Racões Frangos Clostridium Perfringens

A importância do controle microbiológico em rações para frangos de corte frente à contaminação por Clostridium perfringens

Publicado: 01/11/2010
Autor/s. :

1 INTRODUÇÃO

A sustentação do mercado de carnes de aves e seus produtos industrializadosestão associados com a garantia de qualidade e o fornecimento dos alimentos segurossem riscos a saúde do consumidor. As restrições diante à presença de microrganismospatogênicos na cadeia de produção avícola é abrangente e consolidada através delegislações próprias. O controle microbiológico de alimentos destinados as avesavançam com regulamentações e estudos próprios que apontam os impactos àsanidade, a produtividade animal e principalmente sobre a segurança dos alimentos.Dados do FDA (Food and Drug Administration - EUA), publicados em 2009,apontam que ocorrem anualmente cerca de 82 milhões de casos de toxi-infecçõesalimentares, as quais 350 mil casos necessitam de internações hospitalares,promovendo cerca de 8 mil mortes.

Nesse levantamento estatístico verificou-se quase800 tipos diferentes de alimentos como fontes de transmissão, entre eles os produtosde carne de frango, ovos e derivados. LONGO et al (2010) destacou em revisão que,dos tipos e incidência de doenças alimentares em humanos, quase 66% sãoprovocadas por microrganismos como as bactérias. JAY (2005) menciona que em 1985foram registrados 8 surtos nos EUA, envolvendo 882 pessoas e duas mortes porgastroenterite alimentar causada por C. perfringens. Em estudo realizado nos EstadosUnidos em 1987, estimou-se que em 10 mil casos causados pelas toxinas desse tipo debactéria, poderse-ia contabilizar cerca de 100 mortes e o envolvimento de custos emtorno de US$ 1 milhão (BUZBY e ROBERTS, 1995).

Dentre as diferentes vias de transmissão de bactérias para as aves, as raçõesapresentam-se como uma via comum para entrada de diferentes bactérias patogênicasque podem causar desde efeitos clínicos e/ou sub-clínicos, com prejuízos nodesempenho das aves e consequentemente perdas econômicas. Observa-se que oprincipal fator está relacionado com a segurança dos alimentos elaborados paraconsumo humano a partir de animais potencialmente infectados. Muitas dessasbactérias desenvolvem-se ou habitam normalmente o conteúdo intestinal das aves,tornando-as portadoras sintomáticas ou assintomáticas como é o caso da Salmonellasp e o C. perfrigens (LONGO et al, 2010). 

Na literatura são encontradas diversas comprovações entre a presença demicrorganismos na ração e consequentemente nos animais, como em frangos de corte(DAVIES et al 1995 e 2001). A relação entre os altos níveis de contaminação porbactérias em rações tem cito reportada com perdas de produtividade em aves e comoum vetor de bactérias, como a Salmonella (CORRY et al, 2002; SHIROTA et al, 2001;BASTIANELLI e LE BAS, 2002;) e o Clostridium perfringens (SCHOCKEN-ITURRINO &ISHI, 2000).

Dessa forma, observa-se a necessidade de estudo do levantamento do níveldessa contaminação e avaliação das diferentes estratégias adotadas pelas fábricas derações para controle de C. perfringens em alimentos destinados a alimentação defrangos de cortes. 

2 IMPORTÂNCIA DO CLOSTRIDIUM PERFRINGENS NA AVICULTURA

O C. perfringens é um microrganismo em forma de bastonete, gram-positivo emculturas jovens, medindo de 2 a 6 μm de comprimento por 0,8 a 1,5 μm de largura.Normalmente ele pode ser encontrado isolado ou em pares, e algumas vezes,formando cadeias curtas. Trata-se de um microrganismo anaeróbio que não requercondições de anaerobioses tão estritas como os outros clostrídios para crescer,apresentando bom desenvolvimento em meios de laboratório a temperaturas entre37°C e 47°C, e ótima em 43°C. O C. perfringens produz esporos com forma oval naposição central e subterminal da bactéria; em meios artificiais a esporulação éfavorecida pela adição de amido solúvel (SCHOCKEN-ITURRINO & ISHI, 2000).As bactérias denominadas por C. perfringens são classificadas como tipostoxigênicos A, B, C, D ou E com base na produção de quatro toxinas principais: alfa,beta, épsilon e iota.

