Vacina contra a Doença de Gumboro no primeiro dia de vida do pintinho: paradoxo ou necessidade?

Publicado: 14/06/2021
Autor/s. : Carlos Tadeu Pippi Salle - Centro de Diagnóstico e Pesquisa em Patologia Aviária (CDPA) Faculdade de Veterinária Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

A doença infecciosa bursal (DIB), também conhecida como doença de Gumboro, é uma virose altamente contagiosa, ocasionada por vírus da familia Birnaviridae, gênero Avibirnavirus. as proteínas estruturais do vírus são denominadas de VP1, VPX, VP2, VP3 e VP4. A enfermidade acomete galinhas jóvens e a replicação do vírus nos linfócitos B pode causar severa imunodepressão.

Há dois sorotipos do virus da doença infecciosa bursal (VDIB), entretanto as cepas capazes de causar doença nas galinhas pertenecem ao sorotipo 1. Os efeitos imunossupressores são mais pronunciados quando a exposição ao virus ocorre nas primeiras 2-3 semanas de idade (ALLAN et al., 1972), período em que a Bolsa de Fabrício (BF) atinge seu desenvolvimento celular máximo (MÜLLER et. al., 2003). A infecção com o VDIB pode exacerbar infecções com outros agentes etiológicos e reduzir a capacidade da ave de responder a vacinações, pois o vírus compromete as respostas imunes humoral e celular das galinhas (SHARMA et al., 2000). Em condições de campo, diversas formas clínicas da DIB são observadas e vão desde uma leve imunodepressão até uma alta taxa de mortalidade (90-100%). A última é causada por cepas muito virulentas do VDIB, as quais emergiram na Europa no final dos anos 80 (CHETTLE et al., 1989). Ao mesmo tempo, cepas variantes antigênicas apareceram nos Estados Unidos (EUA) (SNYDER et al., 1988).

O VDIB é altamente contagioso, muito resistente e tem a tendência de persistir no ambiente apesar da adoção de medidas rigorosas de higiene. Por isso, a vacinação é inevitábel sob alta pressão de infecção e importante para proteger as aves nas primeiras semanas de vida. A estratégia para o controle da DIB em pintos é hiperimunizar as reprodutoras com vacinas com vírus ativo e com vírus inativado para que elas possam transferir altos títulos de anticorpos maternos às progênies. Embora a imunidade passiva promova boa proteção durante as primeiras semanas de vida, a proteção continuada contra a DIB deve ser mantida pela administração de uma vacina viva antes que os anticorpos maternos atingam níneis de subproteção. Todavia, os anticorpos maternais podem neutralizar o vírus vacinal e desse modo reduzir a carga antigênica necessária para gerar adequada imunidade. Diferentes vacinas vivas têm sido desenvolvidas e classificadas como "suaves", "intermediárias" e "fortes", de acordo com seu grau de virulência. Vacinas suaves são seguras em galinhas specific pathogen free (SPF), mas sua eficácia na presença de altos títulos de anticorpos maternais e contra cepas muito virulentas do VDIB é pobre. A eficácia de vacinas intermediárias e fortes é muito melhor, mas elas induzem de moderadas a severas lesões bursais em aves SPF. Por outro lado, a introdução maciça de vírus vacinal nas granjas exerce uma pressão de seleção favorecendo o aparecimento de variantes do vírus (Hsieh, Wu, and Lin, 2010). Assim, novas vacinas têm sido desenvolvidas recentemente, como é o caso das vacinas complexo-imune e recombinante. A vacina recombinante tem como premissa utilizar um vírus vetor para carregar e espressar a proteína imunogênica VP2 do VDIB, induzindo, mesmo na presença de imunidade passiva, a produção de anticorpos específicos contra a DIB. A vacina complexo-imune, por sua vez, tem como inocação, em relação as vacinas vivas convencionais, o fato de o vírus vacinal ser recoberto por anticorpos específicos capazes de retardar seus efeitos patológicos por até uma semana, período estimado para que ocorra uma queda acentuada no nível de anticorpos maternos.

A vacinação de DNA é uma abordagem alternativa para a prevenção e controle da doença. Esta vacina envolve a injecção de DNA de plasmídeo portador de um gene codificado para um tipo de antígeno ou proteínas virais. A vacina não contem vírus intacto, prevenindo problemas associados com vacinas convencionais, tais como reverssão da virulência, surgimento de mutantes e contaminação ambiental. A vacinação com DNA tem demonstrado induzir um largo espectro de resposta imune incluindo humoral e/ou imunidade celular e conferir proteção contra o desafio (CHEN et al., 2011; HSIEH et al., 2010)

A proteção das aves contra uma infecção nos primeiros dias de vida é essencial e a vacinação tem um papel crucial no controle da doença, pois os anticorpos maternos são usados efetivamente na prevenção da infecção. As galinhas reprodutoras imunizadas com vacinas inativadas promovem a transferência dos anticorpos para a progênie protegendo-a durante as primeiras semanas de vida, quando então as vacinas vivas são usadas para prevenir a doença. O vírus não infecta o homem e por isso não tem significância para a saúde pública (ETERRADOSSI; SAIF, 2008).

