaba, Minas Gerais. Na atualidade, dos 510 criadores de Gir filiados à ABCZ, 350 (68%) são sócios da ABCGIL, cujas propriedades se encontram espalhadas por todo o território brasileiro.

O que diferença o Gir Leiteiro dos outros animais Gir (sem adjetivo próprio) é que, além de possuir registro genealógico expedido pela ABCZ, devem apresentar uma produção mínima de 2.100 kg de leite em 305 dias de lactação ou 2.500 kg em 365 dias no recorde do Controle Leiteiro Oficial. Isto se encontra nos estatutos (ítem 2, parágrafo único do artigo 4), elaborado desde que ele foi redigido e constitui uma singularidade pois é a única associação de seu tipo que exige do sócio possuir animais com características de produção e não somente características raciais.

O mercado é cada vez mais exigente e, com certeza, isto tende a aumentar. O sonho e o trabalho de um grupo de poucos criadores pioneiros deram grande resultado. Muitos desafios e contrariedades foram vencidos ao longo dos anos, inclusive junto com a ABCZ, mas hoje em dia o Gir Leiteiro é orgulho nacional. Grandes empresários, mesmo de outros países, têm investido no Gir Leiteiro e formado seus rebanhos com animais adquiridos dos sócios da ABCGIL.

Hoje em dia o Gir Leiteiro se destaca por apresentar virtudes adequadas, oportunas e peculiares para atingir crescentes níveis de produção na pecuária leiteira tropical. Apesar de ter sido sempre marginado pelos criadores e pelas associações, por crendice e talvez por conveniência, hoje o Gir Leiteiro brasileiro se distingue tanto pela qualidade do gado como pelo labor de melhoramento que a Associação promoveu com seus sócios através de convênios com Entidades de Investigação e Universidades.

 

O que se está fazendo de melhoramento?

A ABCGIL, em convênio com universidades, empresas de investigação, entidades de fomento e centrais de inseminação, promove o Gir Leiteiro por meio de ações como as seguintes:

 

1. Provas de desempenho

1.1. Para leite:

-Controle leiteiro oficial efetuado nos rebanhos.

-Participação em torneios leiteiros.

1.2. Para desenvolvimento:

-Pesagem de animais no rebanho.

-Participação de touros em provas de ganho de peso.

1.3. Para padrão racial:

-Seleção pelo sistema linear de avaliação, tipo leiteiro.

-Julgamento em exposições pecuárias.

 

2. Provas de progênie

2.1. Em 1985 foi quando a ABCGIL e Embrapa Gado de Leite instituíram o Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro e procederam à avaliação genética das vacas e à execução da Prova de Progênie dos touros.

2.2. Estudo de marcadores moleculares como um auxiliar para identificar de forma antecipada nos reprodutores Gir Leiteiro genótipos com painel associados à produção do leite e de genes associados a doenças e qualidade do leite.

 

3. Outras avaliações

3.1. Exame andrológico, provas de índice de congelabilidade e para identificação de proteínas marcadoras para fertilidade no sêmen e para fertilidade a campo e na fecundação in vitro (FIV), para avaliar machos Gir Leiteiro a partir dos 13 meses de idade, para determinar a idade de puberdade e de maturidade sexual.

3.2. Experimentos de manejo de pastagem, alimentação e formação de núcleo MOET de fêmeas superiores para aumentar o ganho genético.

3.3. Assessoria aos sócios, através de seus técnicos, sobre manejo e acasalamento dos animais.

 

TESTE DE PROGÊNIE

Toda raça, de qualquer espécie, tem suas linhagens básicas que fornecem o material genético sobre o qual se desenvolve a seleção evolutiva. Depende dos criadores saber aproveitarem do material das melhores linhagens para fazer seleção e melhoramento de seus rebanhos.

Os trabalhos de seleção em Gir Leiteiro foram realizados à maneira de cada criador, cada um usando sua intuição, conhecimentos e experiências, com visão de mercado e procurando as características desejáveis para seu rebanho segundo interesses específicos e particulares. Praticavam uma baixa incorporação de genótipos de outros rebanhos, porque não tinham informação consistente que pudesse auxiliá-los nesta decisão de introduzir outros animais.

