Mosca da vinhaça - mosca dos estábulos

Stomoxys calcitrans (Díptera:Muscidae) “mosca da vinhaça” ou “mosca dos estábulos”?

Publicado: 02/06/2010
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Introdução

O mucideo Stomoxys calcitrans, conhecido popularmente como "mosca-dos-estábulos" e denominado em outros estudos pelo autor Ricardo Alexandre Gomes como "mosca da vinhaça", devido seus surtos ocorrerem ao redor de plantações de cana de açúcar, não apresenta especificidade de hospedeiro para seu parasitismo, podendo molestar inclusive ao homem, utiliza fezes misturadas à urina e restos vegetais e a própria vinhaça que demonstra ser um excelente substrato, atraem e estimula sua postura (GUIMARÃES, 1983 e 1984). Surtos deste díptero foram observados em bovinos e eqüinos em criatórios ao redor de plantações de cana de açúcar na região de Noroeste do Estado de São Paulo desde 2005, com estudos preliminares em 2007 e 2008 e, seus prejuízos, foram parcialmente demonstrados (GOMES & MARTINS, 2008, GOMES, 2009) sugerindo uma nova revisão dos impactos econômicos, mormente causados por Stomoxys calcitrans na produção agropecuária.(CASSOL, et al. 2010)

Metodologia para Extensão Rural

A presente pesquisa, que foi adaptada em um modelo criado para aplicação na extensão rural, apoiou-se em entrevistas de campo. Esse modelo adaptado foi resgatado quando o Professor Uriel Franco Rocha, (COMUNICAÇÃO PESSOAL, 2001) em Uberaba/MG e Cocalzinho de Goias/GO, comentou-se como podemos denominar nomes populares a certos parasitos, quando estudávamos Lybiostrongylus douglassi, nematódeo de Avestruz (GOMES, et al. 2002) e o Panorama da Australásia. Assim sendo, seguimos a ocorrência dos surtos em municípios que nunca relataram esse tipo de parasitismo ou mesmo que estavam com a dinâmica populacional baixa ou em harmonia nas relações parasito-hospedeiro x produção agropecuária x ser humano, aparentemente equilibradas, realizamos as entrevistas e/ou visitas á Médicos Veterinários, Biólogos, Engenheiros Agrônomos, Zootecnistas, Técnicos Agropecuários e Proprietários Rurais de aproximadamente 80 municípios da região Noroeste, Norte e Nordeste do Estado de São Paulo de 2005 a 2010, com sugestões do Professor Orivaldo Tenório Vasconcelos da FCAV/UNESP de Jaboticabal (COMUNICAÇÃO PESSOAL, 2000) quando se tratava da dificuldade de visualizar Stomoxys calcitrans no Estado de São Paulo.

Resultado e Conclusão

Dos entrevistados com formação técnica, 60% perguntavam se era a mesma "mosca dos estábulos" essa que é "mosca da vinhaça". Já os produtores rurais, 71% questionavam se era uma "mutuquinha" relatando semelhanças à família dos TABANIDEOS, mas 52% comentavam a semelhança com Musca domestica, diferença que essa tem ferrão, quando se tratavam do aparelho bucal do tipo picador.Dos entrevistados com formação ou não para a taxonomia de Stomoxys calcitrans, 100% relacionaram os surtos com a produção canavieira, fato esse concomitante com os resíduos do vinhoto. Sendo assim, localidades onde as usinas canavieiras contribuíram para o surgimento da "mosca dos estábulos", devemos sempre mencionar o nome popular "mosca da vinhaça", pois linguajar técnico pode obstruir o entendimento de muitos produtores rurais e prejudicar a aplicação da extensão rural, não se deve ter o retrocesso, deve-se mencionar como é Stomoxys calcitrans e sua hematofagia, bem como o parasitismo por diversos hospedeiros, inclusive o ser humano (Imagens1,2,3). Localidades onde não existem culturas da produção sucroalcoleira, devem se rever outros substratos, os confinamentos, os aviários entre outros, juntamente com a pluviometria regional e temperaturas favoráveis aos dípteros. Exemplo de surtos isolados por Stomoxys calcitrans ocorrem em Autazes/AM em confinamentos com restos de casquinha de soja maceradas com urina e fezes de bovinos e bubalinos leiteiros desde 2005.