O surgimento das cepas variantes e altamente virulentas do vírus tem dificultado o controle da DIB. Até, aproximadamente, metade da década de 80, as cepas do vírus eram de baixa virulência, causando menos do que 2% de mortalidade, e eram satisfatoriamente controladas pela vacinação. Entretanto, a partir desse período, falhas em vacinações foram descritas em diferentes partes do mundo, verificando-se a emergência de cepas "muito virulentas" do vírus, as quais podem causar taxas de mortalidade acima de 50% nos lotes afetados. Nesse período, nos Estados Unidos (EUA), foi demonstrado que novos isolados do VDIB, causando surtos da doença subclínica em lotes vacinados, tinham sofrido mudanças antigênicas, detectadas pelo teste de vírus-neutralização (VN) cruzada, que os distinguiram em subtipos do sorotipo 1, contra os quais as vacinas elaboradas com cepas "clássicas" do vírus da DIB não eram satisfatoriamente protetoras (JACKWOOD; SAIF, 1987; SNYDER et al., 1988). Nessa época na Europa, os primeiro casos de doença aguda eram descritos (CHETTLE et al., 1989; VAN DEN BERG et al., 1991).

No ano de 1997, foi diagnosticada pela primeira vez no Brasil a forma altamente virulenta da DIB, em criações de aves de postura e corte no estado de São Paulo. Em posterior identificação, através da similaridade antigênica, genética e de patogenicidade, foi comprovada a semelhança com a cepa muito virulenta européia (DI FÁBIO et al., 1999; BERNARDINO & LEFFER, 2009). Atualmente no Brasil, a empresa Simbios Biotecnologia possui um protocolo de RT-PCR/RFLP capaz de tipificar cepas variantes, clássicas, muito virulentas e variantes brasileiras em 17 padrões (grupos) moleculares distintos do VDIB, por vezes referidos pela letra G (IKUTA et al., 2001) e o número do grupo genômico correspondente.

Nas infecções com essas cepas muito virulentas, os sinais clínicos são similares aos produzidos pelos vírus "convencionais", porém mais severos e exacerbados, além da alta mortalidade. Apesar de nenhuma mudança antigênica ter sido detectada, as cepas muito virulentas podem estabelecer infecção na fase de altos níveis de anticorpos maternos que até então protegiam as aves contra as cepas clássicas (VAN DEN BERG, 2000).

Moraes et al. (2005) em seus experimentos comparando esquemas de vacinação adotados por duas integrações avícolas verificaram que em uma delas os anticorpos maternos protegiam as aves contra o desafio com uma cepa altamente virulenta durante 12 dias e na outra as aves ficavam susceptíveis à infecção logo aos 7 dias de idade. Os autores verificaram, também, que as aves com imunicade materna eram capazes de resitistir ao desafio com cepa muito virulenta no mínimo por 7 dias, recebendo, ou não, a vacina no primeiro dia de vida Nos trabalhos realizados no CDPA, Salle (1989) utilizando pintos comerciais com anticorpos maternos e desafiados com uma amostra clássica do vírus (52/70), também observaram proteção até os 14 dias de idade das aves e Moraes et al., (1998) evidenciaram que as amostras de vacina não diferiam antigenicamente das amostras de campo, incluída a cepa muito virulenta classificada como G11 por IKUTA et al., (2001). Experimentos realizados com pintos livres de patógenos específicos, demosntraram que vacinas denominadas Intermediárias Plus e Fortes podem causar danos à bolsa de Fabrício histologicamente similares às causadas pelo vírus de campo (Moraes et al., 2004). Sendo assim, há muito tempo foi recomendado que os esquemas de vacinação deveriam seguir um planejamento adequado e levando em conta, desde a limpeza e desinfecção do ambiente, a escolha da melhor amostra vacinal, a tipagem das amostras incidentes no campo, as micotoxinas, outras doenças intercorrentes e o nível dos anticorpos maternos, que podem influenciar no desempenho das vacinações, tanto das reprodutoras como, principalmente, dos frangos de corte.

Merece destaque a informação de que a interação entre DIB e micotoxinas é muito frequente no campo. Está comprovado que a presença de aflatoxinas aumenta, enormemente, os danos causados pelo virus da DIB (CHANG; HAMILTON, 1982; OTIM et al.,2005)

Recentemente, Camilotti (2012) realizou no CDPA, experimentos com o objetivo de avaliar a patogenicidade e imunogenicidade de três vacinas comerciais contra a DIB: as vacinas recombinante, complexo imune e intermediária. Quatro grupos com 55 aves livres de patógenos específicos - specific pathogen free (SPF)- foram imunizados no primeiro dia e desafiadas aos 25 dias com a cepa muito virulenta G11 para verificar o grau de proteção conferido pelas vacinas. As aves foram examinadas, eutanaziadas e necropsiadas aos 25, 30 e 35 dias. As bolsas de Fabrício (BF) foram coletadas, pesadas, mensurado seu diâmetro e peso relativo e submetidas ao exame histopatológico para verificar a presença de lesões. As amostras de soro foram submetidas ao teste de ELISA para quantificação dos anticorpos contra a DIB. Aos 23 dias, as aves SPF foram submetidas à prova de hipersensibilidade cutânea à fitohemaglutinina para avaliação da imunidade celular após a vacinação. Os resultados mostraram que a vacina complexo-imune induziu a maior redução no peso relativo e diâmetro e o maior grau de lesões nas BF em comparação com as demais vacinas. A vacina recombinante, como esperado, foi a que apresentou os melhores resultados, preservando a integridade celular das BF. As análises sorológicas, antes do desafio, revelaram que as três vacinas testadas induziram com a mesma intensidade a imunidade humoral das aves SPF, apresentando títulos de anticorpos similares. A avaliação da imunidade celular mostrou que a resposta celular à fitohemaglutinina das aves SPF imunizadas com as vacinas recombinante e complexo imune foi menor do que as aves do grupo não vacinado. Nas condições em que o experimento foi conduzido verificou-se que a vacina complexo-imune é a mais patogênica, causando os maiores graus de atrofia nas BF após 25 dias da vacinação. Todas as vacinas, quando administradas no primeiro dia, foram eficazes em proteger as aves SPF contra o desafio com a cepa muito virulenta G11.

Referências bibliográficas

 
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