Como era de se esperar, com o tempo as respostas à seleção ou acasalamentos entre suas próprias famílias produziram resultados menos pronunciados do que os observados no início de seus trabalhos, uma vez que os rebanhos não eram - e não são - suficientemente grandes para manter a variabilidade genética em características de produção. Surgiu assim a necessidade de realizar um trabalho mais amplo que pudesse pôr a disposição de todo rebanho Gir opções de touros e ventres de vacas dessas linhagens já existentes, bem como identificar aqueles de qualidade superior.

Foi então quando a ABCGIL e Embrapa Gado de Leite instituíram, em 1985, o Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro, e procederam à avaliação genética das vacas e à execução da prova de progênie dos touros.

Esse trabalho viria complementar a primeira fase de seleção praticada em cada fazenda e efetuar uma prova que permitiria comparar, numa mesma base de avaliação, os touros de vários rebanhos para identificar aqueles superiores em produção de leite com base no desempenho das filhas.

Este Programa avalia a produção de leite, gordura, proteína, sólidos totais, células somáticas e características de conformação e temperamento das progênies, para o cálculo da PTA dos touros (isto é, sua capacidade prevista de transmissão de valores genéticos leiteiros), a partir de informações de suas filhas e de suas contemporâneas de rebanho, além de considerar as informações de valores genéticos (dobro da PTA) de todos os animais, as quais constam em seus registros.

O programa fornece aos criadores uma orientação segura para sua seleção, pois prevê ganhos genéticos comprovadas ao utilizar um touro geneticamente superior para produção de leite, com base na prova de desempenho das filhas.

Cada ano se publica o catálogo dos reprodutores avaliados. Já foram avaliados 244 touros até 2012 e existem mais 192 touros em avaliação, com resultados a serem liberados de 2013 até 2018.

Os animais que começaram a destacar no programa começaram a ser disseminados e utilizados pelos criadores, com vistas a promover o melhoramento genético dos rebanhos através da introdução de novos genótipos, ampliando o leque de opções de linhagens de outros criadores e permitindo um maior índice de acertos, o que permitiu aumento considerável no ganho genético para produção de leite, principalmente depois de 1993 (Gráfico 3). 

Gráfico 3 - Evolução do valor genético da produção de leite em rebanhos Gir Leiteiro

No Gráfico 4 podemos observar que houve também aumento na duração da lactação.

Gráfico 4 – Duração da lactação de vacas Gir Leiteiro 

Quanto aos índices reprodutivos, o intervalo de partos reduziu de 17 meses para até 15 meses, sendo que nos últimos anos ocorreu elevação que pode ter sido causada pelo fato das vacas estarem sobre coleta de embriões, o que afeta a característica. Quanto a idade ao primeiro parto esta também reduziu de quase 50 meses para 40 meses (Gráfico 5). 

Gráfico 5 – Idade ao primeiro parto (Id1P) e intervalo de partos (INTP) de vacas Gir Leiteiro 

Observando o Gráfico 6, se verifica que até 1995 a venda de sêmen de Gir Leiteiro significava menos de 6% do sêmen nacional comercializado e, hoje em dia, representa mais de 46% (768.190 contra 1.664.196) e 15,69% do total comercializado (4.895.122 de doses). 

Fonte: ASBIA (2010)

Gráfico 6 – Evolução das vendas de sêmen de touros leiteiros no Brasil 

A repercussão da publicação, em 1993, dos resultados do primeiro grupo de touros Gir Leiteiro provados se fez sentir imediatamente na venda de sêmen, pois se superou o 10% do total comercializado das raças nacionais. A partir de 2001 o incremento nas vendas foi espetacular, para chegar a mais de 300 mil doses. Em 2003 se superou a marca de meio milhão de doses comercializadas (527.145) e em 2008 se atingiu o número recorde de 805.152 doses vendidas, com crescimento astronômico de 1.415% em relação ao ano de 1980, contra incremento de 833% nas vendas do sêmen importado e redução de -14% do total nacional.

Esses resultados atestam o sucesso do programa, que num período de 17 anos de apresentação de touros provados provocou toda essa mudança.

