A Biossegurança como oportunidade histórica para o Brasil – Parte 2

Publicado: 15/05/2020
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Em tempos de pandemia de coronavírus humano (COVID – 19), as medidas de biossegurança implantadas fazem a diferença no Brasil, para impedir a entrada de várias outras doenças externas, como: a PRRS (Síndrome Respiratória e Reprodutiva dos Suínos), a PSA (Peste Suína Africana) e, ainda, os coronavírus suíno.

Existem muitos tipos de coronavírus, um tipo para cada espécie animal, diferente do coronavírus humano, segundo o Médico Veterinário virologista Paulo Brandão, da USP (Universidade de São Paulo). Diferentes tipos de coronavírus infectam os suínos, aves, cães, gatos, cavalos, bovinos, ovinos e caprinos, e outras espécies.

Uma grave doença acomete as aves (frangos de corte e postura) no Brasil, que é a IB (Bronquite Infecciosa Aviária), causada por um tipo de coronavírus. Nos suínos, existem dois coronavírus principais, que causam as doenças: TGE (Gastroenterite Transmissível), e a PED (Enterite epidêmica suína), ambas sem diagnóstico no Brasil, porém muito importantes em várias partes do mundo, a exemplo dos Estados Unidos da América.

A maior evolução em biossegurança no Brasil, foi a criação da quarentena para suínos importados, na Ilha de Cananeia, localizada no litoral do estado de São Paulo. Uma parceria das empresas de genética que atuam no Brasil, através da ABEGS (Associação Brasileira das Empresas de Genética de Suínos), com o MAPA (Ministério da Agricultura), garantiu a realização do projeto de quarentena.

Este importante fato, aliado às melhorias nas medidas de biossegurança na base da produção, nas nossas granjas de suínos, previnem a entrada de doenças estranhas ao plantel e minimizam as doenças já existentes na granja.


Medidas de controle em biossegurança

  • Arco de desinfecção

O arco de desinfecção deve ser posicionado na entrada da propriedade.

O sistema automático, acionado por um sensor, inicia a desinfecção por nebulização, atingindo todos os pontos do veículo, com a utilização de desinfetantes apropriados, com comprovação para a eficácia contra vírus e bactérias na suinocultura.

 

  • Desinfecção dos veículos de transporte de suínos

TADD (Thermo – Assisted Drying and Descontamination), em português, é a secagem termo assistida e descontaminação, processo utilizado para a desinfecção de veículos que transportam suínos.

O sistema consiste na lavagem normal do veículo, com a remoção total da matéria orgânica. Após lavado, é feita a secagem com ar quente a 70°C, durante 15 minutos e, após, a descontaminação da cabine do veículo pelo gás ozônio.

Esse sistema, muito utilizado nos Estados Unidos, está em uso na cidade de Campos Novos, no estado de Santa Catarina, pertencente à empresa Agroceres PIC, onde higieniza e desinfecta os veículos de transporte de reprodutores suínos.

Foto: Agroceres PIC e Consuitec

 

  • Banho, troca de roupas e calçados

O banho obrigatório em várias granjas auxilia na prevenção da entrada de doenças na granja.

Fonte: Procedimento de banho Agroceres PIC

Procedimento de banho:

– Não ultrapassar o ponto delimitado como área suja, em hipótese alguma, com vestimenta pessoal, inclusive roupas íntimas. Óculos devem ser lavados. Todas as roupas e objetos pessoais, como relógios, anéis e outras joias devem permanecer deste lado do vestiário;

– Todos os funcionários e visitantes devem tomar banho – inclusive lavar o cabelo. Toalha e uniforme da granja deverão estar disponíveis do lado oposto do chuveiro (área limpa).

– Toalhas e uniformes utilizados na granja deverão permanecer na área limpa. Esses itens não podem ser trazidos para a área suja, passando pelo chuveiro, onde as vestimentas pessoais são mantidas.

– Depois do banho tomado, a pessoa não poderá retornar para a área suja e entrar novamente na granja (área limpa) sem passar por um novo banho.

  • Caderno de visitas

No caderno de visita deve constar a data da atual visita; o nome do visitante; a empresa em que trabalha; a data do último contato com suínos; o local visitado, anterior à atual visita; o motivo da atual visita e a assinatura do visitante.

O caderno de visitas é um acordo entre o visitante e a granja, garantindo que o visitante tomou os cuidados mínimos, para não trazer doenças à granja que está sendo visitada.

Fonte: Animação Agroceres PIC

 

  • Entrada de materiais no interior da granja

Todos os materiais de consumo, mochilas de visitantes e outros materiais que entrarem na granja, devem passar pelo fumigador para ser desinfectado.

Normalmente, nas granjas, é utilizado a fumigação com a utilização de formaldeído.

Fonte: Animação Agroceres PIC

  • Cercas de isolamento

A ação de cercar toda a granja é uma medida simples, no entanto, fundamental para evitar a entrada de pessoas e de animais estranhos à granja.

Em 2019, houve outra evolução, com a entrada em vigor das normas do estado do Paraná, através da ADAPAR (Agência de Defesa Agropecuária do Paraná), Portaria 265, que regulamenta a biosseguridade em granjas de suínos, no qual prevê para todas as granjas de suínos do estado a construção da barreira sanitária e a colocação de cercas adequadas ao isolamento da granja, compostagem, local de armazenamento de ração e insumos, qualidade da água fornecida aos suínos, embarcadouros e desembarcadouros. Essa portaria deverá ser um exemplo e um modelo para os outros estados brasileiros.

 

  • Monitoramento das reprodutoras de reposição: avós, fêmeas comerciais, machos reprodutores e sêmen

Todo suinocultor tem o direito e o dever de saber as informações necessárias sobre os reprodutores e o sêmen que está recebendo, tais como: granja de origem, doenças presentes na granja de origem, se a granja é livre de Mycoplasma, vacinas utilizadas, tratamentos realizados, peso e idade.

