O pão nosso de cada dia: Ambiência e bem-estar animal

Publicado: 01/10/2013
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Já não é tão incomum nos depararmos com assuntos relacionados às questões do bem-estar e da ambiência animal, e isso é muito positivo, principalmente para um setor tão tecnificado como o avícola. De maneira mais tímida já começa a se tornar conhecido também o que chamamos no meio acadêmico de "Zootecnia de Precisão", termo mais recente e que diz respeito aos avanços tecnológicos aplicados à ciência animal visando a otimização e redução das perdas nos processos produtivos. Embora estes temas mencionados, de certa forma, já façam parte do cotidiano dos produtores e processadores da carne de frango, observa-se que ainda existe uma lacuna entre o que é realmente realizado e o que se recomenda ou é pesquisado.

Podemos dizer sem sombra de dúvidas o quanto já avançamos nos estudos da ambiência avícola. As pesquisas na área de conforto térmico, tanto para corte como para postura, tiveram um crescimento acentuado nos últimos anos, e não só nisso, mas também na parte da ambiência que trata das instalações, da qualidade do ar, da poluição sonora nos galpões e ainda a relacionada aos programas de luz. Hoje é real a preocupação que existe com as condições ambientais no interior dos galpões de criação de frangos, bem como a consciência, por parte dos produtores, dos prejuízos que o estresse térmico pode trazer. Estes já realizam um monitoramento ambiental interno mínimo, principalmente da temperatura e umidade relativa do ar no interior de suas instalações. Isso sem dúvida nenhuma é um reflexo dos resultados positivos que o setor de pesquisa voltado para essa importante área vem conseguindo.

Estudos vem mostrando também que atualmente a questão ambiental vai além da simples medição interna da temperatura no galpão, com vistas às mudanças climáticas e a instabilidade do tempo tem-se uma preocupação maior, que é a relacionada ao ambiente externo da instalação. Assim, além do monitoramento interno será necessário também um acompanhamento e a previsão das condições climáticas da região onde está situada a instalação com o objetivo de antecipar eventos que possam vir a ocorrer e causar prejuízos à produção.

O setor de processamento da carne também apresentou muitos avanços nos últimos anos, no entanto, ainda existem algumas lacunas que o setor de pesquisa nessa área tenta preencher. Processos até então difíceis de serem estudados e acompanhados têm avançado muito ultimamente, como por exemplo, as pesquisas voltadas para o pré-abate de frangos de corte. Sabe-se que nessa etapa existem grandes perdas e que há uma discrepância entre o que realmente é feito pelas empresas e o que é conhecido. Um grande progresso é que atualmente têm-se equipes bem qualificadas promovendo treinamentos e capacitação de profissionais e técnicos neste seguimento.

Quanto a questão do bem-estar animal, o que mais se vê são os assuntos que dizem respeito à mudança no sistema de criação de aves poedeiras, no entanto em outros aspectos as questões relativas ao bem-estar animal ainda permanecem desconhecidas por grande parte do produtores e pela maioria dos consumidores. Atualmente há uma intensificação dos estudos voltados às questões do bem-estar dos animais e uma grande preocupação em fazer com que os resultados obtidos possam atingir produtores e consumidores. Estes estudos também visam atender uma demanda do mercado importador da nossa carne de frango, haja visto que esse assunto figura vez ou outra como potencial barreira técnica às nossas exportações.

Partindo para o lado da tecnologia de ponta na pesquisa animal, tem-se a zootecnia de precisão, onde são aplicados conceitos e técnicas inovadoras, bem como aparelhagem moderna no intuído de aumentar a qualidade da produção e reduzir as perdas nas diversas etapas do processo produtivo. Assim têm-se hoje estudos voltados a vocalização dos animais, utilização de câmeras termográficas para avaliação e diagnóstico de estresse térmico, análise de comportamentos por imagens (Big Brother Animal), implantação de sensores nos animais para acionamento de equipamentos e etc...

Como se percebe as pesquisas nas áreas de ambiência e bem-estar animal para a avicultura estão a todo vapor e em franca expansão, acredito que já atingiram o mesmo nível de importância de áreas chave para setor, tais como a genética, a nutrição e a sanidade. Observa-se ainda que a pesquisa nesta área já abrange também a região Nordeste do país, polo fundamental de expansão do setor avícola atualmente. Esse crescimento é muito benéfico e vital para um pais como o Brasil que possui uma grande variabilidade climática e é um dos maiores exportadores de carne de frango do mundo.

***Texto originalmente publicado pela Revista Produção Animal-Avicultura, na coluna “Ponto Final” em março de 2011 – Edição 47 – pag. 78.

 
Autor/s.
Possui graduação em Engenharia Agrícola (2002) pela Universidade Federal de Lavras (UFLA/MG), mestrado (2005) e doutorado (2008) em Agronomia (Física do Ambiente Agrícola) pela Universidade de São Paulo (ESALQ/USP). Coordenador do NEAMBE - Núcleo de Estudos em Ambiência Agrícola e Bem-estar Animal e Pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Ambiência (NUPEA). É professor do Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal do Ceará (UFC), CE. Tem experiência na área de Bioclimatologia Animal.
 
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