Suplementação protéica de bovinos na época das águas em pastagem de Brachiaria brizantha. I. Comportamento diurno

Publicado: 27/11/2013
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Sumário

Avaliou-se o efeito da suplementação protéica sobre as atividades comportamentais diurnas de novilhos inteiro da raça Nelore na época das águas, nos meses de janeiro a abril de 2007. O método de pastejo foi com lotação contínua e taxa de lotação variável. Os tratamentos consistiram em suplemento mineral com 0 % de proteína bruta (PB) e suplementos múltiplos com 20 e 40% de PB. As atividades comportamentais avaliadas foram tempo de pastejo, tempo de ócio, tempo de ruminação, tempo de permanência dos animais no cocho e taxa de bocados. O delineamento experimental adotado foi o inteiramente casualizado, com sete repetições. Com a suplementação os animais reduziram em 1,1h o tempo de pastejo, compensando parte do tempo para as atividades de ócio e permanência no cocho. Os animais não alteraram o tempo de ruminação, em função da suplementação, e mantiveram a mesma taxa de bocados, em virtude da homogeneidade das características estruturais e químicas do pasto.

Palavras–chave: taxa de bocado, tempo de cocho, tempo de ócio, tempo de pastejo, tempo de ruminação.

 

Introdução

O uso da suplementação para animais em pastejo é uma estratégia de manejo de pastagens visando manter a qualidade do pasto, aumentar a capacidade de suporte e desempenho animal, pelo suprimento de alguns nutrientes limitantes, e principalmente, pelo fornecimento adicional de proteína e energia.

Nas águas, a disponibilidade de nitrogênio para as bactérias ruminais, normalmente, não é um fator limitante e a energia torna-se prioridade na suplementação (Thiago & Silva, 2000). Entretanto, o rápido crescimento vegetativo das gramíneas C4, sob altas temperaturas ambientais e disponibilidade de água, aumentam as atividades enzimáticas associadas com a biossíntese de lignina que provocam rápida deposição de polímeros estruturais nas células vegetais portadoras de taxa de fermentação mais lenta. Com isso, ocorre maior mobilização de nitrogênio presente sob a forma de proteínas solúveis para formas insolúveis associadas à parede celular.

Os animais quando são suplementados, novas variáveis interferem no consumo de nutrientes e desempenho do animal, estando relacionadas ao efeito associativo do suplemento com a forragem, modificando a condição metabólica ruminal e do próprio animal (Dixon & Stockdale, 1999).

Os ruminantes, como outras espécies, procuram manter o consumo de alimentos de acordo com suas necessidades nutricionais e ajustam o comportamento ingestivo em resposta às mudanças do meio, dividindo o tempo entre atividades de pastejo, ruminação, interações sociais e ócio (Hodgson, 1985).

Assim, a inclusão de proteína no suplemento poderá favorecer a digestão da fibra aumentando o consumo animal, contudo influenciando no comportamento dos animais e potencializando o desempenho animal. Sendo assim, o objetivo com esse trabalho foi avaliar o efeito da suplementação protéica sobre o comportamento diurno de novilhos da raça Nelore no período das águas.

 

Material e Métodos

O experimento foi conduzido na Agropecuária Ribeirópolis, no município de Rondonópolis-MT, em uma área de oito hectares de Brachiaria brizantha cv. Marandu, provida de bebedouros e comedouros, além de uma área contígua para receber os animais reguladores. O método de pastejo foi com lotação contínua e taxa de lotação variável (Mott & Lucas, 1952), utilizando-se sete novilhos permanentes e animais reguladores, para manter a altura da forragem em 30 cm.

Os tratamentos consistiram de suplemento mineral com 0% de proteína bruta (PB) e suplementos múltiplos com 20 e 40% de PB (Tabela 1). Os animais experimentais foram novilhos inteiros da raça Nelore com peso vivo inicial médio de 280 kg, devidamente vacinados, vermifugados e identificados, recebendo quantidades diárias de suplementos múltiplos equivalentes a 0,2% do peso vivo às 10:00h, durante todo período experimental. O suplemento mineral foi fornecido ad libitum.

As atividades comportamentais avaliadas foram tempo de pastejo, tempo de ócio, tempo de ruminação, tempo de permanência dos animais no cocho e taxa de bocado. As atividades comportamentais dos animais foram consideradas como mutuamente excludentes, com exceção da taxa de bocados.

 

TABELA 1 - Composição dos suplementos (%) com base na matéria natural.

 

O período experimental compreendeu os meses de janeiro a abril de 2007, sendo os primeiros 30 dias para adaptação dos animais e ajuste na estrutura do dossel forrageiro. Foram realizadas mensalmente três avaliações, por 12 horas consecutivas, das 6:00 às 18:00h, com intervalos de 10 minutos entre cada uma hora de observação, perfazendo um total de 108 horas, cujas a média foi utilizada na análise estatística.

A taxa de bocado foi determinada no início da manhã e ao final da tarde registrando-se o número de bocado de todos os animais em três intervalos de um minuto cada, intercalados em tempos variáveis de no mínimo cinco minutos.

No primeiro dia de cada mês experimental foram monitorados o resíduo de pastejo e a altura do dossel forrageiro. As amostras de forragem foram pesadas e fracionadas manualmente em lâmina verde, colmo + bainha verde e material morto. A determinação do valor nutricional da forragem foi por meio da simulação de pastejo (Johnson, 1978).

