Em meio à pandemia, uma janela

Publicado: 07/04/2020
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A natureza das emergências faz com que processos históricos, mudança de paradigmas ou falência de crenças avancem muito rapidamente. Durante a emergência, novas percepções da realidade quebram preconceitos, decidem desapegos ou aceitam rupturas, às vezes em horas ou dias, quando na vida normal levaria tempo para isso acontecer, se é que aconteceria.

Agora mesmo, na crise da pandemia, observa-se isso. Escolas do fundamental ao superior fecham e vão para online. Milhões vão trabalhar em casa e comunicam-se apenas à distância. O Congresso autoriza o descumprimento do teto de gastos e recebe aplausos. Decisões que, em tempos normais, teriam pelo menos algum grau de discordância de instituições, empresas, governos ou opinião pública.

Mas os tempos não são normais e a pandemia bem pode representar um ponto de inflexão em valores, padrões e crenças. Pode estar acontecendo algo assim com a ciência, que nas últimas décadas vinha enfrentando desgastes de credibilidade, na percepção de parte das pessoas. O próprio agro tem feito uma cruzada pela primazia da ciência nas discussões sobre alimentos e produção do campo, mas sem avanços sensíveis na persuasão dos resistentes.

Agora com a pandemia, e sob a forte carga emocional que a situação traz, quando instigadas a escolher entre autonomia e saúde as pessoas escolhem saúde. E isso vem se traduzindo na busca de informações de base científica sobre o enfrentamento do Covid-19. Uma espécie de cidadania da saúde, pois informação correta, com lastro na ciência, significa empoderamento para cuidar da própria saúde e fazer escolhas conscientes e seguras.

Para fazer a coisa certa, enfim, as pessoas estão recorrendo à ciência. Prova disso são as ruas desertas nas grandes metrópoles e a menor repercussão de receitas fantasiosas e milagrosas como panaceia contra o vírus, que sempre inundam a internet nessas ocasiões. A confiança popular na ciência, que vinha perdendo certo fôlego nos últimos tempos, talvez esteja sendo em parte restaurada, em poucas semanas.

O que mostra que em momentos de crise, principalmente aquelas que tocam nossa humanidade, as mentes e os corações podem mudar rapidamente. Como se de uma hora para outra fosse resgatado um elo de confiança perdido, sugerindo que pode estar nascendo um momento favorável à recuperação da confiança das pessoas na ciência como pilar essencial.

E aqui fica uma provocação para reflexão: talvez este momento seja uma oportunidade para alimentar as pessoas com informações corretas, bem narradas e de lastro científico sobre alimentação, saúde, segurança e sustentabilidade do alimento, bem-estar animal, Amazônia. Tudo com ciência, mas sem ranço científico na comunicação. Em seu lugar, a empatia e o compartilhamento dos valores das pessoas. Aliás, tecnologia é fator de credibilidade, sim; mas o que sedimenta confiança é compartilhamento de valores.

Não é tarefa heroica para um só emissor. É trabalho para muitos, por um bom tempo e usando todas as ferramentas e canais que o século 21 nos dá para fazer isso. E o mais importante: de forma coordenada, conceitualmente alinhada e olhando os mesmos objetivos. Nem precisa ter um só chefe. Muito pelo contrário, pois nesse desafio a pluralidade vai ser essencial. Mas o espírito de tudo tem que ser um só, unificado.

 
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