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Consórcio milho – cana-de-açúcar: alternativa para a produção de forragem e cobertura de solo no outono-inverno, na região oeste do Estado de São Paulo

Publicado: 14/06/2013
Autor/s. : Waldo Alejandro Ruben Lara, Pesquisador nível III, Pólo Regional Noroeste Paulista, Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios -APTA-, SP.
Descrição da tecnologia. Esta tecnologia, ainda em fase de desenvolvimento, deverá passar por processos de ajustes, para que sua implantação seja viabilizada técnica e economicamente, em áreas de agricultura familiar e, inserida no sistema de rotação de culturas de pequenas propriedades. A idéia é consorciar milho e cana-de-açúcar forrageira, equivalente ao consórcio milho-pasto (sistema Santa Fé). Neste caso, após a colheita do milho na safra, a cana seria a cultura de cobertura viva para a época de estiagem, servindo como fonte alimentar para o gado, e caso fosse deixada na área por mais um ano, tratada como cultura anual ou bianual.
 
Experimento realizado na safra 2006-2007
Objetivos
  • avaliar a produtividade de milho consorciado com cana forrageira e, a produção de massa de matéria seca (MMS) da cana, na época da colheita e sua posterior avaliação no período da estiagem (outono-inverno 2007).
  • Observar o comportamento das culturas, como indicado anteriormente, efetuando-se o plantio das mudas de cana, variedade IAC 86-248, em pré-semeadura, semeadura e pós-semeadura da cultura de milho.
Material e Métodos
O experimento foi desenvolvido em argissolo distrófico, (80 g kg-1 de argila), apresentando os seguintes atributos químicos para a camada de 0 a 20 cm: pH (CaCl2) 5,4, P (resina) e K (trocável) CTC efetiva de 26 e 1,7 e 41,0 mg dm-3, respectivamente e MO de 15 g dm-3. O S-sulfato estava muito deficiente: 1,0 mg dm-3. O estudo foi desenvolvido na APTA-Pólo Regional Noroeste Paulista, Votuporanga (SP). O solo tinha sido manejado em sistema sem preparo, sem planejamento de rotação de culturas.
A área foi dessecada em 28/09/2006 com aplicação de 2,0 L ha-1 de glyfosate, sendo feita uma reaplicação em 30/10/2006 com 1,5 L ha-1 de glyfosate + 1,0 L ha-1 de 2,4D. Em outubro de 2006 foi semeado milheto grão ADR-300, em fileiras de 0,45 m de espaçamento, na dose de 10 kg ha-1 de sementes, sem adubação, com a finalidade de gerar material de cobertura. Em novembro desse ano, foi aplicado K-KCl a lanço, na dose de 80 kg ha-1 de K2O.
Foram utilizadas mudas de cana planta IAC 86-248 cedidas pelo Dr. Lúcio Martins do Pólo Regional Centro Norte, Pindorama (SP) e, sementes de milho híbrido simples Pioneer 30F80 cedidas pela Pioneer Sementes Ltda. O quadro 1 apresenta os tratamentos utilizados.
Quadro 1. Tratamentos e épocas de plantio das mudas de cana planta IAC 86-248 em consórcio com milho em sistema sem preparo. Votuporanga (SP).
O híbrido 30F80 foi previamente tratado com inseticida na dose recomendada pelo produto e posteriormente, semeado em 01/12/2006 com aplicação de 500 kg ha-1 do formulado 06:16:12 com aplicação de micronutrientes nas concentrações de 4, 5, 0,3, 1,2 e 0,5% de Ca, S, B, Zn e Cu, respectivamente, cedido pela BUNGE Fertilizantes Ltda. Foi feita a dosagem de seis sementes por metro linear, visando obter-se um estande de 75.000 plantas ha-1. As mudas de cana-planta em cada época foram dispostas em sulcos de 8 a 10 cm como efetuado rotineiramente em canavial, sem aplicação de adubo, mas tratadas para controle de formigas e cupins. (Figura 1).
Figura 1. Distribuição das mudas de cana planta em sulcos de 8-10 cm de profundidade, na entrelinha de milho. Votuporanga (SP).
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Em cobertura, nos estágios de 4-5 e 7-8 folhas, foi efetuada a aplicação de nitrogênio (N) em doses de 50 e 70 kg ha-1 de N respectivamente, na forma de mistura uréia+sulfato de amônio (1:1 em produto), tomando-se cuidado com os pneus do maquinário, para que não afetasse muito a cana. Mesmo assim, onde isso ocorreu, foi observada a recuperação, com rebrota de material vegetativo.