NOTA: Por outro lado, devemos atentar para o fato de que a partir de 1995 a venda do sêmen importado superou a do nacional até chegar ao dobro, mas em 1999 começou a decrescer ante a recuperação do material brasileiro, devido ao incremento na venda do sêmen do Gir Leiteiro. A partir de 2004 a venda de sêmen importado aumentou novamente, principalmente porque todas as Centrais de Processamento de Sêmen em Brasil passaram a ser conglomerados multinacionais. Dessa forma, numa política de lucros e para 'desovar' o sêmen que produzem em seus países, estimulam sua venda para os produtores com preços subsidiados.

 

Assim, a raça Gir exerce marcante papel no contexto da comercialização de sêmen por ser uma raça que incorpora rusticidade, produtividade e longevidade e utilizada por criadores como base para cruzamento, para produzir 1/2 sangue e o Girolando. Animais da raça Gir com aptidão leiteira são eficientes na produção de leite a baixo custo, sendo grandes contribuintes destas características para as vacas mestiças.

A seleção de animais de mérito genético superior para características de importante valor econômico em sistemas de produção de leite (principalmente as relacionadas à eficiência reprodutiva, baixa utilização de insumos e longevidade) deve ser objeto principal em programas de melhoramento. Portanto, as modernas ferramentas da biotecnologia devem ser foco da investigação para incrementar o papel desta raça como rebanho “núcleo” e provedor de genética superior para fortalecer a proposta de organização da produção em extratos de criadores elite, multiplicadores e comerciais, no segmento rural da corrente produtiva do leite.

 

O GIR LEITEIRO COMO ALTERNATIVA DE SOLUÇÃO PARA OS TRÓPICOS

De acordo com os dados da FAO (2010) o mundo produziu cerca de 550 milhões de toneladas de leite líquido de vaca. Dos 173 países e possessões, 128 são considerados subdesenvolvidos (têm 80% da população, 75% das vacas e produz somente 39% do total de leite).

Do total de 550 milhões de toneladas de leite de vaca, 76% foram produzidos por 22 países, 48% produziram tão somente oito países e 15% participou os Estados Unidos. América Latina e México participam somente com 13% da produção mundial.

A produção de leite em América Latina e México está com um crescimento forte na última década do século XX, produzindo na ordem de 79 bilhões de litros (Tabela 2).

Tabela 2 – Aspectos da produção de leite nos países de América Latina 

As projeções são que a produção de leite no Conjunto dos Países Desenvolvidos, entre 2010 e 2020, aumentará somente 0,4% por ano. Por outra parte, a produção no Conjunto dos Países Subdesenvolvidos, no mesmo período, aumentará mais, de 2,0% por ano.

O aumento da produção em Latinoamérica especificamente será de 2,7% anual. Assim, Latino América reúne todas as condições para produzir leite, de forma crescente, eficiente e ecologicamente correta, para o abastecimento de nossa população e para o resto do mundo.

Um exemplo é Brasil, onde isso já está sucedendo. Nos últimos 16 anos o número de vacas ordenhadas aumentou 11,5%, todavia o aumento na produção de leite foi mais elevada; teve crescimento de 77% (produz hoje 32 bilhões de litros).

Em 1999, Brasil importava 2,3 bilhões de litros de leite (12% da produção do país de 19 bilhões). Em 2004 sucedeu o contrário – passou a ser exportador, com aproximadamente 400 milhões de litros (1,6% da produção nacional de 25 bilhões).

Projeções para 2019 estimam um crescimento de produção de 3% ao ano e que as exportações brasileiras representarão 7% (2,6 bilhões de litros) do total produzido de 37 bilhões de litros. (Gráfico 7)

Gráfico 7 – Projeções de aumento da produção de leite no Brasil

Tudo indica que no futuro o mundo tropical exigirá uma vaca de tamanho meio, adaptada a nossas condições de exploração e clima, e com uma produção ao redor de 3.000 kg de leite por lactação, obtida em condições de exploração a pasto. Isto só será conseguido com o Gir Leiteiro puro ou através de produtos de sues cruzamento, quando houver necessidade de aumento de rusticidade.

