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Homeopatia e controle da verminose

Publicado: 31/05/2013
Autor/s. : Cecília José Veríssimo, pesquisadora Científica VI), Instituto de Zootecnia, Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios -APTA-, SP.
Introdução
A homeopatia foi elaborada no século XVIII pelo médico alemão Samuel Hahnemann. Os medicamentos homeopáticos estudados por Hahnemann foram extraídos de substâncias dos três ramos da natureza (mineral, vegetal e animal), diluídos sucessivamente em álcool e agitados vigorosamente (dinamizados). Foram, então, experimentados em indivíduos sãos, e provocaram sintomas semelhantes a determinadas doenças. Quando ministrados em indivíduos doentes em doses diminutas, esses medicamentos eram capazes de produzir um estímulo das defesas orgânicas pré-existentes, e, progressivamente, a cura.
Dessa forma, o medicamento homeopático age por meio do mecanismo físicodinâmico ou energético, promovendo a cura de maneira gradual e duradoura a partir do retorno ao equilíbrio energético do organismo (CAVALCANTI, 2005).
Devido à complexidade de sintomas que cada medicamento abrange, a administração de medicamentos homeopáticos e a diluição recomendada deve ser indicada e acompanhada por um profissional com especialização em homeopatia.
 
Trabalhos já realizados com produtos homeopáticos no controle da verminose
Algumas firmas estão comercializando fórmulas manipuladas conforme os preceitos da homeopatia para serem administradas a todo o rebanho, no sal mineral, água de bebida ou no concentrado. Os medicamentos homeopáticos devem ser individualizados conforme os sintomas apresentados pelo paciente. Por isso, a eficácia dessas formulações que são administradas a todo o rebanho no controle da verminose são discutíveis.
Alberti et al. (2004) relatam que utilizaram uma formulação homeopática comercial, denominada Fator Ovino®, durante um ano, misturado ao concentrado, a 15 fêmeas da raça Santa Inês com OPG superior a 1000. 15 fêmeas semelhantes não receberam o produto no concentrado (grupo controle). Amostras fecais do rebanho foram individualmente coletadas nos dias –1, +7, +15, e de 30 em 30 dias até o término do experimento. Os resultados podem ser visualizados na figura 1. Em 10 ocasiões, o grupo que recebeu o produto homeopático apresentou um decréscimo na média de ovos por grama de fezes em relação ao grupo controle. Porém, em nenhum momento, a diferença entre o grupo tratado e o controle foi significativa (ALBERTI et al., 2005).
Rocha, Pacheco e Amarante (2006) realizaram uma investigação criteriosa sobre os efeitos do produto comercial Fator Vermes®, manipulado e comercializado pelo mesmo laboratório do produto relatado no parágrafo anterior. A eficácia desse produto foi avaliada em ovelhas da raça Bergamascia de 18 meses de idade, durante seis meses. O experimento foi dividido em duas fases. Na primeira fase (três primeiros meses), um grupo de 10 ovelhas recebeu o produto no concentrado e outro grupo de 10 ovelhas recebeu concentrado sem o produto homeopático. Nessa primeira fase, não houve diferença significativa em termos de OPG, ganho de peso e volume globular (hematócrito) entre os grupos. Na fase 2 (três últimos meses), as ovelhas tratadas com o medicamento homeopático continuaram recebendo o medicamento, e os animais controle receberam medicação anti-helmíntica a cada 14 dias. Nessa segunda fase, houve diferença significativa entre tratamentos, e o grupo tratado com o produto químico obteve melhor desempenho (maior ganho de peso, P<0,05) e saúde (menor infecção parasitária e, conseqüentemente, maior volume globular, P<0,05) do que os animais que receberam o medicamento homeopático. Embora os autores tenham concluído que não se observou benefício do produto homeopático na saúde e produtividade das ovelhas, ou na profilaxia da verminose, após seis meses de administração do produto, alguns dados observados nesse trabalho são dignos de nota. A primeira delas refere-se ao OPG máximo das ovelhas tratadas com o medicamento homeopático, que ficou em torno de 1500 OPG, enquanto que as ovelhas não tratadas (fase 1) atingiram média superior a 2500 OPG. A segunda nota diz respeito ao número médio de eosinófilos (células sangüíneas de defesa do organismo que aumentam em um processo parasitário) observado nos animais que receberam o medicamento homeopático, que foi maior (em duas ocasiões a diferença foi estatisticamente significante) do que os animais que não receberam o produto homeopático. Registrou-se a morte de uma ovelha, altamente sensível à verminose, do grupo que recebia o medicamento homeopático, mesmo tendo sido vermifugada (tratamento salvação, quando o OPG era maior que 4.000 ou o VG era menor que 21) quatro vezes durante o último trimestre do experimento. Depreende-se, portanto, que a administração desse medicamento homeopático para ovelhas da raça Bergamascia não foi suficiente para controlar ou prevenir casos de verminose. Por outro lado, o uso de vermífugo a cada 14 dias é insustentável, devido à seleção de vermes resistentes ao anti-helmíntico. Durante o experimento, os autores puderam observar a individualidade na suscetibilidade e resistência à verminose em animais da mesma raça, e os autores reforçam a importância de se selecionar os indivíduos resistentes e os benefícios dessa seleção no controle efetivo da verminose.
Cruz et al. (2006) utilizaram o produto homeopático Fator Vermes® em caprinos sem raça definida, criados extensivamente, por período de 84 dias ininterruptos, e constataram que o produto foi eficaz em reduzir o número de ovos por grama de fezes no 84º dia, em relação a grupos que receberam outros tratamentos (Cydectin® e Organofós ®, sal mineral com alho e produto químico), o que "reforça a idéia de que, diferentemente do princípio alopático, a ação dos produtos homeopáticos ocorre de maneira lenta e progressiva, restabelecendo o equilíbrio do organismo e não a cura imediata da enfermidade".
 
