Impactos da rastreabilidade bovina nos recursos humanos de empresas rurais informatizadas

Publicado: 10/10/2013
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Sumário

O presente trabalho foi realizado em quatro empresas rurais informatizadas que aderiram ao programa de rastreabilidade bovina brasileiro e teve como objetivo discutir alguns impactos ocorreram nos recursos humanos dessas empresas. Após utilizar a metodologia de estudo de casos comparativo a partir de entrevistas realizadas com diretores e técnicos das empresas rurais e diretores da empresa certificadora, concluiu-se que a adesão à rastreabilidade exigiu dos funcionários maior atenção para a organização de documentos e observação dos números do brinco SISBOV; não foi realizado treinamento dirigido ao processo; houve uma maior comunicação entre os funcionários de campo com os de escritório como também uma maior comunicação entre os funcionários de escritório com a certificadora e, por fim; não ocorreram contratações, demissões ou alterações salariais significativas por causa da rastreabilidade, evidenciando que as empresas optaram por adequar seus recursos humanos a mais um processo administrativo dentro das suas rotinas de trabalho.

Palavras chave: Sistemas de informações gerenciais, impactos nos recursos humanos, tecnologias de informação, rastreabilidade bovina.

 

1 INTRODUÇÃO

Das novas situações surgidas nos últimos dez anos, a segurança alimentar é um tema emergente ao se discutir sobre a produção e comercialização de alimentos dentro de um contexto globalizado. A exigência da rastreabilidade das informações referentes aos alimentos é uma condição cada vez mais importante para conquistar a confiança e a fidelidade do consumidor. No Brasil, a cadeia produtiva da pecuária bovina foi pressionada para implantar um processo de rastreabilidade após os surtos ocorridos na Europa da Encefalomielite Espongiforme Bovina (BSE) ou Doença da Vaca Louca. A rastreabilidade e certificação de origem animal foram regulamentadas através do Sistema Brasileiro de Identificação e Certificação de Origem Bovina e Bubalina (SISBOV) e instruções normativas complementares, em 9 de Janeiro de 2002.

O processo de rastreabilidade depende de premissas básicas para sua concretização que são: a identificação animal; o processamento, gerenciamento e armazenamento de dados e; a auditoria dos dados a campo. Essas premissas geram mudanças nas empresas que podem utilizar as Tecnologias da Informação (TIs) para colherem benefícios dos impactos causados pelas exigências necessárias a adesão à rastreabilidade bovina. Diante desta problemática, o objetivo deste trabalho foi discutir alguns impactos que ocorreram nos recursos humanos de quatro empresas rurais que adotaram ou já utilizavam TIs para gerenciamento do rebanho rastreado.

 

2 REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 A Rastreabilidade

Rastreabilidade é a atitude de reencontrar o histórico, a utilização ou a localização de um produto qualquer por meio de identificações registradas (SPERS, 2000). A rastreabilidade pode ser definida como o mecanismo que permite identificar a origem do produto desde o campo até o consumidor final, podendo ter ou não passado por uma ou mais transformações como no caso de alimentos minimamente processados. Um sistema de rastreabilidade, portanto, é um conjunto de medidas que possibilitam controlar e monitorar sistematicamente todas as entradas e saídas nas unidades do produto final. Quanto maior o número de freqüência das informações necessárias, bem como as formas de sua comprovação, melhor será o sistema de rastreabilidade.

Sendo este trabalho um recorte teórico que pesquisa principalmente os impactos que o processo de rastreabilidade provocou dentro da empresa rural, a definição que melhor se adequou a proposta desta pesquisa foi a de Lirani (2002, p. 1), em que:

Rastreabilidade é a capacidade de encontrar o histórico de localização e utilização de um produto, por meio de identificação registrada. No caso da carne bovina, ela consiste em um processo pelo qual a produção de carne é verificada (ou rastreada) desde o nascimento do bezerro até chegar ao consumidor, seja no mercado interno ou externo, possibilitando assim um reconhecimento da origem da carne e uma ferramenta para a constatação de qualidade.

É importante salientar que a rastreabilidade funciona como um complemento no gerenciamento da qualidade e quando aplicada isoladamente não traduz segurança ao produto nem ao processo. Deve estar agregada a outros sistemas de controle de qualidade como a Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle (APPCC) e códigos de boas práticas como os adotados pelo Euro Retailer Produce Working Group (Eurepgap) no caso de frutas (IBA et al., 2003).

