Integridade intestinal de frangos de corte quanto ao uso de novos aditivos nas dietas modernas

Publicado: 16/06/2014
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INTRODUÇÃO

Preservar a integridade intestinal dos frangos de corte é cuidar literalmente do sucesso desse agronegócio, pois além da genética avançada melhorando constantemente essas aves, dos rigores da biosseguridade preservando sua sanidade e da alta tecnologia de ambiência garantindo a zona de conforto, a nutrição fornece as demais ferramentas para o melhor desempenho pecuário do mundo, começando em multiplicar por cinco seu peso desde o alojamento até chegar aos sete dias de vida.

No entanto, apesar de toda a evolução da avicultura industrial desde a metade do século passado e bem mais intensa e tecnificada nos ultimos 30 anos em todo o mundo, a nutrição também continua sendo a responsável pela maior participação nos custos de produção de carne e ovos em toda sua cadeia produtiva, variando em torno de 70 %. Portanto, literalmente mais de 2 terços dos custos operacionais da avicultura passam pela luz intestinal das aves industriais.

Mesmo assim, a avicultura industrial e principalmente a produção de carne, seja como frango vivo ou processado, segue avançando, colocando como a segunda carne mais consumida no mundo e no Brasil como carne líder de consumo, já chegando aos 48 kg percapita (acima dos EUA que é de 44 kg percapita), representando quase um quilo por semana em nosso cardápio e no ranking mundial ocupamos o quarto lugar.

 

SAÍDA DOS APC’s NA UE

Durante os últimos 40 anos, os antibióticos têm sido utilizados como promotores de crescimento (APC’s) e para o controle e prevenção de agentes patogênicos, incorporando-os como aditivos na alimentação animal ou água de beber, especialmente na produção intensiva dos frangos de corte, galinhas poedeiras e suínos, proporcionando, como já é bastante conhecido, melhorias no desempenho produtivo desses agronegócios.

No entanto, o Regulamento (CE) nº 1803/2003 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 22 de setembro de 2003, proibiu o uso de antibióticos como promotores de crescimento na alimentação animal nos países membros da União Europeia, desde 01 de janeiro de 2006.

Com essa medida, o Brasil como entre o 2º. e 3º. maior produtor e o maior exportador de carne de frango do mundo, obrigou-se a se adequar dessa forma as dietas para as aves criadas com destino a exportação.

Para o mercado interno, os nutricionistas continuaram a adotar a utilização de antibióticos promotores de crescimento isoladamente ou em consorcio sinérgico com os novos aditivos, porém desde que o produto esteja devidamente registrado no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) do governo brasileiro, com uso, dosagem e carência respeitados.

 

ESTRUTURA INTESTINAL HISTOLÓGICA

O epitélio intestinal é um complexo sistema de células em multiplicação, que estão se renovando constantemente com padrões bem definidos geneticamente em que o intestino delgado é a porção mais longa do sistema digestório.

 

 

 

A mucosa intestinal desde o duodeno, até o jejuno, íleo e cecos (Figura 01), apresenta estruturas denominadas de vilosidades, criptas de Lieberkühn (base) e parede intestinal em todo o seu trato (Foto 01), mas gradualmente se alterando a medida que as funções digestivas, absortivas e reabsortivas vão se incorporando e se modificando.

 

 

As vilosidades são constituídas pôr três tipos de células funcionalmente distintas, caliciformes, enterócitos e as enteroendócrinas.

As Células Caliciformes são secretoras de glicoproteínas (Foto 02), que protegem o epitélio intestinal da ação de enzimas digestivas e efeitos abrasivos da digesta.

 

 

Os Enterócitos são células responsáveis pela digestão final do alimento e pelo transporte transepitelial dos nutrientes a partir do lúmen (Foto 03).

 

 

Estas células apresentam um processo de maturação que ocorre durante o processo de migração da cripta de Lieberkühn até o ápice do vilo.

Já as Células Enteroendócrinas (Foto 04) são produtoras de substâncias que participam na regulação da digestão, absorção e utilização dos nutrientes.

 

 

Além disso, a saúde da mucosa intestinal depende do controle de uma série de agentes potencialmente agressores como os biológicos (fungos, bactérias e protozoários) e os tóxicos e agressivos às membranas celulares.

 

INTEGRIDADE DA PAREDE INTESTINAL

A melhor e mais eficiente forma de se avaliar a integridade intestinal dos frangos de corte é vendo literalmente, como se faz com qualquer outra estrutura física.

Podemos ver de duas formas, macroscopicamente durante as necropsias de campo e laboratorial (Foto 05), observando o exterior dos tubos intestinais e a própria luz, ou seja, internamente, mas que nos informa bastante superficialmente.

