Comportamento de autolimpeza e infestação por carrapato em bovinos da raça Holandesa

Publicado: 09/08/2013
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Sumário

O carrapato Rhipicephalus (Boophilus) microplus causa muitos prejuízos a bovinos susceptíveis. O comportamento de autolimpeza é fator importante para a resistência dos bovinos ao carrapato. O objetivo do trabalho foi verificar o comportamento de autolimpeza e seu impacto na infestação deste parasita em animais da raça Holandesa. Para isso, foram utilizadas 16 bezerras infestadas com 10.000 larvas do carrapato: 8 receberam um colar no pescoço, feito de ripas de madeira, com o intuito de dificultar a autolimpeza, e, nestes animais, a infestação foi feita dentro de câmaras de pano, presas à pele na região do flanco, em ambos os lados, de modo a impedir que a língua atingisse diretamente a pele do animal. As oito restantes puderam exercer livremente o comportamento de autolimpeza, e, neste tratamento, a infestação foi feita no fio do lombo. O comportamento dos animais foi filmado e registrado por 24 hs após a infestação, e, ao final do ciclo parasitário, fêmeas ingurgitadas foram contadas. Animais com autolimpeza limitada tiveram maiores infestações de carrapato (P<0,05), e a lambedura foi dirigida ao local onde as larvas se encontravam, comprovando a importância deste comportamento em bovinos da raça Holandesa.

Palavras-chave: lambedura, língua, resistência, Rhipicephalus (Boophilus) microplus

Introdução

A infestação pelo carrapato Rhipicephalus (Boophilus) microplus provoca grandes prejuízos a raças susceptíveis, como a Holandesa (Veríssimo et al., 2008). O comportamento de autolimpeza é muito importante para diminuir a infestação de ectoparasitas nos animais (Eokstein & Hart, 2000). Veríssimo et al. (2008) afirmam que a autolimpeza é fundamental na resistência dos bovinos ao carrapato, daí a importância em se estudar esse comportamento e verificar o seu impacto na infestação de carrapatos em bovinos da raça Holandesa.

 

Material e Métodos

Bezerras desmamadas da raça Holandesa (16) foram infestadas com 10.000 larvas do carrapato Rhipicephalus (Boophilus) microplus. As bezerras, com idade média de 7 meses, ficavam em baias individuais, (3 m de comprimento x 2,5 m de largura), providas de cocho para alimento e água, no Instituto de Zootecnia, Nova Odessa, SP. Em oito animais foi colocado um colar no pescoço, feito de ripas de madeira, com o intuito de dificultar a virada da cabeça e impedir que o animal atingisse com a língua seu corpo, e, nestes animais, as larvas foram inseridas em câmaras de infestação feitas de tecido (malha), com cerca de 28 cm de diâmetro, coladas à pele do flanco, uma para cada lado do animal (cerca de 5.000 larvas/câmara), de modo que os animais, quando conseguiam alcançar com a língua a câmara de infestação, lambiam sobre o pano, não atingindo diretamente os carrapatos fixados sob a malha (figura 1). Nas oito restantes, nada foi colocado, e puderam exercer livremente o comportamento de autolimpeza; neste tratamento, a infestação foi feita no fio do lombo.

Filmadoras foram posicionadas acima de cada baia, registrando e gravando o comportamento da autolimpeza 24 horas após a infestação. Posteriormente, essas imagens foram analisadas, verificando a região do corpo preferencial de realização da autolimpeza.

Figura 1 – Novilha holandesa do tratamento autolimpeza limitada, com colar feito de ripas de madeira no pescoço e câmara de infestação feita com tecido (malha), colada na pele da região do flanco (as câmaras foram coladas nos lados direito e esquerdo do animal).

Ao final do ciclo parasitário, foram contadas as teleóginas presentes no lado direito dos animais dos dias +20 ao +22 pós-infestação. A taxa de recuperação de carrapatos (RC) foi calculada com base na seguinte fórmula: RC = ∑C (somatória da contagem de carrapatos, realizada do dia +20 ao +22 pósinfestação) x 100 x 2 (sexos de larvas) x 2 (lados do animal) / 10.000).

