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Farinha Vísceras Alimentação Aves

Farinha de Vísceras na Alimentação de Aves

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RESUMO 

Com o crescimento da avicultura nacional, a quantidade de resíduos produzidos aumenta concomitantemente, tornando-se um problema para os produtores. Pesquisas vêm sendo desenvolvidas para o aproveitamento desses resíduos na alimentação animal na forma de farinhas. A farinha, de vísceras é fonte protéica, energética e de alguns minerais. Alguns fatores devem ser observados, como, a possível contaminação da carcaça dos animais que se alimentam de produtos de origem animal. Essa preocupação é muito maior hoje devido à ocorrência da doença da vaca louca na Europa há poucos anos. Além disso, a possibilidade de seu uso nas dietas das aves é um dos fatores que levam a maiores quantidades de estudos com esses produtos, devido principalmente ao seu alto teor protéico. As  farinhas de origem animal produzidas com  vísceras muitas vezes possuem  irregularidade na composição química, gerando problemas nutricionais e até mesmo ambientais. Portanto, a inclusão nas dietas desse ingrediente alternativo proporciona redução no custo da ração, mas deve-se o produto deve ser de origem idônea (armazenamento e processamento dessas farinhas). A utilização desses subprodutos podem acarretar redução no um custo de produção, no entanto devem ser tomados alguns cuidados, principalmente na qualidade nutricional, o que mesmo assim não as deixam fora de diversas críticas internacionais quanto ao seu uso na alimentação animal.

Palavras-Chave: composição, custo de produção, resíduos de aves

 

INTRODUÇÃO

A avicultura brasileira vem se desenvolvendo amplamente em todos os setores de produção, seja frangos de corte ou aves de postura e até mesmo as codornas que estão a cada dia sendo mais estudados devidos os grandes números de informações que ainda é necessário para o engrandecimento da atividade. Na avicultura de corte as exportações mundiais de carne de frango no Brasil, segundo estimativas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, teve no ano de 2007 um crescimento de 750 mil toneladas em relação ao ano de 2006. Com isso o Brasil continua a ocupar o primeiro lugar no ranking mundial, atingindo o volume de 2,9 milhões de toneladas. Já na avicultura de postura, nos últimos 25 anos o alojamento médio mensal de poedeiras brancas cresceu 51% e 71% das poedeiras marrons segundo dados da União Brasileira de Avicultura.

Em virtude do grande crescimento da cadeia produtiva, os produtores e pesquisadores desses setores buscam diversas técnicas para redução de custos e o aumento relativo dos lucros. Todas essas intervenções estão relacionadas aos alimentos utilizados na fabricação das rações, pois na criação de aves comerciais, a alimentação representa cerca de 70% do custo de produção (Araujo, 2005).

A substituição de alimentos protéicos, como o farelo de soja, por alimentos de origem animal vem trazendo, nos últimos anos, uma grande discussão entre produtores e consumidores de carne de frangos. As Empresas realizam essa substituição para redução de custos com o farelo de soja, contudo, após surtos da doença da vaca louca (Encefalopatia Espongiforme Bovina) na Europa, a União Européia iniciou a utilização de medidas de proteção que baniu o uso de alimentos de origem animal na fabricação de rações, exigindo que os alimentos fossem exclusivamente vegetais. Além disto, o mercado do Oriente Médio exige um frango produzido sobre normas religiosas especificas que também proíbem o uso de farinha de animais nas rações dos frangos.

Portanto a utilização de alimentos de origem animal é muito discutida e questionada em alguns países. Com base nesses aspectos é que essa revisão teve o objetivo de explanar alguns aspectos relacionados à utilização de alimentos de origem animal para aves, em especial farinha de vísceras.

DEFINIÇÃO E COMPOSIÇÃO DA FARINHA DE VÍSCERAS

A indústria de rações atualmente demanda grande volume de ingredientes alternativos, ao milho e farelo de soja, já que esses últimos sofrem grande variação de preços por serem commodities. As rações são formuladas em base aos ingredientes milho e farelo de soja, considerando as fontes energéticas e protéicas, respectivamente. Os ingredientes alternativos só devem ser utilizados nas rações, quando se conhece sua verdadeira composição química, os fatores antinutricionais, o preço e resultados no desempenho dos animais.

