Caracterização de um rebanho Gir Leiteiro quanto à origem do DNA Mitocondrial (mtDNA)

Publicado: 15/04/2013
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Sumário

RESUMO: As raças zebuínas entraram no Brasil principalmente no século passado através de importações do continente indiano. Com a chegada do gado zebu, o rebanho nacional sofreu profunda modificação pelo processo de cruzamento absorvente e foi sendo gradativamente "azebuado" com a utilização de touros das raças zebuínas. Com isso, criou-se um polimorfismo quanto à origem do DNA mitocondrial (mtDNA) nos animais zebuínos visto grande parte serem oriundos de cruzamentos absorventes a partir de vacas taurinas. Para verificação da origem materna das matrizes do rebanho Gir Leiteiro da APTA, Mococa foram analisadas 60 fêmeas sendo que, 33 apresentaram mtDNA de origem Bos taurus enquanto 27 apresentaram mtDNA de origem Bos indicus . Nenhum animal apresentou os dois genótipos, comprovando assim a ausência de heteroplasmia para este marcador.

Palavras Chave: mtDNA, Gir Leiteiro, bovinos

INTRODUÇÃO

No Brasil, o rebanho bovino foi formado originalmente pelo gado de origem taurina trazido da Península Ibérica na época da colonização. Com a entrada do gado zebuíno, grande parte do rebanho nacional passou por um processo de substituição através de cruzamentos absorventes com touros zebuínos (SANTIAGO, 1986). Diferentemente do DNA nuclear, o mtDNA é herdado de maneira quase exclusiva pela linhagem materna em mamíferos (GILES et al, 1980); e como a maioria dos animais zebuínos trazidos nas importações eram machos (MAGNABOSCO, 1997), os produtos resultantes do processo de cruzamentos absorventes por touros zebuínos nas vacas de origem taurina nacional conservaram ao longo do tempo e com o passar das gerações o mtDNA de origem taurina. Este processo foi confirmado por MEIRELLES et al (1999) que identificaram 79; 73 e 100% dos animais analisados das raças Nelore, Gir e Brahman puros de origem, respectivamente, como portadores de mtDNA de origem Bos taurus.

O DNA mitocondrial (mtDNA) está localizado na membrana interna da mitocôndria, organela presente no citoplasma das células eucariotas, cuja principal função é a fosforilação oxidativa. O estudo do mtDNA, por ser este transmitido apenas através da linhagem materna, permite distinguir a origem da linhagem.

Vários trabalhos têm sido realizados em populações bovinas de leite e corte procurando evidenciar a herança mitocondrial como fonte de variação genética para características de importância econômica, porém os resultados ainda são controversos. Enquanto alguns autores encontraram influência significativa da herança mitocondrial (ROUGHSEDGE et al, 1999, SCHNITZENLEHNER e ESSL, 1999), outros concluíram que este efeito é negligenciável (ALBUQUERQUE et al, 1998, RORATO et al, 1999, MEZZADRA et al, 2005).

A raça Gir entrou no Brasil provavelmente no ano de 1906, porém as importações mais importantes aconteceram em 1930, 1960 e 1962 com grande contribuição para a formação do pool gênico da raça nos dias atuais. A raça é nativa da Índia onde é explorada para leite e é predominante na região da península de Kathiawar (SANTIAGO, 1986). No Brasil a raça foi utilizada inicialmente para corte, porém a seleção visando à produção de leite foi iniciada já na década de 1930. Nos dias atuais, a raça Gir é utilizada principalmente para produção de leite, embora haja um grupo de criadores que a utilizem também para produção de carne.

O rebanho Gir Leiteiro da Estação Experimental de Zootecnia de Ribeirão Preto, do Instituto de Zootecnia (atual Polo Regional Centro Leste) foi formado no início da década de 1960 por 50 matrizes registradas e pelo reprodutor Xopotó, oriundo do rebanho da Fazenda Experimental Getúlio Vargas (EPAMIG). Este rebanho foi mantido sob seleção leiteira no referido Polo até 1998, quando foi deslocado para o Polo de Pindamonhangaba e o programa de seleção interrompido. A partir do ano de 2006 o rebanho foi transferido para o Polo Regional do Nordeste Paulista, APTA, Mococa, SP, onde está sendo reestruturado visando a retomada do programa de melhoramento genético para fins de produção de leite.

