Fitoterapia como alternativa no controle de verminose em caprinos e ovinos

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Introdução

A fitoterapia é o tratamento de enfermidades através de vegetais frescos, drogas vegetais ou extratos vegetais (OLIVEIRA; AKISUE, 1997). É uma prática já conhecida e utilizada pelo homem, mas que vem se destacando recentemente nas pesquisas científicas. As verminoses causam prejuízos na caprino-ovinocultura, como gastos com vermífugos, queda na produção de leite, carne e, principalmente, morte dos animais jovens. O uso de produtos químicos no controle de verminose não tem obtido os resultados esperados pelos criadores de caprinos e ovinos. A falta de princípios ativos novos nas formulações químicas, aliada ao problema da resistência amplamente disseminada em todo o Brasil, faz com que se busquem alternativas adaptadas à consciência adquirida por criadores e consumidores. A fitoterapia é um tratamento atraente no contexto de agricultura orgânica, onde o impacto ambiental e os resíduos de produtos de uso veterinário nos alimentos de origem animal podem ser minimizados, além da possibilidade de redução de custos, do tempo de carência para comercialização e da valorização dos produtos.

Na fitoterapia aplicada ao controle de parasitas, os princípios éticos devem ser respeitados e o uso validado cientificamente. Se seu uso é bem compreendido e planejado, ela estimula o cultivo de plantas de interesse, promovendo o desenvolvimento local e evitando a destruição da vegetação nativa. Segundo Lapa et al. (2004), a fitoterapia é uma ferramenta a mais, que permite aumentar a variedade de produtos a serem utilizados pelos profissionais; ofertar opções terapêuticas de medicamentos equivalentes, também registrados, talvez mais baratos e com ação mais adequada e, quem sabe, com indicações terapêuticas complementares às medicações existentes.

 

Estudos investigativos de fitoterápicos

No meio científico, é notório o crescimento dos estudos de extratos de plantas com possível ação sobre vermes ou helmintos de caprinos e ovinos. Girão et al. (1996) distribuíram questionários aos criadores de caprinos do Piauí, que citaram 10 plantas como tendo efeito anti-helmíntico. A bucha-paulista (Luffa operculata), batata-de-purga (Operculina sp.) e maria-mole (Senna alata) foram testadas em laboratório, obtendo-se os melhores resultados com a batata-de-purga. Realizou-se também teste em caprinos com o lírio (Melia azedarach) em diferentes doses via oral (1, 2 e 3g de frutos secos moídos/kg de peso vivo) com redução de 43%, 59% e 54% do número de ovos dos vermes por grama de fezes (OPG).

Posteriormente, Girão et al. (1998) realizaram novo levantamento junto aos criadores do Piauí buscando identificar plantas conhecidas com atividade anti-helmíntica. Das 15 citadas para o tratamento de verminose, seis espécies foram testadas: bucha-paulista (Luffa operculata), batata-de-purga (Operculina sp.), maria-mole (Senna alata), pinhão-branco (Jatropha curcas), melão-de-são-caetano (Momordica charantia) e velame (Croton sp.). Destas, a batata-de-purga, melão-de-são-caetano, bucha-paulista e velame apresentaram os melhores resultados sobre os ovos dos vermes em testes laboratoriais. A campo, ocorreu tendência geral de redução de OPG após sete dias de administração dos extratos vegetais via oral, mas os resultados não foram conclusivos.

Vieira et al. (1999) realizaram experimento com vários extratos vegetais em caprinos no Ceará (alho, semente de mamão, folhas de hortelã, folhas de bananeira...). A fruta-deconde (Anona squamosa), administrada por quatro dias consecutivos na dose de 1g/kg de suco de folhas e talos triturados em liquidificador e passados na peneira com gaze, foi a que apresentou os melhores resultados a campo, reduzindo 51,9% da população adulta de Oesophagostomum columbianum. No entanto, ela foi ineficiente na eliminação dos demais vermes (Haemonchus contortus, Trichostrongylus colubriformis e Strongyloides papillosus). Cada verme adulto da espécie H. contortus consome 0,05 ml de sangue/dia e assim uma ovelha ou cabra com infecção moderada de 2.000 vermes pode perder de 5 a 7% de seu volume de sangue por dia.