As variações encontradas na composição dos diversos produtos de origem animal dificultam sua utilização na fabricação de rações para aves. A falta de padrões no processamento é uma das principais responsáveis pela inconsistência da composição química dos subprodutos dos animais (Campestrini 2005).  As farinhas de origem animal (FAO) também são ricas em lipídios e, portanto possuem maior facilidade em se autoxidarem, pelo início da formação de radicais livres. Fatores como temperatura, enzimas, luz e íons metálicos podem influenciar a formação de radicais livres, podendo essas reações serem vistas em Adams (1999). Em termos práticos é importante impedir o inicio da formação de radicais livres, que poderá ser feito pelo processamento adequado na produção e com cuidados no armazenamento. Substancias antioxidantes naturais (vit. E, pigmentos xantofilicos, Se) e sintéticas (BHT, BHA, Etoxiquim), podem ser incorporadas para diminuir a OXIDAÇÃO dos ácidos graxos das farinhas.

 

A farinha de vísceras é obtida da cocção de vísceras de aves, sendo permitida a inclusão de cabeças e pés. Não deve conter penas, resíduos de incubatórios e outras matérias estranhas na sua composição, nem mesmo, devem apresentar contaminação com casca de ovo. A farinha de vísceras, por ser resultante do processamento de resíduos e possuir gordura em sua composição, pode deteriorar-se com facilidade, tornando-se importante a realização de análises laboratoriais de acidez e índice de peróxido para avaliar a conservação. Também é necessário análise de digestibilidade  para  avaliação da qualidade do processamento da farinha. A presença de muito sangue fará com que a mesma apresente digestibilidade elevada, mas não indica que a farinha está bem processada (Polinutri, 2007).

A farinha de vísceras é rica em proteína e aminoácidos totais, contudo os níveis de aminoácidos digestíveis se aproximam dos valores encontrados no farelo de soja. (Rostagno et al., 2005). Portanto recomenda-se que quando for introduzir farinhas de vísceras nas rações de aves, deve levar em consideração os níveis de aminoácidos digestíveis e não os totais, para que não cause nenhum tipo de deficiência aminoacídica e assim afete o desempenho das aves.

Bellaver et al (2001) avaliando a substituição parcial do farelo de soja pela farinha de vísceras de aves em dietas balanceadas com base na proteína e em aminoácidos totais ou digestíveis para frangos de corte, e nas análises químicas dos alimentos, verificaram grande diferença entre eles, conforme tabela 1.

Tabela 1. Composição nutricional dos ingredientes fornecedores de proteína usados na formulação das rações experimentais1.

 

Rostagno et al. (2005) (tabela 2), verificou , que o nível protéico da farinha de víscera é maior em relação  ao farelo de soja,  mas os níveis de aminoácidos digestíveis desses ingredientes são equivalentes.

Tabela 2. Composição química da farinha de vísceras de aves de acordo com as Tabelas Brasileiras de Exigências Nutricionais para Aves e Suínos (2005).

Os alimentos de origem animal são utilizados como fonte alternativa de proteína nas rações e, para serem utilizados devem conter também boa digestibilidade. De acordo com a tabela 3, a farinha de vísceras de aves é mais protéica que o farelo de soja em 20,3%, mas a digestibilidade verdadeira de lisina, metionina e treonina é semelhante, que indica uma menor digestibilidade protéica da farinha de vísceras em relação ao farelo de soja.

Tabela 3. Valores de digestibilidade verdadeira de aminoácidos de alguns nutrientes de origem animal e vegetal. (Fonte: Tortuga, 2007)

 

Segundo Anfar (1985), a farinha de vísceras de aves deve conter no mínimo 65% de proteína bruta (PB) e no máximo 1% de fibra bruta (FB) e 7% de matéria mineral (MM), podendo o teor de extrato etéreo (EE) variar de 8 a 12%.  Nunes et al (2005) recomenda valores semelhantes ?? aos de  Anfar (1985) para EE e PB.. Resultados  semelhantes foram encontrados por Nascimento (2002), em trabalhos com farinhas mistas de vísceras de aves e de suínos, obteve valores médios de PB, EE e MM de 53,49; 13,55 e 18,77%, respectivamente. Os valores de cálcio Ca (9,62%) e fósforo P (4,02%) encontrados por Nunes et al (2005) foram superiores aos descritos por Lesson & Summers (2001), Rostagno et al. (2000), NRC (1994) e Embrapa (1991), assim como o teor de sódio, que também foi superior ao recomendado por Rostagno et al (2000). Segundo Nunes et al (2005) o fato de a farinha de vísceras  apresentar alto conteúdo de matéria mineral, de cálcio e de fósforo  contribui para o seu baixo conteúdo de energia bruta, uma vez que esse alimento possui elevado teor de extrato etéreo.