2.2 O SISBOV

A rastreabilidade no Brasil surgiu a partir da Instrução Normativa nº 01, promulgada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) no dia 10 de janeiro de 2002, que instituiu o Sistema Brasileiro de Identificação e Certificação de Origem Bovina e Bubalina (SISBOV) e iniciou o processo de identificação obrigatória de animais no país (SARTO, 2002).

Os animais registrados no SISBOV recebem um documento de identificação animal (DIA), constando as seguintes informações: identificação da propriedade de origem; identificação individual do animal; mês do nascimento ou data de ingresso na propriedade; sexo do animal e aptidão; sistema de criação e alimentação; registro das movimentações; dados sanitários (vacinação, tratamentos e programas sanitários). É por meio deste documento que se reconhece e atesta que o produto atende a normas e requisitos préestabelecidos pelo SISBOV.

O programa é um regime de parceria entre o MAPA e a iniciativa privada, através de empresas certificadoras credenciadas. O produtor inscreve-se no SISBOV através de uma certificadora credenciada mediante assinatura de um termo de compromisso. Em seguida, é feita uma visita pelo técnico da certificadora, ocasião em que se faz o cadastramento da propriedade e a separação dos animais que se pretende incluir no programa. Depois a certificadora remete, via eletrônica, o cadastro para a Base de Dados Nacional (BND) e solicita os códigos de identificação, também conhecidos como números SISBOV.

A BND emite os códigos a serem usados nos elementos de identificação. No momento da autorização fica registrado na BND que aquelas identificações estão sob responsabilidade da referida certificadora. Após a aplicação dos elementos identificadores com os códigos de identificação no animal, a certificadora retorna à BND as informações complementares: data de nascimento, de compra, de chegada na propriedade e de brincagem, sexo, aptidão e composição racial. A partir daí todas as movimentações dos animais da propriedade deverão ser acompanhadas do DIA emitido pela certificadora. Ao optar pelo elemento de identificação do tipo brinco padrão, este apresenta código de barras e seis dígitos, sendo estes os seis penúltimos números do código de identificação fornecido pela BND.

O abate de animais identificados deve ser preferencialmente feito em frigoríficos credenciados pelo programa, ficando sob sua responsabilidade a baixa dos animais na BND. A partir daí, serão registrados pelo Serviço de Inspeção, todos os eventos ocorridos desde o abate até a embalagem final da carne identificada. Esta poderá ser identificada pela transferência do número do animal ou por lotes gerados em cada estabelecimento (DUBOIS et al., 2003).

Inicialmente o SISBOV elaborou um calendário com prazos definidos em que até o ano de 2007, todo o rebanho nacional de bovinos, de corte e leite, e bubalinos seria cadastrado no sistema. Após dois anos de muitas discussões, debates e pressões, através da Instrução Normativa nº 77 de 28 de outubro de 2004 ocorreram revogações em várias outras instruções normativas que modificaram a obrigatoriedade do SISBOV, restringindoa aos animais destinados aos frigoríficos exportadores (SARTO, 2002).

2.3 O Novo SISBOV

Em 14 de julho de 2006 o MAPA publicou a Instrução Normativa n° 17 que definiu claramente as normas para a produção de carne bovina com garantia de origem e qualidade, apresentando uma nova estrutura operacional para o SISBOV. Nela fica claro que a adesão ao Serviço de Rastreabilidade da Cadeia Produtiva de Bovinos e Bubalinos, ou o Novo SISBOV, é voluntária, permanecendo a obrigatoriedade de adesão para a comercialização para mercados que exijam a rastreabilidade. Com a nova normativa, surge o conceito de Estabelecimento Rural Aprovado no Serviço de Rastreabilidade da Cadeia Produtiva de Bovinos e Bubalinos (ERAS).

De acordo com as novas regras, todos os bovinos e bubalinos nascidos de ERAS serão, obrigatoriamente, identificados individualmente na desmama ou, no máximo, até os 10 meses de idade, sempre antes da primeira movimentação. Quando forem adquiridos animais de estabelecimento não aprovado o ERAS deve identificá-lo imediatamente, situação permitida até 31 de dezembro de 2008. Estes animais serão cadastrados na BND e todos os insumos utilizados na propriedade durante o processo produtivo deverão ser registrados e arquivados por um período de 5 anos (BRASIL, 2006).

