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XXII Congresso Latino-Americano de Avicultura 2011

Influenza aviar setor avícola

Impacto econômico da influenza aviar no setor avícola

Publicado: 26/04/2012
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Sumário

Introdução
A tendência da cadeia de produção animal, em alguns países da América Latina, é organizar-se cada vez mais em grupos agrícolas ou agriclusters, principalmente nas novas fronteiras da agropecuária onde se estabelece ao lado dos cinturões de grãos. A redução de custos de produção através dos fornecedores locais e fonte de matérias- primas mais baratas, justificam a formação destes conglomerados agrícolas que atraem atividades financeiras, industriais, educacionais, de pesquisa e de serviços. Se por um lado estes agriclusters aceleram o desenvolvimento econômico regional, por outro enfrentam ameaças de ordem social, ambiental e sanitária. A elevada concentração de unidades avícolas e indústrias de suporte da cadeia de produção, em uma determinada região geográfica, pode aumentar os riscos de disseminação das enfermidades infecciosas avícolas, sejam elas endêmicas ou exóticas.

Nas últimas três décadas o mercado mundial de alimentos foi diversas vezes afetado por problemas sanitários de origem: a) tóxica: Dioxina, PCBs; b) infecciosa: BSE, Influenza Aviaria; c) toxico-infecciosa: Salmoneloses, E. coli entero-hemorrágica e entero-toxigênica, Campylobacter, Listeria (Silva 2009). Do suculento hambúrguer bovino, ao sofisticado filé de salmão, passando pelo leite e ovos comerciais, nenhum alimento de origem animal escapou da suspeita do consumidor. Em de Junho de 2011, até mesmo os vegetais "orgânicos" sucumbiram frente às notícias de infecção por E. coli O157 pela mídia da Europa, com respingos em outros continentes.

Já no final do século passado o consumidor iniciou uma mudança de comportamento, em todos os segmentos, incluindo o de alimentos. Ele começou a se interessar não somente pelo preço, mas também sobre a origem do alimento, as condições em que ele foi produzido, o processo de produção, bem estar animal, sustentabilidade da indústria, qualidades nutricionais dos alimentos, e possíveis riscos sanitários de consumo dos mesmos. Mesmo sendo remota a possibilidade de infecção humana pela ingestão de carnes contaminadas pelo vírus da Influenza aviária (IA) e posteriormente cozidas, os surtos ocorridos na última década na Europa e Continente Asiático causaram pânico e enormes perdas econômicas a indústria avícola, que repercutiram, direta ou indiretamente, em todos os continentes.

30 Anos de perdas econômicas por IA

AMÉRICAS: Em um surto de Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (IAAP) provocado pela amostra H5N2, ocorrido nos Estados Unidos entre os anos 1983 e 1984, os gastos do governo, com o abate de 17 milhões de aves e outros prejuízos econômicos paralelos, chegaram à casa dos 225 milhões de Dólares. Na Pensilvânia e New Jersey milhões de aves morreram ou foram eliminadas no surto dos anos 80.  Novos surtos de IA ocorridos nos EUA entre 2001 e 2002, mesmo por amostra de baixa patogenicidade, obrigaram a eliminação de mais de 4 milhões de aves na Virginia e Pensilvânia para seu controle.

Em 1994, no México sofreu um surto de IA causado pela cepa H5N2, de baixa patogenicidade. Passado alguns meses, a cepa já havia apresentado mutações, se convertendo em uma amostra altamente patogênica. Este surto, que se estendeu até 1996, causou ao redor de 50 milhões de dólares de prejuízo devido a mortalidade das aves de corte e baixas de produção em poedeiras comerciais.

No início deste século, surtos de IA, causados pela cepa H5N2 de baixa patogenicidade, ocorreram em países da América Central (Guatemala e El Salvador). Embora os prejuízos não tenham sido publicados, as perdas de produção e outras complicações geradas, foram significativas mesmo em lotes vacinados.

Aparentemente a IA com a amostra H5N2 percorreu um caminho de norte ao sul. Iniciou nos EUA, passou ao México e depois desceu para a América Central. As fronteiras "secas" entre estes países, favorecendo o trânsito de animais, produtos e sub-produtos, incluindo o contrabando, pode ter favorecido a disseminação do vírus.