O delineamento utilizado foi inteiramente casualizado, e a análise de variância considerou a autolimpeza como efeito independente e a taxa de recuperação de carrapatos como efeito dependente. O quiquadrado foi utilizado para verificar a frequencia entre as regiões do corpo onde o animal efetuava a autolimpeza com a presença ou ausência de colar e câmara de infestação. As análises foram feitas com o programa SPSS 12.0.

 

Resultados e Discussáo

Os resultados sobre a taxa de recuperação de carrapatos podem ser visualizados na figura 2. Animais limitados em se coçar livremente (porque tinham colar e câmara) tiveram uma taxa de recuperação de carrapatos significativamente maior, comprovando a importância do comportamento de autolimpeza também em bovinos da raça Holandesa, uma das mais suscetíveis ao carrapato, segundo Utech et al. (1978).

Figura 2 – Taxa de recuperação (%) de fêmeas ingurgitadas de uma infestação com 10.000 larvas em bezerras com autolimpeza limitada (colar e câmara) ou não (livre) (* Anova, P<0,05).

Koudstaal et al. (1978) verificaram que a autolimpeza (lambedura) é direcionada diretamente à larva que estaria provocando coceira na pele do animal; o bovino retira a larva com a língua, efetuando autolimpeza, no local onde estaria(m) a(s) larva(s) tentando se fixar. Neste experimento, as filmagens confirmam que o comportamento de autolimpeza foi direcionado principalmente para locais onde as larvas estavam se fixando (ou já fixadas), pois, no tratamento da autolimpeza limitada, as lambeduras se concentraram na região mediana do corpo, onde se encontravam as câmaras de infestação, dentro das quais estavam as larvas. Verificou-se neste tratamento que apesar do colar, os animais conseguiam, embora com dificuldade, virar o pescoço e atingir com a língua a câmara de infestação.

No tratamento de autolimpeza livre, a lambedura foi distribuída em várias partes do corpo, com ênfase na região posterior (Tabela 1). Segundo Veríssimo et al. (2008), a autolimpeza é um dos principais mecanismos de resistência dos bovinos ao carrapato, e animais da raça Holandesa tiveram número de mastócitos na "derme superior" semelhante ao de animais resistentes, como a raça Gir (zebuína).

Tabela 1 – Frequências de regiões do corpo para onde a autolimpeza era efetuada: anterior (cabeça, orelha, pescoço, braço, mão, axila, peito, omoplata, cernelha), mediana (câmara, coluna, costela, flanco, barriga), posterior (perna, pé, coxa, virilha, ísqueo, períneo, ânus e/ou vulva, rabo) em presença ou ausência de colar e câmara (?2 = 310,362; GL=3; P<0,001).

 

Conclusão

A limitação da autolimpeza resultou em aumento da infestação de carrapatos em bovinos da raça Holandesa. A autolimpeza é dirigida para o local onde a(s) larva(s) está(ão) fixada(s) ou tentando se fixar.

 

Literatura citada

EOKSTEIN, R.A.; HART, B.L.. Grooming and control of fleas in cats. Applied Animal Behaviour Science, v. 68, p. 141-150, 2000.

KOUDSTAAL, D.; KEMP, D.H.; KERR, J.D. Boophilus microplus rejection of larvae from British breed cattle. Parasitology, v.76, p. 379-386, 1978.

UTECH, K.B.W.; WHARTON, R.H; KERR, J.D. Resistance to Boophilus microplus (Canestrini) in different breeds of cattle. Australian Journal Agriculture Reserch, v. 29, p. 885-895, 1978.

VERÍSSIMO, C.J.; BECHARA, G.H.; MUKAI, L.S.; OTSUK, I.P.; POZZI ARCARO, J.R. Mast cell counts correlate with Rhipicephalus (Boophilus) microplus tick load in different cattle breeds, Brazilian Journal of Veterinary Pathology, v. 1, n.2, p. 81-87, 2008.

 

**O Trabalho foi originalmente publicado durante o XXIII CONGRESSO BRASILEIRO DE ZOOTECNIA /Universidade Estadual do Oeste do Paraná - Foz do Iguaçu/PR, 06 a 09 de maio de 2013.

 
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