EXISTEM LIMITES PARA O GANHO GENÉTICO? UMA VISÃO TEÓRICA E PRÁTICA SOBRE OS DESAFIOS DO MELHORAMENTO EM SUÍNOS

Publicado: 07/12/2015
Autor/s. : MARIANA ANRAIN ANDREIS Gerência de Melhoramento Genético – DB Genética Suína

O objetivo do melhoramento genético é fornecer à cadeia produtiva de suínos um genótipo de alto benefício econômico, que produza proteína animal de qualidade, em quantidade e a baixo custo para os consumidores. Tecnicamente, o objetivo do melhoramento genético é aumentar a frequência de alelos favoráveis na população, através da seleção dos melhores animais e do direcionamento dos seus acasalamentos.

 

As técnicas utilizadas ao longo das últimas décadas permitiram um avanço grandioso na produtividade e na qualidade das carcaças terminadas. Hoje se produz mais carne, com menos insumos e com o mesmo número de matrizes alojadas, através do aumento da prolificidade, da eficiência de crescimento e alimentar e da melhoria da carcaça, com aumento do seu rendimento, através da redução da espessura de toucinho e aumento da profundidade de lombo.

 

Tendo em vista os grandes avanços obtidos nos últimos anos, e a velocidade com que estes vêm sendo obtidos, começa-se um debate à cerca da possibilidade de existência de limites para estes ganhos. Teríamos chegado ao ponto ótimo em alguma característica, ou em todas? Temos ainda a ganhar? Onde, e principalmente, quanto? Até onde podemos chegar?

 

É importante refletir sobre o desempenho global do animal quando se trabalha em um processo de melhoramento, pois embora normalmente as exigências dos produtores e da industria cheguem de forma pontual aos melhoristas, focando de tempos em tempos mais em uma ou outra característica, é essencial considerar o desempenho econômico global do animal no processo de melhoramento. Este deve ser feito de forma responsável, para que o ganho em qualquer característica em foco não venha acompanhado de perda em outra característica de importância econômica, mesmo que estas sejam correlacionadas negativamente. Para atender a este quesito, costuma-se trabalhar com ferramentas como os “índices de seleção”. Neste sistema, usa-se o valor genético dos indivíduos para cada característica, o qual é multiplicado pela porcentagem (importância, relevância ou peso relativo) que cada característica tem na composição do índice. O conjunto do valor genético do animal é agrupado em apenas um número (índice), sendo que os animais de maior índice são utilizados para reprodução com vistas ao melhoramento balanceado para as características que compõe aquele índice específico. O peso de cada característica na composição final do índice é normalmente dado pela importância econômica de cada característica, ou de acordo com o objetivo final de seleção da linhagem, e também pela herdabilidade da característica, ou seja, a velocidade com que os ganhos genéticos podem ser obtidos. É importante salientar que, à medida que se aumenta o número de características no índice de seleção, há redução na velocidade de ganho genético em cada característica igualmente, por isso a inclusão das características no índice é meticulosamente estudada pelas equipes de melhoramento genético.

 

De acordo com o passar do tempo, as características e a própria ponderação destas evolui, conforme evoluem os plantéis e as demandas do mercado (produtores, indústria e consumidores). Na figura abaixo, são mostrados dois índices de seleção de uma empresa de melhoramento genético de suínos, calculadas para os anos 2080-2011 e 2012-2015.

 

 

Por exemplo, Leitões vivos ao quinto dia (LV5), que é característica representando a prolificidade dos animais, representa 37% do índice de seleção de uma determinada linhagem e passou a 27% no segundo momento, ao passo que a conversão alimentar passou de 29% da composição final do índice para 42%. O objetivo final da seleção baseada em índices de seleção é alcançar o animal ou linhagem que tenham composição genética direcionada para a expressão fenotípica mais rentável economicamente.