A QUALIDADE DOS SUBPRODUTOS DE ORIGEM ANIMAL

Deve-se incentivar a melhoria da qualidade dos subprodutos de origem animal e devem ser considerados ingredientes e não commodities, cujo comércio dispensa  cuidados com a qualidade nutricional e principalmente, sanitária.  Governos e indústrias devem estar atentos a isso, pois esses ingredientes são de grande importância no cenário nacional, embora sejam amplamente discutidos e até proibidos na Europa.  (Campestrini., 2005)

De acordo com o regulamento do Parlamento Europeu e do Conselho da União Européia, é proibido a alimentação de uma espécie animal com proteínas animais 

transformadas, derivadas dos corpos, ou partes de corpos, de animais de mesma espécie. Com o intuito de desenvolver a técnica de isótopos estáveis para fins de rastreabilidade e certificação do padrão dietético, trabalhos vêm sendo desenvolvido para rastrear a inclusão de farinha de vísceras na dieta de aves.

Oliveira et al (2007) avaliaram a técnica dos isótopos estáveis na dieta de frangos de corte para verificar qual o menor nível que seja perceptível pela técnica, de modo a tornar  a rastreabilidade da carne de frangos mais efetiva e conclusiva, e de acordo com as normas européias. Os autores avaliaram a inclusão de farinha de vísceras (2, 4, 8 e 16%) e dieta controle, sem inclusão de farinha de vísceras.

Figura 1. Elipses com 95% de confiança para as médias dos pares isotópicos de tíbias de frangos de corte aos 42 dias de idade.

Para que um tratamento seja considerado diferente do grupo controle é necessário que sua elipse de confiança não sobreponha nenhum dos eixos (médias do grupo controle) no gráfico (Figura 1). Dessa forma, é provável que o limite mínimo detectável de inclusão de farinha de vísceras na dieta de frangos de corte, por essa técnica, esteja logo acima de 2% (quilha e tíbia).

Os autores concluíram que a variação natural dos isótopos estáveis de carbono e nitrogênio apresenta-se como uma alternativa em potencial para a detecção da inclusão

de farinha de vísceras na dieta de frangos de corte, uma vez que a técnica é capaz de rastrear níveis abaixo daqueles normalmente utilizados pela indústria de rações de aves.

Em análises para detecção de Salmonella feita no Rio Grande do Sul realizada em uma empresa produtora de farinha de vísceras, foi feita pela técnica analítica convencional  sendo seguidas de provas bioquímicas e sorológicas. Foram coletadas 30 amostras em cada ponto do processo, totalizando 150 amostras. No início do processo (ponto A), 21 (70%) amostras mostraram-se positivas, no ponto B (saída do digestor) e no ponto C (saída da prensa), nenhuma amostra foi positiva. Já no ponto D (esteira), 2 (6,7%) amostras mostram-se positivas e no ponto E (silo de armazenamento), 5 (16,7%) amostras mostraram-se positivas. Esses resultados permitem concluir que o tratamento térmico empregado no processamento industrial foi capaz de eliminar a Salmonella das vísceras das aves, mas a farinha pode se re-contaminar durante a fase de resfriamento e armazenagem.

Especialmente no caso das farinhas de origem animal, as provas sensoriais devem se concentrar na cor, odor, aspecto do tamanho das partículas, umidade e gordura ao tato. Também é importante avaliar empedramento, presença de matérias estranhas e embalagem de recebimento. Análises rápidas nas farinhas de origem animal podem ser feita através de medidas de tamanho das partículas com auxilio do granulômetro,  valores de composição bromatológica por estimativas através do instrumento NIR, determinação rápida da gordura, de minerais, da densidade e da microscopia do ingrediente. Já as análises de laboratório, devem se concentrar  nos seguintes itens: umidade, densidade, energia bruta, proteína (N x 6,25), gordura, cinzas, cálcio e fósforo, aminoácidos, solubilidade em pepsina 0,0002%, índices de peróxido e acidez (rancidez), putrefação e bacteriológico para Salmonela. (Bellaver., 2002).