O delineamento experimental adotado foi o inteiramente casualizado, com sete repetições. Submeteram-se os dados à análise de variância pelo teste F a 5% de probabilidade. As médias de tratamento foram testadas pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade, em razão do pequeno número de tratamentos, pois o ajuste das médias por regressão não permitiria uma descrição adequada da resposta aos tratamentos, sabidamente com comportamento curvilíneo. Para as análises estatísticas mencionadas, utilizou-se o programa SAEG - Sistema de Análises Estatística e Genéticas, versão 8.1 (UFV, 2001).

 

Resultados e Discussão

Todos os animais foram submetidos às mesmas condições de pastejo em todos os tratamentos (Tabela 2).

As médias das atividades comportamentais diferiram entre os teores de proteína bruta no suplemento (P<0,05), exceto o tempo de ruminação e a taxa de bocados (Tabela 3). Com a suplementação os animais reduziram o tempo de pastejo em 1,1h, compensando parte do tempo para as atividades de ócio e permanência no cocho.

Bovinos em pastagens cultivadas despendem de 4 a 12 horas por dia para pastejo (Burger et al., 2000; Brâncio et al., 2003; Sarmento, 2003). O tempo gasto com o pastejo (Tabela 3) indicou os animais dispunham de uma quantidade de forragem adequada (Tabela 2), conforme Hodgson (1990).

A estrutura do pasto e a composição química não tiveram influencia sobre o tempo de pastejo, devido à homogeneidade dos piquetes ao longo do experimento (Tabela 2) e reforçada pela mesma taxa de bocados (P>0,05), observada entre os tratamentos (Tabela 3).

 

TABELA 2 – Características estruturais do pasto de B. brizantha e composição química da forragem em função dos diferentes tratamentos.

 

TABELA 3 - Efeito da suplementação protéica sobre as atividades diurnas dos animais, em 12 horas de avaliação.

 

O valor médio de 39 bocados por minuto encontrado para taxa de bocados pode ser adequado (tabela 3), considerando o valor de 23,8 bocados por minuto observado por Sarmento (2003) em pastagem também de capim-Marandu manejada a 30 cm.

Quando os animais são suplementados apresentam um maior tempo para as atividades de ócio, sobretudo naquele nível mais elevado de nutriente no suplemento, influenciando no consumo de forragem (Barton et al., 1992; Fischer et al., 2002).

A relação positiva entre o tempo de ócio e a suplementação, segundo Pardo et al. (2003), provavelmente esteja relacionado ao aporte de nutrientes pelo suplemento. Porém, Cabral et al. (2008) não observaram diferenças no ganho de peso dos animais quando se elevou o teor de proteína do suplemento, encontrando um ganho de peso médio diário de 0,849 kg. E justificaram que houve um excesso de nitrogênio no rúmen, o qual pode ter sido perdido pela via urinária na forma de uréia, acarretando perda de energia e prejudicando o desempenho animal. Então, apesar de permanecerem por mais tempo em ócio, os animais suplementados perderam energia durante o metabolismo, não permitindo otimizar o ganho de peso.

O tempo de ruminação observado foi baixo (Tabela 3), apenas 18,4% das atividades diárias, ou seja, os animais aproveitaram a fase diurna para o pastejo. Os picos de pastejo ocorreram das 8:00 às 09:30h, de 11:00 às 12:00h e a partir das 15:00h, corroborando com os resultados de Pardo et al. (2003).

Segundo Deswysen et al. (1989), a atividade de ingestão ocorre majoritariamente no período diurno, e a atividade de ruminação é mais consistente durante a madrugada, em torno de 75%, sendo o tempo médio diário de ruminação de sete a oito horas. O tempo observado na Tabela 3 correspondeu a aproximadamente 28% daquele que seria o tempo de ruminação diário relatado por aquele autor. Isso dificultou a inferência sobre o efeito dos níveis de proteína sobre o processo de digestão.

No entanto, se for considerado o desempenho animal observado por Cabral et al. (2008), pode-se inferir que houve um efeito associativo negativo entre a suplementação e a forragem. Os efeitos associativos negativos são aqueles cuja suplementação reduz o consumo e, ou a digestão da forragem, causando queda na eficiência de utilização dos suplementos e comprometendo o desempenho animal (Dixon & Stockdale, 1999).

 

Conclusões

A inclusão de proteína na dieta influenciou o comportamento diurno dos animais. Com a suplementação os animais reduziram o tempo de pastejo, compensando parte desse tempo para as atividades de ócio e permanência no cocho, diminuindo o gasto energético para caminhada na seleção da forragem. Os animais não alteraram o tempo de ruminação, em função da suplementação, e mantiveram a mesma taxa de bocados, em virtude da homogeneidade das características estruturais e químicas do pasto.

 

Referências

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA – UFV. Sistema de Análises Estatística e Genéticas - SAEG. Versão 8,1. Viçosa, MG, 2001, 301p.

 
Autor/s.
Possui graduação em Zootecnia pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT, 2006), mestrado em Agricultura Tropical pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT, 2008) e doutorado em Zootecnia pela Universidade Federal de Viçosa (UFV, 2011).
 
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