Em experimento na Embrapa Caprinos, Vieira (2002) testou por mais de dois anos em 24 caprinos a atividade anti-helmíntica da erva lombrigueira, lírio e batata-de-purga da seguinte forma: 2g/kg P.V. de folhas trituradas em infusão, 12g/kg do fruto em pó na água e 4g/kg dos tubérculos, respectivamente. Os animais foram tratados uma vez por semana com os extratos e apresentaram redução no OPG de 29%, 57% e 15% em relação ao controle. Em estudo realizado com vermes de caprinos em laboratório, Almeida et al. (2003) observaram, em condições de laboratório, redução superior a 95% do número de larvas pelo extrato aquoso de capim-santo ou Cymbopogon citratus (concentração de 224mg/ml) e de capim-açu ou Digitaria insularis (concentração entre 355,2 e 138,75mg/ml), no entanto, é necessária a comprovação do seu efeito nos animais por meio de ensaios clínicos veterinários.

 

Aplicabilidade veterinária

Estudos a campo têm demonstrado o potencial das plantas sendo realmente aplicado: Braga et al. (1997) detectaram após necrópsia que o fornecimento de folhas de bananeira (Musa sp.) ad libitum a seis caprinos apresentou eficácia em relação ao controle de 70,4% para Oesophagostum sp., 65,4% para Trichostrongylus sp., 59,5% para Cooperia sp e 57,1% para Haemonchus sp. Os resultados sugerem o uso das folhas de bananeira como tratamento auxiliar e preventivo nas verminoses ou helmintoses gastrintestinais de pequenos ruminantes. Essa tem sido uma prática também utilizada no assentamento do Município de Pedra Dourada, Zona da Mata de Minas Gerais, que possui criação de cabras leiteiras em confinamento. Athayde et al. (2004) realizaram um trabalho junto a 138 produtores de caprinos e um rebanho de 2.579 animais da região de Patos, Paraíba. Os produtores receberam informações básicas de manejo e controle parasitológico e os animais foram tratados com melão-de-são-caetano, batata de purga e semente de abóbora. Observou-se redução da média de ovos da superfamília Trichostrongyloidea de 954,87 para 263,08 demonstrando bom controle durante 12 meses. A pesquisa se concentra agora na produção de extratos para fornecimento aos animais, já que o uso das plantas secas tem suas restrições, tais como o controle de qualidade do material e a produção constante durante todo o ano. O trabalho de base de conscientização dos produtores, com relação à priorização das medidas profiláticas, foi essencial na obtenção dos resultados supracitados.

Estudos realizados com folhas secas da árvore indiana Nim ou Neem (Azadirachta indica) na Embrapa Caprinos, apresentaram eficácia de 88,6% a 240.000ppm em cultura de fezes com ovos de vermes de caprinos. No entanto, essa concentração é muito elevada para ser utilizada na prática. Estudos a campo indicaram que 30g de folhas secas de Neem administradas por cinco dias a 12 animais, não reduziram o OPG por quatro semanas. Talvez uma boa alternativa para o Neem seja o uso do óleo da semente que possui o princípio ativo azadirachtina concentrado, responsável pelo efeito anti-helmíntico da planta. As pesquisas com o Neem realizadas com parasitas muito resistentes devem ser focadas em estudos de laboratório e a campo com o óleo da semente. Essa tendência tem sido também apresentada no processo de produção do "cabrito ecológico" pela Embrapa Semi-Árido/Embrapa Caprinos. Produtos patenteados à base de eucalipto (Eucalyptus citriodora, E. globulus, E. staigeriana, CHAGAS et al., 2002) foram testados em laboratório na Embrapa Caprinos (Sobral/CE) matando 100% das larvas de vermes de caprinos. Os resultados iniciais a campo não indicaram ação sobre os vermes. Assim, objetiva-se agora a manipulação química dos produtos para que sejam melhores absorvidos pelos animais durante a administração oral.

 

Considerações finais

Um dos problemas que tem sido apontado como entrave na utilização de fitoterápicos é a grande variação na composição dos extratos vegetais, de acordo com a época da colheita da planta, estágio de desenvolvimento e localização geográfica. No entanto, muito se tem avançado com relação aos métodos de controle quantitativos e qualitativos de extratos como, por exemplo, óleos vegetais. O desenvolvimento da biotecnologia tem disponibilizado métodos de produção, processamento e análise desses extratos vegetais, onde parâmetros químicos, físicos e biológicos são rigorosamente analisados. Empresas produtoras de extratos vegetais têm interesse na comprovação da qualidade de seus produtos para sua valorização no mercado, seja ele farmacêutico, industrial ou tecnológico.