Em maio de 2002 Chile sofreu um surto de IA, sendo o primeiro na história da indústria avícola deste país. A cepa H7N3 que ocasionou o surto foi classificada como de alta patogenicidade. Entretanto, devido à excelente organização estrutural da indústria avícola do Chile e à rápida intervenção coordenada pelas autoridades do SAG (Servicio Agrícola y de Ganaderia), a enfermidade foi controlada com eliminação de cerca de meio milhão de aves, reprodutoras de corte e perus. Os cálculos de gastos e perdas totais chegaram a 31 milhões de Dólares. Em dezembro de 2002, seis meses depois que as últimas aves da área afetada haviam sido eliminadas, nenhuma outra manifestação foi reportada, e as autoridades chilenas puderam declarar o país livre de IA. A condução deste caso serviu e ainda serve de exemplo para as autoridades sanitárias, não somente na América Latina, mas de todo o mundo.

Em 11 de Fevereiro de 2004 os EUA declaram o isolamento de um vírus de IA, amostra H7N2, de baixa patogenicidade, no estado de Delaware.  Nos dias subsequentes mais dois estados declaram o isolamento de vírus de IA: New Jersey, no mercado de aves vivas, amostra H7N2 e Pensilvânia, em lotes de frangos de corte, amostra H2N2 também de baixa patogenicidade.  Entretanto em 17 de Fevereiro, durante um exame de rotina do programa de controle de IA, as autoridades americanas detectaram, no estado do Texas, um foco de IA causado por uma amostra H5N2 de alta patogenicidade, num plantel de aves onde não se praticava nenhum sistema de biosseguridade (Martins 2004).

EUROPA E ÁSIA: Em 1997 Hong Kong experimentou um surto de IA de alta patogenicidade em aves do mercado público e granjas comerciais pela amostra H5N1. Neste surto, inesperadamente, pela primeira vez na história, vítimas humanas da amostra H5N1 foram relatadas. De 18 pessoas contaminadas, 6 vieram a falecer. A eliminação de 1,5 milhões de aves, incluindo as aves de todos os mercados públicos, bem como a limpeza e desinfecção destes locais, levou à erradicação da doença. Estudos epidemiológicos revelaram que a amostra viral pode ter sido originada de gansos locais, transmitidas a patos que eram mantidos com outras aves no mercado público. Todas as vítimas humanas, de uma forma ou outra, tiveram ou mantinham contato direto com as aves do mercado público.

Ainda em 1997, a Itália sofreu um surto por uma amostra H5N2 e foi limitada a apenas alguns lotes. A rápida identificação da doença e o programa de eliminação aplicado possibilitaram a erradicação da infecção sem maiores consequências para a indústria avícola local.  Entretanto em 1999 um novo surto de IA foi detectado, produzido pelo subtipo H7N1, originado de uma amostra de baixa patogenicidade. Neste caso 16 milhões de aves foram mortas ou sacrificadas. Foram gastos 110 milhões de Euros em compensações aos produtores. Neste último surto um novo sistema de vacinação contra IA foi aplicado para auxiliar no controle da enfermidade. O sistema, conhecido por DIVA (Differentiated Infected from Vaccinated Animals) utiliza um vírus com a mesma hemaglutinina (H), porém com uma diferente neuraminidase (N) do vírus de campo. Isto possibilita a aplicação de provas sorológicas que diferenciam anticorpos originados pelas infecções de campo ou pela vacinação. Estima-se que os gastos para o controle e perdas totais neste último surto chegaram a casa dos 440 milhões de Euros.