Homeopatia e controle da verminose - Image 1
Zeola et al. (2007) também verificaram o uso do produto homeopático Fator Vermes® no controle da verminose em ovelhas Ile de France gestantes, por um período de 60 dias. Os autores utilizaram o medicamento no concentrado dos 30 aos 90 dias de de gestação em 10 ovelhas com OPG entre 200 e 500. Dez ovelhas semelhantes receberam concentrado sem o medicamento homeopático (grupo controle), e algumas dessas ovelhas foram vermifugadas quando o OPG ultrapassou 500. Os autores observaram peso, OPG e Famacha. Não se verificou diferença estatística entre os tratamentos, a não ser quanto ao ganho de peso diário, que foi maior no grupo homeopatia (144,30g vs 38,6g). Os autores mostraram que é possível não utilizar anti-helmíntico durante o segundo e terceiro mês de gestação em ovelhas Ile de France que receberam o medicamento homeopático.
Zacharias, Silva Dias e Almeida (2003) utilizaram em cabras leiteiras (8 cabras da raça Alpina para cada grupo) os medicamentos homeopáticos Arsenicum album D6 e Ferrum phosphoricum D6, alternados, 10 gotas de cada pela manhã e à tarde, diariamente, durante uma semana. Verificaram uma eficácia (redução no OPG) da ordem de 92,86%, maior do que aquela verificada quando se usou vermífugo (à base de albendazole, eficácia igual a 91,84%). No grupo que recebeu os medicamentos Mercurius corrosivus D6 e Sulphur D30, igualmente alternados, e administrados por sete dias, tal como os medicamentos anteriormente relatados, a eficácia foi de apenas 17,86%. Quanto maior for a porcentagem de eficácia de um determinado produto, melhor. O ideal é uma eficácia superior a 90%. Embora os autores não tenham explicitado o cálculo da eficácia, normalmente, utiliza-se a seguinte fórmula para o cálculo da eficácia de um produto: eficácia = (média OPG (antes da aplicação do produto) – média OPG (depois da aplicação do produto)/ média OPG (antes) x 100. Normalmente, as fezes são coletadas entre 7 e 14 dias depois da aplicação do produto. Nesse trabalho ela foi colhida 10 dias após. Os autores ressaltam que os resultados são parciais, e referem-se a um tipo de exploração específica, e, portanto, não devem ser extrapolados para outras espécies, sem uma devida avaliação por um profissional com especialização em homeopatia.
Mais recentemente, Zacharias (2004), na Bahia, defendeu tese avaliando o efeito de medicamentos homeopáticos sobre a verminose em ovinos. Cordeiros mestiços (Santa Inês, Morada Nova e Rabo Largo cruzados com Dorper), machos e fêmeas, desmamados, com idade em torno de 4 meses de vida foram utilizados nesse experimento. Sete receberam antihelmíntico convencional (Dectomax®); sete o tratamento homeopático, via oral, que consistiu de Ferrum phosphoricum D12 e Arsenicum album D6 alternadamente por um período de 10 dias, e Calcarea carbônica D12 duas vezes por dia, por mais 10 dias. Um terceiro grupo de seis animais ficou sem nenhum tratamento. Os animais foram observados quinzenalmente por um período de 68 dias, e estavam a pasto, recebendo concentrado com 18% de proteína, e sob infestação natural por helmintos gastrintestinais. Foram observados: peso, OPG, coprocultura, volume globular, concentração de hemoglobina, proteína total, albumina, eosinófilos, leucócitos e globulinas. Foi ainda considerado o custo-benefício dos tratamentos. Não houve diferença significativa quanto ao OPG dos animais, embora os do tratamento controle tenham apresentado um pico de produção de ovos, aos 18 dias, maior do que os que receberam o medicamento homeopático. O anti-helmíntico utilizado não foi eficaz (eficácia menor que 90%). Nas coproculturas, houve um resultado interessante: a média de larvas de Haemonchus encontrada no grupo que recebeu os medicamentos homeopáticos foi sempre menor (P<0,01) que a média dessas larvas verificada para o grupo controle. Não houve diferença significativa entre tratamentos quanto aos parâmetros sangüíneos analisados, embora se tenha verificado correlação positiva entre hematócrito e proteína total e entre IgG e globulinas somente no grupo que recebeu os produtos homeopáticos. Além disso, o número de eosinófilos foi sempre mais numeroso no grupo homeopatia e o ganho de peso desses animais também foi superior, porém, sem apresentar diferença estatística em relação aos outros tratamentos. Nesse experimento, em que o anti-helmíntico não teve boa eficácia, o grupo que recebeu os medicamentos homeopáticos apresentou o maior retorno financeiro.
Cavalcanti (2005) relata o manejo realizado no Projeto Oviba - Ovinos da Bahia, localizado no litoral norte da Bahia, no qual há um sistema intensivo de produção de ovinos da raça Santa Inês. Nesse sistema, o controle da verminose é feito por meio de monitoramento semanal ou quinzenal com o método Famacha de avaliação da mucosa ocular; monitoramento mensal do OPG; teste de resistência anti-helmíntica a cada três meses. O sistema de produção adota o pastejo rotacionado e alternado com bovinos adultos; os cordeiros são confinados logo após o nascimento, e utilizam-se medicamentos homeopáticos específicos para as categorias de matrizes e cordeiros lactantes, adicionados à água nos bebedouros duas vezes ao dia, e no concentrado dos cordeiros ("creep-feeding"). Resultados preliminares de pesquisas feitas nesse rebanho revelam que o grupo que recebeu medicação homeopática na água, associado às demais práticas referidas anteriormente, apresentou menor incidência de animais com grau Famacha 3, e melhor média de escore corporal, quando comparados ao grupo que recebeu o mesmo manejo, porém sem o medicamento homeopático.
Cavalcanti, Almeida e Dias (2007) encontraram bons resultados no ganho de peso de cordeiros (sem raça definida) com os medicamentos Sulphur 30 D e Ferrum phosphoricum 6 D, Arsenicum album 6 D e Mercurius solubilis 6 D, administrados via oral, 10 gotas duas vezes ao dia, durante três meses consecutivos, quando confrontados com o grupo controle que não recebeu medicamento homeopático. O tratamento com os produtos homeopáticos não reduziu o OPG, mas proporcionou aumento significativo de peso, em relação ao grupo controle que não recebeu o medicamento.
Cabaret, Bouilhol e Mage (2002) comentam que muitos medicamentos homeopáticos não têm um efeito anti-helmíntico; eles somente possibilitam ao hospedeiro suportar melhor a infecção.
 