Os tipos A e C são responsáveis pelo quadro de infecção entérica,conhecida como enterite necrótica aviária (ENA), manifestando-se nas formas clínica ousubclínica, em aves domésticas e silvestres, comprometendo principalmente animaisjovens (SCHOCKEN-ITURRINO & ISHI, 2000). Algumas estirpes de C. perfringenspossuem propriedades de serem menos enterotoxigênicas. Além disso, cepas mutantesou não patogênicas, de baixa virulência, podem fazer parte da microbiota normal dointestino. O isolamento de C. perfringens em amostras de fezes de frango nem sempreestá relacionado com a ocorrência da doença clínica e subclínica de enterite necrótica.GIL de los SANTOS et al (2007) mencionou que o C. perfringens é classificadoem cinco sorotipos em função das toxinas maiores, sendo os sorotipos A e C,produtores de toxina alfa e beta, respectivamente, sendo considerados os agentescausadores da doença enterite necrótica aviária, no entanto sua participação ainda nãoé totalmente esclarecida. Diversos autores (ENGSTRÖM et al., 2003; NAUERBY et al.,2003; JOHANSSON et al., 2004; HEIKINHEIMO e KORKEALA, 2005;GHOLAMIANDEKHORDI et al., 2006), analisando por meio de detecção por reação emcadeia da polimerase (PCR) em amostras onde foram isolados o gene codificador datoxina  (alfa) do sorotipo A em amostras de frangos de cortes, fígado e instetino, concluíram que o agente causador da enterite necrótica aviária (ENA) é a bactéria C.perfringens sorotipo A.

A bactéria C. perfringens produz esporos com forma oval na posição central esubterminal, seus sorotipos tipos A e C sobrevivem à temperatura de 100°C por maisde uma hora. Estes esporos em ambiente resistem às radiações solares, ao calor e àdesidratação durante anos. Para garantir sua destruição é necessária a exposição auma temperatura de 115°C por 4 minutos sob atmosfera de pressão (JAY, 2005).C. perfringens pode ser encontrado em conteúdo intestinal, fezes, solo, raçãocontaminada, cama do aviário etc. Porém, na maioria dos surtos de ENA, a ração ecama do aviário foram às fontes principais de infecção, sendo que SCHOCKENITURRINO& ISHI (2000) observaram desde a ausência de contaminação em farinhasde origem animal e até mesmo contagens maiores que 104 UFC/g.

Acredita-se que,mesmo as farinhas de origem animal apresentando um baixo nível de contaminação porC. perfringens, podem servir de inóculo (ponto de partida) no intestino das aves paradar início a um quadro de ENA, dependendo dos fatores de predisposição a que essasaves estejam expostas. Portanto, manter um programa de análises microbiológicas emmatérias-primas de rações, tais como farinhas de origem animal (principalmente depenas e de carnes), são necessárias para o monitoramento do perfil de contaminação eo estabelecimento de padrões mínimos de qualidade desses ingredientes.ZANOTTO et al (2007) evidenciaram que o processo de cozimento do digestorde fábrica de farinhas de carnes em temperatura de 133°C por durante 20 minutos, foieficaz na eliminação da contaminação por C. perfringens, quando foi adicionado em suacomposição 10% de flotado industrial contaminadas com esta bactéria. No entanto, asfábricas de farinhas nem sempre atendem os parâmetros mínimos de controle e seusrespectivos limites críticos para eliminação da contaminação por esporos e célulasvegetativas. Mesmo respeitando todos os parâmetros de controle do processo deprodução, principalmente tempo e temperatura para o cozimento de farinhas de origemanimal, ainda assim, existem os riscos de re-contaminação quando não cumpridosrequisitos estabelecidos na Instrução Normativa nº 34 do MAPA (BRASIL, 2008).As drogas antimicrobianas, mais conhecidas como promotores de crescimento,que são adicionadas às fórmulas das rações na avicultura intensiva de corte no Brasil constituíam a principal ferramenta na prevenção da ENA. Entretanto, a partir de 2006,os países importadores de carne passaram a exigir a retirada dos antibióticos dasdietas dos frangos, com base em opiniões que apontam para os efeitos deletérios àsaúde humana, advindos dos resíduos destas substâncias na carne, que poderiamestimular a seleção de bactérias multiresistentes nas aves e ainda causar sériosproblemas para a saúde pública mundial (SOUZA, 2006).

A bactéria C. perfringens pode multiplicar, colonizar o epitélio intestinal e causarenterite necrótica em frangos de corte que não foram submetidos a umaantibioticoterapia profilática adequada, principalmente quando as aves são submetidasaos fatores predisponentes para o surgimento da doença, dentre eles a alimentaçãocom elevadas contaminações dessa bactéria ou associação com outros fatoresinvasivos como a presença de eimerias causadores de cocidiose. Ademais, o caráter dealta disseminação do C. perfringens pode constituir uma constante ameaça à sanidadedos criatórios comerciais de aves em todo o mundo. Para que a exportação de frangocorte do Brasil continue expressiva, principalmente visando países da União Européia,as medidas de prevenção da enterite necrótica deverão ir ao encontro das recentesnormas de comércio internacional para a retirada dos antimicrobianos das rações dosfrangos (VIEIRA, 2001) e utilização de ferramentas complementares para esse controle.