O surto de IA altamente patogênica ocorrido na Holanda, em março de 2003, obrigou a indústria a eliminar mais de 30 milhões de aves e custos econômicos diretos aproximados de 150 milhões de Euros. Estima-se que os prejuízos totais (diretos e indiretos) advindos deste surto ultrapassem a casa do meio bilhão de Euros. A infecção iniciou-se em aves comerciais em sistema de criação semi-extensiva (frangos orgânicos). Possivelmente as fezes ou contato direto com aves selvagens contaminaram estes plantéis nos períodos de pastoreio, fora dos galpões. A amostra H7N7 - que em princípio não era de alta patogenicidade - ao circular nestes lotes por meses, ganhou características de alta patogenicidade. Posteriormente o trânsito de homens, veículos e equipamentos disseminaram a enfermidade para granjas de diferentes classes de aves e até de granjas na região de fronteira de países limítrofes (Bélgica e Alemanha). Neste surto alguns trabalhadores de granjas na Holanda adquiriram conjuntivite e transmitiram a membros de sua família, fato este ainda não registrado na literatura. Devido ao elevado grau de desenvolvimento socioeconômico e cultural destes países e a imediata e enérgica ação das autoridades e da indústria, o surto foi controlado dois meses depois, em maio de 2003.

Na Ásia o surto de IA iniciado em dezembro de 2003, causado pela amostra H5N1, alcançou efetivamente dimensões continentais. Apesar da indústria avícola ser bastante desenvolvida em alguns dos países afetados (Japão, Tailândia e China), há, paralelamente, um grande sistema de avicultura para subsistência e geração de renda familiar. Estima-se que existam na área mais de 200 milhões de pequenos produtores que criam apenas algumas dezenas de aves (galinhas, perus, patos, gansos, codornas). Para comercialização das aves eles utilizam ainda mercados públicos, em grande número, os quais apresentam grande promiscuidade de espécies aviárias e precário controle sanitário. Tudo isto faz desta região um a zona de alto risco para IA. Qualquer vírus de IA baixa patogenicidade que "entre" neste sistema, encontra um enorme campo para sua circulação - intra e entre espécies - e potencial aumento de patogenicidade. Não é por outro motivo que as gripes humanas do século passado tenham aí sua origem, ganhando também o seu nome: gripe asiática, gripe Hong Kong. (Martins 2004).

A IA continua a afetar a economia de certos países do Sudeste Asiático em que a doença é endêmica. Apenas nos surtos de 2003-2004 pela amostra H5N1, as perdas para o setor avícola na Ásia ascenderam a quase 8 bilhões de Euros (European Commission 2006). Um relatório conjunto da FAO e ONU alerta que erradicar o vírus da IA H5N1 nos seis países em que a doença é mais endêmica levará, ao menos, uma década (FAO. 2011).

Modelos de avaliação econômica produzidos pela Influenza Aviária

Não há uma abordagem uniforme para a avaliação econômica dos impactos das doenças animais transfronteiriças. Estudos sobre doenças animais têm-se concentrado sobre a produção e os impactos no comércio. Vários autores buscam analisar, classificar e avaliar as perdas socioeconômicas das enfermidades animais, zoonóticas ou não, epidêmicas ou não, na produção e comercio animal de diversas formas.

De acordo com Gall (2006) as consequências socioeconômicas das enfermidades animais podem ser complexas e geralmente vão muito além dos efeitos imediatos que afetam os produtores. Além dos efeitos diretos de causados pela perda de produção ou produtividade dos rebanhos, em se tratando de uma zoonose, como a IA, outras consequências poderão ocorrer:

  • Gastos oficiais com as medidas de contenção do problema
  • Eliminação dos animais ou rebanhos infectados ou contidos na zona do foco
  • Gastos para implantação de estratégias para evitar a recontaminação dos rebanhos
  • Risco para outros segmentos econômicos da cadeia como o de suprimentos (anterior e posterior)
  • Perda do mercado doméstico por temor do consumidor
  • Comprometimento do acesso a novos mercados ou mercados já conquistados
  • Perda de postos de trabalho por paralisação da atividade, mesmo que temporária: empregos diretos, indiretos e empregos relacionados ao efeito renda
  • Efeitos na saúde pública e do trabalhador; dependendo da zoonose estes custos podem ser incalculáveis desde que podem comprometer toda a força de trabalho de uma região ou nação
  • Perda de horas de trabalho
  • Gastos com saúde a nível familiar e com saúde pública
  • Perda da renda para famílias que subsistem graças a criação animal e comprometimento do suprimento de alimentos para estas mesmas famílias

De acordo com Otte (2000) as perdas provocadas pelas doenças animais podem ocorrer de forma direta ou indireta conforme demonstrado na Fig. 1.