 

Conforme comentado anteriormente, o objetivo do melhoramento genético é aumentar a frequência de alelos favoráveis na população, e pode-se dizer que se encontrou o limite para seleção desta característica quando o genótipo possui os dois alelos de interesse na sua composição genética, considerando não haver mutação. Porém, as principais características de interesse são determinadas não apenas por um, mas por muitos genes de pequeno efeito, que também interagem entre si, por exemplo, quando um gene bloqueia rotas metabólicas, ou quando inibe a expressão de outro gene qualquer. Porém, existe um fenômeno da mutação, que a cada geração cria a possibilidade de novas variantes de alguns alelos durante a formação dos gametas. Assim, considerando o conjunto dos genes, assumindo o modelo infinitesimal e a existência de fontes de nova variação genética vindas das mutações, poderíamos afirmar que não há como definir um limite para o melhoramento genético das características quantitativas, pois sempre existirá espaço para se ganhar mais 0,5 grama/dia no ganho de peso diário ou 0,1 leitões/geração na média do plantel, e isso faz com que os limites de produtividade nunca sejam efetivamente alcançados.

 

Para auferir ganhos genéticos cada vez mais rápido e garantir genótipos superiores, o melhoramento genético tem avançado no uso de novas tecnologias, como é o caso de uso de informações genômicas, que possibilitam dados mais precisos do parentesco dos indivíduos, para o cálculo dos GEBVs - Valores Genéticos Estimados “Genômicos”, e obtenção desses valores genéticos em animais jovens de forma mais acurada. Para tornar a coleta de informação fenotípica mais precisa, novas estratégias estão sendo implantadas no sistema de produção, como é o caso da conversão alimentar obtida em baias coletivas, com o uso dos alimentadores automáticos FIRE (Feed Intake Recording Equipment), que permitem que a conversão alimentar e o ganho de peso diário sejam calculados individualmente e diariamente para os animais, simulando melhor o ambiente real das baias de terminação. A coleta de informação de Leitões Vivos ao Quinto Dia, bem como sua subsequente utilização em programas de melhoramento genético, também está mostrando sua eficiência com resultados cada vez melhores na sobrevivência e qualidade dos leitões, além das correlações genéticas favoráveis, com aumento do número de nascidos totais e redução da mortalidade, obtidos em bancos de dados cada vez maiores.

 

Respondendo também à demandas de produtos com maior qualidade de carne, genótipos com características de interesse foram incorporados aos cruzamentos comerciais, como é o caso da incluso de animais originários do Duroc. Esta raça é tradicionalmente conhecida por sua qualidade de carne, principalmente relacionada a maior porcentagem de gordura intramuscular, que confere maior suculência e flavor à carne, especialmente para consumo in natura, assim como sua coloração mais avermelhada, que é bom preditor de outros aspectos relacionados a qualidade de carne. Estes genótipos foram extensamente selecionados para características de desempenho, especialmente ganho de peso diário e conversão alimentar, assim como para redução da espessura de toucinho, o que permite hoje que sua inclusão nos cruzamentos traga os benefícios anteriormente relatados em relação a qualidade de carne sem nenhum tipo de prejuízo ao desempenho produtivo dos plantéis.

 

Novas características fenotípicas, avanços na modelagem e aumento das informações com uso de ferramentas genômicas vão permitir que o melhoramento genético ofereça aos produtores e indústria patamares cada vez maiores de produtividade e rentabilidade, fornecendo produtos de qualidade para os consumidores.

 

Então, volta-se ao questionamento inicial: existe limite para o melhoramento genético e a produtividade dos plantéis? Para cada característica, individualmente, sim, mas para o plantel, em seus índices zootécnicos, não ou, pelo menos, que o limite ainda está distante! Sempre haverá algumas frações a serem ganhas em cada característica e sempre haverá o desafio de convergir os ganhos genéticos em diferentes características para um mesmo programa de cruzamentos. E, por fim, sempre haverá o desafio de interagir o potencial genético com as novas condições de manejo que são desenvolvidas, como é o caso do clima ou exigências no tocante ao bem estar animal. Este é o desafio do melhoramento genético: buscar os limites e, ao mesmo tempo, redefinir continuamente o que são de fato os limites, se eles realmente existem.

***O TRABALHO FOI ORIGINALMENTE APRESENTADO DURANTE O XVII CONGRESSO ABRAVES 2015- SUINOCULTURA EM TRANSFORMAÇÂO, ENTRE OS DIAS 20 e 23 DE OUTUBRO, EM CAMPINAS, SP.

 
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