Avaliação de formulações de doramectina injetável no controle de miíase natural por Cochliomyia hominivorax em bovinos submetidos à castração

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Um total de 60 bovinos foi dividido em 4 grupos com 15 animais cada, sendo que o GI permaneceu como controle, recebendo solução salina injetável, o GII foi tratado com doramectina injetável 1% (Laboratórios Microsules), o GIII recebeu doramectina injetável 1% + ADE (Laboratórios Microsules) e o GIV foi tratado com doramectina injetável 1% de outra formulação comercial, todas na dosagem de 1ml/50kg de peso corporal, via subcutânea. A presença de ovos nas bordas das lesões foi observada em menor número nos 3 grupos tratados com doramectina em comparação com o controle. Esses resultados recomendam a indicação dos produtos em avaliação como importantes instrumentos de controle das infestações naturais por C. hominivorax, sendo que o uso desses medicamentos facilita as práticas de manejo, sobretudo em bovinos submetidos a procedimentos usuais de castração.

INTRODUÇÃO


A mosca Cochliomyia hominivorax (Coquerel, 1858) é responsável por causar a miíase cutânea primária nos animais domésticos e silvestres, constituindo-se em um sério problema sanitário nos países da América do Sul. Nos animais domésticos, especialmente bovinos e ovinos, os procedimentos de manejo, como castração, descorna, assinalação, entre outros, são atrativos para a realização de postura dessa mosca, pois qualquer solução de continuidade na pele dos animais torna-se um alvo para esse comportamento. Também as miíases umbilicais constituem-se em uma preocupação permanente, exigindo atenção dos produtores, pois as perdas de terneiros devido às infestações podem ser altas acrescentando-se o fato de que infecções bacterianas secundárias podem ainda causar onfaloflebites e provocar mortalidade ou mesmo levar os animais a sequelas como paralisia de membros, ou artrites por contaminações secundárias (Moya-Borja, 2003).

Essencialmente, o controle desse tipo de miíase baseia-se na aplicação de inseticidas tópicos de curta persistência a base de organofosforados, piretróides, spinosad e fipronil, ou ainda na utilização de Lactonas Macrocíclicas (LMs) injetáveis. Dentre o grupo das LMs, a doramectina tem demonstrado ser o mais eficaz no controle dessa miíase (Oliveira et al., 1993, Moya-Borja et al., 1993, Lopes et al., 2009), com a vantagem de que os produtos injetáveis de ação prolongada facilitam o manejo do produtor e evitam a necessidade de repetições de tratamentos (Sanavria & Muniz, 1996). Neste trabalho avaliou-se inicialmente a atividade preventiva de miíase por C. hominivorax em bovinos submetidos à castração e tratados comparativamente com três formulações de doramectina injetável.

METODOLOGIA

O experimento foi conduzido em uma propriedade rural localizada no município de Lavras do Sul, RS. Em uma primeira etapa, foram utilizados 60 bovinos com idade entre oito e doze meses, selecionados a partir de um lote inicial de 70 terneiros, pertencentes a raças com predominância de Hereford e cruzados europeus (Figura 1). Previamente ao tratamento, um dia antes do procedimento da orquiectomia, os bovinos foram contidos, identificados com brincos numerados na orelha esquerda e pesados, sendo alocados em 4 grupos experimentais, com 15 bovinos cada, utilizando-se um modelo de randomização baseado no peso individual. O Grupo I recebeu tratamento com solução salina estéril, via intramuscular, na dosagem de 1 ml/50kg, o Grupo II recebeu uma formulação comercial de doramectina 1%, injetável (Laboratórios Microsules), via sub-cutânea, na dosagem de 1 ml/50kg, o Grupo III, recebeu uma outra formulação comercial de doramectina 1% + ADE (Laboratórios Microsules), 1ml/50kg, sub-cutânea, e o Grupo IV foi tratado com doramectina injetável (de outra formulação comercial), via intra-muscular, na dosagem de 1 ml/50 kg.


Figura 1. Lote de bovinos sendo conduzidos para o experimento da castração. Fazenda Tabuleiro, município de Lavras do Sul, RS.