Foi efetuada amostragem foliar em pleno florescimento do milho, para a determinação da concentração de N, P, K e S. Na colheita (27/03/2007), foi determinada a produção de MMS da parte aérea da cana planta e a recuperação de N, a população efetiva de plantas de milho e a produtividade de grãos, corrigindo a umidade para 130 g kg-1. Durante a colheita, feita com maquinário, foi observado o efeito causado na cana e, posteriormente em 15/07/2007, (109 dias após a colheita), feita amostragem da parte aérea para a determinação da MMS. Foram feitas amostragens de três linhas adjacentes, em cada parcela, para a avaliação das variáveis em cana e três linhas de 10 m cada para a avaliação de produtividade de grãos.
Foi utilizado delineamento inteiramente casualizado em três tratamentos, com três repetições, constituídos por parcelas de 24 linhas de milho, espaçadas de 0,8 m e nas entrelinhas, o plantio de cana em sulcos, com 50 m de comprimento. Foram avaliadas por análises de variância e as médias comparadas pelo teste de t (Students) ao nível de 5% de significância.
Resultados
No quadro 2 estão os resultados de concentração de macronutrientes, determinados na época de florescimento do milho.
Quadro 2. Concentração de macronutrientes determinados na folha índice de milho em estágio de florescimento. Votuporanga (SP).(1)
Não houve diferença entre os tratamentos, e aparentemente baseada nos intervalos de suficiência, não houve deficiência clara, embora os teores geralmente se mostrassem próximos do limite inferior.
No quadro 3 verifica-se que a população de plantas, acompanhou a tendência observada pela produtividade de grãos. O milho com o plantio da cana em cobertura (COB) mostrou estande mais próximo do projetado. No tratamento PP houve problemas de controle de plantas daninhas, pois a aplicação de herbicidas poderia afetar o desenvolvimento da cana. Este controle deveria ter sido feito anteriormente, na época do plantio das mudas em pré-semeadura de milho. O milho teve, portanto, neste tratamento, concorrência com a própria cultura intercalar e, os inços presentes no local. Isto não ocorreu nos outros dois tratamentos, viabilizando o estande mais efetivo de plantas com espigas e, consequentemente, mostrando maior produtividade. Cabe salientar que o melhor tratamento em termos de balanço para ambas as culturas, foi o plantio da cana simultaneamente a semeadura de milho, já que a produtividade foi similar ao tratamento COB, com expressiva produção de MMS de cana: 7.491 kg ha-1 e maior recuperação de N nessa cultura. Em COB, com as plantas de milho mais desenvolvidas, a cana sombreada deve ter sido afetada no seu desenvolvimento. Não pode ser descartado o fato de que as mudas permaneceram mais tempo esperando a época de plantio, o que pode ter afetado o vigor das gemas. A produção de MMS e N recuperado foram desprezíveis.
Quadro 3. Estande de plantas e produtividade de milho, massa de matéria seca (MMS) da parte aérea e recuperação de N na cana-de-açúcar IAC 86 248, sob três condições de manejo de consórcio. Votuporanga (SP).(1)
Esses resultados também permitem indiretamente verificar que a cana diferentemente dos resultados obtidos com pastagem, mostrou-se mais agressiva quanto ao crescimento concorrendo com o milho por nutrientes. No caso específico de N, a maior recuperação na cana-planta está associada a uma produção intermediaria de grãos (tratamento SEM), visto que em ausência de concorrência obteve-se a maior produtividade (tratamento COB). Portanto, este manejo requereria a adição de 10 a 20% de N em cobertura para atenuar a concorrência.
A figura 2 mostra o tratamento SEM na colheita, observando-se que a cana se encontra em fase plena de crescimento, na medida em que o milho senescente permite nessa fase a entrada de luz, com presença de umidade por água de chuva e resíduos de nutrientes não aproveitados pelo milho.
Figura 2. Tratamento de consórcio milho – cana quando a ambas as culturas foram plantadas na mesma época, pouco antes da colheita do milho.
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A figura 3 mostra o tratamento COB, observa-se que a cana não teve condição de crescimento adequado, seja por falta de luminosidade e/ou vigor das gemas utilizadas nessa época.
Figura 3. Tratamento de consórcio milho–cana (plantio da cana em cobertura).
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O sistema radicular da cana visualizado na figura 4, permite compreender que sua diversificação e aprofundamento no solo, a facultam para contornar períodos de estiagem prolongados.
