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Arginina e aminoácidos de cadeia ramificada para galinhas poedeiras

Publicado: 01/09/2021
Autor/s. : Eliane A. Silva, Ramalho Rodrigueiro, Bruno Tadeu Marotta Lima, Tatiana Garcia Diaz, Ivan Camilo Ospina-Rojas
Introdução
A produção global de ovos tem apresentado constante expansão, cresceu 119%, de 35,5 em 1990 para 76,8 milhões de toneladas em 2018 (FAO, 2018). Para atender essa demanda crescente, as aves poedeiras têm passado por intensa seleção genética durante décadas e como consequência, as galinhas têm permanecido mais tempo no sistema produtivo e apresentam elevadas taxas de postura, aliadas à melhor eficiência alimentar. Obviamente, a partir dessas mudanças, os requerimentos nutricionais têm sido alterados a fim de atender as demandas para alta produtividade. Assim, é necessário, avaliar continuamente a resposta das poedeiras aos níveis de aminoácidos, nutrientes chaves para otimizar a expressão do potencial genético, não apenas no período de pico de produção, mas também em idades mais avançadas.
Além disso, flutuações nos preços das matérias-primas que compõem a ração e condições ambientais, são razões adicionais para entender e aplicar adequadamente o conceito de proteína ideal na dieta de aves poedeiras, a fim de reduzir o conteúdo em proteína bruta de forma segura. A redução progressiva do conteúdo proteico dietético pode conduzir a uma situação, na qual, os aminoácidos treonina, isoleucina, valina e arginina tornem-se limitantes para manter apropriado o desempenho produtivo.
Durante anos, a formulação de ração para aves baseou-se no conceito de proteína bruta, resultando em excesso ou deficiência de aminoácidos, em relação às exigências do animal, corroborando para maior excreção de nitrogênio, maior gasto metabólico, maior incremento calórico, menor eficiência produtiva e maior custo de produção. A partir da disponibilidade de alguns aminoácidos industriais, tornou-se possível formular dietas com conteúdo proteico reduzido, uma vez que, possíveis desajustes na concentração de aminoácidos, decorrentes da redução da proteína bruta, passaram a ser corrigidos por meio da inclusão de aminoácidos produzidos sinteticamente ou biologicamente, aproximando os níveis dos reais requerimentos da ave.
Além do elevado custo dos ingredientes proteicos, comumente utilizados nas rações, o alto conteúdo em proteína bruta na ração provoca sobrecarga hepática e renal, devido à necessidade em excretar o excesso de nitrogênio (ANDRIGUETTO et al., 2002). É comum observar síndrome do fígado hemorrágico em poedeiras, doença metabólica caracterizada por acúmulo excessivo de gordura no fígado em detrimento da saúde e desempenho produtivo das aves. Bunchasak & Silapsom (2005) observaram redução de 38% na deposição de gordura no fígado de poedeiras quando reduziram a proteína bruta da ração de 16 para 14%.
A evolução genética, a disponibilidade de informação científica e a definição dos requerimentos específicos para cada parâmetro produtivo têm permitido a ampliação do uso de aminoácidos em dietas para galinhas poedeiras. Em situações práticas, os aminoácidos sulfurados, lisina, arignina, isoleucina, valina e triptofano são os de maior importância para a avicultura. Há na literatura, trabalhos que relatam efeitos benéficos da suplementação de arginina, isoleucina e valina na dieta de aves poedeiras sobre a performance produtiva (LIMA & SILVA, 2007; SOUZA, 2009; ALMEIDA, 2013; LIEBOLDT et al., 2016; PARENTEAU, et al. 2020; MACELLINE et al. 2021). Dessa forma, o objetivo desta revisão é discorrer sobre as funções e o efeito desses aminoácidos, quando presentes na dieta de galinhas poedeiras sobre a produção e a qualidade de ovos.
