Avaliação técnico-econômica de suínos machos imuno e cirurgicamente castrados

Publicado: 28/02/2014
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RESUMO
Realizou-se este estudo com o objetivo de avaliar o desempenho técnico-econômico e determinar a lucratividade, por meio da análise de sensibilidade econômica, de suínos machos imuno (IM) e cirurgicamente castrados (MC). Foram realizados dois experimentos, em delineamento inteiramente casualizado, composto por dois tratamentos (IM e MC), com oito repetições de 10 animais cada, totalizando 160 suínos por experimento. Verifi cou-se que suínos IM apresentam menor consumo de ração e melhor conversão alimentar nas fases de crescimento em relação aos MC. Na fase de terminação, suínos IM apresentam melhor ganho de peso, conversão alimentar, rendimento de carcaça e porcentagem de carne em relação aos MC. A utilização de IM aumenta a lucratividade na produção de suínos. A análise de lucratividade entre suínos IM e MC deve considerar todas as fases de criação, uma vez que o desempenho diferencial dos suínos não castrados na fase de crescimento infl uencia economicamente os resultados da produção.
Palavras-chave: análise de sensibilidade, carcaça, imunocastração,lucro.
 
INTRODUÇÃO
Suínos machos não castrados apresentam melhor conversão alimentar e carcaças com maior percentual de carne do que os MC (BONNEAU, 1998), porém a castração é necessária, devido às altas concentrações de androsterona e escatol acumuladas na gordura subcutânea e intramuscular de machos não castrados (PATTERSON, 1968). A imunocastração induz a formação de anticorpos contra o hormônio liberador de gonadotropina (GnRH), que se ligam ao GnRH endógeno, bloqueando o estímulo à secreção do hormônio folículo estimulante (FSH) e do hormônio luteinizante (LH), causando redução da secreção de esteroides testiculares, incluindo androsterona (ZAMARATSKAIA et al., 2008). Esse fato possibilita a produção de carcaças isentas de odores sexuais (JAROS et al., 2005). Suínos castrados imunologicamente apresentam melhor eficiência alimentar e carcaças com maior percentual de carne que suínos MC (PAULY et al., 2009). Também se observa a redução da frequência de montas e do comportamento agressivo dos IM, quando comparados aos não castrados (RYDHMER et al., 2010). Nesse sentido, atendendo  ao crescente interesse mundial em torno do bem-estar animal, a imunocastração pode reduzir o sofrimento e estresse causados pela castração cirúrgica.
Em vista dos benefícios que a imunocastração pode oferecer à suinocultura, realizou-se este estudo com o objetivo de avaliar o desempenho técnico-econômico e determinar a lucratividade, por meio da análise de sensibilidade econômica, de suínos IM e MC.
 