Imagem 1
: Cão parasitado por Stomoxys cacitrans em Votuporanga/SP, amostra colhida próximo a Usina Sucroalcoleira UNP.

Imagem 2: Exemplar de Stomoxys cacitrans em Ouroeste/SP, demonstrando abdômen avermelhado repleto de sangue após hematofagia,  amostra colhida próximo a Usina Sucroalcoleira ALCOSTE.



Imagem 3: Exemplar de Stomoxys cacitrans em Ouroeste/SP, demonstrando abdômen rompido e o extravasamento de sangue vivo, amostra colhida próximo a Usina Sucroalcoleira ALCOSTE.

Referências

CASSOL, D.M.S. et al. Controle Integrado da Stomoxys calcitrans (mosca dos estábulos). H. Veterinária. Ano 29, n. 174, p. 9-11, 2010.

GOMES, et al. 2002 Ocorrência do Libyostrongylus sp (Nematoda:Trichostrongylidae) em avestruzes (Struthio camelus) no Estado de São Paulo, Brasil. In: Seminário Brasileiro de Parasitologia Veterinária, XII, 2002, Rio de Janeiro. Anais. Colégio Brasileiro de Parasitologia Veterinária, Rio de Janeiro, 2002.

GOMES, R.A. et al. Resposta Imune-Humoral de búfalos (Bubalus bubalis) contra Anaplasma marginale (THEILER, 1910). Rev. Bras. Parasitol. Vet. Ano 17, n.2, p. 73-80, 2008.

GOMES, R.A.; MARTINS, S.E. Surto de Stomoxys calcitrans (Díptera:Muscidae) em bovinos e eqüinos no município de União Paulista/SP. In: Seminário Brasileiro de Parasitologia Veterinária, XV, 2008, Curitiba. Anais. Colégio Brasileiro de Parasitologia Veterinária, Curitiba, 2008.

GOMES, R. A. Surtos de Stomoxys calcitrans (Díptera: Muscidae) em bovinos e equinos na região Noroeste de São Paulo (Brasil) devido ao desequilíbrio ambiental. Publicado em 27/02/2009. Disponível em: < http://pt.engormix.com/MA-pecuariacorte/saude/artigos/surtos-stomoxys-calcitrans-diptera_132.htm>. Acesso em: 01 de março de 2009.

GUIMARÃES, J. H. Moscas - biologia, ecologia e controle. Agroquímica Ciba Geigy. v. 21, p. 20-26, 1983.

GUIMARÃES, J. H. Mosca dos estábulos. Uma importante praga do gado. Agroquímica Ciba Geigy. v. 23, p. 10-14,1984.

ROCHA, U.F. Elaboração de pré-projeto de pesquisa para helmintofauna de Avestruzes. (Comunicação pessoal, 2001).

VASCONCELOS, O.T. Consulta para elaboração de pré-projeto sobre Stomoxys calcitrans, metodologia e ocorrências do parasitismo no Estado de São Paulo. (Comunicação pessoal, 2000).

Palavras-Chave: Stomoxys calcitrans, mosca da vinhaça. mosca dos estabúlos, prejuizos, cana, usina.

Agradecimentos: Ao técnico Denílson Godoy da Casa da Agricultura de União Paulista, Profs. Alvimar José da Costa e Gilson Pereira de Oliveira FCAV/CPPAR/UNESP, Médico Veterinário Cledson Luis Resende da Fazenda Pontal, Daniela Myasaka da Silveira Cassol da Ourofino Produtos Veterinarios, Fernanda Calvo Duarte do Instituto Biológico/SAA e Ana Paula Rodrigues Moraes da UFRRJ.

Imagem 1: Cão parasitado por Stomoxys cacitrans em Votuporanga/SP, amostra colhida próximo a Usina Sucroalcoleira UNP.

Imagem 2: Exemplar de Stomoxys cacitrans em Ouroeste/SP, demonstrando abdômen avermelhado repleto de sangue após hematofagia,  amostra colhida próximo a Usina Sucroalcoleira ALCOSTE.