O Gir Leiteiro está confirmado como linhagem da raça Gir para produção de leite. Deve destacar-se que o Gir Leiteiro é a segunda raça no Controle Leiteiro Oficial de Brasil (com aproximadamente 6.000 vacas controladas ao ano), e a primeira raça leiteira brasileira e Zebu do mundo com touros provados por prova de progênie.

A pecuária leiteira é uma atividade econômica, com custos e lucros, sendo interesse ao produtor aumentar a rentabilidade, por redução dos gastos e/ou por elevação dos preços de sua mercadoria produzida. O Gir Leiteiro reduz os custos no componente alimentação, medicamentos, assistência veterinária e com as instalações mais rústicas e simples.

Como todo bovino, o Gir Leiteiro tem suas necessidades nutricionais para manutenção, crescimento e produção, no entanto, sua exigência, seu índice de metabolismo e de ingestão de alimentos é mais baixo em relação às raças taurinas. Por ser animal adaptado, não sofre stress e queima menos energia, pois têm menor produção de calor metabólico e o dissipa de maneira eficiente, estando em conforto fisiológico permitindo que passem o dia em pastoreio, mesmo nas horas com temperatura elevada.

 

O sucesso do Gir Leiteiro pode ser medido também pela comercialização de seus produtos adicionais ao leite. Nesse aspecto representa um retorno econômico garantido, pois:

1. O mercado de reprodutores Gir Leiteiro deverá crescer ainda por muitos anos, devido à necessidade de aproximadamente 200 mil reprodutores ao ano para atender à reposição dos touros utilizados em monta natural para cobertura de 90% dos 26 milhões de vacas do rebanho leiteiro brasileiro, a maioria de mestiços. O rebanho Gir Leiteiro produz só ao redor de 2.500 machos ao ano (com o qual mal atende 1,25% da necessidade de reposição anual), os que atingem preços extraordinariamente compensatórios ao ser vendidos por seus criadores. A maioria dos criadores de Gir Leiteiro vende seus machos logo que desmamam, havendo deficiência para atender à alta demanda por touros em idade de reprodução.

2. A comercialização de fêmeas Gir Leiteiro também é excepcional, tanto por parte de criadores que desejam produzir animais 1/2 sangue em cruzes com touros de raças européias, como por aqueles que estão adotando o Gir para produzir leite. Se considerássemos que 80% do rebanho nacional é gado mestiço, teria necessidade de cinco milhões de novilhas anuais para serem incorporadas ao rebanho. O rebanho Gir Leiteiro possui só cerca de 6.000 vacas; elas forneceriam 800 vacas de substituição (taxa de 20% ao ano) e 1.300 novilhas excedentes, se os atuais rebanhos Gir Leiteiro se mantivessem estáveis. Os preços pagos em leilão por fêmeas desta raça superam todas as expectativas.

NOTA: Em trabalhos de custo e receita de sistemas de produção de leite com gado Gir, avaliou-se que além de perto US$243.33/ha/ano de lucro com leite, se tem também renda extra líquida mínima de US$241.64/ha/ano com essas categorias, sendo assim um grande fator de volta do capital de giro empregado na propriedade

3. Quanto ao sêmen dos touros Gir Leiteiro, o mercado é muito promissor e atraente, pois atualmente se insemina a menos de 9% das vacas leiteiras do rebanho nacional, ao mesmo tempo em que a tendência ao uso da inseminação artificial é crescente. O volume de vendas de sêmen no Brasil e para exportação supera qualquer prognóstico, pois o Gir Leiteiro é a primeira raça entre as leiteiras nacionais em venda de sêmen, para uso nos rebanhos puros e principalmente de mestiços.

4. A produção de embriões é outro fator que vem de forma crescente impactando o mercado brasileiro, sendo o Gir Leiteiro o que mais produz FIV no Brasil.

 

Alguns dados de produtividade

Atualmente, o Gir Leiteiro passa por um período de acelerado desenvolvimento. A pecuária leiteira dos países tropicais precisa de opções que permitam uma exploração mais eficiente dentro de suas realidades econômica e ambiental.

