A REDUÇÃO DO INCREMENTO CALÓRICO NÃO PODE MITIGAR OS PREJUÍZOS DE DESEMPENHO CAUSADOS PELO CALOR INTENSO PARA SUÍNOS EM CRESCIMENTO.

Publicado: 20/04/2016
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Sumário

Foi realizado um experimento com o objetivo de verificar se a redução do increment calórico da ração poderia mitigar os efeitos deletérios de redução do consumo de alimento em suínos mantidos em ambiente de calor. O experimento foi conduzido em câmaras climáticas do setor de suinocultura na Universidade Federal de Lavras (UFLA). Foram utilizados 48 suínos híbridos comerciais machos castrados, 24 suínos estavam em conforto térmico (22ºC) e 24 em estresse por calor (34ºC). Os animais foram distribuídos em delineamento experimental de blocos casualizados, constituindo quatro tratamentos com seis repetições. Os tratamentos foram: T1 = Animais recebendo ração referência à vontade no calor; T2 = Animais recebendo ração com baixo IC (increment calórico) à vontade no calor; T3 = Animais em conforto térmico recebendo ração referência à vontade e T4 = Animais em conforto térmico recebendo ração referência com alimentação pareada ao consume observado nos animais que receberam a ração T1. Foi avaliado durante todo o período experimental o desempenho dos animais. Os dados obtidos foram analisados utilizando-se teste de comparação de médias (SNK) ao nível de 5% de probabilidade através do pacote computacional SAS. O estresse por calor (34º C) piorou o desempenho de suínos em crescimento e os efeitos deletérios do calor em si são mais prejudiciais que a redução no consumo de ração.

 

Palavras-chave: ambiência; estresse; nutrição.

 

Introdução

As instalações para suínos no Brasil nem sempre promovem condições térmicas adequadas e os animais passam calor, sendo obrigados a modificarem sua fisiologia para manutenção da homeotermia. Este calor promove redução no desempenho devido a diminuição no consumo e ao custo energético associado a dissipação do calor extra termorregulatório. Entretanto, a instalação deveria contribuir para que os suínos fossem capazes de ajustar sua temperatura corporal, dissipando o calor excedente. A introdução desses novos genótipos aumenta a preocupação com o ambiente térmico onde os suínos vivem, pois essas linhagens modernas são mais sensíveis, uma vez que apresentam maior deposição de carne que tem sido associada à maior produção de calor metabólico (White et al., 2008). Dentre as possíveis formas de se viabilizar o ambiente no qual os suínos estão submetidos, destaca-se a adequação das rações como forma de amenizar os problemas causados pelo estresse por calor, sendo os ajustes nutricionais relacionados aos teores protéicos e uso de óleo e gordura, fatores de grande relevância (Ferreira, 2011). Diante do exposto, com o presente trabalho teve-se como objetivo avaliar se ajustes nutricionais, que promovem redução no incremento calórico das formulações, poderão mitigar os efeitos negativos da redução de consumo de ração por suínos em crescimento mantidos no calor.

 

Material e Métodos

O experimento foi conduzido no Centro Experimental de Suínos (CES) na Universidade Federal de Lavras (UFLA). Foram utilizados 48 suínos machos castrados, de alto potencial genético, com peso médio inicial de 30,56 kg, alojados em duas câmaras climáticas com capacidade de controle de temperatura, umidade e ventilação. Cada câmara possuía 12 baias experimentais com piso de concreto, dotadas de comedouros semi-automáticos e bebedouros do tipo chupeta. Em uma das câmaras os animais estavam em conforto térmico para a categoria (22ºC) e em outra os suínos estavam em estresse por calor (34ºC). Os animais foram distribuídos em delineamento experimental de blocos casualizados, constituindo em quatro tratamentos com seis repetições. O peso inicial foi utilizado como critério para formação dos blocos. O período experimental teve duração de 41 dias quando foram testados os tratamentos: T1 = Animais recebendo ração referência à vontade no calor; T2 = Animais recebendo ração de baixo incremento calórico (IC) à vontade no calor; T3 = Animais em conforto térmico recebendo ração referência à vontade e T4 = Animais em conforto térmico recebendo ração referência com alimentação pareada ao consumo observado nos animais que receberão a ração T1. As rações experimentais foram isoenergéticas e formuladas a base de milho e farelo de soja, suplementadas com vitaminas e minerais, para atenderem às exigências mínimas sugeridas pelas Tabelas Brasileiras de exigências nutricionais para suínos editadas por Rostagno et al. (2011). A temperatura e a umidade relativa das câmaras foram monitoradas diariamente, com uso de termômetros digitais e termômetros de globo negro. Os equipamentos foram instalados à meia altura dos animais. Os valores registrados foram, posteriormente, utilizados para o cálculo do ITGU (Índice de Temperatura de Globo e Umidade). Os animais foram pesados no início e no final do experimento, para determinação do ganho de peso médio diário (GPMD). As rações fornecidas, as sobras e o desperdício foram pesados para determinação do consumo de ração médio diário (CRMD). A conversão alimentar (CA) foi obtida por meio da relação entre consumo de ração e o ganho de peso diário. Para análises estatísticas das variáveis de desempenho (ganho de peso, consumo de ração e conversão alimentar), os dados foram submetidos à análise de variância, e após significância foi submetido ao teste SNK a 5% de probabilidade. A análise dos dados foi realizada através do pacote  estatístico Statistical Analysis (SAS, 2001).