2.1 ENTERITE NECRÓTICA AVIÁRIA

A alta capacidade de produção da cadeia avícola foi conquistada em partes pelautilização de antibióticos na ração animal. A utilização desses antibióticos de maneiraindiscriminada ficou marcado pela responsabilidade de provocar resistência bacteriana,incluindo o Clostridium perfringens (JOHANSSON et al., 2004; MARTEL et al., 2004).Além disso, o C. perfringens oriundo de frangos de corte também pode ser transmitido ahumanos por meio da cadeia de produção dos alimentos (VAN IMMERSEEL et al.,2004), como foi observado e comprovado por SINGH et al. (2005), que isolaram abactéria de 70,4% de amostras de carne de frango obtidas em lojas de varejo na Índia.Esses fatos, entre outros, levaram a União Européia a banir, a partir de 2006, ouso de antibióticos como promotores de crescimento nas rações animais (COUNCIL OF EUROPEAN UNION, 2003), comprometendo a eficiência dos sistemas intensivos deprodução animal, sustentada em grande parte na utilização de antibióticos comopreventivos de doenças infecciosas. Uma das doenças mais afetadas por essa medidaé a enterite necrótica aviária (KALDHUSDAL & LOVLAND, 2002), um problemafreqüente (HOFACRE et al., 1998) e economicamente importante (ENGSTRÖM et al.,2003) em vários países.

A ENA é uma enterotoxemia aguda, que se apresenta em forma clínica ousubclínica (VAN IMMERSEEL et al., 2004), causada por C. perfringens A e C.Caracteriza-se por lesões ulcerativas e necrose confluente da mucosa do intestinodelgado e debilidade que se apresenta rapidamente. Afeta principalmente animaisjovens, entre duas e cinco semanas de idade, aparecendo subitamente, geralmenteassociada à imunossupressão, provocando morte rápida com elevada prevalência(SCHOCKEN-ITURRINO & ISHI, 2000). Embora, os casos de ENA não sejamreportados às autoridades sanitárias, é conhecido seu impacto negativo na produçãoavícola. Estima-se que nos Estados Unidos o custo dessa doença seja de mais de U$0.05 por animal (VAN DER SLUIS, 2000), podendo provocar prejuízos de até 33% naprodução, principalmente devido ao prejuízo na conversão alimentar das aves, àredução do peso vivo e ao aumento na condenação de carcaças.

O C. perfringens é um patógeno oportunista (FIORENTIN, 2006) presente nointestino das aves e no ambiente, inclusive na água (SARTORI et al., 2006). Coloniza oanimal nos primeiros dias de vida e causa doença principalmente em animais de duas acinco semanas de idade. Coccidiose tem sido considerada como um importante fatorpredisponente da ENA (VAN IMMERSEEL et al., 2004). CRAVEN et al. (2001)encontraram as maiores concentrações da bactéria em fezes de animais com duas equatro semanas de vida, decaindo na sexta semana e o isolaram, em trabalhosubseqüente, de paredes de aviários, ventiladores, comedouros, bebedouros,armadilhas para insetos e botas de operadores, com maior freqüência na primavera eno verão, demonstrando que a estrutura do aviário e seus equipamentos, assim como oincubatório, podem ser fontes de infecção de C. perfringens para aves (CRAVEN et al.,2001). Fatores ambientais, tais como qualidade da cama, densidade populacional elocal de criação, têm grande importância na multiplicação da bactéria e, conseqüentemente, são considerados fatores de risco para a ENA. OMEIRA et al.(2006) avaliaram as características microbiológicas de camas em diferentes sistemasde produção e observaram que poedeiras (0,25m2 ave-1) e frangos de corte (0,1m2ave-1) em sistema intensivo apresentaram concentrações menores de C. perfringensque criações não-confinadas (0,33m2 ave-1), sugerindo que animais em contato com osolo ingerem com maior número de esporos da bactéria que animais criadosexclusivamente sobre cama em ambiente controlado. McDEVITT et al. (2006)relacionaram o aumento da incidência de ENA à maior densidade animal, devido aoaumento da concentração de esporos na cama, associado a sua baixa qualidade(umidade e altos níveis de compostos nitrogenados), além do risco de dispersão porcontato direto ou aerossol.Ingredientes da ração também foram relacionados à doença. DEKICH (1998)aponta que o milho atuou como fator de proteção, e a cevada e o trigo como fatores derisco para a doença. Observações semelhantes foram feitas por ANNETT et al. (2002),ao comprovarem in vitro que as concentrações da bactéria em meio tioglicolatocontendo sobrenadantes não digeridos de cevada e trigo foram maiores que com milho,sugerindo que rações à base de cevada e trigo estimulariam a multiplicação do C.perfringens no trato gastrintestinal das aves.