MATERIAL E MÉTODOS
Foram realizados dois experimentos com suínos IM e MC, da mesma linhagem. No experimento I, foram utilizados 160 suínos (80 IM e 80 MC), avaliados dos 95,8±5,5kg aos 122,9±5,1kg, com período experimental de 30 dias. No experimento II, foram utilizados 160 suínos (80 IM e 80 MC), avaliados dos 27,5±1,0kg aos 114,5±6,3kg, com período experimental de 98 dias. Em cada experimento, os animais foram distribuídos em delineamento experimental inteiramente casualizado, com doistratamentos (IM e MC), com dez repetições e oito animais cada. As dietas experimentais foram elaboradas de acordo com as recomendações de ROSTAGNO et al. (2005) e fornecidas à vontade aos animais.
Os suínos MC foram submetidos à orquiectomia até o sétimo dia de vida. Para a obtenção dos IM, os machos receberam duas doses de vacina anti-GnRH, via subcutânea, 60 e 30 dias pré-abate.
As variáveis avaliadas foram o desempenho (peso fi nal, consumo de ração, ganho de peso e conversão alimentar) e as características de carcaça (peso e rendimento de carcaça e percentual de carne). Para a avaliação econômica, as variáveis utilizadas foram o custo das dietas (R$ kg-1), custo da imunocastração, preço do suíno vivo (R$ kg-1), receita de bonifi caçã o (R$) e lucro bruto (R$). As equações de custo da dieta foram: Custo da dieta (R$ Dieta) = (Consumo)*(R$ kg-1 da dieta)*(Período).
O preço comercial estabelecido para a dose da vacina foi de R$ 5,00. Considerando que são necessárias duas doses por animal, o custo da imunocastração foi de R$ 10,00 por cabeça. O custo total (CT) foi calculado pela fórmula: CT=(R$ Dieta)+(Custo da Imunocastração). Para a obtenção da receita pelo sistema de bonifi cação (BF), foi utilizada a equação proposta por GUIDONI (2000): Receita BF= R$/PV-1*[(PCarc/%Rend)*(23,6+0,2 86*PCarc+%CarnM)], onde: R$ PV-1= preço pago por quilograma de suíno; PCarc= peso de carcaça; %Rend= percentual de rendimento de carcaça e %CarnM= percentual de carne da carcaça. A diferença entre receitas e custos resultou no lucro bruto de cada sistema, considerado o cenário padrão do mercado. Não foram computados os demais custos de produção por serem considerados similares para a produção de suínos IM e MC. A diferença entre suínos IM e MC foi obtida por intermédio da fórmula: Diferença (IM-MC) = Lucro bruto IM – Lucro bruto MC. A diferença percentual foi obtida através da fórmula: Diferença % (IM-MC) = Diferença (IMMC)/ Lucro bruto MC.
Após a determinação dos resultados das equações, realizou-se a análise de sensibilidade, pressupondo a construção de três cenários: mais provável (M); otimista (O); pessimista (P) e denominada análise MOP (GITMAN, 2000). Esses cenários foram idealizados de acordo com a oscilação do custo da dieta, receita obtida com a bonifi cação de carcaça e custo da vacina. A variação utilizada no custo da dieta foi de 10%, valor estabelecido de acordo com a média variação de preços dos principais ingredientes das dietas (milho e farelo de soja) durante o ano de 2011, obtida do indicador de preços CEPEA (2011).
A variação na receita de bonifi cação foi obtida através da média dos indicadores de preços do suíno (2,40 R$ kg-1), pago ao produtor no decorrer de 2011, em SP, MG, SC e RS, sendo observada uma variação média de 19% (CEPEA, 2011). Para composição da variação de custos no valor da vacina, optou-se por uma oscilação de 10% no preço. O cenário mais provável refl ete o cenário padrão da produção em 2011. Para o cenário pessimista, foi utilizado aumento no custo de alimentação de 10%, queda na receita de bonifi cação de 19% e aumento do custo da imunocastração de 10%, em relação ao cenário mais provável. No cenário otimista, aplicou-se um decréscimo de 10% no custo de alimentação e aumento de 19% na receita de bonifi cação e decréscimo no custo da imunocastração de 10% (Tabela 1).
Os dados zootécnicos foram submetidosà análise de variância, utilizando-se o peso inicial como co-variável. As eventuais diferenças entre as médias foram avaliadas pelo teste F, por intermédio do procedimento GLM do programa estatístico SAS versão 9.1. Adotou-se o nível de 5% de probabilidade.
 