Outra mudança em relação ao antigo SISBOV refere-se às auditorias. Elas serão periódicas e realizadas em intervalos de 180 dias para propriedades de criação e de 60 dias para os confinamentos que recebem animais de outros ERAS. A não realização da vistoria implicará na perda do certificado de ERAS e desclassificação dos animais. O prazo mínimo de permanência do animal em zona habilitada para ser classificado como apto a mercados que exigem rastreabilidade é de 90 dias. A grande modificação é que a partir de 2009, só será permitido o ingresso de bovinos e bubalinos nos ERAS se oriundos de outros estabelecimentos na mesma condição (BRASIL, 2006).

A proposta é que o sistema também permita a atualização das informações entre o Órgão Executor da Sanidade Animal nos Estados e a certificadora do Estabelecimento Rural Aprovado no SISBOV, credenciada pelo MAPA.

2.4 Impactos da adoção e utilização das TIs nas organizações

Gonçalves (1994) e Rocha (2005) observam que os impactos da introdução de novas tecnologias nas empresas impactam o indivíduo, o grupo e a empresa. Os impactos nos indivíduos e no grupo ficam claros ao observar-se que se, por um lado, a TI substitui parte do trabalho humano, por outro, e ao mesmo tempo, exige maior participação e envolvimento das pessoas nas novas formas de trabalho e na inauguração de relacionamentos interpessoais, ou seja, estimula a intensidade da comunicação entre as pessoas.

Parte das dificuldades de compreensão e tratamento adequado do impacto da tecnologia nos recursos humanos dentro das organizações hoje vem exatamente do fato de se tratar separadamente tecnologia e forma de trabalho. É preciso perceber que o avanço tecnológico muda as formas de trabalho e os relacionamentos humanos dentro da organização e, com este novo arranjo, cria-se uma filosofia nova de empresa, no nível micro e quebra velhos paradigmas sociais, no nível macro (SANTOS, 2005).

Contudo, é necessário perceber que a relação destes impactos parece ser cada vez mais dialética. Dito de outra forma, analisando-se o modelo de sistemas de informação de Campos Filho (1994), apresentado na Figura 1, observa-se que também a informação, os recursos humanos e a tecnologia da informação influenciam nas práticas de trabalho e exigem da empresa uma constante adequação gerencial.

 

FIGURA 1 - Representação dos elementos e componentes de um Sistema de.Informação.

 

Em seu trabalho Gonçalves (1994) elaborou um modelo de análise sobre os impactos da tecnologia na empresa. Este modelo foi sintetizado, validado e adaptado à estudos em empresas rurais por Jesus (2002) e Santos (2005), em seis grupos: a) habilidades exigidas dos operadores, b) conteúdo e natureza das tarefas a serem executadas, c) nível de emprego; d) organização e estrutura da empresa, e) gerenciamento da empresa, e f) competitividade. Neste trabalho foi investigado apenas o grupo "a".

2.5 Habilidades exigidas do funcionário

Com relação às habilidades e conhecimentos exigidos para a realização de tarefas, segundo Gonçalves & Gomes (1993), há duas tendências entre os diversos autores pesquisados: para um grupo, as novas tecnologias degradam as funções e os operadores, enquanto que, para o outro grupo, com freqüência, as habilidades exigidas aumentam com a automação.

Gonçalves & Gomes (1993) enfatizam que a necessidade de manter a capacidade de competição das empresas requer que os recursos humanos sejam capazes de dominar novas tecnologias, quase sempre mais exigentes em termos de habilidades dos funcionários. Para estes autores, deve ocorrer uma espécie de seleção natural, com a permanência dos funcionários mais habilitados.

Na prática, segundo Zambalde (2000), esses processos ocorrem conjuntamente, conforme o conjunto de tarefas a ser desenvolvido. Contudo, diversos trabalhos enfatizam o fato de que o perfil exigido do funcionário está mudando em função do uso das novas tecnologias e especialmente pelo uso da tecnologia da informação. Uma mudança enfatizada é o nível de escolaridade exigido. Fehlaber & Vieira (1994) detectaram que, para os funcionários com níveis de escolaridade médio e elevado, não têm existido maiores problemas de adaptação, quando da implantação de recursos computacionais. A pesquisa destes autores evidenciou que baixo nível de conhecimento dos empregados operacionais funciona como um elemento que dificulta os processos de aprendizagem e adaptação às novas tecnologias.