 
Arginina
Arginina é um aminoácido essencial para aves e tem sido associada à síntese de proteína e outras importantes moléculas metabólicas, tais como creatina, óxido nítrico, glutamato, poliaminas, prolina, colágeno e glutamina (CHEVALLEY et al., 1998; BALL et al., 2007; KHAJALI & WIDEMAN, 2010). A única via de síntese de óxido nítrico se dá a partir da conversão da arginina em citrulina por intermédio da enzima óxido nítrico sintase, produzindo assim todas as isoformas da molécula de óxido nítrico (WU & MORRIS, 1998). Dessa forma, a arginina é crucial para a síntese de óxido nítrico, principalmente, em aves, pois são incapazes de produzir endogenamente a arginina. O óxido nítrico apresenta diversas funções importantes no organismo, tais como imune moduladora, atua nas vias do metabolismo energético, na expressão gênica, circulação sanguínea e no sistema nervoso (FARR et al. 2005; JOBJEN et al., 2006).
Em aves poedeiras, o óxido nítrico é essencial para mantença da persistência de postura. Além de ser uma molécula altamente reativa, o óxido nítrico está relacionado com a regulação de funções produtivas em aves (KUMAR & CHATURVEDI, 2008). Manwar et al. (2006) relataram que o nível de óxido nítrico sérico está diretamente relacionado à taxa de postura em codornas japonesas, além disso, observaram que a suplementação de 5% de L-arginina na dieta aumentou significativamente a produção de ovos. Basiouni (2009) demonstrou que a inclusão de L-arginina na dieta de poedeiras aumentou o nível do hormônio luteinizante. Os hormônios luteinizante (LH) e folículo estimulante (FSH) controlam o desenvolvimento folicular, a ovulação e produção de ovos por meio dos esteroides ovarianos (HARTREE & CUNNINGHAM, 1969). Duan et al. (2016) observaram aumento de 10% na taxa de postura de matrizes de frangos de corte no grupo de aves alimentadas com dieta contendo 1,36% de arginina digestível em relação ao grupo alimentado com dieta formulada com 0,96% de arginina digestível. Segundo os autores, a arginina atua diretamente nos ovários e nos folículos ovarianos, estimulando a liberação de LH, aumentando assim a persistência de postura das matrizes de frangos de corte.
É importante mencionar sobre um dos importantes imbalanços entre os aminoácidos e que muitas vezes não é considerado na formulação de ração para poedeiras, o antagonismo entre lisina e arginina. O excesso de lisina estimula a arginase renal, aumentando o catabolismo da arginina, e por sua vez provoca deficiência do segundo aminoácido, pois, as aves são ineficientes na síntese endógena de arginina, pois não possuem o ciclo da ureia funcional (D’MELLO, 2003). O aumento do nível de arginina em uma ração com elevado conteúdo de lisina alivia o efeito negativo causado pelo antagonismo provocado pelo excesso de lisina (GADELHA et al., 2003). Entretanto, superdose de arginina pode causar desequilíbrio na relação arginina: lisina, aumentar a atividade da arginase renal e consequente aumento da oxidação de arginina em ácido úrico (CARVALHO et al., 2015). Os últimos autores também afirmam que o nível apropriado de arginina na dieta pode aumentar o anabolismo proteico.
A suplementação de L-arginina na dieta de aves pode reduzir a deposição de gordura corporal, especialmente a gordura abdominal. A baixa atividade das enzimas malato desidrogenase, glicose-6-fosfato desidrogenase e ácido graxo sintase é observada a partir da suplementação de L-arginina na dieta de aves (WU et al., 2011). Enquanto, observa-se estímulo na expressão da enzima palmitoil carnitina transferase I em frangos de corte alimentados com dietas suplementadas com L-arginina (FOUAD et al., 2013). Estas enzimas participam indiretamente no processo de lipogênese, diretamente na síntese de ácidos graxos e estão envolvidas na β-oxidação lipídica.  Este é um efeito desejado, principalmente em galinhas na fase de produção, quando são expostas em determinadas situações que contribuem a ocorrência do fígado gorduroso e de acordo com Bertechini (2012), o transporte deficiente de lipídeos no sangue e rações com alta energia contribuem para a deposição exagerada de gordura no tecido hepático. A suplementação de arginina na ração permite reduzir o nível de proteína bruta de forma mais segura e corrobora para redução da deposição de gordura no fígado. Bunchasak & Silapasom (2005) observaram redução de 38% na deposição de gordura no tecido hepático ao reduzirem o nível de proteína bruta da ração de 16 para 14%.
