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BOTULISMO NO BRASIL

Publicado: 19/12/2012
Autor/s. : Vera Cláudia Lorenzetti Magalhães Curci; Adriana Helmeister de Campos Nogueira; Clara Izabel de Lucca Ferrari; Iveraldo dos Santos Dutra
O botulismo é uma intoxicação ocasionada pela ingestão de toxinas previamente formadas pelo Clostridium botulinum. Esta intoxicação ocorre quando os animais ingerem material contaminado, constituído geralmente por restos de cadáveres, água ou alimentos. A bactéria, comum ao ambiente, pode produzir a toxina ao encontrar condições favoráveis a sua multiplicação como: anaerobiose, substrato e temperatura. A sua ingestão desencadeia nos animais, principalmente bovinos, eqüinos, ovinos e aves quadro clínico de paresia e paralisia flácida, envolvendo a musculatura da locomoção, da mastigação e da deglutição (Figura 1), variando a evolução clínica de acordo com a quantidade de toxina ingerida.
Figura 1 – Animais com sintomatologia clínica de botulismo.
BOTULISMO NO BRASIL - Image 1
No Brasil, o botulismo em bovinos foi diagnosticado pela primeira vez por TOKARNIA et al. (1970) no Estado do Piauí, confirmando culturas tóxicas em amostras de solo de locais onde se decompuseram cadáveres de bovinos cuja doença sugeria ter sido o botulismo.
Atualmente é uma enfermidade de grande importância econômica e sanitária na pecuária brasileira, constituindo-se uma das principais causas de mortalidade de bovinos adultos no Brasil, fato este que também justifica a comercialização de mais de 45 milhões de doses de vacinas contra o botulismo anualmente no nosso país. Além disso, a enfermidade caracterizada por sintomatologia nervosa, assume importância também na vigilância epidemiológica como diagnóstico diferencial da BSE (Encefalopatia Espongiforme Bovina).
Os surtos da enfermidade estão associados principalmente com a osteofagia, (hábito de roer ossos) quando os animais são mantidos em áreas deficientes de fósforo, sem a adequada suplementação mineral, e com restos de cadáveres contaminados por C. botulinum nas pastagens.
TURNES et al. (1984) no Estado do Rio Grande do Sul, detectaram toxina botulínica em amostras de solo onde havia carcaças em decomposição e de cadáveres putrefatos de bovinos. SOUZA e LANGENEGGER (1987) avaliaram a distribuição de esporos de Clostridium botulinum em torno de cadáveres decompostos de bovinos, constatando a presença de esporos do microrganismo, num raio de até 30 metros do cadáver. Segundo os autores, a alta concentração da bactéria em torno do local da decomposição do cadáver decorre da sua intensa multiplicação na carcaça.
RIBAS et al. (1994) também verificaram a presença de esporos e toxinas de C. botulinum em costelas de cadáveres decompostos de bovinos em diferentes níveis de decomposição, obtidas em propriedades rurais em que ocorreu mortalidade por botulismo. Das amostras examinadas 46,55% foram positivas.
A formação de toxina também ocorre em outros materiais biológicos. O microrganismo utiliza como substrato não somente matéria orgânica animal, mas também vegetal. Alimentos como cama de frango, milho, feno, silagem e ração, contaminados e armazenados em condições inadequadas favorecem a multiplicação de Clostridium botulinum. A intensificação da contaminação ambiental pelo microrganismo também foi evidenciada pelo surgimento de surtos de botulismo associado à ingestão de água de dessedentação contaminada (Figura 2). Os surtos de origem hídrica estão associados à presença de carcaças de animais em decomposição na água de dessedentação e cacimbas ou valas de captação contaminadas.
Figura 2 – Contaminação de Clostridium botulinum tipos C e D em cacimbas utilizadas como bebedouros.
BOTULISMO NO BRASIL - Image 2
O diagnóstico da enfermidade baseia-se principalmente no histórico, quadro clínicopatológico e epidemiológico. O diagnóstico laboratorial pode ser realizado pelo bioensaio em camundongos e neutralização com antitoxinas homólogas, com o envio de amostras biológicas do animal enfermo (100 g de fígado, 20 mL de conteúdo ruminal e 20 mL de conteúdo intestinal), acondicionada sob refrigeração ou congelada, para laboratório com rotina implantada para o diagnóstico de botulismo. Porém, a detecção da toxina botulínica pode não ser demonstrada devido à perda de sua atividade biológica após ter atingido a sinapse neuromuscular.
As medidas preventivas sanitárias consistem principalmente na imunização ativa dos animais, associada à suplementação mineral adequada e a remoção das carcaças de animais mortos, das pastagens para a incineração. Cacimbas, valas de captação e bebedouros devem ser limpos sempre que possível, enquanto que os alimentos (feno, milho, silagem, alfafa e outros) devem ser processados e armazenados adequadamente.
 
Referências
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TURNES, C.G.; LANGENEGGER, J.; SCARSI, R.M. Mal de Alegrete. Evidências de Clostridium botulinum D como agente etiológico. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE MEDICINA VETERINÁRIA, 19, 1984. Belém. Anais... Belém: 1984. p.138.

**O trabalho foi originalmente publicado pela Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo. 
 
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