Método famacha tratamento seletivo no controle do Haemonchus contortus

Publicado: 04/07/2013
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Introdução

Em sua maioria, os rebanhos de pequenos ruminantes no Brasil são criados de forma extensiva, e é observada uma mudança gradativa para criações semi-intensivas e intensivas por meio do aumento da demanda de seus produtos e da utilização de novas tecnologias. A condição climática subtropical, embora favorável à criação em pastagens anuais, também permite o desenvolvimento de várias espécies de parasitas. Isso acarreta grande parte das perdas observadas em criações de ovinos e caprinos, impedindo o alcance produtivo dos animais, inclusive com a morte de animais jovens para reposição do plantel.

Os prejuízos causados ao produtor podem resultar em acentuada queda no lucro projetado, visto que é possível que todos os animais de um mesmo rebanho apresentem algum grau de infecção. No entanto, somente um grupo deles deverá conter níveis indesejáveis de infecção a ponto de causar perdas econômicas significativas. Esses animais são chamados de susceptíveis, enquanto os demais podem apresentar algum grau de parasitismo sem apresentar sintomas (resilientes) ou parasitismo nulo (resistentes). Isso quer dizer que se pode conseguir uma melhora em relação ao custo na criação a partir do tratamento de apenas um lote de animais mais infectados. O chamado tratamento seletivo dos animais.

Outro fator de grande importância nessa atividade é a utilização e o gasto com as drogas antiparasitárias. O mercado internacional de produtos veterinários é de aproximadamente 15 bilhões de dólares, e 27% destes são gastos com compostos antiparasitários. Incluem-se nesse percentual os compostos que combatem parasitas internos (helmintos) assim como os externos (carrapatos, mosca-do-chifre e berne). No Brasil, o volume comercializado chega à casa de 600 milhões de dólares, e 29% destes são gastos com parasiticidas. Em bovinos, o controle parasitário mais indicado é o estratégico, que se baseia no conhecimento da epidemiologia dos parasitas em questão, e na obtenção de dados climatológicos (temperatura e pluviosidade). No caso de pequenos ruminantes, esses padrões sofrem grande variação devido ao grande potencial biótico de parasitas como o Haemonchus contortus, que é o principal causador de mortes em ovinos e caprinos de todas as categorias, devido à grande ingestão de sangue no abomaso dos animais.

Decorrente do insuficiente repasse de tecnologia, ou mesmo de informações inadequadas referentes à freqüência de tratamento e à utilização correta das drogas antiparasitárias em ovinos, foi observada grande diminuição da eficácia desses produtos nas principais regiões produtoras brasileiras, inclusive, com o aparecimento de cepas resistentes a vários grupos químicos disponíveis no mercado. Igualmente inquietante, por causa dos motivos já relacionados, é a situação dos caprinocultores, que têm manifestado grande preocupação em relação à falta de eficácia do exíguo aparato químico disponível para controle parasitário.

 

Método Famacha: identificando o animal fraco!

Mesmo com evidente importância, um dos fatores mais preocupantes na Medicina Veterinária é a falta de um método de diagnóstico prático, rápido e seguro das parasitoses durante o manuseio com os animais. O teste mais utilizado é o que determina a quantidade de ovos por grama de fezes (OPG), realizado antes e após o tratamento. Porém, somente um número reduzido de produtores utiliza esse método como rotina, e outros, em sua maioria, somente como último recurso. Dessa forma, a determinação da resistência parasitária é, quase sempre, visual e também só ocorre quando os animais já apresentam algum sinal de debilidade física.