Adicionalmente, como aminoácido funcional, a suplementação de arginina tem mostrado aliviar o estresse oxidativo e melhorar a capacidade antioxidante, reduzindo a liberação de superóxidos, aliviando a peroxidação lipídica (Galli, 2009; Petrovic et al., 2008; Atakisi et al., 2009), imunidade (Munir et al., 2009; Tayde et al., 2006) e desenvolvimento muscular e ósseo (CORZO et al., 2009; FERNANDES et al., 2009; CASTRO et al., 2019).
Níveis crescentes de L-arginina suplementar na dieta de matrizes de frangos de corte, no período de 60 a 69 semanas de idade promoveu aumento na capacidade total antioxidante no sérum e reduziu a concentração de malondialdeído no sérum e na gema dos ovos (DUAN et al., 2016). Porém, os autores relataram que níveis excessivos de arginina podem ser prejudiciais, por reduzir a capacidade antioxidante total, indicando a necessidade de equilíbrio na quantidade de arginina dietética para melhorar a capacidade antioxidante. O malondialdeído, produto solúvel da degradação de lipídeos, é usado para monitorar a extensão da peroxidação lipídica (WANG et al., 2006). Portanto, a redução na concentração dessa substância na gema pode contribuir para aumentar a vida útil dos ovos.
Trabalhos demonstram efeitos da arginina sobre o sistema imune em aves. Por exemplo, Deng et al. (2005) comprovaram que a suplementação de arginina aumenta níveis de imunoglobulinas, especificamente IgM, em galinhas poedeiras. Tayade et al. (2006) constaram que suplementação de arginina estimula a atividade funcional de diferentes tipos de células, tais como, as células natural Killer e a resposta imunológica sistêmica contra IBDV em frangos de corte.  Yang et al. (2016) ao avaliarem a suplementação de L-arginina em níveis crescentes iguais a 0,0; 8,5 e 17,0 mg/kg na ração de poedeiras no período de 25 a 31 semanas de idade e observaram aumento significativo da concentração de imunoglobulinas, melhorando a capacidade de resposta imune das aves.
Além da ação secretagoga para os hormônios reprodutivos, a arginina também atua sobre a insulina e o hormônio do crescimento (GH) (COLLIER et al., 2005). Estes dois hormônios têm ação estimulatória sobre a produção do hormônio fator de crescimento semelhante à inslulina-I (IGF-I) em aves. O IGF-I tem efeito sobre a eficiência alimentar por sua capacidade em modular o catabolismo proteico, estimular a síntese proteica e reduzir a degradação de proteína (CONLON et al., 2002). A arginina também pode atuar no desenvolvimento ósseo, através da ação do GH. Lieboldt et al. (2016) ao avaliarem níveis crescentes de arginina, de forma atender 70, 100 e 200% da recomendação do NRC (1994) na dieta de diferentes linhagens genéticas de aves poedeiras, observaram que o nível dietético insuficiente de arginina induziu à redução significativa de ganho de peso e retardo do crescimento em relação ao suprimento adequado ou excedente de arginina durante a fase de recria. Os autores atribuíram o retardo no crescimento das aves, independente do fator genético, aos efeitos adversos provenientes dos imbalanços dietéticos entre arginina e lisina ou entre arginina e metionina, bem como à baixa concentração plasmática de arginina e ornitina, provocada pelo fornecimento insuficiente de arginina, induzindo à deficiência desses aminoácidos metabolizáveis.