Figura 4. Distribuição do sistema radicular da cana-planta entrando na época da estiagem no outono-inverno 2007.
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Nesta fase de estudo do consórcio, surgia a incógnita sobre qual seria o dano que poderia causar a plataforma de colheita de milho, sobre a cana da entrelinha, pois o objetivo da mesma é permanecer no sistema como cobertura viva, produzindo palha para o inverno e/ou forragem para consumo animal.
Mais que palavras, as três figuras mostradas a seguir evidenciam que a cana superou o estresse sofrido durante a colheita.
A figura 5 mostra a situação da cana após a passagem da colheitadeira no tratamento SEM.
Figura 5. Colheita de milho no consórcio milho–cana
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Na figura 6 visualiza-se detalhadamente o efeito causado pelo maquinário logo após a colheita do milho. Observam-se folhas quebradas, sem dano significativo à touceira.
Figura 6. Detalhe do estado da cana após a passagem da colheitadeira.
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A figura 7 mostra o contraste entre uma faixa, na qual a cana foi rolada no inverno, atuando como material de cobertura, inibindo erosão e crescimento de plantas daninhas, em relação à área sem cobertura ou restos da cultura de verão (milho), com pousio no outono-inverno, já em fase de definhamento e decomposição.
Figura 7. Cana proveniente de consórcio com milho atuando como material de cobertura de solo.
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Em julho de 2007 foi feita amostragem da MMS da cana em pé, presente nos tratamentos testados, sendo que no tratamento COB, não foi registrado material significativo para ser contabilizado. Em média, nos tratamentos PP e SEM, foram registrados valores de 3.175 e 2.080 kg ha-1 de material vivo, respectivamente. Não foi computada a cobertura morta, proveniente da resteva do milho colhido na safra 2006-2007. Provavelmente uma adubação nitrogenada após a colheita de milho, teria ajudado num valor mais expressivo de MMS.
Até o manejo da cana ocorrido em 15/07/2007, transcorridos 109 dias após a colheita do milho, houve somente 11 dias com precipitação, totalizando 114,8 mm o que é normal para a região nessa época (ver figura 8). Em três dias, 9 de abril, 23 e 24 de maio foram registrados 103,6 mm, o que representou mais de 90% da chuva ocorrida. Esse comportamento climático reflete a imperiosa necessidade de se encontrar alternativas de manejo, para manter o solo protegido durante o período da estiagem. Outro estudo sobre o manejo da cana, visando sua adaptação para cultura anual, com objetivo de proteger o solo contra erosão e forragem animal, pode representar uma finalidade nobre que venha aumentar a receita do agricultor familiar, com proteção dos recursos naturais.
Figura 8. Distribuição da pluviosidade e temperaturas máximas e mínimas durante a estiagem 2007 na região Noroeste Paulista. Votuporanga (SP).
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Conclusões
- O plantio da cana forrageira IAC 86-248 juntamente com o milho em consórcio foi a melhor alternativa quanto à produtividade de grãos e produção de massa de matéria seca da cana.
- A cana se for desenvolvida na condição de consórcio com milho, deverá receber um suplemento adicional de nitrogênio na cobertura, quando utilizado variedades exigentes dessa cultura.
- O estresse mecânico sofrido pela cana na colheita de milho, não afetou o crescimento da mesma posteriormente.
 
Literatura citada
MALAVOLTA, E.; VITTI, G.C. & OLIVEIRA, S.A. Avaliação do estado nutricional das plantas: princípios e aplicações. 2a ed., Piracicaba: POTAFOS, 1997. 319p.
 
Agradecimentos
O autor agradece ao Dr. Lúcio Martins do Pólo Regional Centro Norte pela doação de mudas de cana forrageira, às empresas BUNGE Fertilizantes Ltda. e Sementes PIONEER pela doação dos insumos em fertilizante e sementes, respectivamente, e ao pessoal de apoio do Pólo Regional Noroeste Paulista, sem os quais não teria sido possível a realização deste estudo.

***Dados para citação bibliográfica(ABNT): CABEZAS, W.A.R.L. Consórcio milho – cana-de-açúcar: alternativa para a produção de forragem e cobertura de solo no outono-inverno, na região oeste do estado de São Paulo. 2007.
 
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