RESULTADOS E DISCUSSÃO
No experimento I, os suínos IM apresentaram maior (P≤0,05) ganho de peso, melhor conversão alimentar e maiores percentuais de carne e rendimento de carcaça em relação aos suínos MC  (Tabela 2). O consumo de ração diário, peso fi nal, peso e comprimento de carcaça, a espessura de toucinho e a profundidade de músculo não foram infl uenciados (P>0,05) pelas categorias.
tabNo experimento II, fase crescimento I, os suínos IM apresentaram melhor (P<0,05) conversão alimentar em relação aos MC, enquanto as demais variáveis avaliadas não foram infl uenciadas (P>0,05) pelas categorias (Tabela 3). Na fase de crescimento II, os suínos MC apresentaram menor (P≤0,05) consumo de ração diário em relação aos IM, porém as demais variáveis não foram infl uenciadas (P>0,05). Na fase de terminação, os suínos IM apresentaram maiores (P≤0,05) peso fi nal e ganho de peso diário e menor (P≤0,05) conversão alimentar, bem como maiores (P≤0,05) peso de carcaça e rendimento de carcaça quente, comprimento de carcaça, espessura de toucinho e percentagem de carne, em relação aos castrados cirurgicamente. Por sua vez, o consumo de ração diário e a profundidade de músculo não foram infl uenciados (P>0,05) pelas categorias.
A superioridade dos suínos IM em relação aos MC, observada para a conversão alimentar, no presente estudo, pode ser explicada considerando que os suínos, previamente à imunocastração, mantêm o padrão metabólico dos machos não castrados, uma vez que o efeito inibidor da secreção de esteroides testiculares inicia somente após a aplicação da segunda dose da vacina (ZAMARATSKAIA et al., 2008). O resultado obtido neste estudo está deacordo com a literatura (XUE et al., 1997), em que se constata superioridade absoluta da efi ciência alimentar dos machos não castrados em relação aos castrados. De modo similar, PAULY et al. (2009) observaram melhor conversão alimentar dos IM em relação aos MC.
Diversos pesquisadores como JAROS et al. (2005) e PAULY et al. (2009) relataram o aumento do consumo de ração diário na fase de terminação dos animais imunocastrados. Porém, no presente estudo, não foram constatadas diferenças (P>0,05) entre os grupos testados para esse parâmetro, na fase de terminação.Os melhores resultados observados para orendimento de carcaça e percentagem de carne dos suínos IM, nos experimentos I e II, também foram relatados por outros pesquisadores (XUE et al., 1997; PAULY et al., 2009). Na prática, a maioria dos leitões machos é submetida ao procedimento cirúrgico para remoção dos testículos na primeira semana de vida.
Esse procedimento resulta na ausência das funções anabólicas geradas pelos hormônios testiculares nas fases de recria e terminação (CAMPBELL et al., 1985). A ausência dos hormônios testiculares diminui o potencial de crescimento e aumenta a deposição de gordura na carcaça nos suínos MC (METZ & CLAUS, 2003). Por sua vez, os suínos IM mantêm esse potencial anabólico durante a fase de recria e ainda por alguns dias após a aplicação da segunda dose da vacina, quando já estão na fase de terminação (CLAUS et al., 2007). Essas diferenças no padrão metabólico justifi cam a superioridade dos suínos IM, quando comparados aos MC, no presente estudo.
Na análise de sensibilidade para o cenário mais provável (Tabela 4), no experimento I, os animais IM apresentaram maior lucro bruto, resultando numa diferença monetária de R$ 1,07 (0,04%) em relação ao grupo MC. No experimento II, a lucratividade dos animais IM em relação aos MC foi superior àquela observada no experimento I, em que o lucro bruto dos suínos IM apresentou superioridade de R$ 22,39 (16,98%) em relação ao dos MC. Dessa maneira, fi cou evidenciado o efeito do ganho acumulado durante as três fases da produção, uma vez que o desempenho zootécnico dos animais IM foi superior ao dos suínos MC desde a fase de crescimento I, resultando, consequentemente, em menor custo de alimentação.
Na análise de sensibilidade para o cenário otimista, os resultados seguiram o mesmo padrão do cenário mais provável. No experimento I, ocorreu uma diferença maior no lucro bruto para os animais IM, resultando numa diferença monetária de R$ 4,92 (1,47%) em relação ao grupo MC. No experimento II, a lucratividade dos animais IM em relação aos MC foi superior àquela observada no experimento I, em que o lucro bruto dos suínos IM apresentou superioridade de R$ 28,25 (14,23%) em relação aos MC. A maior diferença monetária no cenário otimista em relação ao cenário mais provável provavelmente está relacionada ao potencial diferencial de efi ciência alimentar dos machos não castrados nas fases de crescimento I e II, em relação aos castrados cirurgicamente.
Na análise de sensibilidade para o cenário pessimista, no experimento I, o lucro bruto dos suínos IM foi similar ao dos suínos MC, resultando numa diferença monetária de (-) R$ 2,78 (-1,39%), diferentemente do observado nos cenários mais provável e otimista. Isso se deve ao fato de que, no cenário pessimista, ocorreu diminuição na receita de bonifi cação, devido à redução no preço pago ao suíno vivo (R$ kg-1), diminuindo a diferença na receita entre os grupos IM e MC, associado ao aumento no custo da vacina.
No experimento II, a lucratividade dos animais IM em relação aos MC foi superior àquela observada no experimento I, em que o lucro bruto dos suínos IM apresentou superioridade de R$ 16,54 (25,37%) em relação aos MC. Esse resultado evidencia a importância de analisar todo o processo de produção, pois os ganhos obtidos nas fases de crescimento I e II infl uenciaram diretamente no lucro bruto. A maior lucratividade para os animais imunocastrados do experimento II, no cenário pessimista em relação aos demais cenários, pode ser explicada principalmente pelo aumento do custo da dieta, variável que representa a maior parte dos custos de produção.
No presente estudo, os animais imunocastrados apresentaram signifi cativamente melhor conversão alimentar na fase de crescimento I, menor consumo de ração na fase crescimento II, melhor conversão alimentar e maior ganho de peso diário na fase de terminação. A relação de troca (kg de suíno por kg de ração) foi menor, impactando diretamente na diminuição dos custos e aumentando a lucratividade.
Mesmo em condições de mercado desfavoráveis, a imunocastração foi mais lucrativa, diminuindo os custos com a alimentação, desde que  as fases de crescimento I e II sejam incorporadas nos cálculos. As diferenças de custos entre os sistemas de produção dos animais IM e MC ocorreu, no presente estudo, sobre o consumo de ração e o custo da vacina. Como os animais do grupo IM permanecem não castrados durante as fases de crescimento I e II, apresentaram consumo superior aos MC, porém, esse custo é compensado fi nanceiramente devido ao melhor desempenho. Por sua vez, o custo da vacina implica diretamente o custo de produção dos IM, em que a redução no custo da vacina aumenta o ganho por cabeça.
 