Para aves poedeiras em fase de produção, a suplementação de arginina pode ser um aliado na absorção cálcica intestinal e assimilação desse mineral no organismo da ave, especialmente, em condições de estresse calórico, quando a ingestão de alimentos é reduzida, comprometendo a disponibilidade de nutrientes para adequada produção e qualidade de ovos. Fiore et al. (2000) e Clementi et al. (2001) indicam que a arginina é clinicamente recomendada para distúrbios metabólicos na absorção de cálcio e calcificação. Entretanto, quando a redução da proteína bruta é drástica, a suplementação de arginina, pode não ser suficiente para manter a qualidade de ovos satisfatória. Por exemplo, Dao et al. (2021) reduziram quatro pontos percentuais o nível de proteína bruta, de 17 para 13% na ração de poedeiras semipesadas e adicionaram 3,5 kg de L-arginina por tonelada de ração, de forma obter o nível  de 0,89% de arginina digestível e uma relação entre arginina e lisina digestível igual a 117%, observaram que a espessura da casca dos ovos no tratamento controle, isento de L-arginina foi de 0,413 mm, enquanto o grupo alimentado com dieta reduzida em proteína bruta e adição de L-arginina a espessura foi de 0,403 mm.
A suplementação de arginina na dieta promove o crescimento intestinal (HE et al. 2011). O estímulo ao crescimento intestinal pode contribuir para melhor integridade de mucosa e consequentemente melhor conversão alimentar. Fascina et al. (2017) recomendam a suplementação de 968 mg de arginina por quilo de dieta para obtenção de melhor conversão alimentar em poedeiras semipesadas e relação arginina: lisina digestível de 110%.
Liebdolt et al. (2016) demonstraram que níveis deficientes de arginina na ração de poedeiras na fase inicial de postura afetam significativamente o ganho de peso e a ingestão de alimento, afetando a produção e a qualidade de ovos. Dao et al. (2021) concluíram que a redução de quatro pontos percentuais no nível de proteína bruta, de 17 para 13%, em dieta a base de trigo e sorgo para galinhas poedeiras Hy-Line semipesadas no período de 20 a 39 semanas de idade foi excessiva, fato que pode explicar a ausência de efeito sobre a produção e qualidade de ovos  ao suplementar 0,35% de L-arginina na dieta com nível de proteína bruta reduzido. A redução excessiva da proteína bruta pode corroborar para deficiência em aminoácidos não essenciais e outros compostos importantes presentes na soja.
A recomendação da relação ideal entre arginina e lisina digestível para poedeiras na fase de produção pode variar em função de vários fatores dentre os quais, os métodos aplicados para estimar o requerimento nutricional. Por exemplo, Rostagno et al. (2017) recomendam relação ideal arginina: lisina digestível de 100%  para poedeiras no período de produção, baseada em modelos dose-resposta, enquanto, Soares et al. (2018) recomendam valores iguais a 109 e 104% de arginina: lisina digestível baseados em estimativas matemáticas, seguindo modelos de deleção de Goettingen e Louvain, respectivamente.
 
Aminoácidos de cadeia ramificada - Isoleucina, Leucina e Valina
Isoleucina e valina são incluídas ao grupo dos aminoácidos de cadeia ramificada juntamente com a leucina. A disponibilidade de isoleucina e valina industriais oferece nova oportunidade para formular dietas de forma mais eficiente através da otimização do perfil ideal de aminoácidos. Além da síntese proteica, o adequado fornecimento de isoleucina e de valina é importante para manter a imunidade intestinal, função de barreira do intestino e capacidade antioxidante (Azzam et al., 2015; Dong et al., 2016; Wen et al., 2019a). Outra importante função desses aminoácidos de cadeia ramificada é a regulação do metabolismo de ácidos graxos no fígado (Bai et al., 2015). A isoleucina influencia positivamente a produção de ovos através da melhor composição hepática e corporal, pois ao reduzir a proteína da dieta, observa-se redução na deposição de gordura intramuscular hepática, contribuindo para a saúde da ave e maior produção de ovos (PARENTEAU, 2019). A leucina tem como principal função servir de substrato para a síntese proteica, entretanto, atua também como nutriente sinalizador que regula a síntese e inibe a degradação proteica em diversos tecidos corporais (Escobar et al. 2005) e aumenta a atividade de proteínas envolvidas na tradução de mRNA (WU et al. 2010).