O tipo, a concentração e as características das proteínas das rações tambémforam consideradas fatores predisponentes da ENA. DREW et al. (2004) comprovaramum aumento da concentração de C. perfringens A no íleo e ceco de galinhas quando aconcentração da farinha de peixe como fonte de proteína bruta foi aumentada de 230para 400g x kg-1, não ocorrendo o mesmo em animais alimentados com ração à basede proteína de farelo de soja, sugerindo que tanto o nível de proteína quanto à fonteprotéica utilizados na composição de rações afetam a multiplicação de C. perfringensno intestino. DAHIYA et al. (2005) relacionaram os efeitos das concentrações de glicinana ração sobre a população de C. perfringens no intestino e as lesões de ENA emfrangos de 28 dias de idade desafiados com o microrganismo, constatando que asmaiores concentrações da bactéria no ceco foram obtidas com rações contendo de 3,3a 3,9%, e que as lesões intestinais variavam de grau zero a quatro nos grupos quereceberam 3 e 4% de glicina.

Insetos também podem servir de veículo do agente. DHILLON et al. (2004)reportaram um surto de ENA em galinhas poedeiras de uma granja recém-construída.Durante investigação constataram a presença de moscas no conteúdo do papo dosanimais mortos e nos comedouros, além de isolado a presença de C. perfringens nosmacerados de moscas capturadas nos galpões afetados.

Os autores sugerem que osurto foi conseqüência da ingestão do C. perfringens presente nas moscas ou suassecreções, considerando esses insetos vetores mecânicos na transmissão da bactéria.VITTORI et al. (2007) isolaram C. perfringens de 100% de 40 amostras de besourosadultos Alphitobius diaperinus ("Cascudinho") capturados em granjas avícolasindustriais de Descalvado e Sertãozinho, SP, Brasil, sugerindo que o Cascudinho podeser um vetor potencial da veiculação do C. perfringens.A enterite necrótica subclínica em frangos está diretamente relacionada com adiminuição da taxa de crescimento e da eficiência alimentar (SCHOCKEN-ITURRINO &ISHI, 2000). 

2.1.1 Patogenia

A ENA é causada pela ação de toxinas produzidas quando, em condiçõesfavoráveis, há rápida multiplicação de C. perfringens no intestino delgado (SCHOCKENITURRINO& ISHI, 2000). As lesões características da ENA são produzidas pela toxinaalfa (WILLIAMS, 2005), a qual vem sendo associada com a doença, sendo consideradao principal fator de patogenicidade da bactéria (GIL de los SANTOS et al, 2007) quedestrói a membrana celular de enterócitos devido a sua propriedade de fosfolipase, quepossui dois domínios, o C-terminal, que penetra na membrana celular sendoresponsável pela fixação da proteína na célula, e o N-terminal, que desempenha afunção enzimática propriamente dita e hidrolisa os fosfolipídios das membranascelulares separando as porções polar e apolar, formando di-acil-glicerol e ácidofosfatídico, provocando a lise da membrana celular (SAKURAI et al., 2004).HOFSHAGEN & STENWIG (1992) demonstraram que C. perfringens isolados de casosde ENA produziram títulos maiores de toxina a alfa que cepas isoladas de animais sadios. Reforçando o conceito de que esta toxina é o principal fator de patogenicidadena ENA.

2.2.2 Controle 

Segundo Gil de los Santos (2007), o controle da ENA foi baseado nas últimasdécadas pela administração de antibióticos na ração, porém com as restrições de usodecretada pela União Européia, foi necessário uma busca de outras alternativas paracontrolar a doença, assim como o uso de prebióticos, enzimas, alimentos funcionais,probióticos e vacinas, esses dois últimos sendo de grande interesse de estudo paracontrole da ENA. 

2.2.3 Probióticos

Probióticos são suplementos alimentares compostos de microrganismos vivosque beneficiam a saúde do hospedeiro por meio do equilíbrio da microbiota intestinal(FULLER, 1989; KAUR et al., 2002). Sua aplicação na indústria avícola vem sendoamplamente estudada nos últimos anos, tanto para o controle de doenças quanto porseu efeito na eficiência alimentar (GIL de los SANTOS & GIL-TURNES, 2005).HOFACRE et al. (1998) observaram que o produto comercial, constituído pormicrobiota polibacteriana de aves, reduziu a incidência de ENA em frangos de corte. LARAGIONE e WOODWARD (2003) comprovaram que a administração de esporosviáveis de Bacillus subtilis a aves livres de patógenos específicos desafiadas com C.perfringens reduziu o número de patógenos no baço, no duodeno, no cólon e no ceco erelataram resultados similares com um probiótico de Lactobacillus johnsonii (LARAGIONE et al., 2004). TEO e TAN (2005), por sua vez, demonstraram que B. subtilisinibiu o crescimento de C. perfringens em cultivo associado. HAGHIGHI et al. (2006)demonstraram que um probiótico comercial contendo Lactobacillus acidophilus,Bifidobacterium bifidum, e Streptococcus faecalis estimulou a produção de IgA antitoxina de C. perfringens no intestino de pintos não-vacinados. 