 

Resultados e Discussão

Pode-se observar que houve diferença significativa (P < 0,05), em todas as variáveis de desempenho avaliadas. Os suínos alojados no calor, apresentaram redução no CRMD comparado aos animais mantidos no conforto que receberam ração à vontade, com isso houve piora do GPMD. Os suínos que receberam alimentação pareada (T4) apresentaram maior (P<0,05) GPMD e maior peso final, comparado àqueles alojados no calor (T1 e T2). Apesar de não ter sido observada alteração no CRMD, o fornecimento de ração com menor incremento calórico não promoveu melhora (P>0,05) no GPMD nem no PF. Neste estudo, o fornecimento de ração com menor incremento calórico não conseguiu mitigar o efeito deletério do calor. Provavelmente, a maior intensidade do estresse (34ºC) e uma possível carência de aminoácidos não essenciais pode ter contri buído para este resultado, uma vez que a redução no IC foi realizada com diminuição de quatro pontos percentuais na fórmula de ração.

 

Tabela 1 – Peso inicial (PI) e final (PF), consumo de ração médio diário (CRMD), ganho de peso médio diário (GPMD) e conversão alimentar (CA) obtidos com suínos em crescimento mantidos em conforto térmico (22°C) ou de estresse por calor (34°C).

1Letras diferentes na linha diferem entre si pelo teste SNK a 5% de probabilidade.
2 Erro padrão da média.3 Coeficiente de variação.

 

Em outros estudos esta redução proporcional foi recomendada (Ferreira et al. 2007), entretanto, para casos de menor intensidade de estresse (32ºC). Segundo Le Bellego et al. (2002), a redução do consumo de alimento observada em suínos submetidos a temperaturas ambientais elevadas, provavelmente, é um mecanismo de defesa do organismo para redução da produção de calor resultante dos processos digestivos e metabólicos. Em estudos anteriores, alguns autores relacionaram a piora de desempenho de suínos à intensidade de estresse por calor (Batista et al. 2011). A redução do ganho de peso verificada neste estudo confirma a hipótese de que animais mantidos em ambiente com temperatura acima da faixa de termoneutralidade utilizam ajustes comportamentais e fisiológicos para favorecer o balanço de calor, o que compromete o seu desempenho (Kiefer et al., 2005). No entanto, de acordo com os resultados de ganho de peso obtidos, o efeito negativo dos ajustes metabólicos sobre o desempenho dos animais expostos a alta temperatura pode ter ocorrido em função da intensidade do estresse. A intensidade de estresse neste estudo (34ºC) parece ter influenciado em maior magnitude a resposta negativa de desempenho do que a piora no consumo de ração advinda do calor. Ao mesmo tempo, a formulação com ingredientes de menor incremento calórico (substituição da proteína bruta por aminoácidos industriais e redução da fibra bruta) não foi eficiente em dar condições fisiológicas de os suínos reverterem os efeitos negativos do calor.

 

Conclusões

Para suínos em crescimento, o estresse por calor em si, é mais prejudicial que a redução observada no consumo de ração. Em estresse por calor de maior intensidade (34ºC), o fornecimento de rações com menor incremento calórico não pode reverter os prejuízos de desempenho causados pelo ambiente térmico.

 

Referências Bibliográficas

1. BATISTA, R.M.; OLIVEIRA,R.F.M.; DONZELE, J.L.; OLIVEIRA, W.P.; LIMA, A.L.; ABREU, M.L.T. Lisina digestível para suínos machos castrados de alta deposição de carne submetidos a estresse por calor dos 30 aos 60 kg. R. Bras. Zootec., v.40, n.9, p.1925-1932, 2011.

2. FERREIRA, R.A, 2011. Maior produção com melhor ambiente para aves, suínos e bovinos. Editora Aprenda Fácil. Viçosa, MG. 2ª edição. 374p.

3. KIEFER, C.; FERREIRA, A.S.; OLIVEIRA, R.F.M.; et al., 2005. Exigência de metionina mais cistina digestíveis para suínos machos castrados mantidos em ambiente de alta temperatura dos 30 aos 60 kg.

4. Revista Brasileira de Zootecnia, (34): 104-111.

5. LE BELLEGO, I.; Van MILGEN, J.; NOBLET, J, 2002. Effect of high temperature and low-protein diets on the performance of growing-finishing pigs. Journal of Animal Science, (80): 691-701.

6. ROSTAGNO, H. S. (editor); ALBINO, L. F. T.; DONZELE, J. L.; et al., 2011. Tabelas Brasileiras para Aves e Suínos. Viçosa:UFV, Departamento de Zootecnia, 252p, ed.3.

7. WHITTE, H.M.; RICHERT, B.T.; SCHINCKEL, B.T. et al., 2008. Effects of temperature stress on growth performance and bacon quality in grow-finish pigs housed at two densities. Journal of Animal Science (86): 1789-1798.

 

***O TRABALHO FOI ORIGINALMENTE APRESENTADO DURANTE O XVII CONGRESSO ABRAVES 2015- SUINOCULTURA EM TRANSFORMAÇÂO, ENTRE OS DIAS 20 e 23 DE OUTUBRO, EM CAMPINAS, SP.

 
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