SUSCEPTIBILIDADE A DESINFETANTES DE ISOLADOS DE Escherichia coli DE LEITÕES DE CRECHE COM DIARREIA

Publicado: 02/08/2016
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Sumário

O objetivo do experimento foi avaliar a eficácia in vitro de três desinfetantes frente a seis isolados de Escherichia coli de leitões de creche com diarreia. Foram avaliadas três amostras enterotoxigênicas (ETEC) e três amostras não ETEC tipificadas por PCR multiplex. Utilizaram-se os seguintes princípios ativos: glutaraldeído com amônia quaternária (GLU/AQ), amônia quaternária (AQ), e fenol (F) nas diluições recomendadas pelo fabricante em 1, 5, 10 e 15 minutos de contato dos isolados com os desinfetantes na presença de matéria orgânica. Observou-se que o GLU/AQ foi eficiente em menos de um minuto; F foi eficiente a partir de dez minutos, sendo que a amostra resistente neste tempo expressou quatro fatores de virulência (ETEC2), o que pode ter contribuído para sua sobrevivência. AQ não foi eficiente em 15 minutos de contato. Conclui-se que a escolha de um bom desinfetante para granjas de suínos deve ser feito a partir da capacidade de agir com a presença de matéria orgânica.

 

Palavras-chave: suínos, resistência, ETEC, limpeza e desinfecção.

 

Introdução

E. coli enterotoxigênica (ETEC) é um dos principais agentes infecciosos causadores de diarreia em diversas fases da vida de leitões. As formas mais frequentes de diarreia por ETEC são a colibacilose neonatal, que ocorre na maternidade, e a colibacilose do desmame, que afeta leitões nas primeiras semanas de alojamento na fase de creche (ALFIERI et al., 2010). As práticas de limpeza e desinfecção são componentes críticos e indispensáveis para interromper a cadeia de contaminação por microrganismos como as ETECs entre os lotes. Os próprios animais alojados são a principal fonte de contaminação do ambiente devido a excreção de bactérias entéricas patogênicas e comensais nas fezes, O tempo de ação dos desinfetantes depende essencialmente da temperatura e da natureza da superfície, visto que temperaturas mais baixas diminuem o efeito (SOBESTIANSKY et al., 1999). Visto que o uso de desinfetantes e suplementos alimentares podem também apresentar considerável pressão de seleção em comunidades bacterianas presentes em granjas de suínos, a resistência bacteriana não deve ser atribuída apenas ao uso de antimicrobianos. O mecanismo de efluxo de drogas tem sido destacado como um importante processo associado à resistência, principalmente em bactérias Gram-negativas (PIETRAS et al., 2008). O objetivo do presente estudo foi avaliar a eficácia in vitro de três desinfetantes frente a três isolados de ETEC e três de não ETEC de leitões desmamados que apresentavam diarreia.

 

Material e métodos

Foram utilizados seis isolados de E. coli (três ETEC e três não ETEC) provenientes de fezes de leitões desmamados com diarreia em uma granja no estado do Rio Grande do Sul. O isolamento foi feito em ágar sangue e Mac Conkey e confirmado com os seguintes testes bioquímicos: OF, TSI, LIA, SIM, Citrato e Ureia. As seis amostras foram submetidas ao PCR Multiplex para amplificação de fímbrias e toxinas. Três amostras foram classificadas como ETEC (ETEC1: F18, Stb, StaP; ETEC2: K88, LtB, Stb, StaP,; ETEC3: F18, Stb, StaP) e três amostras que não expressaram nenhum destes fatores de virulência. Os desinfetantes selecionados possuem princípios ativos comumente usados em granjas de suínos no Brasil: GLU/AQ, F e AQ na diluição indicada pelo fabricante. As amostras foram incubadas em ágar sangue por 24 horas e diluídas em solução salina 0,85% até a turvação 0,5 da escala McFarland (1,5 x 108 unidades formadores de colônia (UFC)/mL). Em tubos estéreis, adicionou-se 9,0mL do desinfetante diluído a ser avaliado, 1,0mL de leite integral UHT esterilizado e 100μL das culturas de E. coli, com os tempos de contato de 1, 5, 10 e 15 minutos. Após esse período de exposição aos desinfetantes, uma alíquota de 10μL foi transferida para tubos com 3,0mL de caldo infusão de cérebro e coração (BHI). Após 96 horas de incubação a 37°C considerou-se as bactérias resistentes quando o caldo BHI apresentou turbidez e sensíveis na ausência de turbidez, sendo as amostras positivas semeadas em ágar sangue para confirmação da viabilidade bacteriana (BRASIL, 1993). O mesmo foi realizado com o controle negativo, substituindo a suspensão bacteriana por solução salina.

