Avaliação das perdas endógenas fecais de fósforo em novilhos da raça nelore suplementados com sal mineral convencional ou proteinado

Publicado: 15/01/2014
Autor/s. : A.A.M.A. Oliveira e R. A. Teixeira, Professores do Curso de Zootecnia, Universidade Estadual do Oeste do Paraná -UNIOESTE-, PR; Dorinha Miriam S.S. Vitti, Professora do Centro de Energia Nuclear na Agricultura -CENA-, Universidade de São Paulo -USP-, SP; Danilo Grandini, Zootecnista, Gerente Comercial da Nutron Alimentos; P.Konieczniac, R.R Parzinello e F.A. Dill, Estudantes de graduação em Zootecnia, UNIOESTE, PR, e L. B. Ribeiro, Mestrando na Universidade Estadual de Maringá -UEM-, PR.
Sumário

Foram utilizados 12 novilhos machos inteiros da raça Nelore, para verificar se a absorção verdadeira de fósforo (P) e suas perdas endógenas fecais, calculadas através da técnica de diluição isotópica, podem ser aumentadas em dietas suplementadas com sal mineral convencional ou proteinado. O traçador utilizado foi o 32P. Três dietas experimentais foram estudadas: Dieta 1: Feno de Tifton 85 + sal mineral convencional; Dieta 2: Feno de Tifton 85+ sal mineral proteinado e Dieta 3: Feno de Tifton 85 sem suplementação de P. O consumo de P nos tratamentos 1 e 2, (67,42 e 61,80 mg / Kg PV) não diferiram entre si, e foram adequados segundo as recomendações do NRC (2000) para essa mesma categoria animal: 55 mg de P/ Kg de PV/dia. A análise estatística não indicou diferenças para as perdas endógenas fecais, os valores obtidos para os tratamentos 1, 2, e 3, foram respectivamente: 35,22; 22,6 e 22,75 mg/ Kg PV. Apesar da adequação do consumo de P nos tratamentos 1 e 2, os animais apresentaram valores negativos de absorção verdadeira, em função dos altos valores obtidos de P total excretado nas fezes, (média de 114,95 mg de P fecal/ Kg PV) indicando balanço de P negativo e possível quadro de deficiência mineral em P.

Palavras-chave: Ruminantes, biodisponibilidade, perdas obrigatórias, metabolismo.

 

Introdução

O fornecimento do sal mineral para bovinos produzidos a pasto é um recurso necessário que pode evitar reduções no ganho de peso e até mesmo na manutenção do peso corporal, atribuída à queda do valor nutritivo da forragem madura durante o período de estiagem. Em função disso, foram feitas avaliações no campo levando-se em consideração parâmetros zootécnicos de produção: como o ganho de peso diário (GPD) e o consumo do sal mineral em animais criados em sistema exclusivo de pastagens.

Zanetti et al. (2000) testaram o desempenho de bovinos em fase de crescimento, com o uso de quatro suplementos minerais (proteinado; proteinado + uréia, sal mineral, sal mineral mais uréia). O maior valor de GPD, foi obtido com o sal proteinado + uréia, (357 g/dia). Houve perda de peso diário, (-96g) com o uso do sal mineral acompanhado também do menor consumo do suplemento. Por outro lado, Moreira et al. (2004) estudaram durante 112 dias, o desempenho de garrotes da raça nelore suplementados com sal mineral convencional ou proteinado. Não foram encontraram diferenças entre os sais, o ganho médio diário de peso obtido foi de 380 g/dia.

A suplementação com sal proteinado é uma alternativa de menor custo e que pode minimizar as perdas ocorridas durante o período seco nas pastagens. Acredita-se que o fornecimento mínimo de nitrogênio degradável no rúmen possa enriquecer os microorganismos e consequentemente a produção de fitase de origem microbiana, otimizando assim a disponibilidade biológica de fósforo nas dietas. O aproveitamento do P presente nos sais minerais suplementados nas condições de sistemas pastoris poderia ser otimizado.

Esse estudo teve como objetivo verificar se a absorção verdadeira, calculada através da determinação das perdas endógenas fecais de P pode ser aumentada em dietas sem a suplementação ou com a suplementação de sal mineral na forma convencional ou proteinado.