Os animais leiteiros para os trópicos devem ter algumas qualidades, como:

• Docilidade

•Longevidade

•Alta fertilidade

•Tamanho médio

•Baixa mortalidade

•Boa habilidade materna

•Eficiente termorregulação

•Baixo custo de manutenção

•Eficiente conversão alimentar

•Excelente temperamento leiteiro

•Alta taxa de sólidos totais no leite

•Adaptabilidade às condições tropicais

•Facilidade de partos com filhos ativos

•Produção de leite em nível de pastagem

•Facilidade de adaptação à ordenha mecânica

•Persistência na produção e na duração da lactação

•Versatilidade para cruzamento com raças européias

•Hábito de pastejo noturno e em horas do dia com calor

•Tolerância ao calor e resistência aos ectoparasitos e mamites

•Alta volta econômico (leite, sêmen, embriões, machos e fêmeas)

 

E mais isso:

• Proteína Beta Caseína A2 no leite

•Integrada ao sistema de produção

•Seletividade na eleição do alimento

•‘Frame score’ de acordo com a idade

•Tetas de tamanhos médios e bem colocados

•Aprumos perfeitos e estrutura óssea vigorosa

•Úbere largo, com ligamentos evidentes e fortes

•Limpar e ajudar seu filho a levantar depois do parto

•Capacidade de caminhar e recolher água e alimento

•Boa resposta de ovulação nos processos de TE e FIV

•Amamentar aos filhos imediatamente depois do parto

•Boa índole, calma e obediente a comandos de vaqueiros

•Úberes anteriores e posteriores volumosas e proporcionais

• Machos com muita libido para executar monta natural à campo

•Produzir filhos melhores genética e fenotípicamente que os ascendentes

No Brasil, o Gir Leiteiro registra uma produção média de 3.770 kg em 305 dias, mais de três vezes a média nacional (1.219 kg); a duração média da lactação é de 307 dias com uma média diária de 12,30 kg de leite, e somente 20,2% das lactações estão abaixo de 8 meses (Tabela 3). Mas o mais importante é que se trata de leite obtido com gado adaptado às condições climáticas e de manejo.

Tabela 3 – Distribuição das lactações quanto à sua duração

Como se não bastasse, hoje a raça possui mais de 900 vacas com lactações acima de 5.000 kg (Tabela 4); existem dezenas com produções acima de 7.000 kg, e mais de 50 vacas ultrapassaram 10.000 kg de leite no Controle Leiteiro Oficial. O atual recorde em dito Controle é de 17.388 kg em 365 dias.

Tabela 4 – Número de vacas e lactações estratificadas por nível de produção

OBS.: Cabe ressaltar que 98% das 11.988 lactações apresentadas na Tabela 4 estão entre 2.100 kg e 7.000 kg de leite. As outras lactações, como também das vacas de concurso leiteiro, são de animais condicionados em manejo especial, alguns deles estimulados com substâncias químicas (hormônios e outros medicamentos – ‘doping’). Esses artifícios são utilizados também por todos os criadores de outras raças leiteiras para que as vacas expressem seu potencial máximo de produção de leite como uma forma de conseguir publicidade para seu gado.

As médias de produção em torneios leiteiros vêm aumentando ano após ano e, neles, já há vacas que atingiram recordes acima de 48 kg diários (Gráfico 8). 

Gráfico 8 – Produção (kg/dia) das campeãs Gir em torneios leiteiros da ABCZ

Na análise de outros índices zootécnicos, a idade ao primeiro parto está em torno de 40 meses. Resulta mais tardia do que nas raças européias, mas é evidente que neste aspecto há um reflexo direto do manejo que recebem as fêmeas depois de desmama. Isso pode ser comprovado pelo fato de que, em algumas propriedades com alimentação melhorada e com pastejo intensivo, este índice se reduz para 31 meses. Além disso, deve recordar-se que a vida útil de uma vaca Gir Leiteiro é significativamente superior à de vacas européias, e é comum encontrar animais com 10 partos ainda em atividade produtiva.

Outro aspecto interessante é a possibilidade de utilizar os machos para a engorda, o que representa um benefício adicional para o produtor de leite. Numa prova de ganho de peso realizado pela Epamig/ABCZ, machos Gir Leiteiro atingiram ganhos médios diárias de 1,232 kg, superiores à maioria dos ganhos obtidos em provas similares com raças Zebu de carne. Essa é uma demonstração de que a seleção para produção de leite conduz à obtenção de animais de melhor conversão alimentar.