 

Resultados e Discussão

A amônia quaternária não inibiu nenhuma das amostras de E. coli em 15 minutos de exposição, conforme o Gráfico 1. Em estudo realizado por Kich et al. (2004) verificou-se que a eficácia da amônia quaternária apresentaram resultados insatisfatórios, principalmente na presença de matéria orgânica. A perda da atividade antibacteriana na presença da matéria orgânica já foi descrita, variando com o princípio ativo do desinfetante e com a cepa desafiadora. Compostos de amônia quaternária são largamente utilizados devido à sua ação surfactante e à baixa toxicidade, causando desnaturação e precipitação das proteínas de membrana e citoplasma, porém não são capazes de inativar esporos bacterianos, micobactérias e vírus sem envelope (MCDONELL & RUSSEL, 1999).

 

O fenol apresentou-se eficiente a partir de 10 minutos, sendo que a amostra resistente neste tempo expressou quatro fatores de virulência (ETEC2), o que pode ter contribuído para sua sobrevivência. O trabalho será realizado com um maior número de amostras, permitindo uma comparação entre isolados ETEC e não ETEC quanto à resistência a estes desinfetantes. No trabalho de Kich et al. (2004, Frente a amostras de Salmonella, foi o desinfetante que obteve melhor resultado, com menor tempo de exposição (5 minutos) e na presença de matéria orgânica (KICH et al., 2004). O desinfetante composto de GLU/AQ obteve o melhor resultado, sendo eficaz antes de 1 minuto de exposição sobre as amostras. O mecanismo de ação do glutaraldeído está relacionado com alteração do DNA, RNA e síntese proteica de microrganismos. A exposição humana ao glutaraldeído pode causar efeitos adversos como: náusea, cefaleia, obstrução das vias aéreas, asma, rinite, irritação dos olhos, dermatite e descoloração da pele (BRASIL, 2007), o que dificulta sua utilização, principalmente quando diluído em dias quentes e em locais com pouca ventilação. A combinação de dois compostos tem sido associado ao maior sucesso no controle de bactérias, exercendo uma menor pressão de seleção em populações microbianas e menor concentração de cada composto. Várias bactérias Gram-negativas são descritas como resistentes à amônia quaternária e ao glutaraldeído separadamente. Entretanto, quando associados, esses desinfetantes possuem efeito sinérgico. Resultados semelhantes foram descritos por Krewer et al.(2012), em que 62 amostras de E. coli de suínos foram testadas para três compostos com a mesma associação, medindo a concentração inibitória e bactericida mínima. Porém, deve-se estar alerta para possíveis equívocos em conclusões obtidas pela comparação entre técnicas, testes ou microrganismos diferentes, sendo necessária padronização dos experimentos que utilizam desinfetantes (BOROWSKY et al., 2006).

 

Gráfico 1: Eficácia dos desinfetantes em relação ao tempo de exposição dos isolados de E. coli. 0% representa ausência de eficiência em 1 minuto e assim sucessivamente.