SOLUBILIDADE PROTÉICA

A solubilidade da proteína avalia o grau de processamento dos alimentos, onde possibilita verificar a manutenção da qualidade após tratamentos térmicos, geralmente. Essa técnica é amplamente utilizada em alimentos utilizados como fontes de proteína. A

faixa de variação da solubilidade protéica da soja de 73 a 85% parece ser consistente com o processamento ideal. Valores abaixo de 70% indicam superaquecimento e acima de 85% relacionam-se à soja subprocessada. (Mendes et al., 2004).

A restrição imposta às fontes protéicas de origem animal na nutrição animal pelo mercado internacional e, em menor grau, pelo mercado interno, gerou uma demanda extra de farelo de soja. O grão de soja, por ser um vegetal com elevados teores de proteína e energia, constitui boa alternativa de alimento protéico, apresentando 17 a 18% de óleo e 35 a 37% de proteína bruta de elevado valor biológico, com composição em aminoácidos essenciais favorável à alimentação de aves e suínos, mas deficiente em metionina e treonina (Bellaver et al., 2002).

Muitos laboratórios que executam o método de determinação da solubilidade protéica em pepsina baseiam-se na recomendação da Association of Official Analytical Chemists (AOAC, 1995), a qual indica que o teste deve ser feito com solução de pepsina a 0,2% e uma atividade de 1:10000.

Segundo Bellaver et al (2000) existem diferenças em solubilidade da proteína bruta (PB)(N x 6,25), quando digeridas em pepsina nas concentrações de 0,2; 0,02; 0,002 ou 0,0002%. Segundo Bellaver et al (2004) isso ocorre porque, à medida que diminui a concentração da pepsina, há menor solubilidade do nitrogênio total. Entretanto, o intervalo entre o menor e o maior valor de um conjunto de amostras aumenta à medida que diminui a concentração de pepsina. Dessa forma os autores ressaltaram que, embora ocorra diminuição de nitrogênio solúvel com menor concentração de pepsina, há maior possibilidade de identificar farinhas de origem animal de boa e má qualidade. Após estudo realizado por Bellaver et al (2004), os autores concluíram que os 55% ou mais de solubilidade protéica de farinhas de subprodutos do abate de aves, com pepsina na concentração de 0,0002%, é indicativo de farinhas de subprodutos de aves de boa qualidade nutricional. Os autores sugerem que outros valores para outros ingredientes de origem animal devem ser calculados.

Em uma avaliação feita por Parsons et al (1991)  da digestibilidade de farinha de penas, farinha de carne e farinha de vísceras em função da concentração da pepsina, verificaram que houve diferença na correlação da digestibilidade em função da concentração da pepsina, conforme Tabela 4.

Tabela 4. Avaliação da digestibilidade de alimentos de origem animal em concentrações de pepsina diferentes.

Avaliando aminoácidos digestíveis verdadeiros de alimentos protéicos determinados em galos cecectomizados, Brumano et al (2006) verificaram que os valores médios dos coeficientes de digestibilidade verdadeira dos aminoácidos essenciais e não-essenciais, em porcentagem, foram, respectivamente: 83,32 e 87,20 para o farelo de glúten de milho 22%; 92,90 e 94,86 para o farelo de glúten de milho 60%; 91,10 e 90,19 para o concentrado protéico de soja; 88,90 e 88,91 para a soja integral extrusada parcialmente desengordurada; 88,63 e 85,94 para a farinha de carne e ossos 36%; 87,80 e 85,00 para a farinha de carne e ossos 45%; 89,39 e 87,32 para a farinha de peixe; 85,89 e 82,32 para a farinha de penas; 87,22 e 87,78 para o plasma sangüíneo 70%; 90,42 e 91,40 para o plasma sangüíneo 78%;  95,25 e 94,31 para as hemácias; e 79,22 e 74,36 para a farinha de vísceras de aves com alto teor de gordura.