 

3 METODOLOGIA

O estudo desenvolvido utilizou a abordagem do tipo qualitativa e método de pesquisa de estudo de caso. A pesquisa qualitativa envolve a obtenção de dados descritivos, obtidos no contato direto do pesquisador com a situação estudada, enfatiza mais os processos do que o produto e se preocupa em retratar a perspectiva dos participantes (LÜDKE & ANDRÉ, 1986). Do ponto de seus objetivos é uma pesquisa exploratória na medida em que procurou esclarecer conceitos, definir problemas e descrever comportamentos dos atores pesquisados envolvidos com o processo de rastreabilidade da carne bovina (TRIVIÑOS, 1995).

Os casos de estudo, foram compostas por quatro empresas rurais pecuárias, sendo três localizadas no estado de Minas Gerais e uma no estado de Goiás. Estas empresas foram escolhidas com base nos seguintes critérios: serem cadastradas no SISBOV a mais de 3 anos; serem vinculadas a uma mesma certificadora, gerenciarem o rebanho utilizando o mesmo sistema de informações gerencias, chamado neste trabalho de Software de Gerenciamento de Rebanho e Rastreabilidade (SGRR), pela necessidade do estudo comparativo manter a homogeneidade nas TIs adotadas e utilizadas pelos pecuaristas de forma a possibilitar a validação na comparação de seu uso. Esses casos foram obtidos através de um levantamento feito junto a empresa certificadora buscando uma indicação de empresas que apresentavam diferentes condições de registro, comunicação e uso das informações referentes ao processo de rastreabilidade a fim de tornar o estudo mais rico pela obtenção de uma pluralidade de situações que buscassem contribuições sobre o tema estudado. A amostragem, portanto, foi não probabilística por julgamento (MALHOTRA, 2001).

Foram utilizados uma combinação de procedimentos, técnicas e instrumentos que proporcionassem ampla cobertura, tanto na seleção de informações, quanto na coleta de dados, o que pôde ser viabilizado por meio da técnica de triangulação de dados. Segundo Triviños (1995), neste método são empregados vários procedimentos e técnicas satélites, distribuídas em três níveis que circundam o objeto de estudo. Além da triangulação de dados e informações foram utilizados a observação, análise documental e entrevistas. Para as entrevistas utilizou-se um questionário semi-estruturado como instrumento de coleta.

Para atender aos objetivos foram realizadas entrevistas com quatro atores distintos. Esses atores foram: o proprietário (ou sócio-diretor) e o técnico da certificadora (consultor técnico) de cada empresa, ambos representando a perspectiva da empresa rural e; o responsável da certificadora e o responsável pela softhouse, para representar a perspectiva da certificadora. Dentre as várias técnicas propostas para a análise dos dados, optou-se pela utilização da análise de conteúdo das entrevistas semi-estruturadas a partir da sua transcrição, buscando-se a construção de um conjunto de significados a partir dos discursos coletados, agrupando-os de acordo com a visão dos entrevistados (BARDIN, 1977). Os depoimentos foram organizados de forma a dar maior significação a seu conteúdo buscando-se aproveitar seus detalhes, a qualidade e o modo de como os entrevistados interpretam a realidade. Apoiando-se nas etapas do processo de uso da análise de conteúdo descritas também por Triviños (1995), realizou-se uma pré-análise do material, seguida da sua descrição analítica e interpretação inferencial.

Os entrevistados foram então codificados, a fim de preservar sua identidade sendo que para os diretores e consultores técnicos, que representaram as empresas rurais, adotouse o código EMP., e para o diretor da certificadora e softhouse o código CERT.

 

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

Neste tópico foram apresentados os resultados da análise comparativa das percepções de cada empresa rural com as percepções apresentadas pela certificadora. Todas as variáveis investigadas sobre os impactos da rastreabilidade nos recursos humanos estão listadas no Quadro 1.

 

QUADRO 1 - Perspectiva das empresas e da certificadora sobre os impactos da rastreabilidade nos recursos humanos.