As leitoas de reposição podem representar um risco de transmissão das doenças à granja.

Uma forma de reduzir o risco é trabalhar no sistema de granjas multiplicadoras de rebanho fechado, as quais deixam de receber leitoas de reposição, fazendo a auto reposição (produção interna de leitoas), e ainda podendo receber o sêmen dos machos avós e, comerciais, eliminando grande parte dos riscos de contaminação da granja.

Fotos: Agroceres PIC

 

  • Mycoplasma hyopneumoniae

Há registro de dezessete variantes diferentes de Mycoplasma no Brasil. Quando a granja recebe leitoas de diferentes origens, é possível receber diferentes variantes de Mycoplasma. Isso pode ocorrer também na mistura de leitões em crechários.

Leitoas livres de Mycoplasma devem ser aclimatizadas por 30 dias, sem receber antibióticos sensíveis ao Mycoplasma. As leitoas precisam ser contaminadas pelo Mycoplasma, através da mistura com outros suínos da granja de destino, inoculação intratraqueal ou aspersão de material preparado e contaminado, para desenvolver a imunidade adequada e não contaminar ou minimizar a contaminação dos leitões após o nascimento.

Um suíno contaminado por Mycoplasma contamina somente outro suíno. Para termos uma comparação, na Influenza, um suíno contamina outros dez.

Uma reflexão importante a ser feita é se a granja tem capacidade de manter-se livre de Mycoplasma. A transmissão do agente ocorre até a 9,2 km de distância, através do vento.

O estudo do Mycoplasma hyopneumoniae foi realizado pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), em três granjas multiplicadoras de fêmeas suínas. Na granja A, foi identificado seis variantes de Mycoplasma; na granja B, onze variantes e; na granja C, duas variantes. Somente duas cepas de Mycoplasma foram comuns a duas granjas.

  • Controle dos roedores

A primeira ação é identificar o tipo de roedor que está presente na granja, para a definição da melhor isca a ser aplicada. Em seguida, a contratação de um serviço especializado para o controle.

Os tipos são:

– Rattus rattus – rato preto;
– Rattus norvegicus – ratazana;
– Mus domesticus – rato doméstico;
– Mus musculus – camundongo.

Da esquerda para a direita: rattus rattus; rattus norvegicus; mus domesticus; mus musculus

 

Fonte: modificado de Endepols (Barcellos D.E.S.N., Mores T.J., Santi M. & Gheller N. B. 2008. Avanços em programas de biosseguridade para a suinocultura.

  • O afastamento dos cães e gatos da granja

Todos nós gostamos muito dos animais domésticos, sobretudo, os cães e os gatos, não podem fazer parte da granja, pois podem transmitir doenças.

Um exemplo de doença transmitida pelo gato ao suíno é a Toxoplasmose (protozoário toxoplasma gondii), transmitida pelos cistos ingeridos de alimentos contaminados por fezes de gatos infectados.

A Toxoplasmose provoca abortos tardios em fêmeas suínas.

  • Programas de limpeza, desinfecção e de vazio sanitário

– Limpeza de toda a matéria orgânica presente na instalação a ser desinfetada;

– Uso de detergentes para remover a gordura (biofilme);

– Uso dos produtos desinfetantes (bactericidas e viricidas): um litro de solução/m²de instalação;

– Vazio sanitário em todas as instalações – é o tempo necessário para reduzir os agentes microbianos.


O real diagnóstico das doenças na granja, para controle, uso racional dos antibióticos e redução dos custos

Para chegarmos a um real diagnóstico da situação sanitária em uma granja temos que, primeiramente, observar os sintomas existentes (sintomas são característicos das doenças), fazer necropsias de suínos sacrificados – preferencialmente – e de suínos mortos, observando as lesões que também são características das doenças. Uma vez feito o diagnóstico clínico (baseado em sintomas e lesões nos órgãos), podemos, se necessário, encaminhar ao laboratório para confirmação do diagnóstico, isolamento e antibiograma, se possível.

Uma vez estabelecido o diagnóstico sanitário da granja devemos revisar e direcionar os programas de medicação e de vacinação necessários.

Observação dos sintomasNecropsia e observações das lesões nos órgãos


A Influenza:

A Influenza é ainda mais preocupante, por atingir as três espécies. As cepas de Influenza circulam entre os suínos, aves e o ser humano, o que torna fundamental a atenção a One Health (Saúde Única).

O suíno é reservatório de todos os tipos de cepas das diferentes espécies.

Há várias cepas nos suínos: H1N1 pandêmico / H1N1 normal / H1N2 / H3N2 e recombinantes).

Todas as pessoas envolvidas na produção de suínos: produtores, funcionários de granja, e consultores técnicos, devem vacinar-se anualmente para evitar a transmissão da influenza nas granjas, como medida fundamental de biossegurança.


Comentários finais:

O mundo está muito preocupado com a Peste Suína Africana, e para o Brasil, as práticas em biossegurança são a oportunidade histórica de manter o país como grande exportador de carne suína;

As ameaças são muitas ao Brasil. Houve evoluções, mas ainda há muito o que fazer para evitar a entrada de doenças de alto impacto econômico como a PSA, PRRS, e a disseminação da PSC (Peste Suína Clássica);

A reeducação sanitária aos produtores, trabalhadores, técnicos, e laboratórios envolvidos, é o melhor caminho para reduzir, e prevenir as doenças;

O investimento em diagnósticos errados nada resolve, agrava as ocorrências de doenças e aumenta os custos da produção de suínos.

Publicado originalmente no Blog Nutrição Animal – Agroceres Multimix

 
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