Um dos principais objetivos da avicultura de postura é melhorar a produtividade, a persistência de postura e a massa de ovos produzida, dessa forma, considerar os aminoácidos de cadeia ramificada na nutrição de poedeiras é particularmente importante, principalmente a leucina, devido seu papel na regulação de síntese de proteica. A relação ideal entre leucina e lisina digestível para poedeiras leves e semipesadas recomendada por Rostagno et al. (2017) é de 122%. Além disso, deve-se considerar a isoleucina na formulação de dietas à base de milho, reduzidas em proteína bruta para galinhas poedeiras, pois nestas condições esse aminoácido torna-se limitante (Shivazad et al., 2002). Em dieta à base de milho e farelo de soja e redução de 2,0 pontos percentuais no nível de proteína bruta, atendendo os requisitos em aminoácidos, exceto em isoleucina, observa-se que esse aminoácido se torna limitante para a produção de ovos e peso de ovo, possivelmente indicando uma mudança na utilização dos aminoácidos da dieta (PARENTEAU et al., 2020). Estudos têm demonstrado que a suplementação de L-isoleucina na dieta de poedeiras aumenta a produção de ovos (SHIVAZAD et al., 2002; SOHAIl et al., 2002; OSPINA ROJAS, et al., 2015).
O efeito da isoleucina dietética sobre a função de barreira intestinal pode ser explicado pelo fato de que esse aminoácido é substrato para a síntese de glutamina (WU, 2009). Oxford & Selvaraj (2019) observaram que a suplementação de glutamina reduziu a severidade de infecção em frangos de corte por reduzir danos intestinais à medida que houve aumento no conteúdo de mRNA das proteínas junções apertadas. Esses autores verificaram aumento na expressão das junções apertadas, claudina-1, claudina-2 e zônula ocludente-1 em frangos de corte desafiados com Eimeria, alimentados com dietas suplementadas com níveis crescentes de glutamina. A função de barreira intestinal é regulada pelas junções apertadas e junções aderentes (BRUEWER et al., 2003). Essas junções selam o espaço parecelular entre as células epiteliais e são necessárias para manter a barreira de mucosa (TANG et al., 2010). Um epitélio intestinal intacto serve como barreira vital para prevenir a entrada de potenciais patógenos e resultar na absorção e utilização adequada de nutrientes, otimizando saúde e performance da ave (RITZI et al., 2014). Porém, Dong et al. (2016) não observaram alterações na expressão de mRNA das proteínas junção apertada, claudina-1 e occludina, no íleo, ao avaliarem níveis excessivos de isoleucina na ração de poedeiras semipesadas de 28 a 40 semanas de idade. Provavelmente, a ausência da produção e liberação excessiva de citocinas pró-inflamatórias no intestino, observada pelos autores, explica o fato de os autores não observarem efeito da isoleucina sobre as proteínas junção aperta. A produção excessiva de citocinas pró-inflamatórias, especialmente TNF-α, implica em algumas respostas patológicas que ocorrem em condições inflamatórias (Calder, 2001), como por exemplo, afetar a estrutura das junções apertadas através da supressão da expressão da proteína quinase adenosina monofosfato (AMPK) (AZNAR et al., 2016; SUN et al., 2017).
