Biosseguridade na avicultura moderna

Publicado: 17/01/2020
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As projeções populacionais indicam crescimento acelerado e contínuo nas próximas décadas, o que deve elevar a demanda de alimentos em geral.  De acordo com a ONU (2012), a população mundial em 2024 será superiora a 8 bilhões de pessoas e, em 2050, superiora a 9,5 bilhões. Esse crescimento deve ocorrer, principalmente, em países em desenvolvimento.

Na América Latina, o Brasil se apresenta como um importante produtor mundial de alimentos, com grande potencial de expansão da oferta.  O Ministério da Agricultura projeta que, até 2021, o Brasil deve ser líder no fornecimento de alimentos no mundo, produzindo mais grãos, carnes, proteína vegetal e animal, do que os demais países.

O panorama econômico mundial tem colocado o segmento de avicultura em um cenário bastante positivo no Brasil, que tem potencial para ser o polo produtor do mundo, em razão das condições favoráveis de clima, área, mão de obra, condições de biosseguridade e capacidade empreendedora para projetos avícolas.

O termo “biossegurança” é frequentemente – e erradamente – utilizado em substituição à biosseguridade. Esses termos têm conceitos diferentes, embora pareçam significar o mesmo. Biossegurança, de uma maneira geral, indica aquelas normas e procedimentos relacionados com a saúde humana, as quais, são permanentes e normalmente inflexíveis, a não ser para se tornarem ainda mais restritivas. Já biosseguridade, indica diretamente algum procedimento que previne eventos relacionados com a saúde animal.

Em produção de aves, biosseguridade significa o desenvolvimento e implantação de um conjunto de políticas e normas operacionais rígidas, com o objetivo de proteger os animais contra a introdução de qualquer tipo de agente infeccioso. Antes da elaboração e implantação de um programa de biosseguridade, é necessário realizar uma análise e definir os riscos e os desafios aos quais o sistema de produção está sujeito.

A implantação de bons programas de biosseguridade inicia-se na elaboração de ações de controle, estabelecidos e seguidos nas normas específicas e com a sua aplicação prática no campo e nas atividades diárias. Um programa efetivo é uma excelente maneira de manter os sistemas de produção livres ou controlados, no que diz respeito à presença de doenças para risco à saúde pública e de grande impacto econômico.

A correta localização do aviário é um requisito básico para prevenção de diversas enfermidades. Os aviários devem ser construídos longe de outras criações, visto que isso contribui para reduzir as chances de contaminações. É importante ter o conhecimento da direção predominante dos ventos, para proporcionar uma ventilação uniforme e controlável; evitar construir a granja próxima a cursos de água, açudes ou lagos usados por outros animais, com preferência para zonas bem drenadas; e construir os galpões longe de estradas principais, que podem ser utilizadas por caminhões no transporte de aves. O reflorestamento com árvores não frutíferas, matas naturais ou elevações topográficas, servem como barreiras sanitárias naturais, que contribuem para a redução do risco de contaminação entre as unidades avícolas e do estresse para as aves.

A circulação de pessoas, veículos e materiais na granja é um dos principais mecanismos de disseminação de patógenos. Portanto, o controle rigoroso desse fluxo é fundamental para prevenir a entrada e a instalação de doenças nos plantéis avícolas. O aviário deve ter um único portão de acesso, evitando assim o livre trânsito de pessoas, veículos e animais no interior das áreas de produção. Na portaria deve haver um livro de registro de entrada de pessoas e veículos, no qual consta as informações sobre quem entrou na granja, o motivo da visita, de onde veio e o tempo do último contato com outro sistema produtivo ou outras aves. Também deve conter as informações da placa do veículo, nome do condutor e última procedência.

Na entrada da granja, deve ser instalado um sistema de desinfecção com arco de desinfecção ou outro método capaz de permitir a higienização e desinfecção dos veículos que entram no local. É muito importante que o desinfetante utilizado esteja preparado dentro do período estabelecido de eficácia, segundo as recomendações do fabricante quanto ao período de validade e concentração do produto. Para que a desinfecção seja eficiente, é necessário que o veículo passe lentamente sob o arco, propiciando maior tempo de contato. Além disso, a troca periódica da solução de água com desinfetante é fundamental, para que o princípio ativo esteja sempre na concentração correta para ter a ação desejada. Fazer registro do uso do produto em uma planilha é importante para garantir a disponibilidade de informações, como data de diluição do desinfetante e data de troca.