Considerações finais
Verifica-se que as pesquisas com produtos homeopáticos para o controle da verminose são escassas. Não se pode esquecer que os medicamentos homeopáticos devem ser individualizados, portanto, não se pode descartar o tratamento homeopático com base em resultados obtidos com produtos que não foram individualizados (medicamento e dose, conforme o rebanho, a raça ou a categoria). Os resultados positivos alcançados no desempenho de ovinos sob infestação natural por nematóides gastrintestinais, e que não receberam vermífugos, incentivam novas pesquisas sobre o assunto.
 
REFERÊNCIAS
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CABARET, J.; BOUILHOL, M.; MAGE, C. Managing helminthes of ruminants in organic farming. Vet. Res., v. 33, p. 625-640, 2002.
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CRUZ, J. F.; VIANA, A. E. S.; OLIVEIRA, D. F.; FERRAZ, R. C. N.; MAGALHÃES, M. P.; SANTOS, D. D.; CRUZ, R. S.; CRUZ, A. D.; ZACHARIAS, F. A homeopatia como ferramenta de controle de helmintos gastrintestinais em caprinos criados em sistema extensivo. A Hora Vet., v. 26, p. 37-40, 2006.
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ZACHARIAS, F.; SILVA DIAS, A. V.; ALMEIDA, M. A. O. Helmintose em caprinos – tratamento com homeopatia. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE HOMEOPATIA VETERINÁRIA, 2003, São Paulo. Anais... São Paulo: Associação dos Médicos Veterinários Homeopatas Brasileiros, 2003. CD-ROM.
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Capítulo 5 - Livro “Alternativas de controle da verminose em pequenos Ruminantes” Coordenação de Cecília José Veríssimo (Médica Veterinária; Pesquisadora Científica VI) Instituto de Zootecnia (IZ-APTA da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo), 2008.
 
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