O impacto da manqueira no desempenho dos animais

Publicado: 11/07/2014
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INTRODUÇÃO

Os problemas locomotores e reprodutivos têm sido relatados como as causas mais comuns no descarte de porcas. Porcas com claudicação têm menor número de partos ao longo de sua vida quando comparadas a porcas sem claudicação (menos de 3,0 leitegadas e 4,5 leitegadas, respectivamente). Além disso, o número de nascidos totais e nascidos vivos destas porcas é menor (ANIL et al., 2009), assim como há maior mortalidade de leitões nas matrizes com manqueira, quando comparadas com fêmeas sadias (27% e 12,4%, respectivamente) (GRANDJOT et al., 2007).

Desta forma, a atenção à saúde do aparelho locomotor das porcas é fundamental para garantir a melhor produtividade e rentabilidade da produção.

 

QUAL O TAMANHO DO PROBLEMA?

É comum quando se visita uma granja produtora de leitões que o proprietário ou gerente da granja relate não ter problemas de manqueira em suas porcas. No entanto, quando se faz a avaliação dos animais, a realidade é bem diferente (Figura 1).

Levantamentos feitos no Brasil em 2013 com cerca de 35.000 porcas, de 21 granjas, mostraram que 64% das porcas tem algum grau de claudicação e que 99% das porcas apresentam alguma lesão de casco (KRAMER et al., 2013).

 

Figura 1 Porca apresentando claudicação.

 

CAUSAS DA CLAUDICAÇÃO

Dentre as principais causas que levam os animais à manqueira, quatro são os que merecem destaque (ROWLES, 2001):

  • Infecções bacterianas;
  • Hereditárias ou genéticas;
  • Ambientais ou de manejo; e
  • Nutricionais ou metabólicas.

Vários microrganismos, como Streptococcus suis, Haemophilus parasuis, Mycoplasma hyorhinis e Erysipelothrix rhusiopathiae, podem estar associados às claudicações, assim como com poliartrite infecciosas, laminite e septicemia.

No entanto, a principal causa de artrite em suínos é a osteocondrose (ALBERTON et al., 2013), uma doença que acomete as cartilagens de crescimento e articulares (Figura 2), em animais em crescimento, responsável por provocar muita dor naqueles que apresentam manifestação clínica (como nos casos de Epifisiólise - Figura 3). A osteocondrose é também considerada a principal causa da síndrome das pernas fracas nos suínos (KIRK et al., 2008). Como consequência da osteocondrose, os animais apresentam um menor desempenho ao crescimento e de produtividade, resultando em descarte ou perda precoce dos animais de reprodução e, assim, perdas econômicas.

 

Figura 2 Lesão de osteocondrose no úmero de uma porca descartada.

 

Figura 3 Porca apresentando quadro de Epifisiolise, decorrente de lesao de Osteocondrose.

 

Aspectos ambientais e de manejo também exercem um papel importante no que diz respeito à ocorrência de manqueiras. A qualidade do piso e dos ripados, assim como a largura do ripado e o espaço vazado, a presença de umidade e dejetos na baia ou gaiola, lâmina d’água, superlotação e práticas de manejo podem resultar em trauma e/ou em lesões dos cascos (Figuras 4 e 5).

 

Figura 4 Gaiola de gestacao com ripado danificado, favorecendo que a porca se machuque.

 

Figura 5 Baia com excesso de dejetos, favorecendo a ocorrência de lesões de casco e infecções.

 

Finalmente, situações que levam os animais à ativação do sistema imune ou ao estresse - mesmo que sejam práticas de manejo rotineiras (como a vacinação) ou processos inflamatórios - levam os animais a um redirecionamento nutricional, de tal forma a garantir sua melhor condição fisiológica. Esta alteração na demanda e no destino dos nutrientes pode resultar na perda da qualidade dos cascos, levando à ocorrência de lesões.