Os resultados encontrados por Brumano et al (2006)  indicam  que os coeficientes de digestibilidade de ingredientes  de origem animal não variam  muito em relação aos    ingredientes de origem vegetal. Entretanto, entre os ingredientes de origem animal a farinha de vísceras é a que possui os menores índices de digestibilidade, possivelmente devido ao alto teor de gordura presente, em que se formam sabões insolúveis, que indisponibiliza alguns nutrientes.

UTILIZAÇÃO DE ALIMENTOS DE ORIGEM ANIMAL

Os alimentos alternativos, sobretudo os de origem animal, têm grande variação na sua composição química, em função da matéria-prima utilizada e do processamento empregado, e, associados ao uso de dados errados de disponibilidade de aminoácidos, acarretam em prejuízos no desempenho das aves (Rostagno et al., 1995). Essas diferenças foram verificadas por Nascimento et al. (2002), que encontraram grande variação na digestibilidade verdadeira de lisina (64,05 a 90,53%) e de metionina (73,35 a 92,56%) em um estudo com sete tipos de farinhas de vísceras.

Essas variações na composição química podem ser, em parte, explicadas pela forma de processamento empregada, pelo tipo e pela proporção dos materiais utilizados (Penz Jr. et al., 1999). Os autores também comentaram que a idade das aves é um dos fatores que pode interferir nos resultados das avaliações de energia dos alimentos, principalmente de origem animal, pois segundo Murakami et al. (2007) aves mais jovens tem uma menor eficiência na digestão e absorção de nutrientes.

A farinha de sangue bovino é um alimento com alto teor de proteína bruta, porém é menos digestível e de qualidade inferior à farinha de carne e ossos. (Leeson & Summers et al., 1997). A farinha de sangue quando bem processada, possui teores elevados de lisina que a tornam um alimento bastante útil, mas é pobre em isoleucina (Cancherini et al., 2005). Já as farinhas de vísceras e de sangue bovino podem ser utilizadas na ração de frangos de corte, independente se as dietas forem baseadas em proteína bruta ou ideal, mas deve-se considerar que a adição de farinha de sangue bovino promove aumento do teor de gordura na carcaça, sendo assim  a farinha de vísceras a mais preconizada. (Cancherini et al., 2005).

O valor nutritivo do alimento está diretamente relacionado com sua composição química e energética que são importantes no balanceamento das rações. Segundo Nascimento et al (2005) o valor de energia metabolizável (EM) é o que melhor representa a quantidade de energia dos alimentos disponível para aves. Existem vários métodos para determinar os valores de EM, entre eles, o de coleta total de excretas com pintos de corte, que, apesar de mais utilizado, apresenta alguns equívocos, como a interferência da idade das aves nos valores de energia (Brumano et al., 2006). As aves

mais jovens possuem menor capacidade de digestão e absorção dos nutrientes (Murakami et al 2007), visto que o sistema digestivo encontra-se ainda em desenvolvimento, enquanto as mais velhas, com sistema digestivo plenamente desenvolvido, possuem maior tamanho do trato digestivo e maior produção de enzimas e secreções digestivas, portanto  há um melhor aproveitamento dos alimentos (Brumano et al., 2006).  Entretanto Santos et al (2006) avaliando composição química e valores energéticos de fontes protéicas em codornas de corte em diferentes idades, não verificaram influência da idade das aves sobre os valores de energia metabolizável aparente, mas sim, a influência de  valores de energia metabolizável aparente corrigida pelo balanço de nitrogênio em função da idade, possivelmente devido ao decréscimo da retenção de nitrogênio com o passar da idade das codornas. Essa alteração em função da idade, afeta alguns aspectos de desempenho das aves, embora esses dados sejam semelhantes entre frangos de corte e codornas de corte, o alimento de origem animal pode ter ser o grande diferencial já que sua composição é bastante divergente.