 

Conclusões

O composto de glutaraldeído e amônia quaternária mostrou-se mais eficiente em menor tempo de contato com as amostras de E. coli pela ação sinérgica entre os dois desinfetantes. Destacase a ineficácia da amônia quaternária em 15 minutos de contato como bactericida na presença de matéria orgânica, o que reforça a importância de se utilizar testes específicos para a escolha dos produtos, principalmente em granjas de suínos, onde há uma dificuldade de eliminação total de resíduos.

 

Referências Bibliográficas

1. ALFIERI, A.A.; ALFIERI, A.F. & BARRY, A. 2010. Diarreias em suínos. In: Alfieri, A.F.; Barry, A.F.; Alfieri, A.A.; et al. (Ed.). Tópicos em Sanidade e Manejo de Suínos. Sorocaba, Curuca Consciência Ecológica. p. 165-184.

2. BOROWSKY L.M.; BESSA M.C.; CARDOSO M.I. & AVANCINI C.A.M.; 2006. Sensibilidade e resistência de amostras de Salmonella Typhimurium isoladas de suínos abatidos no RS/Brasil frente aos desinfetantes químicos quaternário de amônio e iodofor. Ciência Rural, (36):76-79.

3. BRASIL. 2007. Informe técnico n° 04/07: Glutaraldeído em estabelecimentos de assistência à saúde: Fundamentos para a utilização. ANVISA. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Disponível em: <http://www.anvisa.gov.br/servicosaude/controle/ alertas/informe_tecnico_04.pdf>. Acesso em: 03 jun. 2015.

4. BRASIL, 1993. Portaria n° 101: Métodos de Análise Microbiológica para Alimentos. MAPA. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Disponível em: <http://www.crmvgo.org.br/ legislacao/OVOS/POR00000101.pdf>. Acesso em: 19 maio 2015.

5. KICH, J.D.; BOROWSKI, L.; SILVA, V.S.; RAMENZONI, M.; TRIQUES, N.; KOOLER. F.L.; CARDOSO, M.R.I.; 2004. Evaluation of the antibacterial activity of six commercial disinfectants against S. Typhimurium strains isolated from swine. Acta Scientiae Veterinariae, (32): 33-39.

6. MCDONNELL, G.; RUSSEL, A.D.; 1999. Antiseptics and disinfectants: activity, action, and resistance. Clinical Microbiology Review, (12): 147-179.

7. PIETRAS Z.; BAVRO V.N.; FURNHAM N.; PELLEGRINI-CALACE M.; MILNER-WHITE E.J. & LUISI B.F.; 2008. Structure and mechanism of drug efflux machinery in Gram negative bacteria. Current Drug Targets. (9):719-28.

8. SOBESTIANSKY, J.; BARCELLOS, D.; MORES, N. et al. (ed.). 1999. Clínica e patologia suína. Goiânia: J. Sobestiansky.

9. KREWER, C.; GRESSLER, L.T.; COSTA, M.M.; KREWER, C.C.; VARGAS, A.C., 2012. Suscetibilidade a desinfetantes e perfil de resistência a antimicrobianos em isolados de Escherichia coli. Pesquisa Veterinária Brasileira, (32): 1116-1120.

 

***O TRABALHO FOI ORIGINALMENTE APRESENTADO DURANTE O XVII CONGRESSO ABRAVES 2015- SUINOCULTURA EM TRANSFORMAÇÂO, ENTRE OS DIAS 20 e 23 DE OUTUBRO, EM CAMPINAS, SP.

 
Autor/s.
Possui graduação em Medicina Veterinária pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS, 1971), mestrado em Medical Microbiology - University of London (1977) e doutorado em Ciências (Microbiologia) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, 2000). Atualmente é professor associado da UFRGS. Tem experiência na área de Microbiologia, com ênfase em Microbiologia Médica, atuando principalmente nos seguintes temas: suínos, brachyspira pilosicoli, microbiologia, doenças de suínos e brachyspira hyodysenteriae.
 
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