Dentro da granja devem ser delimitadas diferentes áreas, considerando os graus de contaminação, sendo a área limpa a que abrange corredores de acesso aos galpões, através dos quais são feitos transportes de ração, aves e equipamentos; e a área suja, que compreende a região externa da granja e acesso de saída dos galpões, pela qual se realiza a retirada dos animais e de materiais. Na porta de acesso ao aviário deve ser colocado recipiente com desinfetante, chamado de pedilúvio, ou outro mecanismo que permita a desinfecção dos calçados. Pode também ser realizada troca de calçados ou uso de propé.

A entrada de pessoas que não façam parte do quadro de funcionários da granja deve ser proibida. Em alguns casos, por motivo de trabalho, manutenção e visitas técnicas, a entrada pode ser autorizada, porém é necessário que os visitantes permaneçam em vazio sanitário, ou seja, sem contato com outros animais e atividades relacionadas a patógenos, por período mínimo de 48 horas.  Também é fundamental que funcionários da granja não tenham contato com outras criações avícolas e que não tenham aves de estimação.

No vestiário, devem estar disponíveis roupas e calçados limpos e desinfetados para troca e uso exclusivo durante as atividades no aviário. É importante o funcionário ter seu macacão e bota para uso interno e disponibilidade de roupas descartáveis; e propés para que os visitantes usem. Se o granjeiro optar por promover maior prevenção de enfermidades em seu plantel, deve implementar na rotina banhos diários para entrada e saída da granja. O banho na entrada evita que sejam carreados patógenos para as aves e o banho de saída evita a disseminação de patógenos que possam estar presentes na granja, promovendo maior segurança para o indivíduo, já que evita que ele leve micro-organismos para seu lar.

O telamento de aviários passou a ser uma exigência na criação de galinhas poedeiras e entrou em vigor no dia 31 de agosto de 2018, e está contida no artigo 37 C da Instrução Normativa nº 08/2017, da Secretaria de Defesa Agropecuária – SDA, ligada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA. A IN 08/2017, estabelece que a criação de galinhas em galpões (de corte ou postura comercial) que não possuírem tela de isolamento com malha de medida superior a uma polegada ou 2,54 cm, ou outro método que impossibilite a entrada de animais predadores nos aviários fica estritamente proibida após 540 dias da publicação do artigo. O material foi divulgado em 17/02/2017.

A manutenção de um ambiente limpo e organizado, dentro e fora do aviário, propicia melhores condições à saúde das aves. A limpeza de comedouros e bebedouros deve ser realizada diariamente, assim como as aves mortas, que devem ser retiradas e destinadas a algum tipo de tratamento de resíduos, como compostagem e incineração, por exemplo. Ao redor dos galpões a grama deve ser aparada, entulhos devem ser retirados e é necessário realizar um controle de pragas e insetos. O acesso de outros animais, como cachorros e gatos, deve ser restringido, pois também podem ser vetores de agentes infecciosos.

A água destinada ao consumo das aves ou para o sistema de nebulização deve ser tratada com cloro, obtendo uma concentração residual mínima de 3 ppm ou realizar outro tratamento com eficácia comprovada e autorizada pelo órgão competente, para inativação dos agentes patogênicos previstos no controle do PNSA (Programa Nacional de Sanidade Avícola). Conhecer a origem e qualidade das matérias-primas utilizadas na confecção das rações também é muito importante, bem como adotar todos os procedimentos para evitar contaminação cruzada na produção da ração, no transporte e armazenamento. Para a manutenção da qualidade nutricional e microbiológica da ração, é indispensável o armazenamento em silos próprios, fechados e protegidos da umidade e calor excessivos. É fundamental que o silo e todo o sistema de distribuição de ração limite ao máximo o contato com moscas, roedores ou outras pragas, para evitar contaminação.

Ao final de cada ciclo de produção, após a retirada dos animais, é necessário realizar todos os procedimentos de limpeza completa e higienização do aviário, equipamentos, caixa d’água e tubulações. Lembrando que a limpeza para retirada de toda a matéria orgânica do aviário deve ser muito bem feita para que a desinfecção funcione. Após a limpeza e desinfecção, o aviário deve permanecer fechado, em vazio sanitário, por pelo menos 15 dias.

Uma vez que a avicultura industrial em nosso país atinge níveis cada vez mais tecnificados, com linhagens mais precoces, que são mais susceptíveis aos diversos patógenos, o processo de biosseguridade passa a ser uma prioridade e uma importante ferramenta no agronegócio nacional e internacional. A biosseguridade necessita de constante atenção, planejamento, inspeção e revisão. A compreensão dos procedimentos e conscientização de todos os envolvidos é essencial.

Publicado originalmente do Blog Agroceres Multimix

 
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