Entretanto, agora existe uma forma de avaliar individualmente os animais do rebanho através do acompanhamento da coloração da conjuntiva. Essas informações foram testadas durante mais de oito anos na África do Sul, e um trabalho apresentado pelo Dr. van Wyk, Malon e Bath (1997) correlacionou os valores de hematócrito e as diferentes colorações da conjuntiva de ovinos com a incidência do H. contortus. Foi então que esses autores apresentaram o método Famacha, termo proveniente de Faffa Malan Chart, e que tem como objetivo principal identificar individualmente os animais que necessitam ou não ser tratados. Assumindo que a manifestação clínica frente a uma parasitemia é variável entre animais da mesma raça, a estimativa é feita através de exame visual para definir a variação da coloração da conjuntiva (Figura 1), representada laboratorialmente com o valor do hematócrito. Essas colorações foram preestabelecidas com auxílio de computação gráfica, em cinco graus diferentes, com pequenas variações (Tabela 1).

Seqüência de execução para avaliação pelo método Famacha:

  • Examinar o animal sob luz natural.
  • Expor a conjuntiva pressionando a pálpebra superior com um dedo polegar, pressionando levemente a pálpebra inferior para baixo com o outro. Expor somente a conjuntiva.
  • Evitar a exposição parcial da membrana interna da pálpebra (terceira pálpebra) e do olho.
  • Observar a coloração na parte medial da conjuntiva inferior.
  • Determinar o grau conforme o cartão.
  • Na dúvida, optar pela categoria mais pálida.

Como foi definido acima, o método é capaz de identificar animais suscetíveis à infecção parasitária por Haemonchus contortus. Pode-se, com isso, otimizar o tratamento de forma seletiva em situações reais no campo, sem a necessidade de recursos laboratoriais. No entanto, é necessário implantar uma rotina de seu uso na propriedade, por meio de avaliações da mucosa ocular de todos os animais do rebanho, a cada duas semanas, ou, dependendo da situação epidemiológica, semanalmente.

Figura 1 - Forma correta de avaliar e expor a conjuntiva em ovinos e caprinos

Tabela 1 - Informações contidas no cartão Famacha. Grau de anemia utilizado pelo método, variações da coloração da conjuntiva, valores relativos do hematócrito e indicações para tratamento dos animais

O método Famacha foi introduzido no Brasil no início de 2000, com o objetivo de comprovar a validade desse método em ovinos e caprinos, identificando características próprias em condições brasileiras. O interesse foi, também, de informar o profissional ligado à área de sanidade animal sobre essa nova alternativa. Desde então, mais de 300 técnicos já foram treinados em inúmeras oportunidades. Alguns profissionais têm utilizado o método no Brasil (PR, SP, CE, RS), no Paraguai e no Uruguai, com graus variados de eficiência.

Vantagens do Guia Famacha

  • Identifica animais clinicamente infectados por método indireto.
  • Trata os animais antes de causar perdas.
  • Contribui para o descarte de animais susceptíveis, selecionando o rebanho para maior resistência à hemoncose.
  • Reduz o número de tratamentos antiparasitários.
  • Aumenta a relação custo-benefício na produção.
  • Retarda a seleção para resistência parasitária.
  • Treina mão-de-obra técnica e qualificada.

No Paraná, foi relatado que, após a utilização desse método durante um período de 120 dias, foi possível reduzir em 79,5% as aplicações com medicação antiparasitária em ovinos (MOLENTO; DANTAS, 2001). Em outro estudo realizado no mesmo Estado, no período de outubro de 2001 a março de 2002, verificou-se que, em relação ao uso das drogas antiparasitárias, houve redução de dosificações/custo da ordem de 75,6%, sem ter havido óbitos (MOLENTO et al., 2003).

