Resumo
A reutilização da cama de aviário é uma prática amplamente utilizada na avicultura de corte devido à redução de custos de produção e à otimização do manejo dos lotes. Entretanto, quando realizada sem controle adequado, pode favorecer o aumento da umidade, da compactação e da carga microbiana, comprometendo a sanidade, o bem-estar e o desempenho produtivo das aves. O presente trabalho aborda os principais impactos da reutilização inadequada da cama sobre a mortalidade e as condenações de carcaças em frangos de corte, destacando fatores predisponentes, consequências produtivas e medidas preventivas. Dados obtidos a partir da análise de mais de 260 milhões de frangos demonstraram associação entre o número de reutilizações da cama e o aumento das condenações parciais e das lesões de contato, especialmente calo de pata. Além disso, condições inadequadas da cama favorecem a liberação de amônia, pioram a qualidade do ar e aumentam a predisposição a infecções secundárias. Conclui-se que o manejo adequado da cama reutilizada, incluindo controle de umidade, ventilação eficiente, revolvimento e sanitização, é fundamental para reduzir perdas produtivas, melhorar o bem-estar animal e garantir maior qualidade das carcaças no abate.
Palavras-chave: avicultura, cama reutilizada, condenação de carcaças, frangos de corte, mortalidade, bem-estar animal.
1. Introdução
A avicultura de corte brasileira ocupa posição de destaque mundial devido à elevada produtividade e eficiência dos sistemas de produção. Nesse cenário, a reutilização da cama de aviário tornou-se uma prática amplamente adotada por reduzir custos operacionais e contribuir para a sustentabilidade do sistema produtivo (ABPA, 2024; Maruthamuthu et al., 2024). Entretanto, quando manejada inadequadamente, essa prática pode comprometer a sanidade, o bemestar animal e a qualidade das carcaças destinadas ao abate.
A reutilização da cama de aviário é uma prática comum na avicultura de corte, especialmente em sistemas de alta densidade. No entanto, quando não é manejada adequadamente, essa cama pode se tornar um importante fator de risco sanitário, contribuindo para o aumento da mortalidade e para o crescimento das condenações no abate das aves. O acúmulo de matéria orgânica, a compactação e a umidade elevada favorecem o crescimento de microrganismos oportunistas, como E. coli e Clostridium spp., além de provocar lesões de contato como dermatite plantar, calo de pata e celulite, impactando diretamente o bemestar e o desempenho produtivo das aves (Bilgili et al., 2009) (Figura 1).
Figura 1. Principais impactos da reutilização inadequada da cama de aviário sobre a sanidade, o desempenho produtivo e as condenações de carcaças em frangos de corte

2. Impactos da cama reutilizada na saúde e no desempenho das aves
Além disso, a cama mal manejada compromete a qualidade do ar dentro do galpão, aumentando a liberação de amônia, que afeta o trato respiratório, reduz o ganho de peso e deixa as aves mais suscetíveis a infecções secundárias (Miles et al., 2004). Com isso, lotes submetidos a camas degradadas costumam apresentar maior mortalidade, maior variabilidade de peso e maior índice de carcaças condenadas no frigorífico, gerando perdas econômicas significativas ao produtor.
3. Relação entre reutilização da cama e condenações de carcaças
Para termos uma ideia do tamanho do impacto da qualidade da cama sobre a condenação de carcaças nos frigoríficos, compilamos e analisamos, em nosso laboratório, dados reais do abate de mais de 260 milhões de frangos (Silva Filho, 2025). Identificamos que o número de reutilizações da cama é um dos fatores que mais influencia o grau de condenação de carcaças no frigorífico. Cerca de 18,5% das condenações parciais de carcaças e 40,5% das condenações por calo de pata podem ser explicadas por efeitos diretos da reutilização da cama. Fica evidente, assim, a importância do tratamento adequado da cama para a garantia da qualidade de carcaça e redução de perdas de produto no frigorífico.
4. Principais fatores que favorecem a deterioração da cama reutilizada
Principais fatores que levam à deterioração da cama reutilizada:
• Compactação: reduz a aeração e favorece o acúmulo de umidade;
• Alta carga microbiana: intensa proliferação bacteriana devido ao material orgânico acumulado;
• Umidade excessiva: causa fermentação, libera amônia e aumenta lesões de contato;
• Ventilação inadequada: piora a secagem da cama e favorece gases tóxicos.
5. Estratégias de prevenção e manejo
Como prevenir os impactos negativos da cama reutilizada:
Para reduzir perdas e melhorar o desempenho dos lotes, é essencial adotar boas práticas de manejo da cama, tais como:
• Revolvimento frequente entre os lotes, quebrando crostas e favorecendo a secagem;
• Correção da umidade, mantendo a cama abaixo de 25%;
• Uso de materiais absorventes ou adição de cama nova, quando necessário;
• Aplicação de sanitizantes que reduzam a carga microbiana;
• Ventilação eficiente, mesmo em períodos frios, para garantir qualidade do ar;
• Monitoramento contínuo das condições da cama e do comportamento das aves.
Essas práticas ajudam a manter um ambiente mais estável, reduzem a incidência de lesões de contato, diminuem a mortalidade e evitam condenações que comprometem o rendimento das carcaças.
6. Conclusão
A reutilização da cama de aviário pode representar uma estratégia eficiente e economicamente vantajosa na avicultura de corte, desde que associada a práticas adequadas de manejo. Entretanto, quando negligenciada, torna-se um importante fator de risco para perdas produtivas, comprometendo a saúde, o bem-estar e o desempenho zootécnico das aves.
Medidas como ventilação adequada, revolvimento frequente, controle da umidade e sanitização da cama são fundamentais para reduzir a mortalidade, minimizar lesões de contato e diminuir as condenações de carcaças no abate. Dessa forma, o manejo correto da cama reutilizada contribui diretamente para a melhoria da qualidade das carcaças, maior eficiência produtiva e aumento da rentabilidade na produção avícola.