 

Materiais e métodos

Foram utilizados doze garrotes machos inteiros da raça Nelore com 10 meses de idade e peso vivo médio de 180 kg para a condução desse trabalho. Os tratamentos utilizados para a avaliação da absorção verdadeira de P e perda endógena fecal consistiram de três dietas experimentais: dieta 1: feno de Tifton 85 + sal mineral convencional, dieta 2: feno de Tifton 85 + sal mineral proteinado, dieta 3: Feno de Tifton 85 sem suplementação. O consumo das dietas 1 e 2 foi ajustado para atender as exigências recomendadas pelo NATIONAL RESEARCH COUNCIL, NRC (2000). O feno de Tifton 85 apresentou a seguinte composição química: matéria seca (92,48%); proteína bruta, (9,90%); cinzas (5,71%); fibra em detergente neutro, (82,25%); fibra em detergente ácido, (40,26%); extrato etéreo, (0,63%); cálcio (0,44%) e fósforo (0,24%). Os níveis de garantia dos sais minerais utilizados nos tratamentos podem ser vistos na Tabela 1. Os garrotes passaram por um período de adaptação de 21 dias às instalações. O ensaio de P radioativo teve duração de 7 dias com o uso de gaiolas de metabolismo. O consumo total das dietas foi restrito a 1,8% do peso vivo (PV) e o consumo de água foi livre.

Antes da aplicação da solução radioativa 32 P os animais permaneceram nas gaiolas por 4 dias, para a coleta e análise de P nas fezes e urina inorgânica. Um dia antes de ser injetada a solução radioativa, coletou-se sangue da veia jugular esquerda para a determinação do P inorgânico. No primeiro dia de ensaio de metabolismo, os animais receberam injeção de (0,5 ml) com 5,5 MBq de 32P via jugular esquerda. Amostras de sangue foram coletadas em todos os animais, via jugular direita com o uso de tubos a vácuo nos 5, 60, 120, 240 e 360 minutos. Posteriormente e por mais sete dias consecutivos, foram coletadas amostras de sangue, fezes e urina, de todos os animais, sempre antes da dieta ser oferecida pela manhã (24, 48, 76, 96, 120 e 144 horas após a injeção da solução radioativa).

Para análise de P e contagem da radioatividade, as amostras de sangue, fezes e urina, sal mineral e feno, foram feitas no laboratório de nutrição animal do Centro de Energia Nuclear Aplicada à Agricultura, CENA-USP. O teor de P dos alimentos testados e das fezes foi determinado conforme Sarruge e Haag (1974). O teor de P inorgânico no plasma e urina foi determinado a partir das amostras de sangue pelo método de Fiske e Subbarow (1925). A leitura da radioatividade de plasma e fezes foi realizada em cintilador líquido por intermédio do efeito Cerenkov. Para avaliação dos dados de perda endógena fecal de P que são utilizados para os cálculos de absorção real do elemento, foram feitas as determinações das atividades específicas no plasma e nas fezes, que foram calculadas como porcentagem da atividade injetada por mg de fósforo (LOFGREEN; KLEIBER, 1953).

O delineamento experimental utilizado para o ensaio de metabolismo de P foi o inteiramente casualizado, com três tratamentos, quatro repetições. As variáveis avaliadas foram: P endógeno (%); consumo de P em mg/ kg PV; disponibilidade de P, P excretados nas fezes em mg/ kg PV, P endógeno em mg/ kg PV e P absorção verdadeira em mg/ kg PV. As análises estatísticas foram feitas no programa computacional SAS (2000) no procedimento GLM. Aplicou-se o teste "t"a 5% de probabilidade para a comparação entre as médias.

 

Resultados e discussão:

Os resultados relativos ao metabolismo de P em função da comparação do uso da suplementação com sal mineral convencional ou proteinado, estão apresentados na Tabela 2.

Os valores médios de fósforo consumido, nos tratamentos 1, 2 e 3, foram respectivamente: 67,42; 61,80 e 37,11 mg/ kg PV (CV= 6,20%). Não houve diferença estatística entre os tratamentos 1 e 2 (P<0,05) o que facilitou a interpretação do efeito da suplementação com o uso dos sais no metabolismo de P nas demais variáveis. O tratamento 3 , uso do feno Tifton 85 sem suplementação do sal, apresentou o menor consumo de P: 37,11 mg /kg PV (P<0,05).

Segundo o NRC (2000), para animais em crescimento com peso vivo médio de 200 kg e com ganho mínimo diário de 500 g, o consumo de P deveria ser no mínimo 55mg /kg PV. No presente estudo, os animais que consumiram a dieta 3, exclusiva de feno consumiram apenas 67,27 % do P total requerido para mantença e crescimento diário. Dessa forma os animais que consumiram a dieta 3, apresentaram balanço negativo de fósforo.

