Debate sobre alternativas de controle da verminose em ovinos e caprinos. Homeopatia, fitoterapia, fungos nematófagos e plantas com taninos

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Dentre os fatores que interferem no desenvolvimento pleno da atividade pecuária, as helmintíases gastrintestinais ocupam lugar de destaque. Os prejuízos estão relacionados ao retardo na produção, custos com tratamentos profilático e curativo, e, em casos extremos, à morte dos animais. Enquanto nos países desenvolvidos os gastos devido aos custos com controle são significativos, nos países em desenvolvimento as doenças parasitárias causam prejuízos pela diminuição na produção e na restrição à criação de animais selecionados, com alto desempenho produtivo, porém com alta suscetibilidade às parasitoses. A falta dessas informações pode levar à utilização inadequada de tratamentos anti-helmínticos, relacionada ao rápido desenvolvimento de resistência, traduzida em aumento de casos clínicos e perdas produtivas.

Os problemas relacionados à resistência e ecotoxicidade enfatizam a necessidade de serem implementados programas integrados de controle parasitário, que assegurem saúde e segurança dos organismos vivos, por meio de tratamentos estratégicos baseados na epidemiologia, eliminação de vermifugações desnecessárias, utilização de pastoreio alternado e higienização de pastagens.

Para o controle das parasitoses, a indústria farmacêutica, ao longo das últimas décadas, tem desenvolvido produtos químicos cada vez mais eficazes e seguros. Porém, a utilização de campanhas de marketing muito intensas tem levado o produtor ao uso freqüente e indiscriminado desses produtos. Levantamentos realizados no Brasil demonstram que apenas 30% dos produtores utilizam os tratamentos antiparasitários de acordo com as recomendações da pesquisa (CEZAR, 2000). Como resultado desta super-utilização, carrapatos e helmintos têm desenvolvido resistência à maioria das drogas, à medida em que elas são disponibilizadas no mercado. Hoje, a situação do controle químico das parasitoses está a beira de um colapso (ECHEVARRIA; PINHEIRO, 1999). Isso é extremamente sério porque a indústria farmacêutica sinaliza que não deverá desenvolver novos princípios ativos nos próximos anos. Para atender essa demanda crescente é imperativo que se busquem alternativas para o controle de endo e ectoparasitos.

Por outro lado, a população humana mundial está cada vez exigindo alimentos mais saudáveis, livres de resíduos, e que tenham sido produzidos de maneira a preservar o meio ambiente. Estatísticas da Comunidade Européia revelam que o mercado de orgânicos já atinge 5%, e encontra-se em ascensão.

Desde 1944, as indústrias químicas na área de agrotóxicos são os principais causadores da poluição da água, do solo, do ar e dos alimentos no Brasil. A atuação dessas empresas, além de contaminar todos os agroecossistemas no Brasil, foi responsável por inúmeros casos de intoxicação de agricultores, de suas famílias e de muitas pessoas devido ao consumo de alimentos contaminados com resíduos de agrotóxicos. As consequências da aplicação incorreta de agrotóxicos vão desde a contaminação do solo, da água e da fauna até, e principalmente, o consumidor. Ao ingerir os alimentos contaminados com os resíduos dos agrotóxicos, o homem pode ser afetado, entre outras complicações, por problemas hepáticos, renais e nervosos. Dependendo do grupo químico do agrotóxico, da quantidade ingerida e das características de cada organismo, as pessoas podem estar susceptíveis, entre outros males, ao desenvolvimento de câncer e deformações fetais. Todos esses problemas têm obrigado o governo brasileiro a gastar elevada soma de recursos no atendimento de agricultores ou de outras pessoas intoxicados por partículas desses venenos.

Anualmente, as indústrias de pesticidas são responsáveis por um faturamento de cerca de US$ 27 bilhões no mundo. Em nosso país, a venda de agrotóxicos gera, aproximadamente, US$ 2,3 bilhões de faturamento. Apesar disso, essas empresas investem muito pouco na área de desenvolvimento de produtos biológicos ou soluções alternativas. As empresas de agrotóxicos investem cerca de 100 a 300 milhões de dólares no desenvolvimento de uma molécula para ser formulada como pesticida. Por outro lado, as pesquisas com produtos biológicos e métodos alternativos necessitam de recursos para a sua evolução, e esses recursos, até o momento, têm sido disponibilizados, direta e majoritariamente, pelo setor público.

A utilização de formulações científicas de controladores biológicos e outros produtos alternativos proporcionarão a redução da poluição ambiental e da contaminação das pessoas e dos animais, e ensejará a produção de alimentos mais saudáveis e com menos resíduos.