No dia zero (dia do tratamento), foi administrado anestésico local (Xylocaina 2%) e após uma incisão na bolsa escrotal, procedeu-se a castração pelo método cruento, conforme a ilustração contida na Figura 2. Ao longo do período experimental (15 dias), os animais foram mantidos em uma mesma pastagem, recebendo água ad libitum e suplementação mineral. As inspeções individuais das lesões escrotais de todo os animais foram realizadas diariamente pelo período de 15 dias após a castração (Figura 3).
Foi registrada a presença de massa de ovos de C. hominivorax e de larvas sobre os ferimentos, sendo que foram classificadas como ativas (presença de pelo menos uma larva viva de C. hominivorax) e identificadas por meio de registro próprio com o dígito “um” (1) ou não ativas (ausência de larvas vivas de C. hominivorax), registradas com o dígito “zero” (0). O mesmo procedimento foi adotado em relação à presença ou ausência de massa de ovos de C. hominivorax. As percentagens de eficácia foram calculadas utilizando- se a fórmula preconizada pela portaria 48/97 do MAPA (Brasil, 1997): 

Eficácia (%) = Miíases ativas no grupo controle - Miíases ativas no grupo tratado    x 100
                           ----------------------------------------------------------------------------------------
                                                           Miíases ativas no grupo controle 


Figura 2. Procedimento prévio a incisão do cordão testicular, utilizando-se do auxílio do emasculador como método para reduzir o processo hemorrágico.

Figura 3. Exame da lesão escrotal com vistas a observação de presença de ovos ou de larvas ativas de C. hominivorax.

 

Figura 4. Escroto de bovino tratado com a formulação Doramectina 1% (Laboratórios Microsules), seis dias após castração, observandose início de processo de cicatrização e ausência de larvas de C. hominivorax.


Figura 5. Bovinos pertencentes ao grupo controle (GI), aos treze dias após a castração, verificando-se presença de atividade larval, com hemorragia na lesão.


RESULTADOS E DISCUSSÃO


Na Tabela 1 encontram-se os dados evolutivos dos bovinos pertencentes aos grupos controle e tratados, onde se registrou a presença de ovos C. hominivorax entre os dias 3 e 15 pós-tratamento. A partir do 3º dia p.t. e até o último dia observado, sempre se registrou presença de ovos, sendo que no 9º e 15º dia p.t. foi quando mais se verificou bovinos com postura no grupo controle (7 e 8 bovinos, respectivamente). Nos grupos tratados, o maior número de bovinos com ovos foi detectado no 10º dia (GIV), onde se registraram 7 bovinos com ovos na bolsa escrotal. No GII (Doramectina 1%) o número máximo de bovinos observado com ovos foi 5 (11º dia p.t.) enquanto que no GIII ( Doramectina 1% + ADE), o número máximo (4) de bovinos com ovos foi constatado em 3 ocasiões (dias 9, 10 e 11 p.t.). As oscilações de temperatura ambiente no período do experimento (08/10/2009 e 24/10/2009), com registros de médias diárias que oscilaram entre 06º e 18ºC (dados locais), podem ter determinado a baixa atividade da mosca no período experimental. A presença de ovos foi detectada nos GI, GII e GIV em todas as ocasiões, enquanto que no GIII, não foram detectados ovos em 05 ocasiões (dias 4, 5, 13, 14 e 15 p.t. – Tabela I).

No grupo controle, a presença de larvas ativas foi constatada a partir do 4º dia, estendendo-se até o final das observações, sendo que o número de bovinos infestados diariamente variou entre 3 e 5 no período. No GII (Doramectina 1%), observou-se larvas entre os dias 5 e 8 (mesmo bovino – nº 55), enquanto que no GIII ( Doramectina 1% + ADE) foi observado um bovino, portando larvas ativas no dia 12 p.t., sendo que nesse mesmo bovino, a partir do dia seguinte, não se detectou mais atividade larval.
No GIV, a partir do dia 8 p.t., constatou-se larvas em 2 bovinos (nº 28 e 57) sendo que até o final, sempre se registrou larvas ativas em pelo menos 1 bovino nesse grupo. Os mesmos bovinos também apresentaram larvas ativas no dia seguinte, enquanto que o 57 continuou portando larvas ativas por mais um dia, tendo recidiva no dia 14 p.t. Além desses, os animais de nº 43 e 65 apresentaram larvas ativas nesse período, totalizando 4 bovinos que desenvolveram larvas viáveis no período. A partir do dia 6 p.t., iniciou-se o processo de cicatrização sendo que esta situação fica mais evidenciada nos bovinos tratados. Uma ilustração registrada no dia 13 (Figura 6) demonstra a evolução desse processo em um dos bovinos pertencentes ao GII. 