Silva Filho et al. (2000) ao trabalharem com suplementação com fontes inorgânicas para bovinos obtiveram consumos médios de 50 mg de P/ kg PV/dia, valores intermediários aos obtidos na presente pesquisa. Os valores médios de P excretado nos tratamentos 1, 2 e 3, foram respectivamente, 119,28; 110,62 e 66,66 mg /kg PV (CV=19,50). Não houve diferença significativa entre os tratamentos 1 e 2. A análise estatística para a excreção de P total indicou diferença (P< 0,05) e os animais que consumiram a dieta 3 apresentaram o menor valor médio de excreção fecal de P. Os valores de P fecal excretado obtidos nesse estudo foram superiores aos obtidos por Silva Filho et al. (2000) que para consumos médios de 43,93 e 69,19 mg/ kg PV encontraram respectivamente valores de 32,21 e 44,10 mg / kg PV. Todos os valores de P fecal excretado nas fezes foram superiores aos valores consumidos indicando que o consumo de P nas dietas 1 e 2 não foram adequados aos requerimentos dos animais.

Os valores médios de P endógeno excretado nas fezes para os tratamentos 1, 2 e 3, foram respectivamente: 35,22; 24,90 e 20,73 mg Kg/ PV. A análise estatística não indicou diferença entre os tratamentos. O CV obtido para essa variável foi alto (CV= 44,08%). A correlação entre P consumido e P endógeno fecal não foi significativa. A porcentagem de P fecal endógena em relação ao P consumido para as dietas 1; 2 e 3 foram respectivamente: 52,23; 40,29 e 55,86%. Nota-se que apesar da análise estatística não ter indicado diferença entre os tratamentos, percebese que o consumo de P na dieta 3 exclusiva de feno Tifton 85, isenta de suplementação com sal mineral, apresentou maior valor numérico. Essa diferença pode estar atribuída à maior necessidade de mobilização das reservas corporais em P dos animais que consumiram a dieta 3.

Silva Filho (2000) postularam que valores do P endógeno fecal podem aumentar com os níveis de P oferecido na dieta o que não ocorreu no presente estudo. Também não houve diferenças estatísticas entre os tratamentos quando se avaliou a porcentagem de P endógeno fecal (29,6; 22,6 e 22,75%) respectivamente, para os tratamentos 1, 2 e 3.

Os valores médios de P no plasma para os tratamentos 1, 2 e 3, foram respectivamente: 7,91; 6,89 e 7,15 mg %, esses valores situam-se dentro dos limites da homeostase.

Os valores médios de P absorvido para os tratamentos 1; 2 e 3 foram respectivamente: -6 - 5,13 e -17,25 mg/ Kg PV. Com relação à interpretação de valores negativos de absorção entendese que os animais apresentaram uma condição de deficiência em fósforo. A demanda em P pelo organismo foi maior do que a quantidade de P presente na digesta intestinal comprometendo os níveis de absorção e de biodisponibilidade que foi considerada nesse estudo zero.

Apesar dos valores de consumo de P terem sido adequados nos tratamentos 1 e 2, os valores de P retido foram negativos, para os tratamentos 1, 2 e 3: -56,33; -53,61 e -32,67 mg/kg PV/dia indicando uma possível deficiência estabelecida em todos os tratamentos.

 

Conclusões:

As perdas endógenas fecais de P nas condições desse estudo foram em média 26,95 mg/ kg PV e não foram influenciadas pela suplementação com o uso de sal mineral convencional e proteinado.

Não foi possível determinar a absorção verdadeira de P em função dos valores negativos de P retido.

 

Referências bibliográficas

FISKE, C.H.; SUBBARROW, Y. The colorimetric determination of phosphorus. Journal Biological Chemistry, v.66, n.02, p.375-400, 1925.

LOFGREEN, G.P.; KLEIBER, M. The availability of the phosphorus in alfafa hay. Journal of Animal. Science, v.12, n.02, p.366-371, 1953.

MOREIRA, F. B., MIZUBUTI, I.Y., PRADO, I. N., et al. Suplementação com sal mineral proteinado para bezerros nelores mantidos em pastagens de capim mombaça, no período do inverno. In: REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 41., 2004, Campo Grande, Anais… Campo Grande: Resumo expandido, 2004. 1 CD-ROM.

NATIONAL RESEARCH COUNCIL-NRC. Nutrients requirements of beef cattle. 7.ed.Washington: National Academy Press. 242 p, 2000.

SILVA FILHO, J. C.; VITTI, D.M.S.S.; CAMPOS NETO, O.C. et al. Exigência mínima de fósforo em novilhos da raça nelore. Pesquisa Agropecuária Brasileira. V.35, n.09, p. 1861-1865, 2000.

ZANETTI, M. A., RESENDE.J.M.L., et al. Desempenho de novilhos consumindo suplemento mineral proteinado convencional ou com uréia. Revista Brasileira de Zootecnia, V.29, n.03, p.935-939, 2000.

 
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