Ambientes com temperatura e/ou umidade elevadas, por exemplo, fazem com que os animais sofram uma condição de estresse térmico. Nestes casos, para garantir a melhor condição para o Ton Kramer animal, o organismo reorganiza seus processos metabólicos e de partição dos nutrientes (destino dos nutrientes ao longo dos processos fisiológicos) (RHOADS et al., 2013), resultando em uma redução no desempenho produtivo e/ou reprodutivo e na maior possibilidade do animal ficar doente ou apresentar lesões, como as de casco, que podem levar os animais à claudicação.

 

A RELAÇÃO DA MANQUEIRA COM OS PROBLEMAS REPRODUTIVOS?

A claudicação é uma resposta do animal ao incômodo ou à dor.

Normalmente isto se deve à ocorrência de um processo inflamatório, condição comum quando ocorrem lesões nos cascos moderadas ou severas (Figura 6). Quando há inflamação, todos os sistemas corporais são afetados.

 

Figura 6 Cascos apresentando inflamação, lesão de linha branca severa, erosão de sola, sobrecrescimento de unhas e sobre-unhas moderados.

 

Além da dor, as inflamações resultam na redução do consumo de alimentos e na liberação de mediadores inflamatórios pelo organismo. São estes mediadores inflamatórios, denominados citoquinas, que promovem as alterações em como e com qual prioridade os nutrientes serão utilizados pelo corpo. Em função da inflamação, o animal irá alterar o destino dos nutrientes, priorizando órgãos do sistema imune, fígado, pulmões e cérebro, enquanto sistemas não prioritários para a sobrevivência, como o reprodutivo, receberão uma quantidade menor de nutrientes (SPURLOCK, 1997).

As lesões nos cascos promovem reações inflamatórias crônicas e agudas, causando uma dramática alteração no sistema reprodutivo. As citoquinas liberadas levam, por fim, a complicações na reprodução, que incluem aumento nos abortos, absorções embrionárias, diminuição do tamanho das leitegadas e aumento das fêmeas retornando ao cio.

É importante compreender que a inflamação devido às manqueiras manifesta-se da mesma forma que respostas inflamatórias consequentes à desnutrição, à mastite ou outras disfunções que ativem o sistema imune.

Assim, a prevenção e o tratamento precoce das manqueiras e lesões de casco ajudarão a manter o consumo de ração e o apetite, diminuindo as complicações reprodutivas devido às claudicações.

 

PREVENÇÃO DA CLAUDICAÇÃO

Para a prevenção da claudicação, devem ser considerados os fatores que levam à ocorrência e à severidade das lesões de casco, do aparelho locomotor e das infecções. Assim, deve-se dar atenção à seleção dos animais destinados à reprodução, ao ambiente onde estes animais são criados, à nutrição e ao manejo.

A seleção genética deve ser parte importante da estratégia de prevenção da claudicação. Devem ser destinados à reprodução animais com boa conformação e qualidade de aprumos e, preferencialmente, de linhagens sabidamente com baixa prevalência de manifestação clínica de Osteocondrose. Animais com pernas dianteiras e traseiras “duras”, pernas dianteiras voltadas para fora, com balanço exagerado do quadril ao caminhar, metacarpos ou metatarsos fracos ou com “achinelamento” ou crescimento de unhas dianteiras têm grande possibilidade de apresentarem lesões de osteocondrose (KIRK et al., 2008; KONING et al., 2012).

Com relação ao ambiente, boas práticas de limpeza e desinfecção das instalações são indispensáveis para evitar infecções e a fragilização dos cascos devido à presença de umidade e dejetos.

Deve-se, ainda, atentar para a qualidade do piso e ripados. O piso não deve ser excessivamente abrasivo, que resulte em excessiva desgaste dos cascos, tampouco liso, que possa resultar em escorregões por parte dos animais. A presença de degraus e saliências deve ser evitado, já que podem levar os animais a alguma lesão.

