POSIÇÃO FETAL NO ÚTERO AFETA A MIOGÊNESE DE SUÍNOS

Publicado: 09/01/2017
Autor/s. : JORGE Y. P. PALENCIA1*, RAFAEL P. BETARELLI2, MÁRCIO G. ZANGERONIMO2, GREGÓRIO C. GUIMARÃES , MÁRVIO L. T. ABREU1. 1 Departamento de Zootecnia – DZO/UFLA - Lavras/MG, 2 Departamento de Medicina Veterinária – DMV/UFLA - Lavras/MG
Sumário

Foi realizado um estudo com o objetivo de avaliar os efeitos da posição fetal no útero sobre a miogênese de suínos em diferentes idades gestacionais. Foram utilizadas 15 fêmeas suínas primíparas, distribuídas em três grupos de acordo com a idade gestacional de abate: 50, 80, 106 dias. Após o abate todo o trato reprodutivo foi retirado e cada corno uterino foi dividido em três segmentos do mesmo comprimento: ápice, região mais próxima do ovário, base, região mais próxima do corpo uterino e a região média, situada entre as anteriores. Cada corno foi seccionado até a visualização de cada feto. Foi realizada a remoção do músculo Semitendíneo para as análises morfológicas pela técnica de coloração em Hematoxilina e Eosina e a utilização do programa Image J® para a analise das imagens obtidas. Não houve efeito (P>0,05) da região uterina sobre as caraterísticas histológicas do músculo Semitendíneo aos 50 e 106 dias de gestação. Entretanto, aos 80 dias, fetos pertencentes à região da base apresentaram menor (P<0,05) área e diâmetro de fibras musculares secundárias. Conclui-se que a posição fetal influencia o desenvolvimento de fibras musculares secundárias aos 80 dias de gestação, sendo a base do corno uterino a região com menor desenvolvimento.

 

Palavras-chave: corno uterino; fibras musculares; capacidade uterina.

 

Introdução

O aumento da produtividade da fêmea suína, expressa no tamanho da leitegada, trouxe a  perda da qualidade dos leitões, gerando baixo peso ao nascimento, leitegadas desuniformes, maior  mortalidade e desempenho produtivo comprometido. Estes fatores levam a um grande impacto econômico, muitas vezes não estimado. Em suínos, o desenvolvimento do tecido muscular inicia-se com a formação de fibras musculares primárias entre os 35 e 55 dias de gestação, posteriormente, entre os 55 a 90-95 dias de gestação, surge uma segunda geração de miotubos que originam as fibras musculares secundárias. A miogênese nesta segunda etapa é susceptível a diversos fatores do ambiente uterino que podem influenciar a hiperplasia e hipertrofia das fibras musculares do feto e a partir disso afetar seu crescimento pós-natal (WIGMORE & STICKLAND, 1983). Dentro desses fatores a lotação uterina ocasiona menor fluxo de oxigênio e nutrientes por concepto e menor espaço para seu desenvolvimento (FIX et al., 2010), o qual associado à posição dentro do útero, pode ocasionar queda do crescimento e desenvolvimento dos fetos durante a gestação. Há ausência de trabalhos na literatura que associem a posição fetal no útero com o desenvolvimento do tecido muscular esquelético de suínos. Desta forma, objetivou-se com o presente estudo avaliar os efeitos da posição fetal no útero sobre a miogênese de suínos em diferentes idades gestacionais.

 

Material e Métodos

Os procedimentos descritos neste trabalho foram aprovados pela Comissão de Ética no Uso de Animais da Universidade Federal de Lavras, protocolo número 079/11. Foram utilizadas 15 fêmeas suínas primíparas de linhagem comercial, de peso e idade semelhantes (153,5 ± 11,9 kg, aproximadamente 240 dias), distribuídas em três grupos de acordo com a idade gestacional de abate: 50, 80 e 106 dias. O delineamento experimental utilizado foi o inteiramente casualizado, sendo que em cada período gestacional os fetos foram divididos em três tratamentos de acordo a posição fetal dentro do corno uterino. No quarto cio detectado, as marrãs foram inseminadas artificialmente com sêmen de um único reprodutor (Large White). Todos os animais receberam água ad libitum e ração farelada a base de milho, farelo de soja e farelo de trigo duas vezes ao dia. Aos 50, 80 e 106 dias de gestação, as cinco fêmeas de cada grupo foram abatidas e todo o trato reprodutivo foi retirado. Cada corno uterino foi dividido em três segmentos de mesmo comprimento: ápice, região mais próxima do ovário; base, região mais próxima do corpo uterino; e a região média, situada entre as anteriores. Em seguida, cada corno foi seccionado até a visualização de cada feto. Foi realizada a remoção do músculo Semitendíneo, pertencente ao grupo muscular da face caudal do membro pélvico esquerdo. As amostras foram submetidas a tratamento com crioprotetor (talco neutro e isopentano), para a criopreservação em nitrogênio líquido a -196°C e armazenadas em freezer a -80°C. Foram obtidos cortes do músculo Semitendíneo de 12 μm de espessura em criostato a -20°C. Para as análises morfológicas foi utilizada a técnica de coloração em Hematoxilina e Eosina. As amostras foram analisadas em microscópio de luz comum, objetiva 40x, acoplado a uma câmera para captura de imagens. Foram obtidas quatro imagens por amostra, posteriormente analisadas no programa Image J® para a mensuração de variáveis histológicas: número, densidade, área e diâmetro de fibras primárias aos 50 dias, número, relação, densidade, área e diâmetro de fibras primárias e secundárias aos 80 dias e número, densidade, área e diâmetro de fibras totais aos 106 dias. Os dados obtidos foram submetidos à análise de variância, sendo as médias obtidas comparadas pelo teste Tukey a 5%. Para as análises estatísticas utilizou-se o pacote estatístico do SAS (9.3).