Muitos princípios ativos detectados em plantas não podem ser sintetizados e só podem ser obtidos de plantas disponíveis na natureza ou cultivadas (RATES, 2001). Entretanto, muitas substâncias podem ser produzidas em laboratório a partir das plantas, e utilizadas em escala industrial, sem prejuízos para a natureza. Dessa forma, a aplicação da fitoterapia é ampla, indo desde a utilização de extratos vegetais até a produção de novos químicos sintéticos, devendo ocorrer, no entanto, adaptações de acordo com o tamanho, tipo e objetivo da criação.

É importante destacar que, juntamente com o desenvolvimento e aplicação de novas alternativas no controle de parasitas, as informações básicas de manejo e profilaxia devem ser repassadas aos criadores de caprinos e ovinos. A associação desse conhecimento com o uso correto dos produtos químicos permite a ação efetiva e prolongada destes, além de redução de custos e prejuízos.

 

REFERÊNCIAS

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ATHAYDE, A. C. R.; ALMEIDA, W. V. F.; MORAES, L. F. F.; LIMA, R. C. A. Difusão do uso de plantas medicinais anti-helmínticas na produção de caprinos do sistema de produção da região de Patos, PB. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA, 2., 2004, Belo Horizonte. Anais... Belo Horizonte: CBEU, 2004. CD-ROM.

BRAGA, M. M.; OLIVEIRA, D. B.; AMORIM, A.; MATTOS-JUNIOR, D. G.; ALMOSNY, N. R. P. Eficácia da folha de bananeira (Musa sp) na remoção de parasitos gastrintestinais em caprinos. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE PARASITOLOGIA, 15., 1997, Salvador. Anais... Salvador: Sociedade Brasileira de Parasitologia, 1997. p. 57.

CHAGAS, A. C. S.; PASSOS, W. M.; PRATES, H. T.; LEITE, R. C.; FURLONG, J.; FORTES, I. C. P. Efeito acaricida de Eucalyptus em Boophilus microplus: óleos essenciais e concentrados emulsionáveis. Braz. J. Vet. Res. Anim. Sci., v. 39, p. 247-253, 2002.

GIRÃO, E. S.; CARVALHO, J. H.; LOPES, A. S.; MEDEIROS, L. P.; GIRÃO, R. N. Avaliação de plantas medicinais com efeito anti-helmíntico para caprinos. [S.l.]: Embrapa, 1998. 9 p. (Pesquisa em andamento, n. 78).

GIRÃO, E. S.; MEDEIROS, L. P.; CARVALHO, J. H.; GIRÃO, R. N. Identificação e avaliação de plantas medicinais com efeito anti-helmíntico em caprinos. In: REUNIÃO ANUAL DA SBZ, 33., 1996, Fortaleza. Anais... Fortaleza: Sociedade Brasileira de Zootecnia, 1996. p. 573-575.

LAPA, A. J.; SOUCCAR, C.; LIMA-LANDMAN, M. T. R.; GODINHO, R. O. M. L. Farmacologia e toxicologia de produtos naturais. In: SIMÕES, C. M. O.; SCHENKEL, E. P.; GOSMANN, G.; MELLO, J. C. P.; MENTZ, L.; PETROVICK, P. R. Farmacognosia: da planta ao medicamento. 5. ed. Porto Alegre: UFSC; Florianópolis: UFRGS, 2004. p. 247-262.

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VIEIRA, L. S.; CAVALCANTE, A. C. R.; PEREIRA, M. F.; DANTAS, L. B.; XIMENES, L. J. F. Evaluation of anthelmintic efficacy of plants available in Ceará State, North-east Brazil, for the control of goat gastrointestinal nematodes. Rev. Méd. Vet., v. 150, p. 447-452, 1999.


Capítulo 6 - Livro “Alternativas de controle da verminose em pequenos Ruminantes” Coordenação de Cecília José Veríssimo (Médica Veterinária; Pesquisadora Científica VI) Instituto de Zootecnia (IZ-APTA da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo), 2008.

 
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