 

 

A outra forma e mais precisa, é histologicamente (Foto 06), para isso é necessário essencialmente termos um microscópio óptico, uma lente ocular milimetrada, uma tabela conversora do grau de aumento da lente em uso em milímetros e cortes histológicos em lâminas de secções de duodeno, jejuno, íleo e cecos dos frangos de corte, para medirmos suas vilosidades, profundidades das criptas de Lieberkühn e espessura da muscular ou parede intestinal.

 

 

Tudo isso associado a muita paciência em lavar cuidadosamente em água os cortes, para eliminar resíduos do conteúdo intestinal (Foto 07) que prejudicam a leitura no microscópio e que devem ser feitas em várias vilosidades mais definidas.

 

 

Ressaltando que essas observações somente se completam ao cruzarmos com o desempenho diário e os resultados finais zootécnicos do lote.

 

AVANÇO DOS ADITIVOS ALTERNATIVOS

Após essa medida de alteração nas dietas quantos aos antibióticos, uma grande variedade de aditivos até então não conhecidos e outros ainda pouco conhecidos, tomaram e ganharam espaços na nutrição de aves industriais.

Dentre os novos aditivos que surgiram e que são mais utilizados, podemos citar as enzimas, os acidificantes, os probióticos, prebióticos e simbióticos, os extratos naturais, os fidelizadores, os complexos metabólitos e as novas proteínas.

Quase que na sua totalidade, são substancias naturais já existentes nos tratos gastrointestinais (TGI’s) das aves, mas produzidas em quantidades aquém das necessidades e exigências para atender a digestão e absorção dos nutrientes ofertados nas dietas. Porém, ao ofertamos essas substâncias em quantidades maiores, evidentemente alteramos o equilíbrio funcional dos TGI’s, devendo então conhecermos seus limites de uso e se melhoram, alteram ou causam danos à integridade intestinal dos frangos de corte.

Procuramos artifícios que aumentem a altura das vilosidades e a profundidade de criptas, multiplicando assim mais células absortivas, ja que não desejamos um quadro de doença celíaca (Figura 02) em nossas aves.

 

 

COMPORTAMENTO DOS ADITIVOS NA INTEGRIDADE INTESTINAL

Quanto aos aditivos citados, conheceremos de forma sucinta, suas ações e alterações e possíveis danos à integridade intestinal dos frangos de corte.

ENZIMAS: Conhecidas como exógenas, agem especificamente sobre seus substratos melhorando a eficiência alimentar desses nutrientes de acordo com as exigências nutricionais das aves por aptidão e idade. A enzima mais conhecida e uma das primeiras com destaque no mercado é a fitase, que aumenta a disponibilidade do fósforo de origem vegetal. Pode auxiliar na manutenção da integridade dos epitélios do intestino das aves, por reduzir a perda da camada de mucina que protege o epitélio.

ACIDIFICANTES: Existem alguns ácidos naturais que são adicionados para melhorar a produtividade, entre os mais conhecidos temos o ácido fumárico, lático, fórmico e acético e o butírico, ou mais precisamente o seu sal, o butirato de sódio. Os ácidos orgânicos têm a capacidade de baixar o pH do trato gastrointestinal, inibindo o desenvolvimento das bactérias patogênicas, contudo precisam ser tamponados para se proteger da acidez do suco gástrico ate atingir seu sítio de ação, a mucosa intestinal.Existem teorias e estudos aplicados de aumento das vilosidades e consequente aumento das células absortivas do epitélio intestinal em frangos de corte.

PROBIÓTICOS: Culturas de microrganismos viáveis (bactérias, fungos e leveduras) que atuam direta ou indiretamente sobre bactérias patogênicas no trato gastrointestinal e contribuem para o equilíbrio da microbiota intestinal.

PREBIÓTICOS: Ingredientes nutricionais não digeridos por enzimas, sais e ácidos produzidos pelo organismo animal, sendo, seletivamente, fermentados pelos microrganismos do trato gastrintestinal constituindo o alimento das bactérias probióticas. Os prebióticos mais estudados são os oligossacarídeos, principalmente os frutoligossacarídeos (FOS), glucoligossacarídeos (GOS) e mananoligossacarídeos (MOS).

SIMBIÓTICOS: Por definição, um simbiótico é um produto no qual um probiótico e um prebiótico estão combinados, podendo ou não estar somados a mais uma fonte de alimento ao probiótico.

EXTRATOS NATURAIS: Os extratos naturais são em geral produtos extraídos de plantas, com propriedades antibióticas ou de estímulo às secreções gástricas e pancreáticas. Estas substâncias apesar de serem naturais, possuem elevado custo e resultados menos consistentes.

FIDELIZADORES: Para as aves de produção com restrições a consumo, pode estimular melhorias no consumo alimentar, através de efeitos fisiológicos diretamente no hipotálamo por ação olfativa.

COMPLEXOS METABÓLITOS: Podem ser em forma de complexo multifatorial e multifuncional elaborado a partir de leveduras com xaropes e cereais, passando por extrusão a frio, é capaz de produzir em torno de 300 metabólitos essenciais às melhorias na imunidade e na conversão alimentar e consequentemente no ganho de peso dos frangos de corte.