Capacidade produtiva e rusticidade fazem destacar o Gir Leiteiro como alternativa aconselhável para o produtor de leite. Animais de tamanho mediano (vacas adultas de aproximadamente 450 kg), resistentes e adaptados ao clima permitem sistemas de produção baseados na exploração de pastagens, o que faz possível reduzir os custos de produção. Proporcionar viabilidade econômica para o criador e oferecer ao consumidor um produto mais saudável é o papel do Gir Leiteiro na pecuária tropical.

Outro fato a relatar é o número de leilões (remates) que estão ocorrendo, cerca de 2 por mês, pela web, por televisão e presencial, onde os animais ofertados têm atingido preços bastante elevados.

Neste Contexto, a ABCGIL vem cumprindo seu papel de promover o constante melhoramento da raça para ampliar suas perspectivas no mercado internacional, sempre trabalhando para que o Gir Leiteiro possa continuar crescendo e atingindo seu merecido reconhecimento na pecuária tropical.

 

CONCLUSÕES 

Nenhuma raça é perfeita e por esta razão ‘EXISTEM MUITAS’, tanto primogênitas como sintéticas. Assim, todos de criadores devem tentar conhecer as bondades e debilidades das raças e trabalhar dia a dia para ressaltar suas qualidades e corrigir suas debilidades. Por isso é preciso ter ‘foco’ naquilo que se deseja e no sistema de produção que se quer.

Uma raça é escolhida em relação a outras por apresentar um conjunto de qualidades superior. Nenhuma raça se tornou numerosa ou foi adotada por imposição ou propaganda. A mídia por vezes, afeta momentaneamente o comportamento do mercado. Todavia, a consolidação e fixação de uma raça só ocorre se ela oferecer atrativos adicionais, com ganhos de produtividade que impliquem em ganhos econômicos, diminuição de custos de produção e dos inúmeros riscos que envolvem a atividade pecuária.

Neste contexto, o Gir Leiteiro esta em destaque por apresentar virtudes adequadas, oportunas e peculiares para alcançar crescentes níveis de progresso na pecuária leiteira tropical.

Apesar de anteriormente terem sido marginalizados por todas as pessoas ligadas à pecuária (talvez por superstição e convencionalismo), hoje os criadores de Gir Leiteiro no Brasil se consagram como referência mundial de rebanho Zebu submetido às mais modernas análises estatísticas e de testes de avaliação zootécnica do desempenho funcional, o que norteou e valorizou, com critérios objetivos, o trabalho de seleção que efetuam. Ganharam em precisão, credibilidade e confiança, com reconhecimento internacional, possibilitando aumento das divisas brasileiras com abertura de mercado na pecuária leiteira tropical.

Nenhum argumento contrário quanto à predestinação do Gir como raça leiteira é válido. Os avanços no melhoramento para produção de leite não causaram interferência ou prejuízo nas características de tipo e de peso. Afiançamos que o destino do Gir é seguir sua propensão espontânea e instintiva de produzir leite. As limitações e possibilidades climáticas da grande maioria dos países tropicais permitem fazer do Gir Leiteiro a opção indicada para a pecuária leiteira tropical, utilizada como raça pura, em cruzamentos e para ser o alicerce de formação do Girolando.

Por este motivo, os criadores de Gir leiteiro vêm buscando um intercâmbio técnico-científico e operacional de ação cooperativa com Entidades de Ensino e Pesquisa, capaz de promover um "marketing” agressivo, por terem criado uma estrutura operacional de um programa de melhoramento genético que deu credibilidade e balizamento ao que vinham fazendo empiricamente já com algum sucesso.

Como temos dito: -“O Gir Leiteiro não é a única solução para a pecuária no trópico, mas sim uma grande alternativa necessária para produção leiteira, como raça pura e para utilização em cruzamentos”.



Para assistir aos vídeos do Gir Leiteiro clique aqui: MegaleiteVacas Gir Campeãs dos Torneios Leiteiros ABCZ e Vacas Gir Campeãs Mudiais em Torneios Leiteiros.

Se quiser conferir mais fotos do Gir Leiteiro, clique aqui.

 
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