2.2.4 Vacinas

Aves que sobreviveram à ENA ficaram imunes, sugerindo que a imunidade podecontrolar a doença (PRESCOTT, 2000). LOVLAND et al. (1999) demonstraram, pelaprimeira vez, que progênies de matrizes imunizadas com um toxóide de C. perfringensapresentaram títulos de antitoxina significativamente superiores aos controles, assimcomo menor porcentagem de animais com lesões de ENA. Porém, a produçãoindustrial de toxóides de C. perfringens é um processo laborioso (GIL de los SANTOSet al., 2007). A clonagem do gene da toxina  em Escherichia coli e a produção devacinas contendo toxina  recombinante abriram uma nova perspectiva de produçãoindustrial de antígenos de Clostridium.KULKARNI et al. (2006) vacinaram animais com a toxina  nativa e comproteínas recombinantes secretadas de C. perfringens (piruvatoferridoxinaoxidoredutase;gliceraldeido-3-fosfato dehidrogenase; frutose 1,6-bifosfatoaldolase e uma proteína hipotética), comprovando que todas as vacinas apresentaramefeito protetor frente a um desafio moderado, e que frente a um desafio severo a toxina apresentou o melhor resultado, reafirmando sua importância tanto na patogenia do C.perfringens, quanto na imunidade a esse patógeno. Entretanto, ao tentarem produzir atoxina  recombinante, concluíram que a mesma pareceria ser tóxica para E. coli.Nosso grupo, porém, logrou produzir toxina  recombinante em E. coli que protegeucamundongos frente ao desafio com mais de 10 DL50 de toxina nativa e imunizoupintos vacinados aos sete dias de idade (GIL de los SANTOS, 2007). 

3 A PRESENÇA DE CLOSTRIDIUM PERFRINGENS EM INGREDIENTES E RAÇÕESDESTINADOS A ALIMENTAÇÃO DE FRANGO DE CORTES

Os ingredientes e rações animais apresentam frequentemente a contaminaçãopor Salmonella sp. Destaca-se como fonte principal para a contaminação dosingredientes, grãos e sementes oleaginosas, o próprio pó ambiental que provém do solode cultivo através do vento, da chuva e do processo de retirada mecânica no campo.Os insetos, roedores e aves selvagens também podem contaminar grãos após acolheita, durante o transporte e no armazenamento. Os ingredientes vegetais e cereaispodem entrar em contato direto com desafios ambientais durante o plantio, colheita,armazenagem e no próprio transporte (LONGO et al, 2010)No caso dos ingredientes de origem animal, que são compostos a partir derestos de animais e sangue que são considerados impróprios para o consumo humano,mas que detém alvo valor nutricional na composição de rações, apresentam altos níveisde contaminação por microrganismos.

As condições ótimas de crescimento (i.e. tempoe temperatura) que são encontradas nas fábricas de farinhas, associado aoprocessamento inadequado das mesmas e a própria contaminação presente noambiente da fábrica que passam a servir de fatores de risco de recontaminação doproduto final. Em estudo realizado em 2005 pela União Européia verificou-se que asfarinhas de origem animal estavam contaminadas por Salmonella, em nível de 14,9%de positividade (ANON, 2007).Em estudo conduzindo na Espanha, PRIÓ et al (2001) apontaram o nível decontaminação por Clostridium sp nos principais ingredientes para nutrição animal.(Tabela 1).Em amostras de farinhas de origem animal, sendo vísceras, penas e carnesutilizadas para composição de rações para aves, analisadas quanto à contaminação porC. perfringens, encontrou-se contagens que podem chegar até 3,2 x 104 UFC/g(SCHOCKEN-ITURRINO & ISHI, 2000).Em um levantamento em que foram analisadas 2049 amostras entre ingredientesde origem vegetal e animal, utilizados na formulação de rações de frangos e suínos nos EUA, RICHARDSON (2008) observou a presença da bactéria C. perfringens e emníveis variados de contaminação, entre 10 UFC/g até 2000 UFC/g (Tabela 2). 

TABELA 1: Incidência (%) de contaminação por Clostridium sp em diferentes ingredientespresentes na Espanha. 