O objetivo deste trabalho foi analisar a origem materna de matrizes Gir Leiteiro pertencentes ao rebanho leiteiro do Polo Regional do Nordeste Paulista, APTA, SP.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Extração do DNA

Foram utilizadas 60 fêmeas da raça Gir Leiteiro pertencentes ao rebanho da APTA, Mococa. Foram coletados 5 mL de sangue periférico em tubos a vácuo, contendo 54 μL de EDTA e mantidos sob refrigeração até serem processados. A extração do DNA foi realizada a partir de 1 mL de sangue como descrito por SAMBROOK e RUSSEL (2001). As hemácias foram lisadas com uma solução de Lise de Hemácias (12mMTris-HCL pH 8.2; 0,32M Sacarose; 5mM EDTA e 1% de Triton 100X) e os glóbulos brancos foram digeridos com proteinase K por 3 horas. As proteínas foram então precipitadas com solução de NaCl 5M e o sobrenadante transferido para outro tubo. O DNA total foi precipitado com adição de 3 volumes de etanol absoluto, desidratado e rediluído em 50 μL de H2O ultrafiltrada.

DNA Mitocondrial (mtDNA)

A amplificação do mtDNA foi realizada utilizando- se os primers BosmtF1 5´- cccaacgaggaaaatatacc- 3´ e BosmtR1 5´-aaccgcaaacaacctcttcc-3´, sintetizados para amplificar uma região do gene ND5 do genoma mitocondrial dos nucleotídeos 11.770 ao 12.525 de acordo com ANDERSON et al (1982). Para a reação de PCR utilizaram-se 100ng de DNA para uma reação de 50μL, em condições de tampão determinadas pelo fabricante, 200 μM de dATP; dTTP; dCTP; Dgtp; 1,25U de Taq DNA polimerase e 0,2μM de cada oligonucleotídeo iniciador (primer) em 35 ciclos de 30 segundos à 94ºC, 45 segundos à 58 ºC e 45 segundos à 72 ºC. O mtDNA amplificado foi então digerido com a enzima de restrição Hind III, corado com Brometo de etídeo e submetido à eletroforese em gel de agarose 1,5% em TBE 1X.

O mtDNA foi analisado e, de acordo com a presença ou ausência do sítio de restrição da enzima Hind III, os indivíduos foram classificados como portadores de mtDNA de B. taurus ou portadores de mtDNA de B. indicus.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Do total de 60 fêmeas analisadas, 33 (55%) apresentaram mtDNA de origem Bos taurus enquanto 27 (45%) apresentaram mtDNA de origem Bos indicus . Nenhum animal apresentou os dois genótipos, comprovando assim a ausência de heteroplasmia para este marcador no rebanho estudado.

Na Figura 1 são mostrados os fragmentos de DNA mitocondrial amplificados por PCR e digeridos com a enzima de restrição Hind III, corados com brometo de etídeo e vizualizados em gel de agarose 1,5 de animais com mtDNA Bos indicus e com mtDNA Bos taurus.

Figura 1. Fragmentos de DNA mitocondrial amplificados por PCR e digeridos com a enzima de restrição Hind III, corados com brometo de etídeo e vizualizados em gel de agarose 1,5%. As duas primeiras linhas mostram mtDNA amplificado de animais previamente conhecidos; linhas 1, 2, 3 e 5 mostram animais com mtDNA Bos indicus; linhas 4 e 6 mostram animais com mtDNA Bos taurus

A presença de 55% de matrizes com mtDNA de origem taurina corrobora com a hipótese do rebanho zebuíno nacional ter sido formado principalmente através do cruzamento absorvente de touros zebus em fêmeas de origem taurina. MEIRELLES et al. (1999) apresentaram resultados semelhantes, encontrando, em média, 58% de animais das raças Gir e Nelore com mtDNA de origem taurina. No referido trabalho, os autores relataram ainda que 25% dos animais POI (puros de origem importada) de ambas as raças também apresentaram mtDNA de origem taurina, o que pode refletir erros de pedigree desses animais. Nos animais da raça Brahman (23 animais), os autores encontraram 100% dos animais com mtDNA de origem taurina e também reportaram a ausência de animais com os dois genótipos de mtDNA.

Vários estudos têm sido realizados no intuito de se verificar a existência de efeito da linhagem materna em características de importância econômica tanto em gado de leite quanto em gado de corte. Embora os resultados ainda sejam controversos, alguns achados são bastante interessantes. BOETTCHER et al (1996) concluíram que o efeito citoplasmático está mais associado com a composição do leite do que com o volume. Os autores argumentam que a gordura é o componente com maior densidade energética no leite e que praticamente toda energia proveniente dos alimentos é transformada em ATP nas mitocôndrias. Sendo assim, seria bastante racional se esperar uma relação mais forte entre gordura, energia do leite e mtDNA.