 

4.1 Habilidades

Ficou constatado que a maior atenção citada pelas empresas (diretores e consultores técnicos) no contexto pesquisado tratava-se de compreender os processos envolvidos para realizar a rastreabilidade. Entre estes processos foram mencionados a organização de documentos, maiores cuidados na observação dos números do brinco SISBOV. Este conhecimento foi apontado pelos diretores e consultores técnicos como necessário tanto para os funcionários de escritório, que lança os dados no SGRR e organiza os documentos (entre estes o DIA e a Guia de trânsito animal - GTA) para a venda dos animais, como para o funcionário de campo, que está envolvido com a coleta de dados e separação de animais.

Na pecuária de corte bovina não é muito comum a utilização de identificação individual principalmente com brincos de seis dígitos. Nas empresas que já usavam identificação individual, a numeração com seis dígitos diminuiu o tamanho do número nos brincos o que facilitou a ocorrência de erros de leituras a distância prejudicando a coleta de dados.

As ocorrências desses erros estão de acordo com as observações de Machado & Nantes (2003). Para eles os sistemas de identificação tradicionalmente utilizados, como brincos, colares, tatuagens e ferro quente, apesar de práticos, dificultam a visualização à distância, necessitam de contenção do animal e apresenta problemas na leitura, devido à abrasão dos caracteres, sujeiras e erros de transcrição, o que poderia ser contornado com a utilização de brincos eletrônicos.

Todavia, observou-se que este fato, com o tempo, foi contornado pelos funcionários de campo ao passarem a dedicar mais atenção e tempo para a leitura dos brincos. Para a certificadora a boa vontade dos funcionários é o principal requisito para superar esta dificuldade.

A perspectiva da certificadora indicou que também houve modificação no comportamento dos funcionários por causa do número de dígitos nos brincos. Para ela os funcionários já passaram a ser mais exigidos no preenchimento das planilhas de campo, procedimento que é executado no momento da aplicação dos brincos SISBOV nos animais.

Conforme observações e depoimentos colhidos, observou-se que os profissionais que atuam em propriedades que trabalham com animais rastreados e utilizam TIs foram mais cobrados quanto a atenção e detalhismo no processo, principalmente porque erros podem incorrer em penalizações financeiras, fato relatado pela EMP 1. No seu primeiro envio de animais rastreados para frigorífico exportador, alguns não estavam registrados na BND ou não possuíam DIA e GTA conferentes com a respectiva identificação, o que lhe causou a desclassificação de animais. Na prática, essa desclassificação foi um deságio no valor da arroba paga por animal em desconformidade com as normas da rastreabilidade, sendo pago a empresa o valor da arroba de um boi não rastreado.

Para evitar situações semelhantes, percebeu-se que empresas informatizadas que trabalham com rebanhos rastreados, neste estudo, têm planejado um perfil básico para seus funcionários. Ainda que estes não tenham sido encontrados na maior parte das empresas, seria possível melhor preparar os funcionários atuais para desempenharem suas funções. Para nivelar as habilidades, primeiro seria essencial um treinamento de todos os funcionários cujo conteúdo explique o que é a rastreabilidade, a importância dela para a pecuária e o papel de cada um dos funcionários dentro da empresa para atender as suas exigências. Segundo, para o pessoal de campo vê-se que a escolaridade mínima do ensino fundamental seria ideal para minimizar erros com a coleta de dados enquanto que para o pessoal de escritório seria recomendada uma formação técnica (auxiliar administrativo).

Para o pessoal de escritório, seria fundamental um treinamento específico para utilização das ferramentas do SGRR relacionadas à rastreabilidade e um treinamento para o desenvolvimento de habilidades relacionadas a processos administrativos. Por fim, o conhecimento da atividade pecuária complementaria o perfil básico dos funcionários administrativos (escritório) porque promoveria a minimização de erros e maior desenvoltura para avaliação de relatórios. Tais sugestões têm ancoragem nas observações de Machado et. al (2002) ao relatarem que a qualificação da mão-de-obra deve preceder a adoção de tecnologias e da adoção da rastreabilidade por ela necessitar de informações seguras para alimentar o sistema.

 

4.2 Comunicação

O processo de comunicação foi afetado em todas as empresas relatando-se tanto uma maior comunicação entre os funcionários de campo com os de escritório como uma maior comunicação entre os funcionários de escritório com a certificadora. A comunicação entre os funcionários de campo com os de escritório foi mais intensa principalmente no momento do embarque dos animais para abate, exigindo interação de operações que envolvem a separação dos animais, realizada por funcionários de campo, com a separação dos DIAs desses animais, realizada pelo pessoal de escritório.