Ainda de acordo com o autor as perdas econômicas diretas ou indiretas por meio das enfermidades animais podem se apresentar de diferentes formas, e percorrer diferentes vias, conforme mostrado na Fig.2.

Otte e col. (2004), em seu trabalho "Enfermidades Animais Transfronteiriças: Avaliação de impactos socioeconômicos e respostas institucionais", discute em detalhes os diferentes impactos que as enfermidades produzem no mercado em si. Estes impactos são mencionados de forma resumida na Fig. 3.


Fachinello (2008) verificou que a rejeição pelo consumo de aves e ovos em caso de um surto IA pode chegar até a 66% em algumas regiões do Brasil. Portanto este item deve ser levado sempre em conta ao analisarmos o impacto econômico da IA em populações específicas.

Impacto da IA sobre a mão de obra

É difícil encontrar dados oficiais na América Latina sobre o número de empregos diretos no setor avícola. Ainda mais difícil é o cálculo dos empregos indiretos. Falconi (2006), em seu trabalho "Potential Economic Impact of Avian Influenza on the Latin American Poultry Sector" estima que o setor avícola emprega 1% da mão de obra ativa na América Latina. Alguns trabalhos de pesquisa feitos no Brasil apontam que os empregos diretos, gerados pelo investimento no setor da cadeia de produção animal, podem gerar até 3 empregos indiretos. Logicamente quanto maior o sistema de automatização, menor o número de empregos envolvidos (Najberg 2004). Porém há alguns postos de trabalho a mais, que deveriam ser levados em conta. Em algumas zonas de produção a avicultura na América Latina está concentrada em determinadas regiões do país, criando zonas de agronegócio, conhecida também por agricluster: concentração de uma ou várias agroindústrias em uma mesma região que, por sua vez, atraem produtores, industrias de insumos, bancos, empresas de crédito, pesquisa, transporte e logística, embalagens e serviços, etc. Portanto o agricluster engloba os setores primários, secundários e terciários da atividade econômica. Com estas considerações fica ainda mais difícil calcular o número dos empregos totais gerados pela indústria avícola. Um exemplo típico é o de algumas cidades e até grupos de cidades vizinhas, em alguns países da América Latina, que se dedicam a determinada produção animal. Estas cidades, ou regiões, como um todo, sobrevivem graças a produção animal, associada ou não a outras atividades agrícolas. Desde a professora da escola primária até o médico do hospital sobrevivem indiretamente graças à cadeia da produção animal e do agronegócio ligado a esta cadeia. Tecnicamente estes empregos são conhecidos como: empregos de efeito renda, gerados pelo consumo dos trabalhadores de bens e serviços. De acordo com Najberg (2004) para cada emprego direto, gerados pelo investimento no setor da cadeia de produção animal, até 2 empregos efeito renda podem ser criados. Portanto os dados estimados da força de trabalho envolvida com a avicultura são muito mais complexos, assim como o impacto econômico de uma enfermidade como a IA sobre este setor.

A indústria Avícola nos países Latino Americanos

De acordo com dados do USDA referentes a 2008, oito países da América do Sul respondiam por mais de 22% da produção mundial de carne de frangos (Tabela 1). Com um crescimento expressivo da produção avícola em 2010, a América do Sul pode ter ultrapassado a cifra de 1/4 na produção mundial de carne de frangos.

Tabela 1 - Produção de carne de frangos na América Latina

Países / Regiões

2.008

%

Brasil

10.939

15,4%

México

2.860

4,0%

Argentina

1.470

2,1%

Colômbia

1.010

1,4%

Venezuela

944

1,3%

Peru

875

1,2%

Chile

504

0,7%

Equador

418

0,6%

A. Central e Caribe

         1.181

1,7%

Prod. Mundial

      71.249

100,0%

Total 8 países América do Sul

22,7%

Há uma grande variação do PIB avícola nos países mencionados na Tabela 2. Falconi (2006) estimou o PIB avícola na região em 1% do PIB total.