CONCLUSÃO
Suínos não castrados apresentam menor consumo de ração e melhor conversão alimentar nas fases de crescimento em relação aos castrados cirurgicamente. Na fase de terminação, suínos IM apresentam melhor ganho de peso, conversão alimentar, rendimento de carcaça e porcentagem de carne em relação aos MC. A utilização de machos IM aumenta a lucratividade na produção de suínos. A análise de lucratividade deve considerar todas as fases de criação, uma vez que o desempenho diferencial dos suínos não castrados na fase de crescimento infl uencia economicamente os resultados da produção.
 
COMITÊ DE ÉTICA E BIOSSEGURANÇA
Declaramos que os animais utilizados em experimentação que originou o artigo “Avaliação técnicoeconômica de suínos machos imuno e cirurgicamente castrados”, submetido para publicação na revista Ciência Rural, foram criados sob os princípios do bem estar animal. O abate foi realizado em frigorífi co comercial com inspeção federal respeitando a legislação quanto ao tempo de descanso, insensibilização e sangria.
 
REFERÊNCIAS
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Esse artigo técnico foi originalmente publicado em Ciência Rural, Santa Maria, Online.
 
Autor/s.
Possui Graduação em Zootecnia pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), Mestrado e Doutorado em Zootecnia, com ênfase em Nutrição de Animais Monogástricos, pela UFV/University of Illinois at Urbana-Champaign. Atuou como Gerente de vendas da Alltech. Atualmente faz pós-doutorado na área de Nutrição Animal, com ênfase em Análise de Alimentos.
 
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