Está na hora de entrarmos em uma nova fase no controle da doença de Gumboro?

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Estudos apontam que efeitos imunossupressores do vírus de Gumboro, sejam eles de campo ou vacinais, podem comprometer a proteção contra outras enfermidades, como salmonelose e bronquite aviária.

A doença de Gumboro já foi um dos principais vilões da avicultura brasileira, com direito a eventos exclusivos com palestrantes renomados para discussão da sua patogenia e controle. Atualmente, mais de 20 anos após os primeiros casos da forma clínica causada pelos vírus muito virulentos de Gumboro (vvIBDV), a situação é bem mais tranquila e levanta-se a possibilidade de uma nova fase no controle da enfermidade, a proteção ligada ao bem-estar animal.

Em 1997, quando a forma virulenta da doença de Gumboro surgiu no Brasil, só eram disponíveis vacinas intermediárias contra o agente. Mesmo com ações de biosseguridade e programas de vacinação intensos, as cepas disponíveis não eram capazes de controlar de forma eficiente o vvIBDV. Surgiram, então, as vacinas intermediárias plus e, posteriormente, as cepas vacinais fortes de Gumboro, entre 1999 e 2001. A partir daí, a enfermidade foi gradativamente sendo controlada e esses vírus vacinais mais virulentos passaram a predominar no campo.

Depois de alguns anos, em 2006, o controle da doença de Gumboro passou por um novo momento. A forma clínica começou a ser muito menos frequente, e o mercado migrou para opções que levassem conveniência por meio da vacinação em dose única, ainda no incubatório. Duas tecnologias passaram a dominar esse novo momento: vacinas vetorizadas, em que o gene que expressa a proteína viral (VP2) do vírus de Gumboro é inserido no vírus de Marek HVT, e vacinas imunocomplexos, em que um vírus vivo com cepa intermediária plus de Gumboro apresenta-se na forma de complexo ligado a anticorpos. Atualmente, mais de 90% das aves no Brasil são imunizadas com vacinas levando essas tecnologias.

Várias publicações já demonstravam que vírus vacinais mais virulentos de Gumboro, como intermediário plus, afetam a resposta humoral a outras vacinas como bronquite, Newcastle e EDS, e isto está relacionado à destruição de linfócitos B presentes na bolsa de Fabrícius. Contudo, novos estudos* apontam que, da mesma forma que ocorre com vírus de campo, os vírus vacinais do tipo intermediário plus comprometem também a resposta celular e aumentam a ocorrência de outras enfermidades. Uma dessas avaliações mostra que aves vacinadas com vacinas intermediárias plus de Gumboro apresentaram quase três vezes mais isolamentos de salmonela em fígado, 21 dias após a vacinação. O vírus de Gumboro causa uma imunossupressão direta pela necrose e apoptose de linfócitos B e, posteriormente, uma imunossupressão indireta pela inibição da mitogênese de células T, além de macrófagos, que são importantes para proteção contra agentes como a salmonela.

Diante das novas informações, levanta-se a reflexão sobre o uso inteligente das vacinas disponíveis no mercado. Situações como o uso do primeiro ciclo de criação em uma cama nova de frangos ou desafios muito agressivos, podem requerer o uso de vacinas vivas, contudo, na maioria das situações, vacinas vetorizadas apresentam excelente proteção, sem qualquer injúria ao sistema imune. A eficácia das vacinas vivas, sejam convencionais ou imunocomplexos, no controle da doença de Gumboro é inquestionável, contudo, chegamos a um momento de avaliar se o desafio de campo requer o uso de cepas virulentas como rotina.

Diante da disponibilidade de diferentes tecnologias no mercado, ressalta-se a importância do médico-veterinário em conhecer a situação epidemiológica da doença de Gumboro de cada região. A atual reflexão não é mais qual a melhor vacina contra a doença, e sim, qual o melhor programa integrado, visando não somente à proteção contra uma enfermidade, mas à preservação do sistema imune das aves para a expressão máxima do seu potencial genético.

Alberto Inoue é médico-veterinário, MSc, gerente de Marketing e Serviços da BI Fast – unidade de negócios de aves e suínos da Boehringer Ingelheim

Referências bibliográficas

 
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