Tem sido relatada em humanos e animais considerável interação em resposta à ingestão desbalanceada dos aminoácidos de cadeia ramificada, níveis excessivos de leucina deprimem o crescimento e a ingestão de alimentos (HARPER et al., 1984). Pesquisadores mostram que o excesso de leucina estimula o catabolismo da isoleucina e da valina, por aumentar a atividade da α-cetoglutarato desidrogenase, enzima chave envolvida na degradação desses dois aminoácidos (HARRIS et al., 2001; WILTAFSKY et al., 2010). Este efeito depressivo do excesso de leucina na dieta pode ser agravado na presença de dietas deficientes em valina. Gloaguen et al. (2011) constataram redução na ingestão de alimentos em suínos quando alimentados com dietas deficientes em valina e consequente redução do crescimento. Wen et al. (2019a) relataram que a concentração de 1,024% de leucina na ração foi inferior àquelas que causam antagonismo e prejudicam o requerimento de valina em galinhas poedeiras brancas, pois, não observaram depressão na produção de ovos, consumo de ração ou massa de ovos. De acordo com as relações recomendadas para poedeiras por Rostagno et al. (2017) para os aminoácidos de cadeia ramificada com a lisina digestível, observa-se que há uma proporção adequada entre isoleucina: leucina: valina igual a 1,0: 1,56: 1,19; respectivamente, a qual deve ser mantida a fim de evitar desbalanço entre esses três aminoácidos e possível efeito negativo sobre o desempenho e qualidade de ovos.
Em aves poedeiras, alguns trabalhos têm demonstrado o antagonismo entre os aminoácidos de cadeia ramificada, sendo a valina e a isoleucina os mais comumente avaliados, visto que os requerimentos em leucina são usualmente atendidos pelas fontes proteicas presentes nas dietas convencionais para galinhas poedeiras. Peganova & Eder (2002a) relataram que concentração dietética de valina de 1,36% reduz o consumo de ração e a massa diária de ovos em 5 e 10%, respectivamente. Azzam et al. (2015) ao avaliarem níveis crescentes de valina na ração de poedeiras semipesadas não observaram redução na massa de ovos diária trabalhando com nível máximo de 1,19% de valina dietética, correspondente à inclusão de 4 g de L-valina/kg de ração. Esses autores concluíram que elevadas concentrações de valina na ração de poedeiras não causam prejuízos à performance produtiva ou à imunidade das aves.  Peganova & Eder (2002b) estudando a resposta de galinhas poedeiras a níveis excessivos de isoleucina, relataram que a ingestão de ração reduziu de forma significativa em altos níveis de inclusão de L- isoleucina. Peganova & Eder (2003) concluíram que dietas com elevadas concentrações proteicas, contribuem de forma mais significativa para aumentar os níveis de isoleucina, valina e leucina, do que dietas com baixo conteúdo proteico, potencializando ainda mais o antagonismo entre esses aminoácidos. Dong et al. (2016) estudando a suplementação de L-isoleucina (0,0; 1,0; 2,0; 3,0 e 4,0 kg/ton) correspondentes aos níveis de 0,54; 0,64; 0,74; 0,84 e 0,94% de isoleucina digestível na dieta de poedeiras semipesadas no período de 22 a 34 semanas de idade não observaram efeitos negativos sobre a produção e qualidade de ovos. Segundo os autores, a ausência de efeito negativo sobre o desempenho, se deu em função do baixo nível de proteína bruta aplicado nas rações, igual a 14%, corroborando para ausência de antagonismo entre os aminoácidos de cadeia ramificada.
A valina pode ser considerada um dos potenciais aminoácidos limitantes para galinhas poedeiras, após a metionina, lisina, triptofano e treonina. Segundo Kidd & Hackenhaar (2006), em dietas compostas por milho e farelo de soja, a valina é o quarto aminoácido limitante.
É necessário manter o nível de valina nas rações para poedeiras adequadamente de acordo com as recomendações nutricionais, bem como devidamente ajustado ao consumo de ração, pois, há relatos na literatura que níveis desajustados de valina podem impactar a ingestão de ração em galinhas poedeiras e interferir no desempenho produtivo. Almeida (2013) ao avaliar níveis crescentes de valina digestível de 6,15 até 8,05 g/kg na ração constatou aumento linear sobre o consumo de ração de galinhas poedeiras, sem qualquer efeito sobre a eficiência de utilização da lisina. Enquanto a deficiência de valina reduz significativamente o consumo de ração, principalmente em dietas formuladas com níveis abaixo de 7,3 g/kg de valina digestível (WEN et al., 2019a). Macelline et al. (2021) concluíram que o nível de valina está diretamente correlacionado ao consumo de ração.