TABELA 2: Incidência de C. perfringens em ingredientes utilizados em rações de frangos e suínosnos EUA. 

 

A principal fonte de contaminação das rações pode estar associada com ospróprios ingredientes, que podem abrigar uma grande variedade de microrganismos, osquais são extremamente resistentes a condições de baixa umidade e podem sobreviverpor um longo período de tempo, mesmo em condições de controle de temperatura e donível de poeira ambiente (LONGO et al, 2010).

Em levantamento conduzido em três diferentes municípios do estado de SãoPaulo, SCHOCKEN-ITURRINO (2008) observaram que dentre 90 amostras de ração defrango de corte analisadas, 42% estavam contaminadas por C. perfringens, sendo quea média de contagens foi de 3,69 x 102 UFC/g, associando as altas contagens com falhas de Boas Práticas de Fabricação, falta de higiene na produção e poucos cuidadosno armazenamento das rações. LONGO et al (2010) aponta que a capacitação e aconscientização dos operadores das fábricas são fundamentais para redução dos riscose contaminação microbiológica dos alimentos fornecidos para as aves.RICHARDSON (2007) analisou a presença de diferentes microrganismos nasrações em diferentes fábricas e observou que o nível de contaminação das raçõescoletadas no silo da granja foi sempre maior que o nível de contaminação de raçõescoletadas na fábrica (Tabela 3).O estudo aponta que as estratégias adotadas dentro das fábricas de ração paracontrole da contaminação microbiológica não asseguram ausência ou baixas contagensde bactérias e fungos até o comedouro da granja no momento da alimentação dasaves. Por isso, justifica-se a adoção de estratégias que tenham efeito de proteçãoresidual e até mesmo a extensão de estratégias de controle do nível de contaminaçãoaté o destino final da ração que é o comedouro das aves. 

TABELA 3: Contaminação microbiológica de rações em quatro diferentes fábricas de raçõesavaliadas na expedição e no silo da granja. 

4 O CONTROLE DA BACTÉRIA CLOSTRIDIUM PERFRINGENS EM RAÇÕES DEFRANGO DE CORTE

As principais estratégias para a redução e eliminação de microorganismos emrações de frango de corte consideram a Salmonella sp como a principal bactéria a sercontrolada em rações através de programas de qualificação dos fornecedores dosingredientes, controle de processos através das ferramentas de BPF (Boas Práticas deFabricação) e APPCC (Análises de Perigos e Pontos Críticos de Controle), tratamentotérmico rações e químico aplicados durante o processo de produção. Deve-seconsiderar que todas as estratégias adotadas nas fábricas são semprecomplementares, ou seja, nenhuma ferramenta isoladamente é 100% eficiente parapermitir um controle microbiológico eficiente (WALES et al, 2010).

Os princípios do programa de Boas Práticas de Fabricação em alimentosdestinados para animais, de acordo com a Instrução Normativa n°04 do MAPA(BRASIL, 2007) são considerados requisitos mínimos necessários para controlemicrobiológico. A União Européia avança em direção da proteção dos alimentos paraanimais, com a publicação do REGULAMENTO (CE) Nº 183/2005 que direciona adoçãodo programa APPCC em fábricas de rações visando garantir alimentos em níveismicrobiológicos seguros protegendo a sanidade e produtividade do plantel animal eindiretamente contribuindo com a saúde pública.O tratamento térmico, como a peletização, expansão e extrusão, tem sidoapresentado por diversos autores como ferramenta para reduzir a incidência de fungose bactérias em rações, incluindo a Salmonella (TABIB et al,1984; STOTT et al, 1975;VELDMAN et al, 1995; BEST, 2007; EFSA, 2008). A eficiência da peletização équestionável, pois é dependente do nível de contaminação no início do tratamentotérmico, além do tempo, temperatura e a umidade da ração (Tabelas 4 e 5). Com isso,a peletização não deve ser considerada como um método absoluto para controle dacontaminação por microrganismos na ração. 

TABELA 4: Efeito da temperatura de peletização no nível de contaminação por Enterobactérias eSalmonella sp em rações peletizadas. 
 

TABELA 5. Efeito do tempo, temperatura e umidade na peletização sobre a eliminação deSalmonella enteritidis na ração.
 

O processo de irradiação foi aprovado pelo FDA (Food and Drug Administration)nos Estados Unidos em 1996 para controle de Salmonella em rações, apresentando100% de efetividade, porém o custo de aplicação dessa estratégia em ração é inviáveleconomicamente para a cadeia de produção de rações (HOUSTON et al 1992).

Apesar das estratégias que utilizam o tratamento por calor reduzirem aincidência de bactérias e fungos nas rações, essas práticas de processamento nãoapresentam nenhuma proteção residual contra recontaminações em fases posterioresdo processo produtivo, assim como resfriamento e expedição das rações peletizadas(JONES e RICHARDSON, 2004; SHRIMPTON, 1989). 