Imagem 3: Exemplar de Stomoxys cacitrans em Ouroeste/SP, demonstrando abdômen rompido e o extravasamento de sangue vivo, amostra colhida próximo a Usina Sucroalcoleira ALCOSTE.

ANEXO 1

CARTA DE DESABAFO: Produtor e Médico Veterinário Cledson Luis Resende da Fazenda Pontal na Integra, sobre os prejuízos causados pela "mosca dos estábulos" enviada as instituições pedindo ajuda para o problema, quando o colega se refere à Tristeza Parasitária são casos de Anaplasmose transmitida pela mosca (GOMES et al. 2008):

"Hoje me deparei com mais um caso de morte de um bezerro na propriedade da minha família, o terceiro em menos de15 dias, junto com este pequeno animal vi nos marejados olhos do meu pai, que continham uma mistura de raiva e abandono, morrendo algo muito mais precioso do que o pobre animal, vi a sombra da desesperança trazer uma opacidade triste naqueles olhos brilhantes e cheio de sonhos, via a esperança agonizando pedindo por socorro, como eu ao escrever estas linhas, por favor a quem possa, socorro.

Estamos cansados, são dois anos tentando acertar algo da forma que nós homens do campo sabemos, no diálogo, na boa vontade, na honra e na cordialidade, mas estamos batendo na parede da frieza, do descaso, da ironia de pessoas que de má fé pensam que podem tratar esta classe já tão castigada como "lixo social", como caipiras ignorantes, pois deve ser isso que pensam ao tentarem ludibriar-nos dessa forma, com mentiras e mais mentiras, promessas e mais promessas, e ainda têm a cara de pau de arrotar o bordão de "temos que ser parceiro".

É uma pena que a esperança de progresso que acompanhava a expectativa da instalação da "Usina de Açúcar e Álcool de Ouroeste/SP", tenha concretizado para muitos dos cidadãos e famílias ouroestenses como motivo de sofrimento e enormes prejuízos, graças a qualidade moral questionável que a diretoria de tal empresa vem demostrando com atos pautados na mentira, no descaso e no desrespeito aos agropecuaristas de Ouroeste.

Mesmo com todas as reuniões, propostas e promessas de solução por parte da Usina Ouroeste, o problema com a mosca dos estábulos só vem agravando, estamos passando agora por surtos de doenças como a tristeza parasitária (em pleno inverno), mastite (em plena seca), diarréia neo natal dos bezerros; esta semana sai o resultado da pesquisa de hematozoários, tentando confirmação laboratorial da suspeita clinica, mas já adianto que na Fazenda Pontal cerca de 60% dos bezerros de 3 meses a 1 ano estão em quadro de anemia que varia de leve a grave, a prevalência de febre, apatia e inapetência está na casa dos 20%, e nas outras propriedades ao redor das Usina o quadro não é diferente, vê-se necessário a compra de uma centrifuga de microhematócrito para hematocrito diário dos animais, buscando tratamento quanto antes para minimizar os casos de mortes, mas ainda assim a taxa de mortalidade é alarmante e o prejuízo com a perca de peso e desenvolvimento dos animais é desolador.

Não resta outras alternativas se não apelar à justiça, mas temo que os produtores não tenham fôlego financeiro para suportar os prejuízos e ainda esperar a decisão judicial, acredito que até o desfecho deste caso muitos serão obrigados a parar com atividade pecuária devido a uma praga, cuja explosão populacional foi permitida por um manejo inadequado seguido de descaso de um só produtor álcooleiro.

Gostaria que a população de Ouroeste estivesse ciente de nossa luta, pois sei que muitos são ou tem sua origem no campo, não sei se vamos conseguir o nosso intento, apenas sei que não vamos nos entregar sem lutar por nossas vidas, pelo nosso sustento, pela permanecia em uma atividade que praticamos a décadas, e que herdamos, como muito orgulho, de nossos antepassados".

Deixo meus comprimentos com pesar e preocupação, na esperança que dias melhores virão, pois é isso que temos plantado e continuaremos plantando.

Ouroeste, 13 de Julho de 2009

Att.

Cledson Rezende.

 
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