Lesson & Summers (2005) estudando níveis de valina para poedeiras no período de 32 a 45 semanas de idade recomendaram relação valina: lisina total de 89%. Utilizando como parâmetro a massa de ovos, Breghendahl et al. (2008) determinaram aporte diário de valina digestível necessário igual de 501 mg/ave/dia e relação valina: lisina digestível de 93%. De acordo com Almeida (2013), a produção de ovos em galinhas poedeiras leves pode ser maximizada através da relação valina: lisina digestível estimada em 97,6% a partir de uma função quadrática. O requerimento ótimo de valina estimado pelo modelo linear broken line para a máxima produção de ovos foi de 591 mg por ave por dia em dieta vegetal para poedeiras leves (WEN et al., 2019a). Esses últimos autores concluíram que poedeiras leves no período de 41 a 60 semanas de idade apresentam requerimento de 12,2; 14,5; 13,6 e 14,0 mg de valina por dia para produzir 1 g de massa de ovos, usando modelos linear broken line, quadrático broken line, quadrático polinomial e exponencial, respectivamente.
Rostagno et al. (2017) recomendam relações isoleucina e valina com a lisina digestível para poedeiras iguais a 78 e 93% e ingestão diária para galinhas leves de 648 e 773 mg por ave, respectivamente. Enquanto, Oliveira (2018) através do modelo linear response platô estimou níveis ótimos de isoleucina e valina iguais a 376 e 679 mg/dia/ave, respectivamente para poedeiras brancas e ao aplicar o modelo polinomial quadrático, os níveis ótimos estimados para isoleucina e valina foram mais elevados e iguais a 633 e 931 mg/ave/dia. Marcillene et al. (2021) estimaram  valores médios de exigência em isoleucina e valina digestíveis iguais a 648 e 532 mg/ave/dia, respectivamente, para galinhas poedeiras.
 
Considerações finais
A disponibilidade não apenas de L-arginina e L-valina, mas também de L-isoleucina oferece nova oportunidade para formular dietas de forma mais eficiente e precisa para aves poedeiras, permitindo à ave expressar seu máximo potencial produtivo ao longo da vida produtiva. 
A redução do nível de proteína bruta da ração para poedeiras pode ser aplicada de forma segura, sem comprometer o desempenho produtivo, através da suplementação mais abrangente e equilibrada dos aminoácidos industriais. É possível reduzir o nível de proteína bruta em até dois pontos percentuais, a partir da suplementação de valina, isoleucina, além da metionina, lisina, treonina e triptofano na ração de galinhas poedeiras no período de postura, desde que os requerimentos nos aminoácidos essenciais sejam devidamente atendidos. As relações entre a valina, isoleucina e arginina com a lisina digestível para galinhas poedeiras na fase de produção recomendadas são: 93, 78 e 100%
A máxima produção de ovos é obtida por volta das 35 a 48 semanas de idade. Após, a produção de ovos diminui gradualmente com o aumento no peso do ovo e menor qualidade da casca é observada. Portanto, são necessárias ferramentas nutricionais para a mantença da persistência de produção e qualidade de ovos após o pico de postura. Ademais, observa-se na literatura estudos direcionados até o final do pico de produção, assim é preciso ainda determinar as relações ideais entre os aminoácidos e a lisina para garantir maior persistência de postura e melhor qualidade de ovos em idades mais avançadas, uma vez que os requerimentos em aminoácidos para persistência de postura podem ser superiores àqueles recomendados para a produção de ovos padrão, e o desafio consiste justamente em fornecer dietas com elevada densidade em aminoácidos para galinhas mais velhas, visto que o envelhecimento reduz a eficiência da função hepática.

Referências bibliográficas

 
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