A comunicação das empresas rurais com a certificadora foi algo novo e intenso, pois o processo de solicitação e recebimento de números SISBOV foi completamente realizado através do contato da empresa com a certificadora e desta com o MAPA. A certificadora destacou o papel dos consultores técnicos por ela treinados em manter os empresários informados sobre as modificações nas normas do SISBOV pela proximidade que estes mantêm com as empresas.

No entanto, ela também observou que o reduzido número de auditorias prejudicou o cumprimento das normas como proposto. Apesar disto, percebeu-se que a maioria das empresas pesquisadas (EMP 1, EMP 2 e EMP 3) executava os novos controles necessários, provavelmente porque os consultores dessas empresas também prestavam uma consultoria em outras áreas, como na área zootécnica, além da consultoria em rastreabilidade. Este fato provocava a ida dos consultores mais vezes às empresas e os levavam a constatar se os controles de rastreabilidade estavam, de fato, sendo realizados.

4.3 Treinamento

Em nenhuma das empresas houve treinamento formal dos funcionários para aprender a trabalhar com a rastreabilidade, sendo que o aprendizado era feito a medida que o processo se desenvolvia em todas as empresas. Apesar de não terem sido citadas resistências, percebeu-se que os primeiros ciclos de rastreabilidade7 dentro das empresas foram desgastantes para todos os envolvidos. Isso poderia ser amenizado caso a empresa certificadora tivesse organizado um modelo de treinamento para sanar as principais dificuldades apontadas pelas empresas, como também aproveitar tal espaço para introduzir conceitos sobre boas práticas de produção. Enfim, o treinamento seria um espaço para a certificadora ampliar o seu trabalho junto as empresas rurais além do recebimento e envio de dados.

Os resultados da pesquisa de Raschiatore et al. (2005) sobre a Produção Integrada de Frutas (PIF) e a utilização de tecnologias da informação mostram também que a capacitação dos produtores agropecuários com técnicas de manejo adequada, que respeitem as normas de boas práticas que são criadas, são fundamentais e também indica a necessidade de facilitar o acesso dos produtores aos órgãos e empresas responsáveis pelas certificações da produção.

4.3 Contratações, demissões e alterações salariais

Não ocorreram contratações, demissões ou alterações salariais significativas por causa da rastreabilidade. Isso mostrou que as empresas optaram por adequar seus recursos humanos a mais um processo administrativo dentro das suas rotinas de trabalho. A certificadora também fez referência a mesma situação por não acreditar que a rastreabilidade tenha causado impacto neste aspecto. Apenas na EMP 1 ocorreram contratações em que dois funcionários, um em cada fazenda, foram realocados de função passando a acompanhar as atividades administrativas nos escritórios e a operar o SGRR. Também foram contratados nesta mesma empresa dois vaqueiros, um em cada fazenda, e um auxiliar administrativo para trabalhar exclusivamente no escritório central da agropecuária.

 

5 CONCLUSÕES

Os funcionários foram exigidos a ter maior atenção para a organização de documentos e maiores cuidados na observação dos números do brinco SISBOV. Os erros mais apontados aconteceram com a leitura dos brincos. Todavia, com o tempo os funcionários de campo ao passarem a dedicar mais atenção e tempo para a leitura dos brincos minimizaram estes erros. Para a certificadora a boa vontade dos funcionários é o principal requisito para superar esta dificuldade.

Observou-se que nas empresas pesquisadas os profissionais que atuam em propriedades que trabalham com animais rastreados e utilizam TIs foram mais cobrados quanto a atenção e detalhismo no processo, levando a um desenvolvimento destas habilidades. Entretanto a realização de um treinamento com todos os funcionários explicando o que é a rastreabilidade, a importância dela para a pecuária e o papel de cada um dos funcionários dentro da empresa para atender as suas exigências daria mais dinamismo ao processo.

A comunicação foi afetada em todas as empresas relatando-se tanto uma maior comunicação entre os funcionários de campo com os de escritório como também uma maior comunicação entre os funcionários de escritório com a certificadora.

Não ocorreram contratações, demissões ou alterações salariais significativas por causa da rastreabilidade o que evidenciou que as empresas optaram por adequar seus recursos humanos a mais um processo administrativo dentro das suas rotinas de trabalho.

 

6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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**Trabalho apresentado durante o 48º Congresso SOBRE - Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural /Campo Grande.

 
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