No Rio Grande do Sul, a utilização do método entre 2003 e 2004 em um rebanho ovino de 140 animais da raça Ile de France e Corriedale demonstrou uma redução de tratamentos de 90,5%, e 7,4% dos animais receberam entre cinco e oito tratamentos, caracterizando-os como altamente sensíveis a parasitoses. A grande surpresa foi a determinação de que 87% dos animais receberam entre nenhum e três tratamentos no período de 12 meses (Figura 2), (GAVIÃO et al., 2004). O levamisole, ivermectina e moxidectina apresentaram 100% de eficácia no início da observação e, para o tratamento dos animais com Famacha maior ou igual a 3, elegeu-se um produto à base de levamisole, que foi usado por todo o período da observação, sem alternância com outros produtos. Testes de eficácia realizados após um ano de utilização comprovaram a manutenção de sua eficácia. Isso indica que além de reduzir os gastos com medicação em torno de 66%, pode-se utilizar o mesmo composto por períodos maiores.

Figura 2 - Percentual de grau Famacha obtido após avaliação entre junho de 2003 a maio de 2004, e índice de animais tratados em 18 avaliações. Rebanho UFSM

Veríssimo, Catelli e Molento (2004) também demonstraram que o método Famacha pode ser utilizado na integração de criações, como ovinos da raça Poll Dorset sendo criados junto com bovinos da raça Nelore, com significativa contribuição. Animais fracos deste rebanho, com Famacha maior ou igual a 3, recebiam suplementação vitamínica e/ou protéica. O experimento teve duração de 12 meses e somente um animal necessitou receber tratamento com antiparasitário.

 

Cuidados na utilização do método

A preparação dos avaliadores por meio de cursos é fundamental para que o profissional possa observar bem as variações na coloração entre os diferentes graus. O avaliador também deve ter em mente que animais estressados, a subnutrição e fatores ambientais também podem causar anemia, e o técnico não pode negligenciar o tratamento em animais suspeitos.

  • Somente pessoas treinadas devem utilizar o método.
  • O método é válido somente para vermes sugadores de sangue, como Haemonchus contortus, o helminto mais patogênico e prevalente em pequenos ruminantes no Brasil.
  • Os valores de hematócrito que correspondem ao grau Famacha são fixos.
  • A anemia pode ser causada por: subnutrição, enfermidades: fasciolose, cisticercose.
  • A vermelhidão da mucosa da conjuntiva pode ser causada por: estresse, febre, calor excessivo, poeira, conjuntivite.
  • O método serve como auxílio no programa sanitário, uma vez que a avaliação individual e freqüente dos animais colabora no controle de outras doenças parasitárias (ex: miíases) ou infecciosas (ex: conjuntivite, ectima contagioso, linfadenite, "foot rot", etc).
  • Deve-se integrar outros métodos de controle parasitário:
    • Utilizar forrageiras de crescimento ereto e de boa qualidade nutricional, como as do gênero Panicum, com rebaixamento acentuado da forrageira (10-20cm de altura de forragem remanescente), e rotação de pastagem.
    • Fazer a rotação pasto x cultura.
    • Utilizar pastagens consorciadas de ovinos com bovinos adultos ou eqüinos.
    • Alimentar adequadamente cada categoria do rebanho.
    • Criar raças mais resistentes à verminose, descartando os indivíduos mais sensíveis.
  • Deve-se tratar os animais pelo cartão, e manter o monitoramento com OPG.
  • A avaliação deve ser feita a cada 2 ou 3 semanas. O controle deverá ser semanal em períodos de alto risco de infecção (ex: período das águas e do periparto), com o objetivo de evitar o aparecimento de surtos de hemoncose.
  • Cuidado com as ovelhas no período periparto, pois os animais podem apresentar palidez fisiológica, e ficam mais suscetíveis no primeiro mês de lactação.
  • Em caprinos, deve-se esperar 6 a 8 segundos após a exposição da conjuntiva para se avaliar o grau de coloração da mucosa.

 

Quanto mais anêmico estiver o animal, maior será a urgência do tratamento

 

Conclusões

A grande redução nos custos de tratamento, a diminuição no volume de substâncias químicas lançadas no meio ambiente, a identificação de animais susceptíveis, que devem ser descartados do rebanho, e a manutenção da eficácia dos compostos químicos por períodos prolongados fazem do método Famacha um sistema atraente para as condições brasileiras, na qual o verme hematófago Haemonchus contortus é o principal helminto gastrintestinal que afeta os animais. O tratamento seletivo também promove uma diminuição significativa na contaminação das pastagens com cepas selecionadas, preservando a população de larvas suscetíveis, o que retarda o processo de resistência parasitária.