PRIÓ et al (2001) estudou a relação existente entre a contaminação presente emingredientes por Salmonella sp e Clostridium sp e a presença desses microrganismosna ração final, tanto na forma farelada ou peletizada. No caso da Salmonella sp,observou-se uma correlação positiva significativa entre a positividade nos ingredientese a ração farelada. Entretanto, para as rações peletizadas nenhuma correlação foiobservada, a peletização foi eficiente para controlar a contaminação por Salmonella sp.Apesar de estudos apresentarem alguns serovares de Salmonella termo-tolerantes,parece que a contaminação encontrada nas rações peletizadas foi resultado darecontaminação em fases posteriores ao tratamento térmico.Quanto ao Clostridium sp não foi observada nenhuma correlação entre aincidência de contaminação nos ingredientes com a contaminação na ração, tanto emrações fareladas quanto peletizadas. Ou seja, a contaminação por Clostridium sp podeestar associada à capacidade de formação de esporos e sua resistência a agressõestérmicas, com as temperaturas encontradas no processo de peletização em torno de 70à 90 °C (PRIÓ et al, 2001).

As fábricas de rações que não possuem processamento térmico das rações emantém estratégias de fornecimento de rações farelada comprometem a qualidademicrobiológica das rações sendo uma fonte direta de transmissão de C. perfringenspara os animais. Para essas fábricas que mantém o fornecimento de rações fareladas,outra opção viável para controle microbiológico em rações é a utilização de agentesquímicos, como os produtos formulados a base de formaldeído e ácidos orgânicos.Diversos produtos químicos estão disponíveis e são citados na literatura para ocontrole da contaminação por Salmonella sp e outros microrganismos indesejáveis,desde ácido acético, ácido propiônico e seus sais, ácido cítrico, etanol, formaldeído,ácido fórmico, álcool, acetato de zinco e propionato de zinco (MARTIN e MARIS, 2005;RICKE, 2005).

A eficiência desses compostos é muito variável (SKRIVANOVA et al,2006) e esses agentes bactericidas devem ser estáveis até o momento de consumopelo animal, mas devem ser metabolizados e não absorvidos evitando resíduos emcarne e ovos dos animais que receberam o tratamento (EFSA, 2008). 

KAISER (1992) conduziu estudos com produtos à base da mistura deformaldeído e ácido propiônico e verificou que a dosagem de 0,2% foi efetiva paraprevenir a recontaminação de farinha de peixe por Salmonella senftenberg. Estudoscientíficos têm demonstrado que o formaldeído apresenta um alto nível de atividadedesinfetante contra a maioria das bactérias e é considerado o composto mais eficientepara ser utilizado em estratégias de desinfecção de granjas que foram contaminadaspor Salmonella sp (DAVIES e WRAY, 1995).

Vários estudos têm comprovado aeficiência maior do formaldeído para descontaminação de rações quando comparadosa produtos formulados a base de ácidos orgânicos (MOUSTAFA et al, 2002).Algumas opções de produtos comerciais contêm misturas de formaldeído, ácidopropiônico e outros agentes dispersantes, esse tipo de combinação tem apresentadoresultados muito satisfatórios para descontaminação de rações que foram inoculadasartificialmente com Salmonella sp, quando comparados com outros tipos de produtosquímicos (CARRIQUE MAS et al, 2007).Os produtos a base apenas de formaldeído possuem um fator limitante com avolatilização, sendo que essa característica de ser volátil e pode sofrer evaporaçãoapós a aplicação na ração (KHAN et al, 2003). Por isso, alguns produtos comformaldeído também contém ácidos (ácido propiônico) e outros compostosantimicrobianos como os terpenos (CARRIQUE MAS et al, 2007). Esse tipo decombinação tem efeito sinérgico e permite que baixas doses de formaldeído e ácidossejam aplicados para descontaminação das rações e minimizem problemas de perdasdesses princípios ativos para o ambiente e corrosão dos equipamentos.

Outra característica dessa combinação de produtos é a possibilidade de aplicação na formaliquida partir de equipamentos especiais instalados nas fábricas de ração, enquantoque misturas de produtos na forma de pó necessitam de adaptações na estrutura dafábrica para evitar a corrosão e a adoção de procedimentos especiais de segurança,para um correto e seguro procedimento de manipulação e fracionamento para ainclusão correta na ração (EFSA, 2008).Em um ensaio laboratorial, RICHARDSON (2008) observou que a utilização de0,2% de um produto comercial a base de formaldeído e ácido propiônico reduziu acontaminação por células vegetativas de Clostridium sp em rações fareladas (Tabela 6). 