Trabalhando na avaliação de composição química e energética de oito alimentos (milho grão, milho pré-cozido I e II, farelo de canola, plasma sanguíneo, farinha de vísceras, glicose e amido de milho) para aves, D'Agostini et al (2004) verificaram que os valores médios de EMA (Energia Metabolizável Aparente) e EMAn (Energia Metabolizável Aparente corrigida pelo balanço de Nitrogênio), em kcal/kg, com base na matéria natural foram, respectivamente: 3.246 e 3.235 para o milho grão; 3.385 e 3.379 para o milho pré-cozido I; 3.187 e 3.179 para o milho pré-cozido II; 1.793 e 1.778 para o farelo de canola; 3.503e 3.474 para o plasma sangüíneo; 4.293 e 4.268 para a farinha de vísceras; 3.170 e 3.168 para a glicose; e 3.203 e 3201 para o amido de milho. Esses resultados  mostram que há uma similaridade nos valores de EMA e EMAn entre os alimentos estudados, exceto o farelo de canola, que teve valores mais reduzidos. A farinha de vísceras estudada nesse trabalho de D'Agostini et al (2004) teve um valor alto de energia quando comparado com o milho pré-cozido II, mas similar em relação aos outros alimentos avaliados. Esses valores de energia da farinha de vísceras poderiam ser bem utilizados na fabricação de rações tanto para melhorar os níveis protéicos quanto energéticos. Contudo alguns autores relatam que alguns aminoácidos podem ser pouco disponíveis nessas farinhas, o que representaria um aumento nos níveis de adição de aminoácidos sintéticos nas rações.

Trabalhando na substituição parcial do farelo de soja pela farinha de vísceras de aves em dietas balanceadas com base na proteína e em aminoácidos totais ou digestíveis para frangos de corte, Bellaver et al (2001) verificaram que a substituição do farelo de soja pela farinha de vísceras, na concentração de 20 % na fase inicial e 25% na fase de crescimento dos frangos, melhora o desempenho até os 21 dias e não altera o desempenho até os 42 dias,  em dietas formuladas dentro do conceito de proteína ideal. Já a substituição de 40 e 50% de farelo de soja por farinha de vísceras piora o crescimento das aves. Os autores observaram que não houve diferenças no que concerne à deposição de gordura na carcaça, contudo um houve pequeno aumento quando a substituição do farelo de soja pela farinha de vísceras foi de 20 e 25%.

Resultados de estudos avaliando a utilização de farinha de vísceras na alimentação de aves vêm atualmente crescendo muito em decorrência do aumento do preço do farelo de soja e da proibição de utilização de alimentos de origem animal para as aves. Essa proibição estimula os pesquisadores a estudarem cada vez mais essa fonte protéica e analisar se é realmente necessária a proibição do uso e quais os procedimentos e métodos para se fornecer esse ingrediente, subproduto de abatedouros, com segurança e qualidade na formulação de ração comercial para aves.

CONCLUSÕES

O futuro do mercado avícola é dependente da confiança dos consumidores e da competência dos produtores e indústrias aliadas do setor de carnes, atenderem a demanda de carne avícola.  As farinhas disponibilizadas no mercado devem ser de qualidade para serem utilizadas nas rações, contudo é difícil ter- se um  produto de qualidade certificada sem incentivo governamental.

Embora seja amplamente utilizado como fonte protéica nas rações de aves, o grande dilema da utilização dos produtos de origem animal é a sua variação da composição química, que dificulta sua utilização efetiva.  Entretanto esse empecilho pode ser resolvido, quando indústrias e abatedouros se preocupem mais com a manipulação e fabricação desses produtos. Portanto a manutenção da qualidade da

farinha de vísceras tornar-se-á outra forma de renda e possibilitará uma redução do custo na fabricação das rações de aves, já que tornará possível a substituição até que total do farelo de soja como fonte protéica das rações de aves

Portando a utilização de farinhas de vísceras na ração de aves proporciona uma influência benéfica nos aspectos econômico, ambiental e nutricional. Seu uso na formulação das dietas é mais facilitado por conterem aminoácidos, energia, cálcio e fósforo em quantidades satisfatórias.

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Autor/s.
Bahia, Brasil
Professor na Federal do Sul da Bahia
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Re: Farinha de Vísceras na Alimentação de Aves
18/07/2014 | Apesar das diversas informações referentes á viabilidade do uso de farinhas de origem animal na alimentação dos mesmos, por qual motivos algumas empresas fazem venda destes produtos sem nenhuma conferência e autorização de especialistas do ramo?
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