O método está sendo utilizado no Brasil, comprovando sua aplicabilidade, tanto em ovinos como em caprinos, como alternativa no controle parasitário. Esse método deve ser usado somente por pessoas treinadas, respeitando outras causas de anemia. É importante alertar os usuários dessa técnica de que se deve associar outras formas de controle parasitário e o conhecimento epidemiológico dos parasitas, para um maior sucesso no manejo sanitário do rebanho.

 

REFERÊNCIAS

GAVIÃO, A.; DEPNER, R. A.; CASSOL, C.; MOLENTO, M. B. Acompanhamento de rebanho com o método Famacha durante junho de 2003 a maio de 2004. Rev. Bras. Parasitol. Vet., v. 13, p. 267, 2004. Suplemento 1.

MOLENTO, M. B.; DANTAS, J. C. Validação do guia FAMACHAÒ para diagnóstico clínico de parasitoses em pequenos ruminantes no Brasil: resultados preliminares. In: ENCONTRO INTERNACIONAL SOBRE AGROECOLOGIA E DESENVOLVIMENTO RURAL SUSTENTÁVEL, 1., 2001, Botucatu. Anais... Botucatu: Faculdade de Ciências Agronômicas/UNESP, 2001.

MOLENTO, M. B.; TASCA, C.; GALLO, A. K.; FERREIRA, M. J.; BONONI, R. R.; STECCA, E. Famacha method for decision making in the treatment of endoparasitic infection in small ruminants in Brazil. In: CONFERÊNCIA DA ASSOCIAÇÃO MUNDIAL PARA O AVANÇO DA PARASITOLOGIA VETERINÁRIA, 19., 2003, Nova Orleans, Louisiana, USA. Anais... Nova Orleans; [s.n.], 2003.

VAN WYK, J. A.; MALAN, F. S.; BATH, G. F. Rampant anthelmintic resistance in sheep in South Africa - what are the options? In: MANAGING ANTHELMINTIC RESISTANCE IN ENDOPARASITES. INTERNATIONAL CONFERENCE OF THE WORLD ASSOCIATION FOR THE ADVANCEMENT OF VETERINARY PARASITOLOGY, 16., 1997, Sun City, South Africa. Proceedings… Sun City: [s.n.], 1997. p. 51-63.

VERÍSSIMO, C. J.; CATELLI, L.; MOLENTO, M. B. Integração de ovinos e bovinos: método Famacha, pastejo contínuo e baixa densidade animal no controle parasitário. Rev. Bras. Parasitol. Vet., v. 13, p. 292, 2004. Suplemento 1.

 

Capítulo 2 - Livro “Alternativas de controle da verminose em pequenos Ruminantes” Coordenação de Cecília José Veríssimo (Médica Veterinária; Pesquisadora Científica VI) Instituto de Zootecnia (IZ-APTA da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo), 2008.

 
Autor/s.
Médico Veterinário, formado na Universidade de Alfenas -UNIFENAS- (1989) e com Doutorado em Parasitologia pela McGill University, Canadá (2000). Atualmente é Professor Adjunto IV da Universidade Federal do Paraná -UFPR-, Coordenador do Laboratório de Doenças Parasitárias e pesquisador do CNPq 2. É consultor de várias entidades de fomento e pesquisa no Brasil (BA, SC, MS, RO, CE, MA, PE) e na Argentina, Bélgica, EUA, Holanda, e FAO/ONU. O objetivo científico do pesquisador é desenvolver técnicas empregando o Sistema Integrado de Controle Parasitário, SICOPA, também denominado IPM (integrated pe
 
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