NOVAS PROTEÍNAS: Podemos considerar como aditvos, mas que são ofertadas dentro dos insumos, obtidas através da biologia molecular e tecnologias laboratoriais de manipulação dos componentes moleculares com o auxílio fundamental da cristalografia (Figura 03) para seu melhor conhecimento, conseguindo assim transformar moléculas protéicas e montar novas proteínas para disponibilizar in vitro e in vivo nas dietas modernas das aves industriais.

 

 

Objetivando então mais recentemente, ofertar na carne de frango fatores antioxidantes e de possível retardamento ao envelhecimento humano com uso de algas marinhas e subproduto da produção de vinho (orujo) entre outros, que possam também ser mais uma forma de prevenir o avanço ou mesmo até inibir duas das mais sérias patologias da melhor idade e que vem se manifestando cada vez mais precocemente na humanidade, a Doença de Parkinson e a Doença de Alzheimer. Na europa e também no Brasil, já existe interesse nesse sentido de fornecer a carne de frango como alimento funcional, sem deixar de avaliar e avançar mais ainda nos resultados zootécnicos na produção de carne avícola.

 

DISCUSSÕES

Embora que já conseguimos avançar bastante nesse tema de novos aditivos, ainda não estamos no cenário conclusivo do uso dos mesmos relacionados, assim como de outros de menor relevância, quanto ao seu uso quantitativamente e qualitativamente isoladamente ou em conjunto e suas implicações na luz intestinal dos frangos de corte, apesar de não conhecermos ainda nenhum efeito agressivo desses na integridade da mesma.

Não existem relatos de prejuízos à integridade intestinal dos frangos de corte na aplicação desses novos aditivos nas dietas modernas, ao contrário, todas as pesquisas constataram haver benefícios no aumento de vilosidades e multiplicação celular de uma forma geral.

Porém, sabemos bastante da eficácia desses aditivos nos resultados zootécnicos, mas sendo necessário então, continuarmos investigando suas aplicações sobre esse tema a nível de pesquisas públicas e privadas, como também diretamente na linha direta de produção de frangos de corte.

Não é necessário precisamente termos um microscópio e uma ótima e paciente avaliação histológica, para conhecermos profundamente a integridade intestinal dos frangos de corte, pois os resultados zootécnicos finais expressam-se por sí só.

Então, é de extrema importância, relacionar essas aplicações desses novos aditivos com seus resultados zootécnicos finais, levando em conta diversos fatores tais como, marca genética, peso do pintinho com hum dia, peso do pintinho com sete dias, zona de conforto, formulação em uso, nível de instalações, densidade aviária, densidade de equipamentos, ambiência do aviário, grau de biosseguridade, vazio sanitário, reutilização ou não da cama e época do ano entre outros mais, finalizando com a relação custos benefícios, ou seja, a avaliação econômica de cada lote de frangos de corte separadamente por unidade produtiva de cada empresa.

Ressaltando que resultados zootécnicos são excelentes indicadores de referência para comparação de lotes entre situações econômicas iguais ou semelhantes, minimizando o numero de variáveis, permitindo assim avaliar com maior precisão especificamente o uso de aditivos nas dietas para frangos de corte.

Enfatizamos também, que nas dietas da avicultura industrial em todas as aptidões, nunca foi e nem será utilizado hormônios, pois sua aplicação é ilegal, sem aplicabilidade fisiológica digestiva e além de tudo, sem viabilidade econômica.

Considerando-se que a avicultura dispensa qualquer artifício nocivo a saúde humana, pois além da confiabilidade na seriedade empresarial do setor, existe uma imensurável fonte de informações nas páginas eletrônicas e nas redes sociais informatizadas, que não nos deixam sem respostas.

Acrescentamos que atualmente as indústrias avícolas, consorciadas com as universidades e órgãos governamentais, investem prioritariamente em pesquisas com objetivos de uso funcional para a saúde humana, rastreabilidade, sustentabilidade, meio ambiente e bem estar animal, praticando ciência responsável, transparente e de domínio público.

Finalizo destacando que essas aves foram melhoradas geneticamente para ganhar peso através da transformação de proteína de origem vegetal em sua maioria, em proteína animal de alta qualidade e acessível a todas as camadas sociais.

 

CONCLUSÕES

Apesar de não conhecermos nenhum prejuízo de ordem epitelial ou zootécnica, no entanto, cabe a nós, profissionais da avicultura industrial, proporcionar uma situação adequada em sistema de confinamento e principalmente nesse tema, conhecer bem os novos aditivos incluídos e que possam vir a ser incluídos nas dietas modernas.

Esse artigo técnico foi originalmente apresentado no XVIII Seminário Nordestino de Pecuária.

 
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