Na Figura 5 mostra-se o quadro apresentado por bovinos pertencente ao grupo controle, aos 13 dias após a castração, onde se registrou atividade larval com processo hemorrágico e consequente dificuldade de cicatrização. De um modo geral, a baixa incidência de ovos e larvas ativas verificada no grupo controle, provavelmente ocorreu em função das baixas temperaturas registradas no período do experimento, dificultando uma melhor avaliação do desempenho dos produtos em teste. Entretanto, os indicativos de desenvolvimento larval e a ausência de persistência da infestação na maioria dos bovinos tratados (especialmente no grupo tratado com Doramectina 1% + ADE e na seqüência, com Doramectina 1%) preconizam a utilização dessas formulações comerciais na prevenção de infestações naturais por C. hominivorax.

Tabela 1 – Presença de ovos na bolsa escrotal nos bovinos castrados e expostos a infestação natural por Cochliomyia hominivorax. Lavras do Sul, RS, Brasil.

Tabela 2 – Número de bovinos com larvas ativas e eficácia terapêutica de duas formulações utilizadas no tratamento de miíases escrotais em bovinos naturalmente infestados por larvas de Cochliomyia hominivorax. Lavras do Sul, RS, Brasil.

No desempenho comparativo das formulações comerciais avaliadas em relação ao controle das infestações naturais por C. hominivorax, registra-se que, com exceção do dia 12 p.t., a eficácia foi de 100,00% em todas as observações para o grupo de bovinos tratados com Doramectina 1% + ADE. Nos bovinos do GII (Doramectina 1%), a eficácia foi de 100,00% a partir do dia 9 p.t, sendo que a menor eficácia constatada foi de 66,66% (5ºdia), percentual registrado em função da baixa infestação do controle nessa data (3 bovinos). O uso de produtos químicos ainda é indispensável no tratamento das miíases (Moya-Borja, 2003) e medidas preventivas que evitem ferimentos nos animais associadas ao uso de produtos que evitem a postura ou o desenvolvimento das larvas são recomendações que devem sempre ser consideradas no manejo das miíases dos animais domésticos. Nesse contexto, a doramectina se inclui como uma importante opção para a prevenção e tratamento de bovinos infestados pela C. hominivorax.

CONCLUSÃO


O desempenho observado no grupo tratado com o Doramectina 1% + ADE (GIII), onde unicamente foi registrada a presença de larvas ativas no dia 12 p.t. em um único bovino, recomenda a utilização da formulação avaliada na prevenção das infestações por miíases no período pós-castração dos bovinos. Foi registrada a presença de larvas apenas em um bovino no grupo tratado com Doramectina 1% - Lab. Microsules (GII), durante 4 dias consecutivos, sendo que nos demais dias de observação, este fato não foi evidenciado. Esses resultados recomendam a indicação dos produtos em avaliação como importantes instrumentos de controle das infestações naturais por C. hominivorax, sendo que o uso desses medicamentos facilita as práticas de manejo, sobretudo em bovinos submetidos a procedimentos usuais de manejo como castração e descorna.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


Brasil, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Secretaria
da Defesa Agropecuária. Portaria 48 de 12/05/1997.

Lopes, W.D.Z.; Lima, R.C.A.; Santos, T.R.; Sakamoto, C.A.M.; Silva,
H.M.; Buzzulini, C.; Garcia, M.V.; Oliveira, G.P.; Costa, A.J. Avaliação
da eficácia preventiva da doramectina 3,5% contra larvas de
Cochliomyia hominivorax (miíases) em bolsas escrotais de bovinos
recém-castrados. A Hora Veterinária, 29 (6): 33-36, 2009.

Moya-Borja, G.E. ; Oliveira, C.M.; Muniz, R.A.; Gonçalves, L.C.B.
Prophylactic and persistent efficacy of doramectin against Cochliomyia
hominivorax in cattle. Vet. Parasit., 49, 95-105, 1993.


Moya-Borja G.E. Erradicação ou manejo integrado das miáses tropicais
das Américas? Pesq. Vet Bras., 23(32):131-138, 2003.


Oliveira, C.M ; Muniz, R.A.; Gonçalves, L.C.B.; Oliveira, L.O. Eficácia
de doramectina contra infestações induzidas por Cochliomyia
hominivorax (Coquerel, 1858) em bovinos no Rio Grande do Sul,
Brasil. Rev. Bras. Parasit. Vet., 2 (1), 7-10. 1993.


Sanavria, A. ; Muniz, R.A.; Eficácia profilática de doramectina contra
infestações naturais por Cochliomyia hominivorax (1858) em bovinos
após castração. Rev. Bras. Parasit. Vet., 5(1), 7-10, 1996.

 
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