Quanto aos ripados, além da qualidade do material utilizado para sua construção, deve-se tomar cuidado com a integridade dos mesmos, a qualidade de suas bordas e da área sólida e do espaçamento dos mesmos. As regras de bem-estar animal determinam que para leitoas e porcas o espaçamento do ripado (vão) deve ser de no máximo 20 mm e a área sólida deve ter, no mínimo, 80 mm de largura (Code of Recommendations for the Welfare of Livestock, 2003). O uso de piso plástico em substituição ao de concreto não mostrou diferença no que diz respeito às lesões de casco (GJEIN e LARSSEN, 1995; OLSSON e SVENDSEN, 2002).

O manejo adotado com os animais deve ser tranquilo, evitando que os animais tenham movimentos bruscos que possam levá-los a se machucarem. Da mesma forma, medidas que evitem brigas entre animais devem ser adotadas.

Finalmente, boas práticas nutricionais devem ser adotadas para garantir o fornecimento adequado de nutrientes aos animais, garantindo assim que tenham suas necessidades atendidas para que possam expressar seu máximo potencial.

 

A IMPORTÂNCIA DA NUTRIÇÃO

Os principais nutrientes que interferem na saúde dos cascos incluem ácidos graxos, os aminoácidos cistina e metionina, os minerais cálcio, cobre, cromo, manganês, selênio e zinco, além das vitaminas A, D, E e biotina (PLUYM et al., 2013).

A adição de aminoácidos especialmente combinados com microminerais como cobre e silício reduzem a ocorrência e a severidade da osteocondrose. Os microminerais zinco, manganês e ferro também estão envolvidos neste processo (VAN RIET et al., 2013). Porcas suplementadas com cobre durante a gestação tiveram leitegadas com lesões menos severas de leitegadas, assim como animais em crescimento suplementados com cobre e manganês. Altos níveis de metionina-treonina também diminuíram a severidade das lesões (FRANTZ et al., 2008).

Vitaminas e microminerais, além dos aminoácidos sulfurados, têm uma importância significativa na produção e manutenção da integridade dos tecidos queratinizados, como os cascos. Pesquisas desenvolvidas na década de 80 evidenciaram a importância da biotina na saúde dos cascos, especialmente por participar do processo de produção da substância cementante intercelular (MÜLLING et al., 1999). No entanto, estes mesmos estudos são contraditórios quanto ao benefício da suplementação de biotina para leitoas em crescimento ou porcas adultas (PLUYM et al., 2013).

Os microminerais são fundamentais para a produção do tecido córneo, não somente em termos da quantidade ingerida, mas também pela biodisponibilidade dos mesmos (VAN RIET et al., 2013). Sua participação está relacionada com a qualidade da queratina produzida pelos queratinócitos (TOMLINSON et al., 2004). A suplementação de zinco, cobre e manganês complexados com aminoácidos reduziu a incidência das lesões de casco (ANIL et al., 2009; DUTRA e KRAMER, 2013) e a severidade das mesmas (SURIYASOMBOON et al., 2010; ANIL et al., 2011; DUTRA e KRAMER, 2013). Assim, aumentar a biodisponibilidade dos nutrientes, especialmente dos microminerais, melhora seu aproveitamento e, por consequência, a integridade dos tecidos queratinizados (BALLANTINE et al., 2002). Desta forma, garante-se a saúde dos cascos, pré-requisito para garantir o bem-estar animal e a expressão do máximo potencial de produção dos animais.

 

CONCLUSÃO

A claudicação é uma manifestação de origem multifatorial. De um ponto de vista clínico, identificar o problema e entender suas causas são fundamentais para sua correção e prevenção.

A saúde dos cascos é indispensável para o bem estar geral das matrizes e para se obter bons desempenhos produtivos e reprodutivos.

Se não tratadas adequadamente, as condições negativas às quais os animais são submetidos podem leva-los a claudicação e outras complicações, que incluem perdas na performance reprodutiva e da longevidade.

Com o entendimento e intervenção sobre os fatores que contribuem para a ocorrência de manqueira e dos processos inflamatórios espera-se melhorar os desempenhos produtivos, reprodutivos e financeiros da produção suína.

 

 

Esse artigo técnico foi originalmente publicado no jornal O Presente Rural, edição Maio/Junho 2014.

 
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