Efluentes da produção animal

Tecnologias de tratamento de efluentes da produção animal

Publicado: 03/08/2010
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Introdução

A produção animal tem se modificado dramaticamente nas últimas décadas. A produção de subsistência e extensiva tem sido substituída por modelos concentrados em pequenas áreas demográficas e com aumento de escala. Este novo modelo, chamado de sistema de produção de animais confinados (SPAC), traz uma série de vantagens sob o ponto de vista de racionalização dos custos de produção e logística. No entanto, os SPACs aumentam as pressões ambientais sob o ponto de vista de utilização de recursos naturais e geração de resíduos em áreas restritas. Este cenário, que se reflete em diferentes partes do mundo, cria um novo paradigma no modo de pensar a produção animal. A gestão e tratamento de seus efluentes necessitam ser gerenciados e tratados não mais contemplando apenas o solo como única fonte e sumidouro para os resíduos, em função do binômio biofertilizante x planta ser cada vez mais difícil de ser equacionado. A sobreposição e concentração em microrregiões de duas ou mais cadeias produtivas também cria problemas de excesso de resíduos. No Sul do Brasil temos, por exemplo, a suinocultura, avicultura e a bovinocultura de leite ocupando muitas vezes a mesma bacia hidrográfica. Contudo, a gestão e tratamento de seus resíduos se dão de maneira fragmentada e isolada não contemplando a visão sistêmica e aditiva dos seus impactos.

Como e qual tecnologia de tratamento adotar?

Antes de escolher a tecnologia de tratamento a adotar é preciso conhecer o efluente, o manejo adotado no processo produtivo e o que pode ser feito para minimizar sua geração além de alternativas de disposição e valoração como biofertilizante. A pecuária brasileira ainda carece de uma evolução e do entendimento de conceitos sob o ponto de vista de tratamento de seus efluentes. Um deles, que é comum na produção animal, diz respeito ao conceito de ponta-de-tubo (end-ofpipe), em que o foco do efluente está apenas em seu tratamento, não existindo preocupação no que diz respeito a sua geração havendo inclusive um descolamento completo entre a produção animal e o manejo dos resíduos. Este conceito data da década de 70, e atualmente já se encontra ultrapassado, haja vista que esta abordagem reducionista pode repercutir técnica e economicamente sobre o tratamento, pois aborda apenas os efeitos e não as causas da geração dos resíduos.

Novos conceitos devem ser inseridos e entendidos pela produção animal como por exemplo, a produção mais limpa (P+L) que nada mais é que o foco na minimização do resíduo, otimização dos processos, racionalização do uso de matérias-prima, água e energia, ou seja, resíduo bom é aquele que não é gerado. Dentro do conceito de P+L, podemos exemplificar a redução do uso de água para lavagem das instalações, desvio de águas pluviais, desperdício com bebedouros que contribuem para a diluição excessiva das águas residuárias da pecuária. Outra estratégia que pode ser usada refere-se ao controle das dietas dos animais de tal forma que eles aproveitem e excretem menos nutrientes reduzindo a concentração e necessidade de tratamento. Quando as estratégias de minimização de resíduos tiverem se esgotado deve-se então partir para o seu gerenciamento visando-se sua disposição final ou tratamento (Figura 1).



Figura 1. Estratégias para manejo e tratamento de efluentes animais (adaptado de Higarashi e col. 2005).

A estratégia de tratamento a ser adotada dependerá da característica do resíduo, das necessidades e qualidade desejada do efluente final após seu tratamento. Algumas diretrizes gerais são importantes serem consideradas:

1. A propriedade dispõe de área e seguindo-se critérios agronômicos é possível atender o balanço de nutrientes, o impacto ambiental da disposição no solo pode ser controlado, os custos de distribuição são menores que o seu valor fertilizante. Neste caso a aplicação direta como fertilizante é recomendada.

2. A granja tem uma demanda energética (térmica ou elétrica) e atende os requisitos do item 1. Recomenda-se a utilização da digestão anaeróbia, tomandose os devidos cuidados no manejo do biodigestor. Separação sólido-líquida (especialmente para dejetos bovinos), evitar choque de carga, agitação da biomassa e descarte de lodo.

3. A propriedade não tem área para aplicação dos efluentes e tem demanda energética, recomenda-se alternativas de tratamento para remoção de nutrientes (principalmente N e P), tomando-se os devidos cuidados com a escolha e o limite da tecnologia a ser adotada.

4. Os resíduos são sólidos (ex cama de aviário) ou podem ser convertidos facilmente em sólidos, recomenda-se manter este estado físico pois facilitará o manejo ou tratamento (compostagem), facilitando sua exportação para regiões menos impactadas ambientalmente e que tenham demanda por nutrientes.

Referências bibliográficas

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