Tabela 2: PIB avícola / PIB total em países selecionados na América Latina

País

PIB avícola estimado / PIB total

2001

2010

Argentina

0,4%

-

Chile

0,8%

-

Brasil

1,2%

1,5%

Colômbia

1,3%

2,5%

Bolívia

2,2%

-

Peru

2,2%

-

Equador

4,2%

-

México

-

0,7%

Dados de entidades avícolas dos países mencionados. Adaptado de Martins (2004)

Em uma análise superficial as cifras do PIB avícola na América Latina podem não nos parecer muito significativas. A fim de apresentar um parâmetro mais interessante para comparação, citamos que o PIB da indústria automobilística no Brasil (25 montadoras, e 6ª colocada mundialmente) é de não mais que 5% do PIB total do país (ANFAVEA 2011). Mesmo com esta participação no PIB, a balança de pagamento da indústria automotiva no Brasil foi negativa em 2010, ao contrário do agronegócio, grande responsável pelo superávit da balança comercial brasileira no mesmo ano.

Impacto potencial de um surto de IA na América Latina

Pratt & Falconi (2007) analisaram os surtos de Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (IAAP) ocorridos no Leste e Sul da Ásia e verificaram grandes diferenças de perdas econômicas no Vietnã, Indonésia e Japão (Tabela 3). Estas diferenças se deveram aos distintos cenários de preparação do país (produtores e autoridades de saúde pública e animal) para detectar precocemente o problema através de um sistema de vigilância sanitária ativa e passiva, bem como enfrentar situações de emergência em pandêmicas, zoonóticas ou não.

Tabela 3 - Perdas econômicas por HPAI ocorrida em países Asiáticos selecionados na pandemia de 2003 e 2004.

Item analisado

Vietnã

Indonésia

Japão

Perdas produção carnes

(milhões US Dólares)

55

387

15

% do PIB total

 

0,12%

 

 

Mortalidade ou stamping out

(milhões aves)

45,0

16,2

0,275

Adaptado de Pratt & Falconi (2007)

 

Utilizando como parâmetro as perdas econômicas produzidas pelo surto de IAAP nos dois cenários - Vietnã e Japão - os autores apresentam uma estimativa das perdas econômicas da América Latina, em cada um destes cenários (Tabela 4).

 

Tabela 4 - Estimativas de perdas econômicas da América Latina originadas por uma pandemia de IAAP, em dois cenários selecionados.

Cenários

Vietnã

Japão

Custos de um surto de IAAP na América Latina (milhões US Dólares)

6.840

742

Adaptado de Pratt & Falconi (2007)

Observa-se que as diferenças são nove vezes maiores para os países menos preparados para enfrentar problemas desta ordem. O que difere os impactos ou consequências socioeconômicas de um surto de IAAP nos países é, em maior grau, o preparo do setor para enfrentar o problema.

Com este propósito, utilizando vários parâmetros e metodologias de pesquisa, Pratt & Falconi (2007) desenvolveram um Índice de prontidão para enfrentamento de um surto de IAAP nos países da América Latina que é apresentado na Tabela 5. Como podemos observar existem diferenças significativas na prevenção, elaboração de planos de contingencia, vigilância sanitária e de laboratórios de diagnóstico entre os países Latino Americanos e mesmo entre regiões do Continente. É importante ressaltar que exatamente esta região deverá responder por quase metade do crescimento de oferta de alimentos para os próximos 40 anos.

Laboratórios de referencia para enfermidades avícolas na América Latina

De acordo com a OIE (2011) a América Latina não conta com laboratórios de referencia deste organismo para enfermidades avícolas, apesar de 30% da produção avícola se encontrar nesta região. A América Latina possui 16 laboratórios de referencia da OIE para outras espécies animais, concentrados principalmente em bovinos. A Argentina sozinha detém 12 destes laboratórios, México 2 e Brasil 2.

No informe conjunto da WHO/FAO/OIE (2004) para enfermidades zoonóticas emergentes há um capítulo específico para as Américas onde a IAAP se encontra como uma das ameaças para a região (Tabela 6). No mesmo informe os consultores sugerem a cada país a criação de uma rede de vigilância sanitária, multidisciplinar, descentralizada para profissionais, pesquisadores e organismos que trabalhem com animais domésticos, selvagens, da cadeia de produção de alimento além de profissionais ligados a saúde pública. Além disso o sistema de base de dados deveria ser conectados a um sistema único que, no caso das Américas, poderia ser a Organização Pan-americana de Saúde (Silva 2009). O agronegócio representa até 1/3 do PIB de alguns países da América Latina. Mesmo assim muitos governos não aportam os recursos básicos para dar o suporte necessário à atividade, num mundo globalizado e competitivo.