 

Resultados e Discussão

A Tabela 1 expõe as características histológicas do músculo Semitendíneo de fetos suínos aos 50, 80 e 106 dias de gestação, apresentadas em função de três regiões uterinas: ápice, média e base. Não houve efeito (P>0,05) da região uterina sobre as caraterísticas histológicas mensuradas aos 50 e 106 dias de gestação. Aos 80 dias, fetos pertencentes à região da base apresentaram menor (P<0,05) área e diâmetro de fibras musculares secundárias quando comparados aos situados na região do ápice (Tabela 1).

 

Aos 50 dias de gestação, embora já exista certa competição por espaço e nutrientes, a distribuição dos fetos no útero ainda não é um fator que comprometa o desenvolvimento do músculo esquelético. Entretanto, o terço final de gestação é caraterizado pelo maior desenvolvimento fetal, que somado ao maior número de fetos no útero ocasiona menor fluxo de oxigênio e nutrientes por concepto e menor espaço para seu desenvolvimento (FIX et al., 2010). Estes efeitos são tão marcados nessa etapa final que mesmo com diferenças na vascularização uterina (GUIMARÃES et al., 2014) entre as regiões dos cornos, a posição fetal não influencia as caraterísticas do músculo Semitendíneo aos 106 dias de gestação como foi encontrado no presente estudo.

 

O fato dos fetos posicionados na região do ápice terem maior área e diâmetro de fibras secundárias aos 80 dias de gestação, pode-se explicar pelo menor número de fetos encontrados nessa região (16) em relação às demais regiões, o que possivelmente ocasionou menor competição por espaço e nutrientes, não afetando seu desenvolvimento. Além disso, diferenças na vascularização uterina tem sido encontrada (GUIMARÃES et al. 2014), sendo que há maior número de vasos destinados à região média dos cornos uterinos e uma tendência do calibre dos vasos ser maior na região do ápice. Isto mostra que a maior hipertrofia de fibras secundárias na região do ápice pode estar relacionada ao calibre dos vasos que são destinados a ela. Entretanto, os fetos posicionados na região média não apresentaram diferenças (P>0,05) com os das outras regiões, provavelmente por ser esta a região com maior número de fetos (30 fetos).

 

Tabela 1 - Características histológicas do músculo Semitendíneo de fetos suínos relacionadas com a posição no corno uterino aos 50, 80 e 106 dias de gestação.

1NFP=Número de fibras primárias por campo (40X); DFP=Densidade de fibras primárias em 15.000 μm2; AFP=Área de fibra primárias (μm2); DIFP=Diâmetro de fibras primárias (μm); NFS=Número de fibras secundárias/campo (40X); RNSP=Relação fibras secundárias/primárias; DFS=Densidade de fibras secundárias em 15.000 μm2; AFS=Área de fibras secundárias (μm2); DIFS=Diâmetro de fibras secundárias (μm); NFT=Número de fibras totais por campo (40X); DFT=Densidade de fibras totais em 15.000 μm2; AFT=Área de fibras totais (μm2); DIFT=Diâmetro de fibras toais (μm); CV=Coeficiente de variação.
Médias seguidas por diferentes letras na linha diferem pelo teste Tukey (P<0,05).

 

Conclusões

A posição fetal influencia o desenvolvimento de fibras musculares secundárias aos 80 dias de gestação, sendo que a base do corno uterino a região com menor desenvolvimento. Agradecimentos – À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG).

 

Referências Bibliográficas

1. FIX, J.S.; CASSADY, J.P.; HERRING, W.O.; HOLL, J.W.; CULLBERTSON, M.S.; SEE, M.T.; 2010. Effect of piglet birth weight on body weight, growth, backfat, and longissimus muscle area of commercial market swine. Livestock Science, (127): 51–59.

2. GUIMARÃES, G. C.; BETARELLI R. P.; ZANGERONIMO, M. G.; ABREU, M. L.T.; ALMEIDA, F. R.C.L.; ROSA, M. C.B.; FERREIRA, L. G.; ALVES, L. A.; ASSIS, C.; LOPES. G. C.; 2014. Vascularization of broad ligament of uterus and its relationship with fetal and placental development in gilts. Theriogenology, (82):232–237.

3. WIGMORE, P.M.C.; STICKLAND, N.C.; 1983. Muscle development in large and small pig fetuses. Journal of Anatomy. (137):235-245.

 

***O TRABALHO FOI ORIGINALMENTE APRESENTADO DURANTE O XVII CONGRESSO ABRAVES 2015- SUINOCULTURA EM TRANSFORMAÇÂO, ENTRE OS DIAS 20 e 23 DE OUTUBRO, EM CAMPINAS, SP.

 
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