SCHULTZ et al (1993) agruparam vacas leiteiras da raça Holandesa em linhagens maternas de acordo com seqüências específicas de mtDNA e observaram que os grupos diferiram significativamente para produção e porcentagem de gordura e para a quantidade de energia estimada no leite.

BIASE et al, (2008) estudando polimorfismos no mtDNA em animais da raça Nelore, concluíram que os mesmos afetam características ponderais e que podem ser uma fonte de variação genética em características quantitativas. Os autores comentaram ainda que o efeito da variação do genoma do mtDNA na produção de leite e carne pode ser uma conseqüência de alterações de rotas metabólicas ou de energia disponível para produção de leite e desenvolvimento do tecido muscular.

 

CONCLUSÕES

Existe no rebanho Gir Leiteiro da APTA Mococa polimorfismo quanto à origem do mtDNA, sendo que 55% das matrizes são de origem Bos taurus, o que auxilia na comprovação da tese de que o rebanho zebuíno nacional têm na sua formação importante influência de cruzamentos absorventes de touros zebuínos em matrizes de origem taurina.

Estudos necessitam ser realizados para identificação de possível influência do mtDNA em características de produção de leite na raça Gir.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALBUQUERQUE, L.G.; KEOWN, J.F.; VAN VLECK, L.D. Variances of direct genetic effects, maternal genetic effects and cytoplasmatic inheritance effects for milk yield, fat yield and fat percentage. Journal of Dairy Science, v. 81, p. 554-549, 1998.

ANDERSON, S. et al. The complete sequence of bovine mitochondrial DNA: conserved features of the mitochondrial genome. Journal Molecular Biology, v. 156, p. 683-717, 1982.

BIASE, F.H. et al. Mitochondrial DNA single nucleotide polymorphism associated with weight estimated breeding values in Nelore cattle (Bos indicus). Genetics and Molecular Biology, v. 30, n.4, 2007. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext& pid=S1415-47572007000600005&lng=in&nrm=iso&tlng=in . Acesso em 15/09/2009.

BOETTCHER, P.J. et al. Multiple herd evaluation of effects of maternal lineage on yields traits of Holstein cattle. Journal of Dairy Science, v. 79, p. 655-662, 1996.

GILES, R.E. et al. Maternal inheritance of human mitochondrial DNA. Proceeding of the National Academy of Sciences of the United States of America, v. 77, p.6715- 6719, 1980.

MAGNABOSCO, A.U. et al. Catálogo de linhagens do germoplasma zebuíno: Raça Nelore. Cenargen, Brasília, p. 11-52, 1997.

MEIRELLES, F.V. et al. Is the american zebu really Bos indicus? Genetics and Molecular Biology, v. 22, n.4, p.543- 546, 1999.

MEZZADRA, C.A. et al. Effects of cytoplasmatic inheritance on preweaning traits of Hereford cattle. Genetics and Moecular Biology, v. 28, n.3, p.357-362, 2005.

RORATO, P.R. et al. Variance caused by citoplasmatic line and sire by herd interections effects for milk yield considering estimation bias. Journal of Dairy Science, v. 82, p.1574-1580, 1999.

ROUGHSEDGE, T. et al. Estimation of variance of maternal lineage effects at the Langhill dairy herd. Animal Science, v. 68, p.79-86, 1999.

SANTIAGO, A.A. O Zebu na Índia, no Brasil e no mundo. Campinas: Instituto Campineiro de Ensino Agrícola, 1986. 745p.

SCHNITZENLEHNER, S. and ESSL, A. Field data analysis of cytoplasmatic inheritance of dairy and fitness-related traits in cattle. Animal Science, v. 68, p. 459-466, 1999.

SCHUTZ, M.M.; et al. Effects of maternal lineages grouped by mitochondrial genotypes on milk yield and composition. Journal of Dairy Science, v. 76, p.621-629, 1993.


**O trabalho foi originalmente publicado no Boletim da Indústria Animal (BIA), do Instituto Zootecnia (IZ/APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do estado de São Paulo, Brasil. Dado bibliográfico : B. Indústr.anim., N. Odessa,v.67, n.1, p.91-95, 2010

 
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