Também foi observada a redução, mas não a eliminação total dos esporos de C.perfringens, devido a sua resistência a agentes químicos, mesmo o formaldeído sendoapontado com o único agente químico com ação esporicida (JAY, 2005). 

TABELA 6. Efeito do tratamento de rações fareladas com a combinação formaldeído: ácidopropiônico sobre a contaminação por Clostridium sp. 
 

Considerando amostras coletadas em condições de campo, verificou-se queníveis a partir de 0,3% são suficientes para eliminar a contaminação por Clostridium spem células vegetativas nas rações. No entanto, houve apenas redução do nível depresenças de esporos em Clostridium sp em cada um dos tratamentos que receberama inclusão da mistura de formaldeído e ácido propiônico, sendo que a dosagem com0,3% em rações fareladas apontaram os melhores níveis esporicidas, com reduçãomaior que 88% em comparação ao tratamento controle (RICHARDSON, 2008).Após o processamento através do tratamento químico, RICHARDSON (2008),prosseguiu as avaliações com rações que foram submetidas também aoprocessamento térmico visando um efeito combinado, os resultados são apontados naTabela 7. Este processo é reconhecido na microbiologia de alimentos, como teoria outecnologias de barreiras, onde o controle de um determinado microrganismo alvo é feitocom a combinação de dois ou mais métodos intrínsecos e extrínsecos (JAY, 2005). 

TABELA 7: Efeito do tratamento com a combinação formaldeído: ácido propiônico sobre acontaminação por Clostridium sp em rações peletizadas coletadas sobcondições de campo. 

A partir de contagens de células vegetativas de Clostridium sp, RICHARDSON(2008) observou a presença de contaminação média de 23,4%, ou seja 31 células(UFC/g) em 111 amostras de ração peletizada sem a inclusão de produto a base damistura formaldeído: ácido propiônico. Nos tratamento com aplicação dessa mistura emníveis de 1 e 2 kg/t, foi observada uma redução significativa da positividade para 3,5%(9/258) e 1,6% (2/124), respectivamente. A ausência de células vegetativas foiobservada a partir da inclusão de 3 kg/t de ração.Quando nesse mesmo trabalho foi avaliado o nível de contagem de esporos deClostridium sp, foi identificada a presença de esporos em 28,8% (32/111) das amostrasde ração peletizada sem o tratamento químico. Nos tratamentos com 1 e 2 kg/t damistura de formaldeído: ácido propiônico, o nível de presença de esporos foi reduzidopara 7,4% (19/258) e 1,6% (2/124), respectivamente.

Com a dosagem de 3 kg/t deração foi observada uma redução de esporos mais significativa, sendo verificadoapenas 1,5% (1/68) de presença nas amostras avaliadas, não sendo possível observara eliminação total de esporos, diferentemente das células vegetativas, provavelmentedevido a resistência dos esporos as agressões físicas e químicas (JAY, 2005). 

4 CONCLUSÃO

O controle microbiológico em rações para aves vem sendo considerado cada vezmais relevante devido às exigências do mercado quanto à segurança dos alimentos emtoda a cadeia de produção.A restrição a utilização de antibióticos como promotores de crescimento naavicultura abriu espaço para o surgimento de bactérias de interesse como o C.perfringens que além das perdas econômicas como agente veiculador da enteritenecróticas em aves, também é importante na saúde pública.É possível identificar a presença da bactéria C. perfringens em alimentos paraanimais, sendo ainda pouco relatado na literatura, portanto é necessário um programade avaliação microbiológica constante e abrangente em ingredientes, principalmenteem farinhas de origem animal (vísceras, penas e carnes/ossos) e em rações parafrango de corte.

O tratamento térmico com temperaturas em torno de 70 à 90 °C, utilizadoisoladamente com única opção no controle microbiológico para redução de bactérias efungos, não se apresenta eficiente no controle de C. perfringens.O tratamento químico com formaldeído e acido propiônico e seus agentesdispersantes associado ao correto processamento térmico através da peletização derações elimina células vegetais e reduz a presença de esporos de C. perfringens nasrações.Neste sentido, devido as diversidade de ingredientes com fontes decontaminação por C. perfringens e sua característica biológica de formação deendósporos com resistência a agressões físicas e químicas é fundamental à adoção deum rigoroso programa de controle de qualidade que assegurem ingredientes combaixas contagens, possibilitando assim que as fábricas utilizem estratégias de controlecomo a peletização e tratamento químico, como alternativas eficientes em controlar acontaminação e o fornecimento de rações seguras aos frangos de cortes. 

 

 
remove_red_eye 3920 forum 0 bar_chart Estatísticas share print
Compartilhar :
close
Ver todos os comentários
 
   | 
Copyright © 1999-2019 Engormix - All Rights Reserved