Tabela 6. Enfermidades zoonóticas e / ou agentes de preocupação atual nas Américas (WHO/FAO/OIE - 2004)

1. Antrax

19. Febre maculosa das Montanhas Rochosas

2. Arenaviroses

20. Giardíase

3. Bartonella henselae

21. Hantaviroses

4. Baylisascaris procyonis

22. HIV/SIDA

5. Bordetella bronchispectica

23. Influenza aviaria

6. Brucelose

24. Leishmaniose (cutánea e visceral)

7. Cisticercose

25. Leptospirose

8. Clamidiose

26. Peste bubônica

9. Coccidioidomycose

27. Raiva (morcegos, raccoons, macacos)

10. Criptosporidiose

28. Salmonela associada a animais domésticos

11. Echinococcus multilocularis

29. Tifo (Rickettsia Prowazekii)

12. Ehrlichia/anaplasmose

30. Toxoplasmose

13. Encefalite  equina (Venezuelana y do Leste)

31. Trichinellose

14. Encefalite espongiforme bovina (BSE)

32. Tuberculose bovina

15. Doença de Chagas (Trypanossoma Cruzi)

33. Tularaemia

16. Doença de Lyme

34. Variante enfermedad de Creutzfeldt- Jakob (vCJD)

17. Febre amarela

35. Varíola dos macacos

18. Febre de Q (Coxiella burnetii)

36. Vírus do Nilo Occidental

 

Um plano básico para a implantação de um sistema laboratorial de vigilância sanitária animal é apresentada na Fig. 4 (Martins 2009). Cada região produtora avícola deveria contar com laboratórios sentinelas onde participam laboratórios privados, de universidades, de institutos de pesquisa, de alimentos e água, de meio ambiente, de saúde pública, mas sempre acreditados e monitorados periodicamente através de provas de proficiência. Estas provas seriam de responsabilidade exclusiva do Laboratório Nacional de Referência que deveria aplica-las periodicamente a fim de garantir a segurança do sistema. Isso é básico, relativamente barato, mas raramente desenvolvido nos países da América Latina.


Monitoração IA de baixa patogenicidade (H5 e H7)

Uma das armas mais importantes para evitar a transformação de cepas de IA de baixa patogenicidade em cepas muito virulentas, de alta patogenicidade, é a monitoração sorológica sistemática dos planteis, nas granjas produtoras, abatedouros, estabelecimentos de comercialização de aves vivas, produtores de aves ornamentais, aves de vida livre e / ou migratórias. A intenção das provas é detectar a presença de amostras do subtipos H5 ou H7 de baixa patogenicidade permitindo às autoridades o estabelecimento, em tempo hábil, de medidas preventivas para evitar a disseminação da amostra, bem como a eliminação do foco de maneira mais econômica, sem maiores prejuízos à região. Cada país deve estabelecer tecnicamente os protocolos, sistemas de coleta, amostragem e provas laboratoriais a serem utilizadas.

Nos EUA, um país altamente industrializado, a produção animal conta com mais de 125 laboratórios credenciados de diagnóstico veterinário, públicos e privados, além de 68 laboratórios e/ ou pesquisadores envolvidos diretamente no Plano Nacional de Melhoria Avícola (NPIP). Além disso, contam com e mais de 50 laboratórios credenciados para realização de provas sorológicas para IA H5 e H7. Entre outubro de 2009 e setembro de 2010, mais de 80.000 lotes, abatidos em mais de 130 plantas de abate foram submetidos a testes para detecção de anticorpos contra amostras de vírus de IA H5 e H7. Isso sem contar com os exames periódicos e sistemáticos em aves de postura comercial, perus, avestruzes, animais de fundo de quintal, aves de vida livre e/ou migratórias. Com base neste cenário algumas perguntas surgem:

  • Estão os países da América Latina preparados para o desenvolvimento destas provas, na mesma amplitude e intensidade?
  • Existem laboratórios sentinelas em cada uma das regiões de produção avícola bem como laboratórios regionais nestas zonas de produção?
  • Estão os laboratórios nacionais de referencia conectados aos centros internacionais de referencia?
  • Os laboratórios nacionais de referencia participam de programas de proficiência internacionais?
  • Possuem os laboratórios nacionais de referencia capacidade física, pessoal e material (antígenos, antissoros, amostras bacterianas) para acreditar os laboratórios sentinelas bem como desenvolver as provas de proficiência de maneira sistemática necessárias?


Compartimentação

Criar "zonas livres" de alguma enfermidade para países de grandes fronteiras "secas" é uma tarefa quase que impossível. Além disso, para algumas enfermidades, como a IA, a disseminação pode ocorrer via aves migratórias, tornando seu controle ainda mais difícil. Por este motivo algumas empresas brasileiras coordenadas pelo Ministério da Agricultura Agropecuária e Abastecimento (MAPA) apresentaram a OIE o interesse em desenvolver um projeto piloto de compartimentação. Com a criação de um "compartimento" que contenha granjas de matrizes, incubatório, granja de frangos de corte, fabrica de ração, abatedouros, etc, aliado a um programa muito bem elaborado de análise de riscos e biosseguridade, as empresas deste "compartimento" poderiam evitar problemas futuros na exportação de seus produtos, caso o país venha a sofrer um surto de IA. Tailândia e Índia já manifestaram seu interesse em adotar o sistema. Novamente aqui entram os laboratórios sentinelas e regionais que deveriam desenvolver intensos programas de monitoria laboratorial para garantir a identificação imediata de patógenos de interesse. Caso o sistema de compartimentação venha a ser definitivamente aprovado pela OIE e cabe uma pergunta:

  • Estarão os laboratórios de diagnóstico avícola da América Latina preparados para receber uma carga extra de amostras no caso de compartimentação?


Fundos para prevenção da IA

De acordo com Falconi (2006) os investimentos na área de saúde animal para melhorar o sistema de controle da IA, na América Latina, foram estimados em 247 milhões de Dólares. Perto de 40% destes investimentos correspondem ao Brasil e México, o que significa 100 milhões de Dólares. O custo benefício esperado para a região seria da ordem de 4,5 vezes, o que indica um elevado retorno de investimento. Em sua análise final o autor afirma que os investimentos para melhorar a prevenção da IAAP poderiam evitar mais de 1,2 bilhões de Dólares de custos para o controle do surto, a curto prazo. Estes gastos poderiam também baixar os riscos da ocorrência de uma pandemia, em qualquer região da América Latina, que poderia causar perdas entre 12 a 85 bilhões de Dólares.

Considerações finais

  • Após 30 anos de surtos de IA esta enfermidade continua a preocupar empresários, autoridades de saúde, governos e a população
  • Geralmente a IA pelos subtipos H5 e H7 iniciam-se de forma branda, silenciosa o que requer monitoria laboratorial constante para identificar as amostras em tempo hábil e instalar programas de controle, antes que elas se tornem de alta patogenicidade
  • Os laboratórios de diagnóstico avícolas na América Latina podem não ter condições para atender a demanda necessária de exames para os subtipos H5 e H7
  • A América Latina representa quase 1/3 da produção avícola mundial e possui somente 8,8% da população do planeta; a indústria avícola já se deu conta disso?
  • As autoridades estaduais ou provinciais dificilmente terão a iniciativa de criar laboratórios regionais oficiais de diagnóstico avícola sem pressão dos empresários
  • Sem a união dos - produtores, empresários e todos demais interessados - em associações avícolas atuantes, em todas as esferas: político-econômico-financeiras - os objetivos dificilmente serão alcançados; a indústria automobilística e o setor financeiro já aprenderam esta lei de mercado, a avicultura ainda não
  • A indústria avícola necessita, com urgência, promover seu marketing institucional, desenvolvido e orquestrado por profissionais, de preferencia de fora do setor agropecuário 

Bibliografia

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