Das alternativas apontadas acima, fitoterapia, fungos nematófagos e plantas com taninos, todas têm fundamentação científica; no entanto, a Homeopatia não tem tal fundamentação, e muitas vezes chega a ser considerada como fenômeno paranormal. O Ministério da Agricultura recomenda o emprego da terapêutica homeopática, fitoterápica e da acupuntura, na produção animal orgânica, porém os produtos homeopáticos existentes no mercado são rotulados como sem comprovação científica. Portanto, os pecuaristas deveriam procurar especialistas responsáveis antes de utilizar um medicamento alternativo.

O grande avanço das parasitoses, como as verminoses, tem levado os pecuaristas ao desespero e à busca de soluções milagrosas. Solução milagrosa não existe, e sim pesquisa e repasse de tecnologia ao produtor.

Bons resultados com a utilização de fungos nematófagos sobre ovinos e caprinos foram obtidos por Araújo et al. (2007), Chandrawathani et al. (2003), Fontenot et al. (2003), Paraud, Pors e Chartier (2007) e Wrigth et al. (2003).

 

REFERÊNCIAS

ARAUJO, J. V.; RODRIGUES, M. L. A.; SILVA, W. W.; VIEIRA, L. S. Controle biológico de nematóides gastrintestinais de caprinos em clima semi-árido pelo fungo Monacrosporium thaumasium. Pesqui. Agropec. Bras., v. 42, p. 1177-1181, 2007.

ASSIS, R. C. L.; ARAUJO, J. V.; GANDRA, J. R.; CAMPOS, A. K. Avaliação de fungos predadores de nematóides do gênero Monacrosporium sobre larvas infectantes de Haemonchus contortus de caprinos. Rev. Bras. Cienc. Vet., v. 12, p. 42-45, 2005.

CEZAR, I. M. Conhecendo melhor os pecuaristas e suas relações com a Embrapa Gado de Corte. Campo Grande: Embrapa Gado de Corte, 2000. 49 p. (Embrapa Gado de Corte. Boletim de Pesquisa, 9).

CHANDRAWATHANI, P.; JAMNAH, O.; WALLER, P. J.; LARSEN, M.; GILLESPEIE, A. T.; ZAHARI, W. M. Biological control of nematode parasites of small ruminants in Malaysia using the nematophagous fungus Duddingtonia flagrans. Vet. Parasitol., v. 117, p. 173-183, 2003.

ECHEVARRIA, F. A. M.; PINHEIRO, A. C. Eficiência de anti-helmínticos em bovinos. In: SEMINÁRIO BRASILEIRO DE PARASITOLOGIA VETERINÁRIA, 11., 1999, Salvador. Anais... Salvador: [s.n.], 1999. p. 150.

FONTENOT, M. E.; MILLER, J. E.; PEÑA, M. T.; LARSEN, M.; GILLESPIE, A. Efficacy of feeding Duddingtonia flagrans chlamydospores to grazing ewes on reducing availability of parasitic nematode larvae on pasture. Vet. Parasitol., v. 118, p. 203-213, 2003.

PARAUD, C.; PORS, I.; CHARTIER, C. Efficiency of feeding Duddingonia flagrans chlamydospores to control nematode parasites of first-season grazing goats in France. Vet. Res. Commun., v. 31, p. 305-315, 2007.

WRIGTH, D. A.; McANULTY, R. W.; NOONAN, M. J.; STANKIEWICZ, M. The effect of Duddingtonia flagrans on trichostrongyle infection of Saanen goats on pasture. Vet. Parasitol., v. 118, p. 61-69, 2003.


Capítulo 9 - Livro “Alternativas de controle da verminose em pequenos Ruminantes” Coordenação de Cecília José Veríssimo (Médica Veterinária; Pesquisadora Científica VI) Instituto de Zootecnia (IZ-APTA da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo), 2008.

 
Autor/s.
Possui graduação em Medicina Veterinária (1985), mestrado em Parasitologia (1989) e doutorado em Parasitologia (1996) pela Univ. Federal de Minas Gerais -UFMG-. Atualmente é professor Associado da Univ. Federal de Viçosa -UFV-, co-orientador e pesquisador da UFMG, colaborador de disciplina e co-orientador da Univ. Federal Rural do Rio de Janeiro -UFRRJ- e co-orientador de doutorado pela Univ. Estadual de São Paulo -UNESP-Botucatu. Tem experiência na área de Med. Vet. Preventiva. É pesquisador do CNPq, membro do Comitê de ética do uso e experimentação animal e chefe do Depto. de Vet. da UFV.
 
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